Caso
Master: As perguntas que a CPMI do INSS quer fazer ao banqueiro Daniel Vorcaro
O escândalo do Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, deverá desembarcar
de vez no Congresso Nacional após o
Carnaval.
O
comando da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS aceitou o
pedido feito pela sua defesa na terça-feira (3/2) para adiar o seu depoimento,
previsto para a quinta-feira (5/2).
Se nada
mudar até lá, será a primeira vez que Vorcaro falará diante dos holofotes da
opinião pública. Até então, ele só havia prestado depoimento de forma
reservada à Polícia Federal e a portas fechadas, na sede do Supremo Tribunal Federal (STF), onde o
caso tramita.
Oficialmente,
Vorcaro foi convocado na condição de testemunha e não na de investigado. Dessa
forma, ele tem obrigação de comparecer ao depoimento sob pena de ser levado a
depor com o auxílio policial.
Procurada
pela BBC News Brasil sobre a ida de Vorcaro à CPMI do INSS, a assessoria de
imprensa do banqueiro disse que não comentaria o assunto.
De
acordo com o requerimento que aprovou a sua convocação, Vorcaro vai à CPMI
falar sobre a atuação do Banco Master no mercado de empréstimos consignados a
aposentados e pensionistas, objeto da investigação da comissão.
Mas
deputados e senadores ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que as perguntas a
serem feitas pelos parlamentares não deverão se restringir apenas a possíveis
irregularidades no empréstimo consignado.
Isso se
explica pelo fato de que, ao longo dos últimos meses, Vorcaro se tornou o pivô
de um escândalo financeiro com possíveis ramificações no mundo
empresarial, político e judiciário.
Vorcaro
era o controlador do Banco Master e do Will Bank, ambos liquidados pelo Banco Central
nos últimos meses por
problemas quanto à liquidez e suspeitas de violação das leis que regem o
sistema financeiro no Brasil.
A
liquidação gerou um rombo de aproximadamente R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor
de Crédito (FGC), que permite o reembolso de parte dos clientes que investiram
nas duas instituições.
Vorcaro
também é suspeito de ter sido um dos responsáveis por transações fraudulentas
envolvendo a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito para o Banco de
Brasília (BRB), vinculado ao governo do Distrito Federal. Sua defesa, no
entanto, alega inocência.
Ao
longo dos últimos meses, reportagens apontaram que Vorcaro mantinha ligações
próximas com políticos tanto da oposição como o senador Ciro Nogueira (PP-PI),
quanto com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, ligado ao PT, além do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB).
Reportagens
também revelaram que Vorcaro firmou contratos com familiares de ministros e
ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), levantando suspeitas sobre a
influência que o banqueiro teria sobre a cúpula do Judiciário brasileiro.
Parlamentares
ouvidos pela BBC News Brasil apontaram quais deverão ser os principais tópicos
durante o depoimento de Vorcaro à CPMI do INSS.
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Conexões com o Judiciário
Para o
vice-presidente da CPMI do INSS, deputado federal Duarte Jr (PSB-MA), um dos
principais temas a serem questionados a Vorcaro será a sua suposta ligação com
ministros e ex-ministros do STF.
"Ele
vai ter que explicar qual o nível de vínculo que ele tinha ou ainda tem com os
ministros do Supremo", diz o parlamentar.
Os
primeiros indícios da proximidade de Vorcaro com magistrados do STF surgiram no
final do ano passado quando a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo,
publicou uma reportagem informando que o Banco Master havia contratado por R$
129 milhões o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do
ministro Alexandre de Moraes.
Poucos
dias depois, o jornal publicou que Moraes teria conversado com o presidente do
Banco Central, Gabriel Galípolo, por quatro vezes fazendo "pressão"
em favor do Master antes de o banco ser liquidado.
Em nota
divulgada sobre o assunto, a assessoria do STF afirmou que Moraes teve duas
reuniões com o presidente do BC para tratar dos efeitos da Lei Magnitsky —
"a primeira no dia 14/08, após a primeira aplicação da lei, em 30/07; e a
segunda no dia 30/09, após a referida lei ter sido aplicada em sua esposa, no
dia 22/09. Em nenhuma das reuniões foi tratado qualquer assunto ou realizada
qualquer pressão referente a aquisição do Master pelo BRB".
A nota
também dizia que o escritório de Viviane Barci de Moraes não atuou na tentativa
de o BRB comprar o Master, transação que não se concretizou e que levou à
abertura de uma investigação criminal sobre o assunto.
Os
parlamentares também querem questionar Vorcaro sobre sua possível ligação com
o ministro Dias Toffoli, que é o relator da
investigação no Supremo.
Toffoli
assumiu a relatoria do caso em dezembro do ano passado, já depois da liquidação
do Master. Desde então, sua atuação no caso vem gerando polêmica.
Sua
primeira medida foi atender a um recurso dos advogados de Daniel Vorcaro
pedindo que as investigações da Operação Compliance Zero fossem remetidas para
o Supremo, após a PF ter identificado indícios de transações comerciais entre
Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA).
Logo
depois, Toffoli impôs sigilo sobre a tramitação do caso.
As
polêmicas se ampliaram no dia 7 de dezembro, depois que o jornal O Globo
revelou que o ministro viajou em um jatinho privado para Lima, no Peru, com o
advogado Augusto de Arruda Botelho, que defende o executivo do Banco Master
Luiz Antônio Bull. À época, Bull já havia sido alvo da Operação Compliance
Zero, que investiga o Banco Master.
Uma
semana depois, Toffoli deu mais uma decisão favorável à defesa de Vorcaro e
determinou que os dados das quebras de sigilo bancário e fiscal de Vorcaro,
determinadas pela CPMI do INSS fossem retirados da comissão e encaminhados para
a Presidência do Senado.
Toffoli
também determinou a acareação entre executivos do Banco Master e o diretor de
fiscalização do Banco Central, Aílton de Aquino Santos, o que causou surpresa
junto à cúpula do BC.
No
início de janeiro a pressão sobre a condução de Toffoli sobre o caso aumentou
depois que veículos como o jornal Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e
Metrópoles revelaram que irmãos de Toffoli teriam vendido ações de um resort no
interior do Paraná em uma transação milionária com um fundo de investimento
ligado à gestora Reag, que mantinha vínculos com o Banco Master.
Uma
reportagem do portal Metrópoles apontou que, desde dezembro de 2022, Toffoli
passou 168 dias no resort.
Desde
que os vínculos da família Toffoli com o resort Tayayá foram revelados, o
ministro não se manifestou publicamente sobre o assunto.
"Nós
vamos questionar sobre as relações dele com o ministro Toffoli, o contrato com
a esposa de Alexandre de Moraes e sobre o qual os ministros não falam nada. O
Brasil precisa entender o que está acontecendo", diz o senador Eduardo
Girão (PL-CE), que é membro da CPMI do INSS, à BBC News Brasil.
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Conexões com políticos
Outro
ponto que deve entrar no radar dos parlamentares é a relação de Vorcaro com
outros políticos. Em depoimento à PF, Vorcaro admitiu que recebia integrantes
de "todos os poderes" em sua mansão avaliada em R$ 34 milhões em
Brasília.
"Eu
tenho alguns amigos de todos os poderes. Não consigo nominar aqui
individualmente quem frequentava a minha casa", disse o banqueiro.
Em
Brasília, Vorcaro é apontado como próximo ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e ao
presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda.
Um dos
indícios da atuação de Nogueira em favor de Vorcaro no Congresso Nacional é uma
emenda parlamentar apresentada por ele que aumentava o limite de ressarcimento
do FGC de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ para R$ 1 milhão em caso de liquidação de
instituição financeira.
A
emenda tem sido apontada por analistas do mercado financeiro como favorável ao
Banco Master pois, segundo Vorcaro em seu depoimento, o modelo de expansão do
seu banco se baseava em captar recursos pela emissão de Certificados de
Depósito Bancário (CDBs) pagando taxas de retorno acima do mercado e oferecendo
o ressarcimento do FGC como garantia.
"O
plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de
errado nisso, essa era a regra do jogo", disse Vorcaro em depoimento.
Procurado
pela BBC News Brasil, Nogueira não respondeu ao contato.
Outro
político com o qual Vorcaro teria contato é o governador do Distrito Federal,
Ibaneis Rocha.
Em seu
depoimento à PF, o banqueiro afirmou ter conversado com Ibaneis sobre a
tentativa de venda do Master para o banco público BRB, do governo do Distrito
Federal.
"Já
foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele, e a gente
se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas na presença (...),
também", disse.
Ibaneis,
por sua vez, negou, ao portal UOL, ter conversado sobre a transação com
Vorcaro.
"Eu
nunca tratei com ele (Vorcaro) sobre a operação BRB-Master. Todas as tratativas
foram feitas pelo Paulo Henrique (Costa, então presidente do BRB)", disse
ao portal.
Veículos
de imprensa também revelaram que Vorcaro manteve reuniões com outros políticos,
inclusive com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo
o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Vorcaro teve um encontro fora da
agenda oficial com Lula em dezembro de 2024 intermediado pelo ex-ministro da
Fazenda Guido Mantega, que atuou como consultor do Banco Master.
No
depoimento dado por Vorcaro à Polícia Federal, o banqueiro negou que tivesse
contado com a influência de políticos em suas transações.
"Eu
queria só dizer o seguinte: se eu tenho tantas relações políticas, como estão
dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a
operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido
preso e estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo",
disse o empresário.
Outro
político com proximidade a Vorcaro é o ex-presidente Michel Temer (MDB).
Outras
possíveis relações políticas de Vorcaro são com o ex-presidente Jair Bolsonaro
(PL) e com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Isto
porque seu cunhado, Fabiano Zettel, que também foi alvo da Operação Compliance
Zero, foi o maior doador individual para as campanhas de Bolsonaro e Tarcísio
em 2022.
Cunhado
de Daniel Vorcaro, e um dos alvos da operação desta quarta-feira (14/1), foi o
maior doador pessoa física das campanhas de Tarcísio de Freitas
(Republicanos-SP) e Jair Bolsonaro (PL) em 2022.
Casado
com Natália Vorcaro Zettel, irmã do banqueiro, ele transferiu R$ 3 milhões para
a campanha presidencial de Bolsonaro e R$ 2 milhões para a do governador de São
Paulo.
As
conexões políticas de Vorcaro são o que motivou a deputada federal Coronel
Fernanda (PL-MT) a fazer um requerimento de informação junto à Agência Nacional
de Aviação Civil (Anac) sobre os voos de três jatinhos particulares usados pelo
banqueiro.
"A
gente quer saber quem é que voou nos aviões do Vorcaro. Esses dados vão nos
ajudar a descobrir quem é que era próximo ao banqueiro e usava desses
favores", disse o senador Eduardo Girão.
Para o
professor Marco Antonio Teixeira, os indícios são de que Vorcaro teria
informações o suficiente causar um abalo significativo no universo político
brasileiro.
"O
que todo mundo diz é que o Vorcaro tem arsenal para afetar a República e não
apenas um grupo político. Era alguém com desenvoltura em todos os poderes. Não
à toa há uma parte dos congressistas tentando blindá-lo", alerta o
professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marco Antônio
Teixeira.
O
deputado federal Duarte Jr diz à BBC News Brasil que ainda não é possível falar
abertamente sobre a atuação de parlamentares tentando proteger Vorcaro no
Congresso.
"Não
dá pra falar disso nesse momento, mas é nos próximos dias que a gente vai ver
se haverá deputados ou senadores saindo em defesa de Vorcaro ou tentando
blindá-lo".
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Rombo nas aposentadorias
O
terceiro ponto que deverá ser alvo de questionamentos na CPMI do INSS será a
atuação do Banco Master junto a o mercado de empréstimos consignados com
desconto na folha de pagamento de aposentados e pensionistas.
O
Master, assim como outros bancos, atuava neste segmento que é o alvo principal
das investigações da CPMI do INSS.
A
comissão começou após reportagens e investigações revelarem um esquema ilegal
de descontos em folha de pagamento feito por associações supostamente sindicais
e que desviaram pelo menos R$ 6 bilhões.
"Nós
já temos documentos apontando um prejuízo de R$ 92 milhões sobre aposentados
que tinham vínculo com o Banco Master. A gente quer saber se o Vorcaro afetou
ou não a aposentadoria dos brasileiros", afirmou o vice-presidente da CPMI
do INSS, Duarte Jr.
Na
segunda-feira (2/2), o portal G1 publicou uma reportagem informando que o INSS
vem cobrando que o Banco Master apresente provas de que seus clientes com
empréstimos consignados autorizaram essas operações antes do início dos
descontos em folha.
A
suspeita é de que essas operações tenham sido feitas sem o consentimento de
pelo menos 250 mil clientes.
Desde
novembro, o INSS bloqueou repasses de R$ 2 bilhões em parcelas que deveriam ser
destinadas a Banco Master.
Em nota
citada pela reportagem, o Master disse que "sempre atuou em estrita
observância às normas e aos procedimentos estabelecidos pelo INSS para a
concessão de crédito consignado, incluindo os requisitos de formalização,
identificação do contratante e comprovação de consentimento".
Fonte:BBC
News Brasil

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