quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Antibióticos ganham reforço de luz e corantes contra superbactérias hospitalares

Uma pesquisa desenvolvida por cientistas do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP e da Universidade do Texas A&M (EUA) propõe uma alternativa para combater uma superbactéria hospitalar. O estudo mostrou que a combinação de terapia fotodinâmica — que usa luz e corantes especiais — com antibióticos tradicionais potencializa o efeito e pode reduzir a necessidade de doses elevadas dos medicamentos.

A pesquisa teve como alvo a Klebsiella pneumoniae, bactéria comum em infecções hospitalares graves, especialmente em pacientes com pneumonia associada à ventilação mecânica. Altamente resistente a diversos antibióticos, essa bactéria é uma das principais causas de mortes por infecção hospitalar em todo o mundo.

Koteswara Rao Yerra e Vanderlei Salvador Bagnato, autores do estudo, testaram o uso de dois corantes — azul de metileno e fotoditazina — ativados por luz vermelha de LED. Essa técnica, chamada terapia fotodinâmica antimicrobiana, gera moléculas reativas de oxigênio que danificam as células bacterianas. O trabalhou analisou as substâncias isoladamente e em combinação com os antibióticos ciprofloxacina, gentamicina e ceftriaxona. No entanto, o tratamento combinado inibiu o crescimento bacteriano em maior extensão do que os componentes individuais, permitindo o uso de concentrações reduzidas de antibióticos e doses menores dos fotossensibilizadores.

De acordo com o estudo, a associação da luz com o azul de metileno foi a mais eficaz, resultando em uma redução de até seis vezes na carga bacteriana em comparação ao uso isolado dos medicamentos. Da mesma forma, o azul de metileno demonstrou potente sinergia com todos os antibióticos testados, alcançando uma redução logarítmica significativa na contagem bacteriana e chegando à completa erradicação da K. pneumoniae após 18 horas quando combinado com a ciprofloxacina.

“A luz age como uma espécie de ‘abridor de caminho’, tornando as bactérias mais vulneráveis aos antibióticos”, explicam os cientistas. “Nosso estudo indica que o pré-tratamento de bactérias com a terapia fotodinâmica as torna mais suscetíveis a antibióticos e pode servir como uma alternativa para o tratamento de infecções localizadas causadas por bactérias resistentes”, informam no artigo.

Além de aumentar a eficiência dos tratamentos, a técnica pode diminuir a dose necessária de antibióticos, o que reduziria efeitos colaterais e ajudaria a conter o avanço da resistência bacteriana — classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das principais ameaças globais à saúde pública e ao desenvolvimento.

<><> Superbactérias hospitalares

As chamadas superbactérias são microrganismos que desenvolveram resistência a vários tipos de antibióticos, tornando o tratamento de infecções muito mais difícil. Essa resistência surge, em grande parte, pelo uso incorreto ou excessivo de antibióticos — como quando são tomados sem prescrição médica, interrompidos antes do tempo indicado ou usados para tratar doenças virais, como gripes e resfriados.

Nos hospitais, o problema pode se agravar em pacientes já debilitados e que precisam de procedimentos invasivos, como cateteres, sondas e ventilação mecânica, servindo como porta de entrada para esses microrganismos. Ambientes hospitalares com limpeza inadequada e falhas no controle de infecções também favorecem a disseminação das superbactérias.

A prevenção é a principal forma de combate às superbactérias. Isso inclui medidas simples e eficazes, como:

•        Higienizar as mãos regularmente com água e sabão ou álcool em gel;

•        Usar antibióticos apenas com prescrição médica e seguir corretamente o tempo e a dose indicados;

•        Evitar o uso desnecessário de antibióticos para infecções leves ou virais;

•        Garantir boas práticas de limpeza e desinfecção em hospitais e clínicas;

•        Isolar pacientes infectados, quando necessário, para impedir a transmissão.

Os pesquisadores acreditam que a combinação entre luz e antibióticos poderá ser aplicada, futuramente, em infecções localizadas, como feridas, úlceras e infecções respiratórias. Por já empregar substâncias e equipamentos usados em ambiente clínico, a proposta tem potencial para chegar rapidamente à prática médica.

“Trata-se de uma forma inteligente de reaproveitar tecnologias seguras e conhecidas para enfrentar um dos maiores desafios da saúde pública”, destaca Vanderlei Bagnato. O estudo, publicado na revista Antibiotics, reforça a importância da inovação no uso de terapias combinadas e aponta um caminho para tratamentos mais eficazes e menos dependentes de antibióticos potentes.

•        Superbactéria: o que é e relação com antibióticos

O nome “superbactéria” é dado popularmente às bactérias multirresistentes, ou seja, àquelas bactérias resistentes a diversos tipos de antibióticos. De modo geral, elas podem surgir a partir de diversos fatores, como uso indiscriminado de antibióticos, excesso de prescrição, práticas deficientes de saneamento e higiene, pouco controle de infecção em hospitais e clínicas e utilização na agropecuária.

<><> Antibióticos

Antibióticos são medicamentos usados para combater infecções em animais e humanos, destruindo as bactérias ou impedindo que elas se reproduzam. Existem vários tipos de antibióticos para tratar diferentes infecções bacterianas, como as dentárias, de ouvido, bexiga, rins e pele. Eles também podem ter diferentes formatos, como comprimidos, cápsulas, líquidos, cremes e pomadas.

No entanto, profissionais da saúde e ambientalistas apontam que o uso desses medicamentos está afetando o meio ambiente e a saúde humana, principalmente por sua utilização na agropecuária. Os antibióticos, uma vez no ambiente, causam resistência bacteriana e, com isso, aparecem as superbactérias.

Os antibióticos combatem as infecções matando as bactérias ou suspendendo sua reprodução. Para ter esse efeito, o medicamento ataca a parede da bactéria e interfere na sua reprodução e produção de proteínas. Logo após a ingestão do antibiótico, ele já começa a funcionar, mas a sensação de melhora acontece depois de alguns dias. Em geral, os antibióticos devem ser tomados por 7 a 14 dias — mas isso é definido de acordo com orientação médica. Vale ressaltar que, mesmo sentindo melhora no quadro, não se deve interromper o tratamento.

Quem faz uso do medicamento em excesso ou de forma inadequada, pode facilitar o surgimento de bactérias resistentes ao tratamento.

<><> Resistência bacteriana

A resistência bacteriana acontece quando bactérias sofrem alterações e deixam de responder aos antibióticos. Com o passar do tempo, infecções simples se tornam cada vez mais difíceis de serem combatidas, podendo levar a uma piora do quadro clínico e até ao óbito. Como dito anteriormente, uso indiscriminado de antibióticos, excesso de prescrição, práticas deficientes de saneamento e higiene, pouco controle de infecção em hospitais e clínicas e utilização desnecessária na agropecuária são as principais causas para que as bactérias resistentes se multipliquem.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2050, a resistência bacteriana poderá ser a principal causa de óbitos no mundo, resultando na morte de 10 milhões de pessoas.

<><> Contaminação ambiental

Na agropecuária, os antibióticos são utilizados para tratar doenças clínicas em animais, prevenir e controlar eventos de doenças comuns e aumentar o crescimento animal. Esse uso dos medicamentos gera impactos no meio ambiente, pois cerca de 70% a 90% de antibióticos são eliminados por meio da urina e das fezes dos animais. Como consequência, o solo e a água são contaminados, e acabam disseminando superbactérias.

Um estudo realizado na Tanzânia, por exemplo, observou a existência de micróbios por toda parte no país. Nos animais domésticos, 50% das bactérias eram superbactérias. Ainda que eles não tenham tido contato com antibióticos, estão expostos às superbactérias no ambiente.

Além da contaminação ambiental, os antibióticos usados na agropecuária acabam contaminando o organismo humano por meio da ingestão de produtos de origem animal, como a carne.

<><> Principais superbactérias

De acordo com estudos, as superbactérias são encontradas com mais frequência em hospitais. Entre as principais delas, estão:

•        Proteus sp.

•        Enterococcus faecium

•        Klebsiella pneumoniae

•        Neisseria gonorrhoeae

•        Staphylococcus aureus

•        Acinetobacter baumannii

•        Pseudomonas aeruginosa

Vale ressaltar que o tratamento contra uma superbactéria é mais complexo do que o normal.

<><> Como prevenir o aparecimento de superbactérias

A resistência bacteriana e o surgimento de superbactérias podem ser evitados por meio de atitudes simples:

•        Uso de antibióticos apenas sob recomendação médica;

•        O tempo e a dose do antibiótico devem ser propostos pelo médico e usado de acordo com a sua orientação;

•        Não cortar o tratamento com antibióticos mesmo que não existam mais sintomas de infecção.

Ademais, é fundamental que hospitais e clínicas façam um levantamento das bactérias mais comuns e estabeleçam o perfil de sensibilidade e resistência desses micro-organismos. Reduzir o consumo de produtos de origem animal e evitar práticas de monocultura e de criação intensiva também podem prevenir o aparecimento de superbactérias.

<><> Superfície de cobre

Cientistas desenvolveram uma superfície de cobre que mata bactérias 100 vezes mais rápido e com mais eficácia do que o cobre padrão, o que pode ajudar a combater a crescente ameaça das superbactérias resistentes a antibióticos.

A equipe acredita que pode haver uma grande variedade de aplicações para o material, como maçanetas antimicrobianas e superfícies de toque em escolas, hospitais, residências e transportes públicos.

 

Fonte: Por Rui Sintra – Jornal da USP/eCycle

 

 

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