70
anos do governo JK: democracia, desenvolvimento e projeto de país
Há 70
anos, em 31 de Janeiro de 1956, o vencedor das eleições de 3 de outubro de
1955, Juscelino Kubitschek de Oliveira, tomava posse como o 21º presidente da
República Federativa do Brasil (1956–1961). Sua chegada ao Palácio do Catete,
no entanto, esteve longe de ser tranquila. Foi precedida por uma verdadeira
batalha política — uma luta de Davi contra Golias.
Derrotada
nas urnas com a candidatura de Juarez Távora, a União Democrática Nacional
(UDN) passou a sustentar a tese de que, para vencer as eleições presidenciais,
seria necessário obter 50% mais um dos votos válidos. Tratava-se de um
argumento sem qualquer base legal: a legislação eleitoral da época não previa
segundo turno, e a regra vigente era a da maioria simples. Juscelino Kubitschek
foi eleito com 3.077.411 votos, o que correspondeu a aproximadamente 35,7% do
total, superando seus adversários e vencendo legitimamente o pleito. Ainda
assim, o discurso udenista ajudou a criar um ambiente de instabilidade política
e de questionamento da vontade popular.
Não foi
a única tentativa de impedir a posse de JK. Em meio às articulações civis e
militares, chegou-lhe a proposta de uma candidatura única à Presidência da
República, com Juarez Távora como cabeça de chapa e Juscelino como vice — uma
solução apresentada como conciliadora, mas que, na prática, anulava o resultado
das urnas. O plano foi levado inclusive ao ex-presidente Café Filho. Em “Meu
Caminho para Brasília”, Juscelino relata que conversou diretamente com Juarez
Távora e rejeitou a proposta, por entender que abdicar da candidatura
significaria trair o voto popular que recebera.
Ao
assumir a Presidência, Juscelino levou ao poder um projeto profundamente
democrático. Logo no início de seu governo, aboliu o estado de sítio e pôs fim
à censura à imprensa, restabelecendo plenamente as liberdades civis. Com JK, o
Brasil passou a se enxergar sob outra ótica: um país moderno, confiante,
voltado para o futuro e disposto a planejar seu desenvolvimento.
Era o
Brasil do Plano de Metas, sintetizado na fórmula “50 anos em 5”. Ao todo, foram
31 metas voltadas à energia, transporte, indústria de base, educação e
alimentação — tendo Brasília como a Meta-Síntese, símbolo maior de um projeto
nacional de integração territorial e modernização econômica. O crescimento
médio em torno de 10% ao ano expressava a vitalidade daquele período.
A
decisão de transferir a capital para o Planalto Central não surgiu como
improviso. Desde a campanha eleitoral, Juscelino afirmava que cumpriria a
Constituição de 1946. Questionado, em seu primeiro comício eleitoral, pelo
goiano Toniquinho da Farmácia sobre a construção da nova capital, respondeu de
forma direta: faria valer o texto constitucional. No início de 1956, ao visitar
a região onde surgiria Brasília, registrou em suas memórias:
“Deste Planalto Central, desta solidão que em
breve se transformará no cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos
sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma
confiança sem limites no seu grande destino”.
(KUBITSCHEK,
Juscelino. “Meu Caminho para Brasília”, vol. 3. Rio de Janeiro: Bloch Editores,
1978, p. 83).
Mais do
que uma descrição poética, o discurso revela a concepção profunda que Juscelino
tinha de Brasília. Para ele, a nova capital simbolizava o futuro, o avanço e a
ruptura com o Brasil do atraso e da excessiva concentração litorânea. Brasília
representava a crença de que o Estado poderia planejar o desenvolvimento,
integrar o território nacional e inaugurar um novo tempo histórico.
Mas o
governo JK não se esgotou em Brasília. A construção da nova capital foi
acompanhada por um vigoroso processo de industrialização, com destaque para a
implantação da indústria automobilística, a ampliação da malha rodoviária,
investimentos em energia elétrica — como a usina de Três Marias — e a
consolidação de grandes empresas nacionais e multinacionais no país. O projeto
era claro: industrializar o país e dar ao Brasil um lugar próprio no mundo.
Ao
mesmo tempo, o país vivia intensa efervescência cultural e projeção
internacional. O Brasil conquistou a Copa do Mundo de 1958, revelou Éder Jofre
no boxe, Maria Esther Bueno no tênis, assistiu ao surgimento do Cinema Novo,
com Glauber Rocha, Cacá Diegues e Ruy Guerra, e apresentou ao mundo a Bossa
Nova de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Roberto Menescal e tantos outros. Era um
Brasil que respirava criatividade, autoestima e esperança.
O
reconhecimento popular do legado de Juscelino manifestou-se de forma inequívoca
poucos anos depois. Em 1964, no exercício do mandato de senador por Goiás, JK
lançou-se como pré-candidato à Presidência da República para as eleições
previstas para 1965. De acordo com jornais da época, hoje preservados no
Arquivo Nacional, o ex-presidente liderava as intenções de voto. Era a
confirmação de que, aos olhos do povo, seu governo havia sido bem-sucedido.
Esse
apoio não era casual. Representava o reconhecimento de um líder cuja atuação
pública permanecia ancorada na democracia, no diálogo e no respeito às
instituições. Não por acaso, a ruptura institucional de 1964 teve entre seus
objetivos centrais afastar Juscelino Kubitschek da vida política, cassando-lhe
o mandato parlamentar e interditando, pela força, a possibilidade de seu
retorno ao voto popular.
Setenta
anos depois, recordar o governo JK é lembrar que o Brasil já foi capaz de unir
crescimento econômico, liberdade política e esperança coletiva. Um tempo em que
o país acreditou em si mesmo — e ousou construir o futuro.
Fonte:
Por Arthur Serra, na Fórum

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