quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026


 

Thiago Flamé: É preciso resgatar o sentido anti-imperialista na esquerda brasileira

Chama muito a atenção a contradição entre o rechaço forte e majoritário ao ataque tarifário ao Brasil e o rechaço minoritário à intervenção na Venezuela. (Quaest e Ipsos) Joga um papel o rechaço a Maduro pelo nível de repressão e ataques e a posição embelezadora do governo Maduro de setores da esquerda continental, a posição a direita dos imigrantes venezuelanos e também uma dose de medo das chantangens trumpista na atidude de um setor de massas. Para a esquerda revolucionária, de toda forma, a franja de massas minoritária que rechaça integralmente a intervenção militar trumpista e é a crítica a uma postura neutra ou pouco incisiva por parte de Lula, que na pratica equivale a uma traição dos povos latino-americanos no momento em nos EUA a luta de classe se ergue contra Trump, segue sendo uma base ampla onde se apoiar. Sobra essa base mais ampla se desenvolve uma vanguarda dispersa sensível aos processos mais novos da luta de classes internacional, com a qual temos dialogado a partir do MRT e da nossa corrente internacional Revolução Permanente, pela reconstrução da IV INternacional, com a participação na Flotilha e nossa intensiva campanha em defesa da Palestina, e com o grande ato internacionalista que realizamos em dezembro. Com a situação nos EUA é bastante forte a tendência de que essa vanguarda se amplie. A partir dessas considerações acrescento algumas características nacionais, em perspectiva histórica, do processo de transição e do ciclo da luta de classes dos anos oitenta no Brasil que creio pode ajudar a pensar atuais para um resgate do internacionalismo militante no Brasil.

Parto de uma das ideias que o Fabio Querido Mascaro, no seu excelente “Lugar periférico, ideias modernas”, retoma do crítico Roberto Schwarz. Escrevendo nos anos oitenta, fazendo referência aos 60, diz ele: "Reinava um estado de espírito combativo, segundo o qual o progresso resultaria de uma espécie de reconquista, ou melhor, da expulsão dos invasores. Rechaçado o Imperialismo, neutralizadas as formas mercantis e industriais de cultura que lhe correspondiam, e afastada a parte antinacional da burguesia, aliada do primeiro, estaria tudo pronto para que desabrochasse a cultura nacional verdadeira", ao passo que se: "Também nos anos 60 o nacionalismo havia sido objeto da crítica de grupos que se estimavam mais avançados que ele política e esteticamente. O raciocínio de então vem sendo retomado em nossos dias, mas agora sem luta de classes nem antiimperialismo, e no âmbito internacionalíssimo da comunicação de massas"... "embora se estejam encarreirando no processo ideológico triunfante de nosso tempo, os globalistas raciocinam como acossados, ou como se fizessem parte da vanguarda heróica, estética ou libertária, de inícios do século. Alinham-se com o poder como quem faz uma revolução." (Nacional por subtração, 1986/87)

Nesse e em outros ensaios do Schwarz ele faz uma crítica aguda do destino da rica tradição intelectual paulista, da qual ele mesmo é tributário, que se desenvolveu como crítica ao dualismo da Cepal e do marxismo stalinizado do partidão e que frente ao ascenso se bifurcou entre os intelectuais que foram ao PSDB e os que foram ao PT, ou os que eram ligados à renovação gramsciana de setores do PCB, mas que expressam um mesmo sentido de época democratizante. Não mais uma afirmação do nacional em oposição aos "invasores" - que a partir da revolução cubana tomou um sentido mais latino-americano e revolucionário. Agora um reconhecimento maior das divisões internas de classe, mas no marco de uma afirmação positiva da diversidade, sem negação do decadente sistema "globalista", o que em partes se explica também no fato de que o governo Carter se colocou como oposição aos governos de Geisel e Figueiredo e as lutas operárias contra a ditadura não chocaram com o imperialismo, que operou como parte do desvio democratico. Creio que essa sensibilidade capturada por Schwarz permeia certos aspectos do senso comum progressista da Frente Ampla, que em SP remonta todo o arco de forças da campanha das Diretas Já + a Globo, que fez o que podia para ignorar as Diretas Já em 1984.

Indo além do Schwarz, é preciso não esquecer que foi, em parte importante, o peso das organizações trotskistas nos oitenta que comunicou o sentido anti-imperialista das vanguardas dos 30 aos 70 para as vanguardas dos oitenta, mostrando alguma resistência ao senso comum que Schwarz crítica. Isso em base a ter feito um balanço em geral correto da experiência desastrosa da guerrilha, ainda que o que prevaleceu tenha sido a adaptação ao regime democratico e à burocracia petista e cutista, até chegar no caso da LIT em 2016 no seu contrário absurdo, na radicalização desse globalismo que o crítico ridiculariza: "Alinham-se com o poder como quem faz uma revolução". O que foi dito por Schwarz nos oitenta, mirante setores como FHC e Gianotti nos oitenta, serve - guardados os limites da comparação - pro PSTU nos 2010, e serve também de outras formas para a Democracia Socilista ex-mandelista e para o que resta do lambertismo dentro do PT, serve para Boulos e para Valério Arcary, ou para o que resta da esquerda petista. Não diria que serve para Lula, porque Lula não faz nada parecer uma revolução em sentido nenhum.

Pensando o soberanismo lulista desse ângulo, também se coloca relativamente por fora dessa crítica, com certa continuidade do ciclo anterior aos anos oitenta, mas com muita descontinuidade. Se parece muito pouco ao nacionalismo etapista do partidão, e assume no máximo um tom varguista moderado através da diplomacia pragmática do aproveitamento das oportunidades, que é parte da da diplomacia brasileira desde os tempos do Barão do Rio Branco, passando pelo varguismo e por Geisel, que a não ser em breves interregnos, sempre foi a majoritária entre os militares e diplomatas. No ciclo lulista, que manteve essa tradição diplomatica em oposição ao alinhamento incondicional da lava jato e do bolsonarismo, esse soberanismo light está atravessado por esse sentido de época "globalista" - hoje em decadencia - de afirmação sem confronto, onde a reivindicação da brasilidade já não se como oposição à metropole.

Uma das coisas para refletirmos é como se liga na subjetividade dos vários setores esse ressurgimento de um sentimento antiimperialista, que dialoga com elementos do ciclo sessentista que não tiveram a mesma força na saída da ditadura. Na força dos movimentos indígenas, que a partir das suas tradições e resistência manteve viva a ideia da luta contra o "invasor", suas conexões com a luta da educação no Pará e com a classe operária do Norte e com a nova classe operária do Centro Oeste e Nordeste. E também, e particularmente, as várias expressões do ressurgimento de vanguardas da luta negra em variados aspectos, com bastantes debates ideológicos, que abrem espaço para as ideias revolucionárias. Parte das greves do setor privado nos últimos anos, a maioria delas greves curtas contra o descumprimento de cláusulas básicas por parte da patronal e também greves salariais, podemos ver como parte desses elementos da luta negra. Tem um cruzamento aí entre esse tipo de greves, as vanguardas de mães e familiares de vítimas da polícia, de imigrantes, a luta da juventude periférica e dos bailes funk em defesa das suas manifestações culturais. Esse tipo de greves a gente sabe que não raras vezes surgem por fora dos sindicatos, da forma também como surgiu a demanda da 6x1 agora institucionalizada pelo governo via Boulos, sem os sindicatos terem cumprindo nenhum papel relevante. Pensando um aspecto da greve da Acciona em 2023, nas obras do metrô de São Paulo, sob o governo de Tarcísio de Freitas, que faz parte deste processo, tinha ali um elemento de rechaço contra os supervisores espanhóis que era bem interessante, tomando em conta esse cruzamento da questão negra (e imigrante, muito presente na construção civil), salarial e contra uma patronal estrangeira.

Também pensando tudo o que expressa a simpatia de uma vanguarda ampla com a figura do Jones Manoel, acho que ele apela a um sentimento que mescla símbolos comunistas, africanistas e latinoamericanos e que se remete aquelas vanguardas dos 60 e a sensibilidade dessa "brasilidade revolucionária" (uma interessante definição trabalhada no livro de Marcelo Ridenti) do ciclo "populista", que foi derrotada junto com a guerrilha pela repressão e pela industrialização acelerada dirigida pelos militares e o imperialismo. Nossa grandes divergências com Jones se remetem a que ele tende a repetir algumas das principais deficiências estratégicas daqueles movimentos. Como alternativa, o trotskismo tem sua própria tradição a oferecer para essa vanguarda difusa, tanto como tradição teórica original dentre as primeiras teorias da "formação nacional", como fração minoritária mas existente nos combates do proletariado brasileiro, que sempre manteve vivo o internacionalismo, dos gráficos de SP com a aplicação da tática da frente única que quebrou literalmente a moral dos "galinhas verdes", contra a linha ultra sectária da III Internacional de Stalin que levou a derrota dos comunistas na Alemanha, da organização dos camponeses radicalizados pela revolução cubana em Pernambuco, até às campanhas de solidariedade à revolução política polonesa e da sandinista nos tempos do ascenso operário, dentro do PT e da CUT, na imprensa alternativa muito popular na época, honrando a tradição de uma classe operária multinacional que já em 1905 se manifestava em São Paulo contra a repressão czarista aos operários russos.

¨      "O dever de todo revolucionário é fazer a revolução". Por Francisco Calmon

Marighella defendia que os revolucionários não deveriam esperar as condições ideais, mas, sim, criar as condições por meio de ações práticas, ações diretas armadas.

Não há dúvida de que era um incentivo ao voluntarismo, mas cumpriu um papel e abalou a ditadura.

O foquismo de Che Guevara também foi um voluntarismo que o levou à morte.

As estratégias do tudo ou nada, radicais, não no sentido de ir à raiz, mas do paroxismo, são facilmente assimiláveis e ambientes propícios a infiltrações.

O militarismo de grande parte das organizações revolucionárias que combateram a ditadura raciocinava no estreito cartesianismo de “isso ou aquilo, e se isso ou aquilo, a conclusão só poderia ter tal resultado”.

A autocrítica da esquerda, incentivada pela direita, foi radical: divorciar-se do passado e seguir o permitido pelo sistema dominante.

Esse desquite amigável deu no que é, na atualidade, a esquerda: reformista por excelência, republicanista por pedagogia.

Sem um projeto de nação e sem, obviamente, estratégia, pois, sem a definição de qual lugar chegar, não há como estabelecer uma estratégia.

A esquerda foi reduzida a um movimento eleitoral, no qual finca bandeiras a cada quatro anos, de acordo com as circunstâncias e a correlação de forças eleitorais, e estabelece táticas sem conexão com a estratégia, pois ela não existe.

Não há a menor dúvida de que não existem condições objetivas e subjetivas para uma revolução anticapitalista e imperialista.

O raciocínio cartesiano termina aí: se não há condições, logo não se faz revolução.

Onde está a falácia desse raciocínio?

Está em que, na falta de condições, não se faz, mas se prega a revolução, se combate a ideologia burguesa e o sistema capitalista.

O dever de todo revolucionário, na atualidade, é pregar a revolução.

O reformista também assevera a necessidade da revolução social, mas a prega divorciada da revolução política, ou seja: sem correspondência com o empoderamento da classe trabalhadora. E o resultado é o que temos assistido nos governos Lula.

Lembrando Lenin: que fazer?

Talvez a resposta esteja no seu artigo seguinte: duas táticas. “A libertação dos operários só pode ser obra dos próprios operários; sem a consciência e a organização das massas, sem a sua preparação e a sua educação, por meio da luta de classes aberta contra toda a burguesia, não se pode sequer falar de revolução socialista”.

Duas táticas para a conjuntura: 1. Trabalhar para que o governo Lula 4 seja à esquerda; 2. e pregar a necessidade da revolução anticapitalista e imperialista.
Portanto, a esquerda deve, desde já, procurar influir no programa de governo que será apresentado ao eleitorado.

Ousar para conquistar, conquistar para vencer, vencer para empoderar a base da classe trabalhadora.

O paradoxo é que não há um proletariado com consciência revolucionária; por conseguinte, o que vem ocorrendo é a ascensão de uma elite burocrática pelega.

Voltamos ao que fazer, e a resposta é o que já se tornou um mantra: FOP: Formação, Organização e Participação.

O governo tem uma ampla aparelhagem de comunicação — rádio e TV —, contudo, não a usa com este fito.

Nem todo gato é pardo, nem todo cão é caramelo; contudo, a realidade é dialética.

 

Fonte: Esquerda Diário/Brasil 247


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