quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

70 anos do governo JK: democracia, desenvolvimento e projeto de país

Há 70 anos, em 31 de Janeiro de 1956, o vencedor das eleições de 3 de outubro de 1955, Juscelino Kubitschek de Oliveira, tomava posse como o 21º presidente da República Federativa do Brasil (1956–1961). Sua chegada ao Palácio do Catete, no entanto, esteve longe de ser tranquila. Foi precedida por uma verdadeira batalha política — uma luta de Davi contra Golias.

Derrotada nas urnas com a candidatura de Juarez Távora, a União Democrática Nacional (UDN) passou a sustentar a tese de que, para vencer as eleições presidenciais, seria necessário obter 50% mais um dos votos válidos. Tratava-se de um argumento sem qualquer base legal: a legislação eleitoral da época não previa segundo turno, e a regra vigente era a da maioria simples. Juscelino Kubitschek foi eleito com 3.077.411 votos, o que correspondeu a aproximadamente 35,7% do total, superando seus adversários e vencendo legitimamente o pleito. Ainda assim, o discurso udenista ajudou a criar um ambiente de instabilidade política e de questionamento da vontade popular.

Não foi a única tentativa de impedir a posse de JK. Em meio às articulações civis e militares, chegou-lhe a proposta de uma candidatura única à Presidência da República, com Juarez Távora como cabeça de chapa e Juscelino como vice — uma solução apresentada como conciliadora, mas que, na prática, anulava o resultado das urnas. O plano foi levado inclusive ao ex-presidente Café Filho. Em “Meu Caminho para Brasília”, Juscelino relata que conversou diretamente com Juarez Távora e rejeitou a proposta, por entender que abdicar da candidatura significaria trair o voto popular que recebera.

Ao assumir a Presidência, Juscelino levou ao poder um projeto profundamente democrático. Logo no início de seu governo, aboliu o estado de sítio e pôs fim à censura à imprensa, restabelecendo plenamente as liberdades civis. Com JK, o Brasil passou a se enxergar sob outra ótica: um país moderno, confiante, voltado para o futuro e disposto a planejar seu desenvolvimento.

Era o Brasil do Plano de Metas, sintetizado na fórmula “50 anos em 5”. Ao todo, foram 31 metas voltadas à energia, transporte, indústria de base, educação e alimentação — tendo Brasília como a Meta-Síntese, símbolo maior de um projeto nacional de integração territorial e modernização econômica. O crescimento médio em torno de 10% ao ano expressava a vitalidade daquele período.

A decisão de transferir a capital para o Planalto Central não surgiu como improviso. Desde a campanha eleitoral, Juscelino afirmava que cumpriria a Constituição de 1946. Questionado, em seu primeiro comício eleitoral, pelo goiano Toniquinho da Farmácia sobre a construção da nova capital, respondeu de forma direta: faria valer o texto constitucional. No início de 1956, ao visitar a região onde surgiria Brasília, registrou em suas memórias:

Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará no cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.

(KUBITSCHEK, Juscelino. “Meu Caminho para Brasília”, vol. 3. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1978, p. 83).

Mais do que uma descrição poética, o discurso revela a concepção profunda que Juscelino tinha de Brasília. Para ele, a nova capital simbolizava o futuro, o avanço e a ruptura com o Brasil do atraso e da excessiva concentração litorânea. Brasília representava a crença de que o Estado poderia planejar o desenvolvimento, integrar o território nacional e inaugurar um novo tempo histórico.

Mas o governo JK não se esgotou em Brasília. A construção da nova capital foi acompanhada por um vigoroso processo de industrialização, com destaque para a implantação da indústria automobilística, a ampliação da malha rodoviária, investimentos em energia elétrica — como a usina de Três Marias — e a consolidação de grandes empresas nacionais e multinacionais no país. O projeto era claro: industrializar o país e dar ao Brasil um lugar próprio no mundo.

Ao mesmo tempo, o país vivia intensa efervescência cultural e projeção internacional. O Brasil conquistou a Copa do Mundo de 1958, revelou Éder Jofre no boxe, Maria Esther Bueno no tênis, assistiu ao surgimento do Cinema Novo, com Glauber Rocha, Cacá Diegues e Ruy Guerra, e apresentou ao mundo a Bossa Nova de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Roberto Menescal e tantos outros. Era um Brasil que respirava criatividade, autoestima e esperança.

O reconhecimento popular do legado de Juscelino manifestou-se de forma inequívoca poucos anos depois. Em 1964, no exercício do mandato de senador por Goiás, JK lançou-se como pré-candidato à Presidência da República para as eleições previstas para 1965. De acordo com jornais da época, hoje preservados no Arquivo Nacional, o ex-presidente liderava as intenções de voto. Era a confirmação de que, aos olhos do povo, seu governo havia sido bem-sucedido.

Esse apoio não era casual. Representava o reconhecimento de um líder cuja atuação pública permanecia ancorada na democracia, no diálogo e no respeito às instituições. Não por acaso, a ruptura institucional de 1964 teve entre seus objetivos centrais afastar Juscelino Kubitschek da vida política, cassando-lhe o mandato parlamentar e interditando, pela força, a possibilidade de seu retorno ao voto popular.

Setenta anos depois, recordar o governo JK é lembrar que o Brasil já foi capaz de unir crescimento econômico, liberdade política e esperança coletiva. Um tempo em que o país acreditou em si mesmo — e ousou construir o futuro.

 

Fonte: Por Arthur Serra, na Fórum

 

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