quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Líder da bancada evangélica apoiou acordo do INSS com entidade acusada de fraude

Empresas de familiares do deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM) receberam R$ 1,8 milhão da organização investigada...

Uma das principais lideranças da bancada evangélica, o deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM) participou da assinatura de um acordo entre o INSS e a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), uma das entidades investigadas por suposta fraude em descontos de aposentadorias. Desde aquele acordo, a CBPA recebeu R$ 221 milhões repassados pelo INSS, entre março de 2023 e abril de 2025 — mês em que foi deflagrada a Operação Sem Desconto, que apurou irregularidades nessas entidades.

Silas acompanhou o presidente da CBPA, Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, em reuniões com a cúpula do INSS no início de 2021, ainda durante o governo de Jair Bolsonaro. Em maio daquele ano, ele compareceu à cerimônia em que foi assinado, conforme Diário Oficial, um “protocolo de intenções (…) com a finalidade de efetivar descontos nos benefícios previdenciários” de filiados à CBPA, no valor de até 2,5% do benefício.

“O acordo de cooperação técnica com o INSS trará um novo momento para mais de 1 milhão de pescadores e pescadoras artesanais do país”, escreveu Silas, após a cerimônia no INSS ao lado de Lincoln.

O acordo foi efetivado em julho de 2022, e os descontos passaram a ocorrer em março de 2023, já durante o governo Lula. Entre junho e julho daquele ano, a CBPA passou de 35 mil associados com descontos nos seus vencimentos para mais de 220 mil. Com isso, a entidade saltou de cerca de R$ 30 mil para R$ 7,5 milhões recebidos do INSS por mês. No início de 2025, o valor subiu para R$ 9,5 milhões mensais.

Quando a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a investigação, a CBPA contava com 442 mil associados que tinham seus vencimentos descontados pelo INSS e repassados à entidade. A CGU entrevistou uma amostra de 32 associados à CBPA, em 2024, e nenhum deles disse ter autorizado os descontos. Segundo a CGU, a entidade ligada a Silas Câmara não conseguiu esclarecer a situação de nenhum desses associados.

<><> Contratos milionários

O caso entrou na mira da CPI do INSS após um depoimento de Abraão Lincoln, presidente do CBPA, em novembro. Documentos enviados à CPI e levantados pelo GLOBO mostram que, desde o fim de 2023, a CBPA firmou contratos com empresas de familiares de Silas Câmara, para as quais repassou R$ 1,8 milhão.

O primeiro contrato foi com a Network Multimídia, que recebeu R$ 30 mil para divulgar, em agosto de 2023, o “Grito da Pesca”, evento da CBPA que teve o deputado amazonense como uma espécie de “embaixador”.

Em seguida, entre julho de 2024 e março de 2025, a CBPA repassou R$ 1 milhão à Network Filmes, empresa quase homônima à primeira. A Network Filmes tem como sócia Kethlen Brito, cunhada de Heber Câmara, filho do deputado. Heber se apresenta como CEO do “Network Group”. Já a Network Multimídia está em nome de Maria Soraia Costa, sogra de Heber.

No ano passado, a CBPA repassou ainda R$ 30 mil à Rádio Morena FM, que era dirigida por Elienai Câmara, outro filho de Silas.

Houve ainda um contrato entre a CBPA e a Conektah Estratégias Digitais, empresa que figurou na prestação de contas da campanha de Silas Câmara em 2022. A empresa arrecadou R$ 800 mil da CBPA, sob pretexto de “veicular programas radiofônicos” sobre a entidade no Amazonas.

Procurado pelo GLOBO, Silas Câmara não se manifestou. Em ofício enviado à CPI do INSS, a defesa do deputado disse que “não há qualquer base fática ou indício mínimo que permita cogitar” que as empresas foram usadas “para fins irregulares”. A defesa disse ainda que a “relação familiar (…) não implica, por si só, irregularidade”

A CBPA também contratou outra filha de Silas, a advogada Milena Ramos Câmara, para o setor jurídico. Ela já foi coordenadora jurídica da bancada evangélica, que foi presidida por Silas em 2019 e 2023.

<><> Acusado por ex-mulher

Mãe de Milena e Heber, a também deputada federal Antonia Lucia (Republicanos-AC), que se separou de Silas em 2024, acusa o ex-marido de “gastar o dinheiro da farra dos pescadores por meios ilícitos”. Nas redes sociais, Antonia mencionou a atuação de Silas, em 2025, para permitir que entidades como a CBPA sigam intermediando o repasse de seguro-defeso. O benefício é pago pelo INSS nos períodos do ano em que a pesca não é permitida.

Nas redes, o próprio Silas expôs sua articulação com Abraão Lincoln, da CBPA, para modificar uma medida provisória do governo Lula que transferia a responsabilidade do cadastro de seguro-defeso para prefeituras. O Amazonas contava, em 2025, com 83 mil beneficiários do seguro-defeso, boa parte cadastrados pela CBPA e por associações vinculadas a ela.

“Somos contra abrir precedentes que fragilizam a atuação das entidades representativas”, disse Silas na ocasião.

A CBPA não retornou os contatos do GLOBO.

<><> Contexto

Irmão do pastor Samuel Câmara, principal nome da Assembleia de Deus na região Norte, o deputado Silas Câmara não foi a única liderança evangélica dragada pela CPI do INSS — que será retomada esta semana com depoimento de Daniel Vorcaro, do Banco Master. A menção a pastores e igrejas na CPI, postos sob suspeita de se beneficiar de descontos fraudulentos, causou cizânia entre Silas Malafaia e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), em uma amostra de divisões que podem chegar às urnas neste ano.

Malafaia, líder de outro braço da Assembleia de Deus — mas com histórico de alianças com a família Câmara na igreja —, não gostou de ver Damares lembrar, em entrevistas recentes, que as apurações resvalaram em “grandes pastores”. Damares, aliada da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, também sugeriu que haveria pressão para abafar o caso nas igrejas.

Embora não seja um dos citados, Malafaia desconfia das intenções de Damares. A senadora apoiou Michelle a tentar a Presidência; o pastor preferia o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Damares costuma enfrentar lideranças consolidadas: em 2019, se tornou ministra de Bolsonaro contra o também evangélico Magno Malta, de quem havia sido assessora. No ano passado, pediu ao pastor Mário de Oliveira, que se afastasse do comando da Igreja Quadrangular, da qual ela já fez parte, após ser acusado de abuso sexual.

O petardo de Damares atingiu ainda o pastor André Valadão, líder da Lagoinha, outra igreja à qual a senadora já foi ligada. Valadão, que apoia Flávio Bolsonaro à Presidência, foi citado na CPI por suspeitas envolvendo o cunhado de Vorcaro, que também é da Lagoinha.

Irritado, Valadão disse que Damares “mordeu a isca da esquerda” ao citá-lo e negou irregularidades. A senadora escolheu uma forma curiosa de pedir desculpas ao pastor: após chamá-lo de “amigo de longa data”, disse que a igreja de Valadão é “procurada por pessoas muito ricas”. “Os pobres me dão de presente farinha, banana, este é meu público”, disse Damares.

A CPI do INSS virou exemplo de que as grandes lideranças evangélicas, antes aglutinadas com Bolsonaro, hoje já não pensam tão parecido.

•        Entenda as relações que devem arrastar Flávio Bolsonaro para o Caso INSS

senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente condenado Jair Bolsonaro (PL) e pré-candidato à Presidência da República este ano, tornou-se alvo de um requerimento na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que investiga um esquema bilionário de fraudes em benefícios previdenciários. O episódio, conhecido como “Caso INSS”, desencadeado a partir da “Operação Sem Desconto”, desencadeada pela Polícia Federal e outros órgãos de controle, envolve descontos indevidos em aposentadorias e pensões, com prejuízos estimados em mais de R$ 6 bilhões a milhões de beneficiários vulneráveis.

As suspeitas contra Flávio são indiretas, baseadas em conexões familiares e profissionais de uma administradora de seu escritório de advocacia com o núcleo do esquema, liderado por Antônio Carlos Camilo Antunes, apelidado de “Careca do INSS”. Embora por ora não haja conexão direta de envolvimento do senador, o episódio ganha contornos políticos graves, com acusações sobre supostas responsabilidades nesses delitos.

<><> O que é o Caso INSS?

A CPMI do INSS foi instalada em 2025 para apurar irregularidades em descontos associativos e empréstimos consignados feitos sem autorização de aposentados e pensionistas. A investigação revela um esquema sofisticado que inclui a criação de entidades fantasmas para cobrar contribuições indevidas, lavagem de dinheiro via offshores e conexões com o setor financeiro. A Polícia Federal deflagrou a Operação Sem Desconto em abril de 2025, prendendo figuras como o “Careca do INSS”, apontado como o principal operador do golpe. Documentos analisados pela comissão mostram que as fraudes teriam se intensificado durante o governo Jair Bolsonaro (2019-2022), com omissões em auditorias e facilidades regulatórias que permitiram a ascensão de associações suspeitas. A Controladoria-Geral da União (CGU), sob o governo Lula, realizou auditorias em 2024 que embasaram as ações da PF, desmontando o esquema.

<><> Como Flávio Bolsonaro entra na história?

O nome de Flávio surgiu em um requerimento protocolado em 2 de fevereiro de 2026 pelo deputado Rogério Correia (PT-MG), que pede a convocação de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia “Flavio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia”, fundado em 2021 e registrado no endereço da mansão onde vive o senador, em Brasília. O documento também sugere a quebra de sigilos bancário e fiscal de Letícia e a possível inclusão de Flávio nos depoimentos, argumentando uma “conexão suspeita” entre o senador e o núcleo do “Careca do INSS”.

<><> Quais seriam as ligações

# Laço familiar:

- Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, contador e sócio do “Careca do INSS” em uma empresa offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, usada para suposta lavagem de dinheiro proveniente das fraudes. Alexandre é investigado pela PF por ocultação de patrimônio e foi defendido em processos judiciais pelo advogado Willer Tomaz, aliado próximo de Flávio.

# Indicação profissional:

Letícia foi indicada para o cargo por Willer Tomaz, que mantém relações políticas e jurídicas com o senador. O requerimento destaca esse “entrelaçamento pessoal, familiar, profissional e político”, questionando se o escritório de Flávio serviu como ponte para interesses do grupo fraudulento.

Flávio Bolsonaro contestou as alegações, afirmando que Letícia não tem qualquer ligação comprovada com o esquema e classificando o requerimento como uma tentativa de perseguição política. Até o momento, a CPMI não aprovou as convocações, mas a retomada dos trabalhos em 5 de fevereiro pode intensificar o debate.

<><> O contexto político e as acusações cruzadas

Flávio, como pré-candidato à Presidência, enfrenta esse episódio em um cenário de herança familiar complicada: seu pai, Jair Bolsonaro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por ser o líder máximo da tentativa de golpe de Estado que transcorreu no país entre o final de 2022 e o começo de 2023. No âmbito político, Bolsonaro também foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023 a oito anos de inelegibilidade por abuso de poder político e econômico durante as eleições de 2022. O grupo bolsonarista, incluindo aliados no Congresso, tem acusado o PT e o governo Lula de demora em combater as fraudes ou de tentar politizar a CPMI. No desespero para desviar o foco de supostas irregularidades, a extrema direita tenta ligar Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), filho do presidente Lula, ao esquema, algo que a PF investiga, mas sem conclusão alguma até o momento.

Por outro lado, parlamentares petistas e da base governista demonstram que as fraudes foram ignoradas ou facilitadas durante o governo Bolsonaro, com depoimentos na CPMI revelando omissões em auditorias da CGU na época. O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) criticou bolsonaristas por falta de “moral” para acusar o atual governo, afirmando que o esquema foi desmontado sob Lula. Em síntese, a depender do rumo que as coisas tomem, as relações indiretas via Letícia Caetano dos Reis colocam Flávio Bolsonaro no radar da CPMI, mas o desenrolar depende de aprovações no colegiado e de evidências concretas da PF.

 

Fonte: Agência O Globo/Fórum

 

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