quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Iuri Cavlak: Os EUA na Guiana Inglesa

Vizinha da Venezuela, pouco conhecida dos brasileiros, a República Cooperativa da Guiana, antiga Guiana Inglesa, já foi vitima de um golpe político perpetrado pelos Estados Unidos. Vários livros e artigos, a imensa maioria em inglês, destrincharam essa história, com destaque para o excelente trabalho de Sthephen J. Rabe, US. Intervention in British Guiana: a cold war history, uma pesquisa monumental sobre o assunto, publicado vinte anos atrás e ainda sem tradução para o português.

Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, a Guiana Inglesa, então colônia britânica, protagonizou um forte movimento socialista, sediando em 1946 o I Congresso de Trabalhadores do Caribe. As duas maiores etnias de então, os indo-guianenses e os afro-guianenses contavam com suas principais lideranças, o casal Cheddi e Janet Jagan, por um lado, e o advogado Forbes Simpson Burnham, por outro, fortemente articulados na formulação ideológica e na prática política.

Exilado nos anos 1930, nos EUA, Cheddi Jagan havia participado de grupos de estudos marxistas, onde solidificou sua formação intelectual. Sua esposa Janet militara no Partido Comunista dos Estados Unidos, tendo participado de ações ao lado de Robert Oppenheimer, entre outros. Forbes Simpson Burham, um então jovem advogado negro formado em Londres, igualmente partilhava do horizonte socialista, todos eles apoiadores da União Soviética e seus aliados.

Na colônia, lideraram a formação do PPP (Peoples Progressive Party), que no seu primeiro congresso, em 1951, se declarou “marxista leninista”, vaticinando a “reorganização socialista” como futuro a ser alcançado quando da formação de um país independente. Tão grande e popular foi o apelo social da mensagem que o PPP rapidamente se tornou o principal partido do sistema político, emplacando seu programa entre os trabalhadores dos canaviais, estivadores e profissionais liberais. Da Inglaterra, chegou apoio tanto do Partido Trabalhista quanto do próprio Partido Comunista Inglês.

Nas eleições legislativas de 1953, o PPP conquistou 18 das 24 cadeiras do parlamento local, fazendo com que pudesse efetivamente influir no governo na medida em que passaram a maioria também no Conselho Executivo da Colônia, junto ao governador nomeado por Londres. As primeiras medidas foram no sentido da cobrança de impostos até então sonegados pelas duas maiores multinacionais que ali exploravam, a Aluminiun Canada, da extração mineral, e a Booker Brothers no setor agrícola. Ambas denunciaram em Londres e em Washington a “ascensão do comunismo” na Guiana Inglesa.

Em 9 de outubro de 1953, 133 dias após a formação do governo, uma frota naval britânica, secundada pelos norte-americanos, ocupou e aboliu a constituição em vigor, derrubando o governo de maioria do PPP e prendendo seus principais líderes. De acordo com o estudioso Thomas Spinner Jr, tratou-se de uma atitude britânica pressionada pelos norte-americanos, que já se preparavam para atacar o governo de Jacob Arbenz na Guatemala, poucos meses depois. (Ernesto “Che” Guevara se encontraria na Guatemala naquela ocasião, um aprendizado que jamais esqueceria). A descolonização controlada dentro do arcabouço liberal só seria tolerada se não tocasse nos interesses econômicos das grandes empresas.

Em 1957, retomado o processo de conquista gradual de maior autonomia política, a Guiana Inglesa protagonizou novas eleições, com o mesmo resultado. O PPP, se mantendo na esfera do marxismo-leninismo, levou a maioria dos votos, com Cheddi Jagan tornando-se chefe de gabinete e Ministro da Indústria e sua esposa, Janet Jagan, ministra do trabalho. A essa altura, a Inglaterra já havia cedido aos Estados Unidos poder de policiamento na região porque não tinha consenso interno para nova intervenção na sua colônia de além-mar e igualmente em razão de estar alinhado a política de endossar a pax americana no Caribe naquela fase da Guerra Fria.

Em 1960, Cheddi Jagan visitou Cuba já sob o governo de Fidel Castro, logrando acordos comerciais e um empréstimo de 5 milhões de dólares para a construção de uma hidroelétrica. Voltou sozinho da ilha, pois Janet ficou mais tempo para melhor conhecer o processo revolucionário em curso. De acordo com Stephen Rabe, 1961 teria sido o melhor ano econômico da Guiana Inglesa em todo século XX, tanto em crescimento econômico quanto em distribuição de renda.

Não obstante, a luz vermelha acendeu no Departamento de Estado e no Congresso norte-americano, considerando o nascimento de um “outro Fidel Castro” na região. Jaggan foi aos Estados Unidos a convite de John Keneddy em outubro de 1961. Entrevistado na televisão, disse, entre outras coisas, que a vida de chineses e soviéticos “melhorava a cada dia”, e que o socialismo “era uma coisa muito boa”. Não se conhece ao certo o teor da conversa as portas fechadas com a administração Kennedy, apenas o resultado. Nada de empréstimo ou cooperação econômica, tudo para retira-lo do poder o quanto antes.

De modo que se iniciou efetivamente a operação para colapsar o governo do PPP na Guiana Inglesa. Os Estados Unidos aumentaram o orçamento e o envio de representantes sindicais da AFL-CIO, objetivando todo tipo de sabotagem econômica. Patrocinaram o racha no PPP, financiando o novo partido de Forbes Burham, o Peoples National Congress (PNC), que passou a militar pela divisão étnica e pela supremacia da população afro-guianesa sobre a população indo-guianesa. Carreou recursos para o empresário Peter D’Aguiar, que detinha o monopólio da produção e distribuição de bebidas, fazendo-o criar um partido político (United Front) e se aliar ao PNC contra o PPP. Daí em diante a sociedade guianesa se viu em guerra civil.

De acordo com a documentação divulgada por Sthephen Rabe, somente em 1963 a CIA chegou a gastar mais de 1 milhão de dólares com armamento para as milicias, salários para grevistas e patrocínio aos lockouts. Em torno de 50 mil trabalhadores foram pagos mensalmente pelos Estados Unidos para cruzarem os braços. Nos embates de rua, o numero de mortos chegou a 150, com 800 feridos, 200 casas destruídas e mais de dois mil indo-guianenses desabrigados. Ainda assim, o PPP venceu a última eleição democrática da colônia, levada a cabo em 1964.

Todavia, o governo inglês, escudando a intervenção norte-americana, mudou o sistema eleitoral, acabando com a maioria simples de voto e estabelecendo voto proporcional por etnia. Mesmo vencendo, o PPP se viu em minoria no parlamento na medida em que o PNC e a United Forces se uniram, deslocando Jagan do poder. Uma nova onda de violência varreu a colônia em 1965, obrigando 13 mil guianense a emigrar. Através da “Aliança para o Progresso”, a Casa Branca sacramentou o golpe, ajudando ainda mais Forbes Burham a fechar o regime.

Com os socialistas abatidos e um governo aliado, a Guiana recebeu sua independência das autoridades britânicas em 26 de maio de 1966, obviamente com a presença na cerimônia de militares estadunidenses. Embora se declarasse uma República Cooperativa, em 1970, seguiu com um regime autoritário e uma divisão étnica, com uma economia bastante subdesenvolvida e pouca importância geopolítica.

Forbes Burnham governou até sua morte por causas naturais, em 1985. Naquele período, a Guiana ficaria mais conhecida pelo trágico acontecimento envolvendo a seita Templo do Povo, criada nos EUA pelo reverendo Jim Jones, responsável pelo maior suicídio coletivo já registrado na história, cerca de 900 pessoas em novembro de 1978.

¨      A parceria China e Uruguai. Por Jiang Shixu

Apesar dos Estados Unidos mostrarem crescentes preocupações com o aprofundamento das relações entre a China e a América Latina, estas seguem avançando consistentemente. Nos próximos dias, a China estará recebendo o presidente uruguaio Yamandú Orsi, que chegou ao país no dia 1º. de fevereiro para uma visita de Estado de uma semana.

A visita marca um momento significativo em uma relação amplamente reconhecida como um modelo de cooperação Sul-Sul, baseada no respeito mútuo e em ganhos recíprocos entre um país grande e um pequeno. O presidente Yamandú Orsi é o primeiro líder latino-americano a visitar a China em 2026.

Como afirmou o presidente Yamandú Orsi em entrevista a um veículo de comunicação chinês, “a grande mansão da boa relação entre o Uruguai e a China não é construída em um dia… e cada acordo assinado e cada cooperação alcançada adiciona um novo tijolo ao edifício da relação”. De fato, desde o estabelecimento das relações diplomáticas, em 1988, os vínculos entre os dois países vêm sendo cuidadosamente cultivados, com dedicação e contribuições de ambas as partes.

Ao longo dos últimos 38 anos, as relações sino-uruguaias desenvolveram-se de forma constante e acelerada. Os dois países promovem intercâmbios em diversos níveis e apoiam-se e respeitam-se mutuamente nos assuntos internacionais. O governo uruguaio adere firmemente à política de “Uma só China”. Em 2001, foi estabelecida uma parceria definida como “relação de cooperação amigável de longo prazo, estável e mutuamente benéfica”. Em outubro de 2016, essa parceria foi elevada ao nível de “parceria estratégica” e, em novembro de 2023, avançou para o status de “parceria estratégica abrangente”.

As relações econômicas, em particular, avançaram de maneira notável. Quando os dois países estabeleceram relações diplomáticas, em 1988, o comércio bilateral era pouco superior a 100 milhões de dólares. Em 2024, esse volume alcançou 6,6 bilhões de dólares, com saldo favorável ao Uruguai.

A China exporta principalmente produtos manufaturados, uma vez que a indústria uruguaia é relativamente pouco desenvolvida, enquanto o Uruguai exporta produtos primários para o mercado chinês. Esse resultado de ganhos mútuos baseia-se nas vantagens comparativas e na complementaridade econômica entre os dois países. Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Uruguai.

Com base em um acordo cultural assinado em 1988, os intercâmbios culturais também se intensificaram de forma significativa. Companhias chinesas de acrobacia, ópera de Pequim, teatro de marionetes e outras artes performáticas apresentaram-se no Uruguai. Exposições como a “Exposição de pinturas camponesas chinesas” e a “Exposição sobre a história da civilização chinesa” foram realizadas no país. Ao mesmo tempo, artistas uruguaios de renome, incluindo guitarristas, pianistas e cantores líricos, foram convidados a se apresentar na China.

Entre 1º de junho de 2025 e 31 de maio de 2026, titulares de passaportes ordinários do Uruguai – assim como do Brasil, Argentina, Chile e Peru – poderão entrar na China sem visto para fins de negócios, turismo, visita a familiares e amigos, intercâmbio ou trânsito, por um período de até 30 dias. Esse gesto amistoso da China certamente contribuirá para intensificar os intercâmbios entre os povos dos dois países.

Em 2026, o Uruguai exerce a presidência rotativa do Grupo dos 77 (G77) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). A China mantém relações estreitas tanto com o G77 quanto com a CELAC. Nesse contexto, a presidência uruguaia tende a contribuir ainda mais para a diplomacia multilateral chinesa, especialmente porque o presidente Orsi já sinalizou sua intenção de utilizar essas plataformas para promover a integração regional e o multilateralismo.

É interessante observar que, em 15 de janeiro, forças norte-americanas no Mar do Caribe apreenderam outro petroleiro sancionado que, segundo a administração de Donald Trump, estaria ligado à Venezuela, como parte de um esforço mais amplo dos Estados Unidos para assumir o controle do petróleo do país sul-americano. Poucos dias depois, em 20 de janeiro, um navio-hospital da Marinha chinesa, em missão no âmbito da Harmonia 2025, chegou ao porto de Montevidéu para uma escala técnica de quatro dias, marcando a primeira visita de um navio da marinha chinesa ao Uruguai.

Enquanto os Estados Unidos confiscaram a propriedade de uma nação soberana, a China enviou um navio-hospital para promover intercâmbios amistosos com um país latino-americano. Não se trata de um contraste evidente?

Ainda assim, é importante ressaltar que a viagem do navio-hospital chinês havia sido planejada com vários meses, ou até um ano, de antecedência. Portanto, a visita não constituiu uma reação direta às ações dos Estados Unidos.

Como afirma o terceiro “Documento de política da China para a América Latina e o Caribe”, publicado em dezembro de 2025, “a relação China–ALC não visa nem exclui qualquer terceira parte, nem está subordinada a qualquer terceira parte. Ela atende aos interesses fundamentais de ambos os lados e está alinhada com a tendência do nosso tempo, caracterizada pela paz, pelo desenvolvimento, pela cooperação e pelo ganho mútuo em escala global”.

Espera-se que os Estados Unidos não obstruam o desenvolvimento das relações entre a China e a América Latina. Na realidade, o investimento e o comércio chineses na região também beneficiam os próprios Estados Unidos, uma vez que uma América Latina mais próspera tende a reduzir fluxos de migração ilegal e o tráfico de drogas em direção ao território norte-americano.

¨      Os ocidentais e o abismo ucraniano. Por João Claudio Platenik Pitillo

Quando os líderes ocidentais desencadearam o conflito na Ucrânia, consideraram que o mesmo seria um problema somente para a Rússia. Apostaram claramente que cruzar aquela “linha vermelha”, constituída ao fim da URSS, não traria nenhum ônus para os países da OTAN. Calcularam que, além de derrotada militarmente, a Rússia seria combalida economicamente, beneficiando automaticamente o Ocidente. Passados quatro anos do início do conflito, a Rússia está ganhando, a Ucrânia perdendo. A OTAN está em crise e a União Europeia em uma dificuldade econômica que piora diariamente.

Esses mesmos europeus são os responsáveis pela quebra das promessas feitas a Moscou quanto à segurança das fronteiras da Federação Russa. Imaginemos a reação de Bruxelas se a Rússia financiasse abertamente algum conflito dentro da Europa, fornecendo-lhe dinheiro e armas, incluindo mísseis de médio alcance, e o resultado fosse acompanhado de destruição e baixas diretamente produzidas pelo apoio russo. Parece que os líderes ocidentais não conseguem compreender a dimensão do que estão fazendo, cujo resultado é um potencial confronto direto com a Rússia.

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Parece que todos aqueles líderes ocidentais que cometeram esse erro fatal agora não têm coragem de admiti-lo. Se realmente quisessem o melhor para os ucranianos, teriam conseguido pôr fim aos combates o mais rápido possível. O único caminho real para isso é por meio da aceitação de termos bem conhecidos por todos. A aceitação dos termos de Moscou é um mal muito menor do que continuar os combates, as mortes, a mutilação de centenas de milhares de pessoas em ambos os lados e a destruição da Ucrânia como Estado.

No entanto, Bruxelas resiste obstinadamente a uma resolução de paz para o conflito na Ucrânia, preferindo a escalada, a sabotagem econômica e o confronto contínuo com a Rússia. Talvez isso se deva ao medo de que o fim da guerra exponha os erros catastróficos da elite governante europeia. Parece que a Europa não tem medo da Rússia.

A população europeia, que está sendo iludida para custear esse conflito, tende a questionar cada vez mais os seus líderes sobre soluções realistas o mais rápido possível, já que as promessas feitas em fevereiro de 2022 ainda não foram realizadas, enquanto o preço da guerra aumenta cada vez mais para os cidadãos da União Europeia.

O resultado ideal seria a assinatura de um tratado de paz abrangente que normalizasse as relações entre a Rússia, a Ucrânia e o Ocidente. Vale lembrar que nem Napoleão nem Hitler, por mais poderosos que fossem seus exércitos, conseguiram “colocar Moscou de joelhos”. É improvável que os líderes europeus modernos consigam fazê-lo.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

 

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