Gustavo
Tapioca: A extrema direita avança na América Latina e o Brasil entra na zona de
risco
A
vitória da extrema direita na Costa Rica, decidida em primeiro turno, destrói o
mito de que democracias “exemplares” estariam blindadas contra o autoritarismo.
O sinal é continental e chega ao Brasil em ano eleitoral decisivo. Jair
Bolsonaro está preso. O projeto político que tentou destruir o Estado
Democrático de Direito segue ativo, organizado e à espera de uma nova porta de
entrada.
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Quando a exceção cai, o alerta se torna incontornável
No
domingo, 1º de fevereiro de 2026, a Costa Rica entrou oficialmente no mapa do
avanço da extrema direita latino-americana. As eleições presidenciais foram
decididas ainda no primeiro turno, com a vitória de Laura Fernández, candidata
do Partido Soberano do Povo (PPSO), que obteve cerca de 48,3% dos votos
válidos. O segundo colocado, Álvaro Ramos, do tradicional Partido de Libertação
Nacional (PLN), ficou em torno de 33,4%, sem possibilidade de levar a disputa
ao segundo turno.
O dado
político central não está apenas no resultado, mas no que ele simboliza.
Durante décadas, a Costa Rica foi apresentada como exceção regional: sem Forças
Armadas, com estabilidade institucional, eleições confiáveis e alternância
democrática. Se até esse modelo passa a eleger uma liderança de extrema
direita, o recado é inequívoco: nenhuma democracia latino-americana está imune.
A
extrema direita venceu sem ruptura explícita, sem tanques e sem segundo turno.
Venceu pelo voto, pelo medo e pela promessa de ordem. É assim que o
autoritarismo do século XXI avança.
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A América Latina como laboratório da extrema direita e o Brasil no espelho
A
vitória na Costa Rica não é um acidente eleitoral. Ela confirma que a América
Latina se transformou no laboratório privilegiado da nova extrema direita
global — um espaço onde o autoritarismo já não precisa de golpes clássicos para
se impor. Basta corroer a democracia por dentro.
Em El
Salvador, Nayib Bukele consolidou um regime de exceção permanente sob o
pretexto da guerra ao crime. Prisões em massa sem garantias, enquadramento do
Judiciário e concentração extrema de poder tornaram-se políticas de Estado.
Bukele converteu o autoritarismo em espetáculo popular e passou a ser
referência explícita para a ultradireita regional.
Na
Argentina, a eleição de Javier Milei levou ao poder uma extrema direita de
mercado. Com discurso ultraliberal radical, ataque frontal a direitos sociais,
desprezo pela política institucional e retórica de ódio contra adversários,
Milei representa a face econômica do mesmo projeto: desmontar o Estado,
deslegitimar a política e substituir o pacto democrático por uma lógica de
choque permanente.
A Costa
Rica completa esse triângulo. Um país antes tratado como vitrine democrática
elegeu uma candidata que construiu sua campanha sobre o discurso de “mão de
ferro” e a exaltação explícita do modelo Bukele. O autoritarismo venceu onde
parecia improvável — e isso altera o mapa político do continente.
Esses
governos não formam uma aliança formal, mas compartilham método, linguagem e
objetivos: guerra cultural permanente, fabricação de inimigos internos, ataque
às instituições de controle, relativização de direitos e promessa de ordem em
troca de liberdade.
Esse
método tem nome conhecido no Brasil.
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A zona cinzenta: quando a direita abre caminho para a extrema direita
Nem
todo governo conservador latino-americano pode ser classificado como extrema
direita. Mas ignorar o papel da direita liberal ou tradicional na normalização
do autoritarismo seria um erro grave.
No
Equador, Daniel Noboa governa sob uma direita liberal-autoritária, marcada por
discurso de segurança, medidas excepcionais e militarização do cotidiano. Não é
extrema direita, mas adota práticas que convergem com ela em momentos
decisivos.
No
Paraguai, Santiago Peña lidera uma direita tradicional, herdeira de estruturas
conservadoras históricas, frequentemente disposta a alianças com forças
ultraconservadoras quando isso serve à estabilidade do poder.
No
Uruguai, Luis Lacalle Pou comanda uma direita liberal com respeito formal às
instituições, mas cuja coalizão inclui setores conservadores duros e disposição
pragmática para conviver com governos autoritários na região.
O Peru
vive um cenário distinto: instabilidade institucional crônica, sucessão de
governos frágeis e ausência de um projeto democrático consistente. Não há hoje
um governo de extrema direita estruturado, mas o vazio político permanente cria
terreno fértil para aventuras autoritárias.
Essa
zona cinzenta é decisiva. A extrema direita raramente chega sozinha ao poder.
Ela avança quando encontra parceiros dispostos a relativizar princípios
democráticos em nome da conveniência política. Foi assim na Europa. Foi assim
nos Estados Unidos. Foi assim no Brasil em 2018.
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Lula lidera, mas a eleição não está ganha
As
pesquisas indicam que Lula entra na disputa de outubro como favorito à
reeleição. Mas a eleição que se aproxima não será decidida apenas por intenção
de voto. Será disputada por legitimidade, por clima político e pela capacidade
da democracia resistir a um campo que já demonstrou disposição de romper as
regras quando perde.
O risco
brasileiro não está apenas em um candidato de extrema direita explícita. Ele
reside, sobretudo, na normalização do autoritarismo por setores da direita que
se apresentam como “moderados”, mas absorvem o repertório bolsonarista: ataque
ao Judiciário, desconfiança sistemática das urnas, criminalização de políticas
sociais e desprezo por direitos.
Não é
preciso um Bolsonaro na urna para que o bolsonarismo vença.
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Bolsonaro preso, bolsonarismo reorganizado
A
condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de abolição
violenta do Estado Democrático de Direito é um marco histórico. Mas tratá-la
como ponto final do bolsonarismo é um erro político grave.
Bolsonaro
está preso, mas o movimento que liderou aprendeu, se adaptou e segue ativo. A
punição virou narrativa de vitimização. O agressor tenta se apresentar como
vítima; o ataque às instituições é apagado; a reação democrática é vendida como
perseguição.
Nesse
cenário, o lançamento de Flávio Bolsonaro como herdeiro político preserva o
capital eleitoral do sobrenome e oferece aparência de normalidade institucional
ao mesmo projeto autoritário. Ao redor dele orbitam outros nomes da direita que
evitam a retórica golpista explícita, mas jamais romperam com o bolsonarismo.
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2018 × 2026: o mesmo roteiro, mais sofisticado
Em
2018, a extrema direita venceu construindo o inimigo total, promovendo pânicos
morais, atacando imprensa e Justiça e vendendo um “salvador antissistema” que
negociava por dentro do sistema.
Em
2026, o roteiro é o mesmo — apenas mais polido. Menos gritos, mais cinismo.
Máquinas digitais mais profissionais. Dois caminhos para o mesmo projeto: a
extrema direita explícita ou a direita simpática ao autoritarismo.
A
essência não mudou.
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Outubro: Costa Rica, América Latina e Brasil na mesma encruzilhada
A
vitória da extrema direita na Costa Rica encerra qualquer ilusão de exceção
democrática permanente. O que aconteceu lá já aconteceu em outros países do
continente — e é exatamente esse método que tenta se reapresentar no Brasil.
A
democracia não morre apenas com tanques. Ela morre quando tribunais viram
inimigos, eleições viram suspeitas por definição e direitos passam a ser
tratados como concessões revogáveis.
Se
outubro se transformar na reabilitação eleitoral do bolsonarismo — direto ou
terceirizado — o recado será devastador: tentar destruir o Estado Democrático
de Direito compensa.
Isso
não é alternância. É regressão histórica.
E
quando a regressão se consolida, o preço sempre chega depois — mais alto, mais
duro e tarde demais.
• O Deus vacilão das bolhas da extrema
direita. Por Moisés Mendes
Em
2018, o Deus da extrema direita percebeu que o diabo protetor das esquerdas
ainda estava à espreita e orientou a turma da Lava-Jato em Curitiba a criar uma
fundação. Deltan Dallagnol, o procurador com maior fervor religioso, ficou com
a missão de juntar recursos para criar a instituição.
Sob as
ordens de Deus, Deltan saiu a catar dinheiro resultante de multas aplicadas à
Petrobras nos Estados Unidos na guerra lavajatista. Foi juntando, porque
parecia fácil, e conseguiu formar um bolo de R$ 2,5 bilhões.
Mas
Deus falhou. Gente de dentro do próprio Ministério Público conteve Deltan, e a
ideia da fundação foi abortada pela Procuradoria-Geral da República e pelo
Supremo. Foi uma das grandes falhas do Deus da extrema direita em Curitiba.
Logo
depois, o TSE cassou o registro da candidatura e assim cassou o mandato de
deputado federal de Deltan, por ter entendido que o procurador virou candidato
para evitar punições contra ele na corregedoria do MP.
A
investigação sobre a criação da fundação, na área criminal, continua
tramitando, mas sem o ritmo da Lava-Jato. Se fosse fazer as contas de quanto
foi a ajuda de seu Deus até agora, Deltan pode concluir que saiu perdendo.
No
sábado, ele se ajoelhou diante uma multidão, ao discursar no evento evangélico
The Send, em Curitiba, e pregou que só Deus pode livrar o Brasil da corrupção.
O ex-procurador e ex-deputado disse:
“Retira
dos cargos aqueles que praticam corrupção, Deus. Retira dos cargos os que
abusam do seu poder. Nós declaramos com fé: Jesus Cristo é o Senhor do Brasil”.
O Deus
e o Jesus Cristo dos líderes do bolsonarismo, mesmo do bolsonarismo dissimulado
ou disfarçado, têm contas a acertar com a turma de Deltan. O bolsonarista que
se deu melhor, mesmo que seja o que demonstre menos fé, foi Sergio Moro.
Elegeu-se
senador e manteve o mandato, apesar de também estar sob investigação em várias
frentes. Moro sabe se recolher quando os raios desorientados da política
ameaçam alcançá-lo.
O Deus
de Bolsonaro, Michelle, Flávio, Malafaia, Eduardo, Nikolas, Damares e Magno
Malta é tão desastrado quanto o de Tarcísio de Freitas. Todos têm o mesmo Deus,
que para uns aparece mais vacilão do que desajeitado e afoito, como acontece
com Tarcísio de Freitas.
E há,
mesmo fora do mundo religioso, quem acredite que eles e seus parceiros de
bolsonarismo, e só eles, sem nenhuma possibilidade de concessões às esquerdas,
só eles têm permissão de Deus para fazer o que fazem.
Deltan,
Michelle, Nikolas, Sóstenes e os que se consideram fortes por suas origens e
virtudes religiosas acreditam que Deus atua numa bolha fascista, porque só essa
bolha merece sua atenção e proteção.
Quando
se ajoelha e pede que Deus puna os corruptos, Deltan sabe que os raios cairão
sobre as cabeças de gente das facções extremistas do bolsonarismo, mais do que
sobre qualquer outro grupo.
Mas ele
insiste, porque o mundo que os sustenta politicamente é cada vez mais conectado
a essas crenças que asseguram à extrema direita a exclusividade da proteção
divina. Se não dá certo, é porque, como está na Bíblia, a falha, o erro e o
fracasso também são provação.
Foi
para tentar desfrutar dessas crenças que, no dia 18 de novembro de 2022, diante
do Palácio do Alvorada, Braga Netto pediu aos que esperavam pelo golpe: ”Não
percam a fé”.
O
general está preso desde 14 de dezembro de 2024. Foi condenado a 26 anos de
cadeia como golpista. Quantos, entre os manés condenados e os líderes
bolsonaristas, rezam por ele?
Enquanto
isso, a extrema direita continua tentando convencer metade do Brasil de que
Deus a protege em ações justiceiras, planos para criação de fundações
bilionárias e tentativas de golpe. Mas o diabo, que não tem ideologia, porque
basta ser diabo, não é bobo.
• Noblat: Kassab deseja boa sorte a Flávio
e tenta reinventar a direita
O
presidiário Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de reclusão por
tentativa de golpe de Estado, abolição violenta da democracia e outros três
crimes, foi o sujeito oculto dos principais discursos que marcaram ontem a
retomada dos trabalhos no Supremo Tribunal Federal depois do recesso do fim de
ano.
Lula
disse que “a condenação dos golpistas deixou uma mensagem clara: os
responsáveis por qualquer futura tentativa de ruptura democrática serão punidos
outra vez com o rigor da lei”. Edson Fachin, presidente do tribunal, disse que
“o Brasil tem lições de democracia a oferecer porque respeitou a Constituição”.
O
procurador-geral da República, Paulo Gonet, acrescentou que o Supremo teve
“papel decisivo ao refrear pulsões iliberais e insurgências antidemocráticas”.
E aproveitou para criticar a “gestão caótica” da pandemia do Coronavírus pelo
governo passado que custou a vida de mais de 700 mil pessoas.
Embora
convidados, os líderes da oposição não compareceram à solenidade. Além de Lula,
estiveram presentes o vice-presidente Geraldo Alckmin e cerca de dez ministros
de Estado. A dobradinha entre governo federal e Supremo segue firme, enquanto a
oposição tenta não se esfacelar de todo a oito meses das próximas eleições.
O PP do
senador Ciro Nogueira e o União Brasil de Antônio Rueda, os maiores partidos do
Centrão, parecem decididos a não lançar candidato a presidente e a concentrar
seus esforços na eleição de bancadas robustas no Congresso. O PSD de Gilberto
Kassab terá candidato a presidente para continuar crescendo em toda parte.
O jogo
que parecia jogado (Lula x Flávio Bolsonaro) foi embaralhado por Kassab ao
juntar sob o seu comando três governadores aspirantes à vaga de Lula: Ratinho
Júnior (Paraná), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ronaldo Caiado (Goiás).
Zema, governador de Minas Gerais, insiste em ser candidato.
Há no
mercado teorias para todos os gostos. A direita não bolsonarista seria capaz de
conquistar a vaga reservada a Flávio no segundo turno, e se tal acontecesse,
ela venceria Lula. Outra teoria: quantos mais candidatos da direita disputar o
primeiro turno, mais votos ela reunirá para derrotar Lula depois.
Kassab
já desejou boa sorte a Flávio, o que significa: não o apoiará num eventual
segundo turno, liberando os quadros do seu partido para que marchem com quem
preferir. Ratinho Júnior será o candidato do PSD a presidente. Flávio sonha em
atrair Zema para ser seu vice. E Lula admira Kassab, mas torce por Flávio.
Vida
que segue. Ou melhor: jogo que segue.
Fonte:
Jornal GGN/Brasil 247/Metrópoles

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