quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Gustavo Tapioca: A extrema direita avança na América Latina e o Brasil entra na zona de risco

A vitória da extrema direita na Costa Rica, decidida em primeiro turno, destrói o mito de que democracias “exemplares” estariam blindadas contra o autoritarismo. O sinal é continental e chega ao Brasil em ano eleitoral decisivo. Jair Bolsonaro está preso. O projeto político que tentou destruir o Estado Democrático de Direito segue ativo, organizado e à espera de uma nova porta de entrada.

<><> Quando a exceção cai, o alerta se torna incontornável

No domingo, 1º de fevereiro de 2026, a Costa Rica entrou oficialmente no mapa do avanço da extrema direita latino-americana. As eleições presidenciais foram decididas ainda no primeiro turno, com a vitória de Laura Fernández, candidata do Partido Soberano do Povo (PPSO), que obteve cerca de 48,3% dos votos válidos. O segundo colocado, Álvaro Ramos, do tradicional Partido de Libertação Nacional (PLN), ficou em torno de 33,4%, sem possibilidade de levar a disputa ao segundo turno.

O dado político central não está apenas no resultado, mas no que ele simboliza. Durante décadas, a Costa Rica foi apresentada como exceção regional: sem Forças Armadas, com estabilidade institucional, eleições confiáveis e alternância democrática. Se até esse modelo passa a eleger uma liderança de extrema direita, o recado é inequívoco: nenhuma democracia latino-americana está imune.

A extrema direita venceu sem ruptura explícita, sem tanques e sem segundo turno. Venceu pelo voto, pelo medo e pela promessa de ordem. É assim que o autoritarismo do século XXI avança.

<><> A América Latina como laboratório da extrema direita e o Brasil no espelho

A vitória na Costa Rica não é um acidente eleitoral. Ela confirma que a América Latina se transformou no laboratório privilegiado da nova extrema direita global — um espaço onde o autoritarismo já não precisa de golpes clássicos para se impor. Basta corroer a democracia por dentro.

Em El Salvador, Nayib Bukele consolidou um regime de exceção permanente sob o pretexto da guerra ao crime. Prisões em massa sem garantias, enquadramento do Judiciário e concentração extrema de poder tornaram-se políticas de Estado. Bukele converteu o autoritarismo em espetáculo popular e passou a ser referência explícita para a ultradireita regional.

Na Argentina, a eleição de Javier Milei levou ao poder uma extrema direita de mercado. Com discurso ultraliberal radical, ataque frontal a direitos sociais, desprezo pela política institucional e retórica de ódio contra adversários, Milei representa a face econômica do mesmo projeto: desmontar o Estado, deslegitimar a política e substituir o pacto democrático por uma lógica de choque permanente.

A Costa Rica completa esse triângulo. Um país antes tratado como vitrine democrática elegeu uma candidata que construiu sua campanha sobre o discurso de “mão de ferro” e a exaltação explícita do modelo Bukele. O autoritarismo venceu onde parecia improvável — e isso altera o mapa político do continente.

Esses governos não formam uma aliança formal, mas compartilham método, linguagem e objetivos: guerra cultural permanente, fabricação de inimigos internos, ataque às instituições de controle, relativização de direitos e promessa de ordem em troca de liberdade.

Esse método tem nome conhecido no Brasil.

<><> A zona cinzenta: quando a direita abre caminho para a extrema direita

Nem todo governo conservador latino-americano pode ser classificado como extrema direita. Mas ignorar o papel da direita liberal ou tradicional na normalização do autoritarismo seria um erro grave.

No Equador, Daniel Noboa governa sob uma direita liberal-autoritária, marcada por discurso de segurança, medidas excepcionais e militarização do cotidiano. Não é extrema direita, mas adota práticas que convergem com ela em momentos decisivos.

No Paraguai, Santiago Peña lidera uma direita tradicional, herdeira de estruturas conservadoras históricas, frequentemente disposta a alianças com forças ultraconservadoras quando isso serve à estabilidade do poder.

No Uruguai, Luis Lacalle Pou comanda uma direita liberal com respeito formal às instituições, mas cuja coalizão inclui setores conservadores duros e disposição pragmática para conviver com governos autoritários na região.

O Peru vive um cenário distinto: instabilidade institucional crônica, sucessão de governos frágeis e ausência de um projeto democrático consistente. Não há hoje um governo de extrema direita estruturado, mas o vazio político permanente cria terreno fértil para aventuras autoritárias.

Essa zona cinzenta é decisiva. A extrema direita raramente chega sozinha ao poder. Ela avança quando encontra parceiros dispostos a relativizar princípios democráticos em nome da conveniência política. Foi assim na Europa. Foi assim nos Estados Unidos. Foi assim no Brasil em 2018.

<><> Lula lidera, mas a eleição não está ganha

As pesquisas indicam que Lula entra na disputa de outubro como favorito à reeleição. Mas a eleição que se aproxima não será decidida apenas por intenção de voto. Será disputada por legitimidade, por clima político e pela capacidade da democracia resistir a um campo que já demonstrou disposição de romper as regras quando perde.

O risco brasileiro não está apenas em um candidato de extrema direita explícita. Ele reside, sobretudo, na normalização do autoritarismo por setores da direita que se apresentam como “moderados”, mas absorvem o repertório bolsonarista: ataque ao Judiciário, desconfiança sistemática das urnas, criminalização de políticas sociais e desprezo por direitos.

Não é preciso um Bolsonaro na urna para que o bolsonarismo vença.

<><> Bolsonaro preso, bolsonarismo reorganizado

A condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito é um marco histórico. Mas tratá-la como ponto final do bolsonarismo é um erro político grave.

Bolsonaro está preso, mas o movimento que liderou aprendeu, se adaptou e segue ativo. A punição virou narrativa de vitimização. O agressor tenta se apresentar como vítima; o ataque às instituições é apagado; a reação democrática é vendida como perseguição.

Nesse cenário, o lançamento de Flávio Bolsonaro como herdeiro político preserva o capital eleitoral do sobrenome e oferece aparência de normalidade institucional ao mesmo projeto autoritário. Ao redor dele orbitam outros nomes da direita que evitam a retórica golpista explícita, mas jamais romperam com o bolsonarismo.

<><> 2018 × 2026: o mesmo roteiro, mais sofisticado

Em 2018, a extrema direita venceu construindo o inimigo total, promovendo pânicos morais, atacando imprensa e Justiça e vendendo um “salvador antissistema” que negociava por dentro do sistema.

Em 2026, o roteiro é o mesmo — apenas mais polido. Menos gritos, mais cinismo. Máquinas digitais mais profissionais. Dois caminhos para o mesmo projeto: a extrema direita explícita ou a direita simpática ao autoritarismo.

A essência não mudou.

<><> Outubro: Costa Rica, América Latina e Brasil na mesma encruzilhada

A vitória da extrema direita na Costa Rica encerra qualquer ilusão de exceção democrática permanente. O que aconteceu lá já aconteceu em outros países do continente — e é exatamente esse método que tenta se reapresentar no Brasil.

A democracia não morre apenas com tanques. Ela morre quando tribunais viram inimigos, eleições viram suspeitas por definição e direitos passam a ser tratados como concessões revogáveis.

Se outubro se transformar na reabilitação eleitoral do bolsonarismo — direto ou terceirizado — o recado será devastador: tentar destruir o Estado Democrático de Direito compensa.

Isso não é alternância. É regressão histórica.

E quando a regressão se consolida, o preço sempre chega depois — mais alto, mais duro e tarde demais.

•        O Deus vacilão das bolhas da extrema direita. Por Moisés Mendes

Em 2018, o Deus da extrema direita percebeu que o diabo protetor das esquerdas ainda estava à espreita e orientou a turma da Lava-Jato em Curitiba a criar uma fundação. Deltan Dallagnol, o procurador com maior fervor religioso, ficou com a missão de juntar recursos para criar a instituição.

Sob as ordens de Deus, Deltan saiu a catar dinheiro resultante de multas aplicadas à Petrobras nos Estados Unidos na guerra lavajatista. Foi juntando, porque parecia fácil, e conseguiu formar um bolo de R$ 2,5 bilhões.

Mas Deus falhou. Gente de dentro do próprio Ministério Público conteve Deltan, e a ideia da fundação foi abortada pela Procuradoria-Geral da República e pelo Supremo. Foi uma das grandes falhas do Deus da extrema direita em Curitiba.

Logo depois, o TSE cassou o registro da candidatura e assim cassou o mandato de deputado federal de Deltan, por ter entendido que o procurador virou candidato para evitar punições contra ele na corregedoria do MP.

A investigação sobre a criação da fundação, na área criminal, continua tramitando, mas sem o ritmo da Lava-Jato. Se fosse fazer as contas de quanto foi a ajuda de seu Deus até agora, Deltan pode concluir que saiu perdendo.

No sábado, ele se ajoelhou diante uma multidão, ao discursar no evento evangélico The Send, em Curitiba, e pregou que só Deus pode livrar o Brasil da corrupção. O ex-procurador e ex-deputado disse:

“Retira dos cargos aqueles que praticam corrupção, Deus. Retira dos cargos os que abusam do seu poder. Nós declaramos com fé: Jesus Cristo é o Senhor do Brasil”.

O Deus e o Jesus Cristo dos líderes do bolsonarismo, mesmo do bolsonarismo dissimulado ou disfarçado, têm contas a acertar com a turma de Deltan. O bolsonarista que se deu melhor, mesmo que seja o que demonstre menos fé, foi Sergio Moro.

Elegeu-se senador e manteve o mandato, apesar de também estar sob investigação em várias frentes. Moro sabe se recolher quando os raios desorientados da política ameaçam alcançá-lo.

O Deus de Bolsonaro, Michelle, Flávio, Malafaia, Eduardo, Nikolas, Damares e Magno Malta é tão desastrado quanto o de Tarcísio de Freitas. Todos têm o mesmo Deus, que para uns aparece mais vacilão do que desajeitado e afoito, como acontece com Tarcísio de Freitas.

E há, mesmo fora do mundo religioso, quem acredite que eles e seus parceiros de bolsonarismo, e só eles, sem nenhuma possibilidade de concessões às esquerdas, só eles têm permissão de Deus para fazer o que fazem.

Deltan, Michelle, Nikolas, Sóstenes e os que se consideram fortes por suas origens e virtudes religiosas acreditam que Deus atua numa bolha fascista, porque só essa bolha merece sua atenção e proteção.

Quando se ajoelha e pede que Deus puna os corruptos, Deltan sabe que os raios cairão sobre as cabeças de gente das facções extremistas do bolsonarismo, mais do que sobre qualquer outro grupo.

Mas ele insiste, porque o mundo que os sustenta politicamente é cada vez mais conectado a essas crenças que asseguram à extrema direita a exclusividade da proteção divina. Se não dá certo, é porque, como está na Bíblia, a falha, o erro e o fracasso também são provação.

Foi para tentar desfrutar dessas crenças que, no dia 18 de novembro de 2022, diante do Palácio do Alvorada, Braga Netto pediu aos que esperavam pelo golpe: ”Não percam a fé”.

O general está preso desde 14 de dezembro de 2024. Foi condenado a 26 anos de cadeia como golpista. Quantos, entre os manés condenados e os líderes bolsonaristas, rezam por ele?

Enquanto isso, a extrema direita continua tentando convencer metade do Brasil de que Deus a protege em ações justiceiras, planos para criação de fundações bilionárias e tentativas de golpe. Mas o diabo, que não tem ideologia, porque basta ser diabo, não é bobo.

•        Noblat: Kassab deseja boa sorte a Flávio e tenta reinventar a direita

O presidiário Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de reclusão por tentativa de golpe de Estado, abolição violenta da democracia e outros três crimes, foi o sujeito oculto dos principais discursos que marcaram ontem a retomada dos trabalhos no Supremo Tribunal Federal depois do recesso do fim de ano.

Lula disse que “a condenação dos golpistas deixou uma mensagem clara: os responsáveis por qualquer futura tentativa de ruptura democrática serão punidos outra vez com o rigor da lei”. Edson Fachin, presidente do tribunal, disse que “o Brasil tem lições de democracia a oferecer porque respeitou a Constituição”.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, acrescentou que o Supremo teve “papel decisivo ao refrear pulsões iliberais e insurgências antidemocráticas”. E aproveitou para criticar a “gestão caótica” da pandemia do Coronavírus pelo governo passado que custou a vida de mais de 700 mil pessoas.

Embora convidados, os líderes da oposição não compareceram à solenidade. Além de Lula, estiveram presentes o vice-presidente Geraldo Alckmin e cerca de dez ministros de Estado. A dobradinha entre governo federal e Supremo segue firme, enquanto a oposição tenta não se esfacelar de todo a oito meses das próximas eleições.

O PP do senador Ciro Nogueira e o União Brasil de Antônio Rueda, os maiores partidos do Centrão, parecem decididos a não lançar candidato a presidente e a concentrar seus esforços na eleição de bancadas robustas no Congresso. O PSD de Gilberto Kassab terá candidato a presidente para continuar crescendo em toda parte.

O jogo que parecia jogado (Lula x Flávio Bolsonaro) foi embaralhado por Kassab ao juntar sob o seu comando três governadores aspirantes à vaga de Lula: Ratinho Júnior (Paraná), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ronaldo Caiado (Goiás). Zema, governador de Minas Gerais, insiste em ser candidato.

Há no mercado teorias para todos os gostos. A direita não bolsonarista seria capaz de conquistar a vaga reservada a Flávio no segundo turno, e se tal acontecesse, ela venceria Lula. Outra teoria: quantos mais candidatos da direita disputar o primeiro turno, mais votos ela reunirá para derrotar Lula depois.

Kassab já desejou boa sorte a Flávio, o que significa: não o apoiará num eventual segundo turno, liberando os quadros do seu partido para que marchem com quem preferir. Ratinho Júnior será o candidato do PSD a presidente. Flávio sonha em atrair Zema para ser seu vice. E Lula admira Kassab, mas torce por Flávio.

Vida que segue. Ou melhor: jogo que segue.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247/Metrópoles

 

 

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