A
riqueza como tempo do bem viver
Ao
longo da história, a noção de riqueza nunca foi estática. Ela se transformou
conforme as mudanças sociais, tecnológicas, políticas e institucionais. O que
começou como sinônimo de abundância material e acúmulo de metais preciosos para
incorporar o trabalho, a produção, o capital, as instituições e, mais
recentemente, as capacidades humanas e os indicadores multidimensionais de
bem-estar.
No
debate contemporâneo, diante da transição para a Era digital, abre-se a
possibilidade de uma inflexão decisiva. Cresce, em âmbito internacional, o
entendimento de que a verdadeira riqueza de uma sociedade não pode mais ser
reduzida a renda, patrimônio ou Produto Interno Bruto.
Ela se
expressa, sobretudo, na capacidade real das pessoas de viverem bem: com
dignidade, autonomia, segurança e oportunidades. Em outras palavras, riqueza
passa a significar tempo de bem viver – tempo disponível para a convivência, o
cuidado, a cultura, o aprendizado, a participação cidadã e a fruição da vida.
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A evolução histórica do conceito de riqueza
A
definição de riqueza sempre refletiu as concepções dominantes de cada época. Na
Antiguidade, especialmente em Aristóteles, a riqueza não era um fim em si
mesma, mas um meio para o florescimento humano. Em Política, o filósofo
distingue a aquisição natural, voltada à vida boa, da acumulação ilimitada – a
crematística – considerada artificial e socialmente destrutiva. Desde então,
instaurou-se uma tensão fundamental entre quantidade e qualidade, que retorna
com força no debate atual.
Na
Idade Média, a tradição escolástica, representada por Tomás de Aquino, reforçou
os limites morais da riqueza, subordinando os bens materiais à vida comunitária
e à realização espiritual. A riqueza permanecia como meio, jamais como
finalidade última.
Essa
concepção se altera profundamente entre os séculos XVI e XVIII, com o
mercantilismo e a fisiocracia. A riqueza passa a ser vista como estoque
acumulável – especialmente de metais preciosos – e associada ao poder dos
Estados nacionais. Enquanto o mercantilismo vinculou riqueza à balança
comercial, à expansão colonial e ao controle estatal, os fisiocratas deslocaram
o foco para a produção agrícola, identificando nela a origem do excedente
econômico.
A
economia política clássica rompeu com a ideia de riqueza como mero estoque.
Adam Smith redefiniu a riqueza como o produto anual do trabalho de uma nação,
destacando a divisão do trabalho e a produtividade como elementos centrais.
David Ricardo aprofundou essa abordagem ao associar riqueza à produção de bens
úteis, condicionada pela tecnologia e pela distribuição entre salários, lucros
e rendas.
Karl
Marx, ao criticar a economia política clássica, recolocou o trabalho e as
relações sociais no centro da análise. Para ele, a riqueza material não poderia
ser separada da exploração do tempo de trabalho. Ao afirmar que “o verdadeiro
reino da liberdade começa onde cessa o trabalho determinado pela necessidade”,
Marx antecipou a centralidade do tempo livre como dimensão fundamental da
emancipação humana.
A
virada neoclássica redefiniu a riqueza como utilidade individual, reduzindo-a a
variáveis de mercado e desconsiderando desigualdades, tempo social e valores
não monetários. Ao mesmo tempo, ampliou-se o conceito para incluir ativos
físicos e financeiros capazes de gerar fluxos de renda ao longo do tempo.
John
Maynard Keynes rompeu parcialmente com essa visão ao introduzir as dimensões
psicológicas, institucionais e políticas da riqueza. Em um mundo marcado pela
incerteza, a riqueza passa a depender de expectativas, confiança e da ação do
Estado na coordenação do investimento e do emprego.
Nas
últimas décadas, novas abordagens ganharam destaque. Amartya Sen redefiniu a
riqueza como o conjunto das capacidades humanas para realizar funcionamentos
valiosos, deslocando o foco da renda para a liberdade substantiva. Instituições
internacionais e autores como Thomas Piketty passaram a tratar a riqueza de
forma mais ampla, incorporando patrimônio, sustentabilidade e bem-estar, além
de evidenciar sua concentração crescente.
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A riqueza como tempo do bem viver
Inspirada
em experiências como buen vivir, oriundo de cosmologias andinas e amazônicas,
emerge uma concepção de riqueza que recoloca o tempo, a comunidade e a vida
digna no centro do debate. Esse novo paradigma, fortemente associado ao Sul
Global, ganha força diante da crise climática, da ampliação das desigualdades –
inclusive temporais –, da aceleração tecnológica e da precarização do trabalho.
Na Era
digital, a aceleração do tempo, a sobrecarga informacional e a intensificação
do trabalho tornam evidente que riqueza não é apenas acesso a bens e renda. Ela
se manifesta, cada vez mais, na possibilidade de dispor de tempo para viver com
qualidade, cuidar, participar da vida coletiva e usufruir da natureza – tempo
não capturado pela lógica mercantil.
Assim,
a riqueza passa a ser definida como qualidade quantitativa do tempo vivido. O
tempo do trabalho vendido cede lugar ao tempo da vida compartilhada. O tempo do
bem viver emerge como o novo eixo estruturante da riqueza, articulando
liberdade temporal, autonomia, sustentabilidade e qualidade de vida. Trata-se
de uma inflexão conceitual profunda, com implicações teóricas, éticas e
estatísticas para o século XXI.
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O desafio brasileiro e o papel do IBGE
Essa
concepção ampliada de riqueza oferece ao Brasil uma oportunidade histórica de
redefinir seu projeto nacional de desenvolvimento. Nesse processo, o IBGE ocupa
posição estratégica, cabendo à instituição produzir, integrar e difundir
informações estatísticas e geocientíficas de múltiplas fontes, capazes de
revelar não apenas quanto o país produz, mas como sua população vive – e como
pode viver melhor.
Para o
IBGE, responsável por garantir transparência pública e orientar a ação do
Estado, o desafio vai além da mensuração da produção econômica. É necessário
medir as condições concretas da vida como a distribuição do tempo, o acesso ao
território, as oportunidades, as desigualdades estruturais e os obstáculos que
impedem indivíduos e comunidades de alcançar o bem viver.
A
implantação do Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (SINGED) e
do Plano Geral de Informações Estatísticas e Geográficas (PGIEG), em curso,
integra esse processo de modernização institucional. Ao reposicionar o IBGE
como protagonista, o Brasil avança na construção de um projeto que articula
democracia, justiça social, sustentabilidade ambiental e soberania
informacional.
A
riqueza brasileira do século XXI dependerá, acima de tudo, da capacidade de
garantir às pessoas tempo para viver com dignidade. E essa garantia exige um
Sistema Estatístico e Geográfico mais robusto, confiável e orientado ao bem
público.
Fonte:
Por Marcio Pochmann, em Brasil 247

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