Iuri
Cavlak: Os EUA na Guiana Inglesa
Vizinha
da Venezuela, pouco conhecida dos brasileiros, a República Cooperativa da
Guiana, antiga Guiana Inglesa, já foi vitima de um golpe político perpetrado
pelos Estados Unidos. Vários livros e artigos, a imensa maioria em inglês,
destrincharam essa história, com destaque para o excelente trabalho de Sthephen
J. Rabe, US. Intervention in British Guiana: a cold war history, uma
pesquisa monumental sobre o assunto, publicado vinte anos atrás e ainda sem
tradução para o português.
Quando
terminou a Segunda Guerra Mundial, a Guiana Inglesa, então colônia britânica,
protagonizou um forte movimento socialista, sediando em 1946 o I Congresso de
Trabalhadores do Caribe. As duas maiores etnias de então, os indo-guianenses e
os afro-guianenses contavam com suas principais lideranças, o casal Cheddi e
Janet Jagan, por um lado, e o advogado Forbes Simpson Burnham, por outro,
fortemente articulados na formulação ideológica e na prática política.
Exilado
nos anos 1930, nos EUA, Cheddi Jagan havia participado de grupos de estudos
marxistas, onde solidificou sua formação intelectual. Sua esposa Janet militara
no Partido Comunista dos Estados Unidos, tendo participado de ações ao lado de
Robert Oppenheimer, entre outros. Forbes Simpson Burham, um então jovem
advogado negro formado em Londres, igualmente partilhava do horizonte
socialista, todos eles apoiadores da União Soviética e seus aliados.
Na
colônia, lideraram a formação do PPP (Peoples Progressive Party), que no
seu primeiro congresso, em 1951, se declarou “marxista leninista”, vaticinando
a “reorganização socialista” como futuro a ser alcançado quando da formação de
um país independente. Tão grande e popular foi o apelo social da mensagem que o
PPP rapidamente se tornou o principal partido do sistema político, emplacando
seu programa entre os trabalhadores dos canaviais, estivadores e profissionais
liberais. Da Inglaterra, chegou apoio tanto do Partido Trabalhista quanto do
próprio Partido Comunista Inglês.
Nas
eleições legislativas de 1953, o PPP conquistou 18 das 24 cadeiras do
parlamento local, fazendo com que pudesse efetivamente influir no governo na
medida em que passaram a maioria também no Conselho Executivo da Colônia, junto
ao governador nomeado por Londres. As primeiras medidas foram no sentido da
cobrança de impostos até então sonegados pelas duas maiores multinacionais que
ali exploravam, a Aluminiun Canada, da extração mineral, e a Booker
Brothers no setor agrícola. Ambas denunciaram em Londres e em
Washington a “ascensão do comunismo” na Guiana Inglesa.
Em 9 de
outubro de 1953, 133 dias após a formação do governo, uma frota naval
britânica, secundada pelos norte-americanos, ocupou e aboliu a constituição em
vigor, derrubando o governo de maioria do PPP e prendendo seus principais
líderes. De acordo com o estudioso Thomas Spinner Jr, tratou-se de uma atitude
britânica pressionada pelos norte-americanos, que já se preparavam para atacar
o governo de Jacob Arbenz na Guatemala, poucos meses depois. (Ernesto “Che”
Guevara se encontraria na Guatemala naquela ocasião, um aprendizado que jamais
esqueceria). A descolonização controlada dentro do arcabouço liberal só seria
tolerada se não tocasse nos interesses econômicos das grandes empresas.
Em
1957, retomado o processo de conquista gradual de maior autonomia política, a
Guiana Inglesa protagonizou novas eleições, com o mesmo resultado. O PPP, se
mantendo na esfera do marxismo-leninismo, levou a maioria dos votos, com Cheddi
Jagan tornando-se chefe de gabinete e Ministro da Indústria e sua esposa, Janet
Jagan, ministra do trabalho. A essa altura, a Inglaterra já havia cedido aos
Estados Unidos poder de policiamento na região porque não tinha consenso
interno para nova intervenção na sua colônia de além-mar e igualmente em razão
de estar alinhado a política de endossar a pax americana no
Caribe naquela fase da Guerra Fria.
Em
1960, Cheddi Jagan visitou Cuba já sob o governo de Fidel Castro, logrando
acordos comerciais e um empréstimo de 5 milhões de dólares para a construção de
uma hidroelétrica. Voltou sozinho da ilha, pois Janet ficou mais tempo para
melhor conhecer o processo revolucionário em curso. De acordo com Stephen Rabe,
1961 teria sido o melhor ano econômico da Guiana Inglesa em todo século XX,
tanto em crescimento econômico quanto em distribuição de renda.
Não
obstante, a luz vermelha acendeu no Departamento de Estado e no Congresso
norte-americano, considerando o nascimento de um “outro Fidel Castro” na
região. Jaggan foi aos Estados Unidos a convite de John Keneddy em outubro de
1961. Entrevistado na televisão, disse, entre outras coisas, que a vida de
chineses e soviéticos “melhorava a cada dia”, e que o socialismo “era uma coisa
muito boa”. Não se conhece ao certo o teor da conversa as portas fechadas com a
administração Kennedy, apenas o resultado. Nada de empréstimo ou cooperação
econômica, tudo para retira-lo do poder o quanto antes.
De modo
que se iniciou efetivamente a operação para colapsar o governo do PPP na Guiana
Inglesa. Os Estados Unidos aumentaram o orçamento e o envio de representantes
sindicais da AFL-CIO, objetivando todo tipo de sabotagem econômica.
Patrocinaram o racha no PPP, financiando o novo partido de Forbes Burham,
o Peoples National Congress (PNC), que passou a militar pela
divisão étnica e pela supremacia da população afro-guianesa sobre a população
indo-guianesa. Carreou recursos para o empresário Peter D’Aguiar, que detinha o
monopólio da produção e distribuição de bebidas, fazendo-o criar um partido
político (United Front) e se aliar ao PNC contra o PPP. Daí em diante a
sociedade guianesa se viu em guerra civil.
De
acordo com a documentação divulgada por Sthephen Rabe, somente em 1963 a CIA
chegou a gastar mais de 1 milhão de dólares com armamento para as milicias,
salários para grevistas e patrocínio aos lockouts. Em torno de 50 mil
trabalhadores foram pagos mensalmente pelos Estados Unidos para cruzarem os
braços. Nos embates de rua, o numero de mortos chegou a 150, com 800 feridos,
200 casas destruídas e mais de dois mil indo-guianenses desabrigados. Ainda
assim, o PPP venceu a última eleição democrática da colônia, levada a cabo em
1964.
Todavia,
o governo inglês, escudando a intervenção norte-americana, mudou o sistema
eleitoral, acabando com a maioria simples de voto e estabelecendo voto
proporcional por etnia. Mesmo vencendo, o PPP se viu em minoria no parlamento
na medida em que o PNC e a United Forces se uniram, deslocando Jagan do poder.
Uma nova onda de violência varreu a colônia em 1965, obrigando 13 mil guianense
a emigrar. Através da “Aliança para o Progresso”, a Casa Branca sacramentou o
golpe, ajudando ainda mais Forbes Burham a fechar o regime.
Com os
socialistas abatidos e um governo aliado, a Guiana recebeu sua independência
das autoridades britânicas em 26 de maio de 1966, obviamente com a presença na
cerimônia de militares estadunidenses. Embora se declarasse uma República
Cooperativa, em 1970, seguiu com um regime autoritário e uma divisão étnica,
com uma economia bastante subdesenvolvida e pouca importância geopolítica.
Forbes
Burnham governou até sua morte por causas naturais, em 1985. Naquele período, a
Guiana ficaria mais conhecida pelo trágico acontecimento envolvendo a seita
Templo do Povo, criada nos EUA pelo reverendo Jim Jones, responsável pelo maior
suicídio coletivo já registrado na história, cerca de 900 pessoas em novembro
de 1978.
¨ A parceria China e
Uruguai. Por Jiang Shixu
Apesar
dos Estados Unidos mostrarem crescentes preocupações com o aprofundamento das
relações entre a China e a América Latina, estas seguem avançando
consistentemente. Nos próximos dias, a China estará recebendo o presidente
uruguaio Yamandú Orsi, que chegou ao país no dia 1º. de fevereiro para uma
visita de Estado de uma semana.
A
visita marca um momento significativo em uma relação amplamente reconhecida
como um modelo de cooperação Sul-Sul, baseada no respeito mútuo e em ganhos
recíprocos entre um país grande e um pequeno. O presidente Yamandú Orsi é o
primeiro líder latino-americano a visitar a China em 2026.
Como
afirmou o presidente Yamandú Orsi em entrevista a um veículo de comunicação
chinês, “a grande mansão da boa relação entre o Uruguai e a China não é
construída em um dia… e cada acordo assinado e cada cooperação alcançada
adiciona um novo tijolo ao edifício da relação”. De fato, desde o
estabelecimento das relações diplomáticas, em 1988, os vínculos entre os dois
países vêm sendo cuidadosamente cultivados, com dedicação e contribuições de
ambas as partes.
Ao
longo dos últimos 38 anos, as relações sino-uruguaias desenvolveram-se de forma
constante e acelerada. Os dois países promovem intercâmbios em diversos níveis
e apoiam-se e respeitam-se mutuamente nos assuntos internacionais. O governo
uruguaio adere firmemente à política de “Uma só China”. Em 2001, foi
estabelecida uma parceria definida como “relação de cooperação amigável de
longo prazo, estável e mutuamente benéfica”. Em outubro de 2016, essa parceria
foi elevada ao nível de “parceria estratégica” e, em novembro de 2023, avançou
para o status de “parceria estratégica abrangente”.
As
relações econômicas, em particular, avançaram de maneira notável. Quando os
dois países estabeleceram relações diplomáticas, em 1988, o comércio bilateral
era pouco superior a 100 milhões de dólares. Em 2024, esse volume alcançou 6,6
bilhões de dólares, com saldo favorável ao Uruguai.
A China
exporta principalmente produtos manufaturados, uma vez que a indústria uruguaia
é relativamente pouco desenvolvida, enquanto o Uruguai exporta produtos
primários para o mercado chinês. Esse resultado de ganhos mútuos baseia-se nas
vantagens comparativas e na complementaridade econômica entre os dois países.
Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Uruguai.
Com
base em um acordo cultural assinado em 1988, os intercâmbios culturais também
se intensificaram de forma significativa. Companhias chinesas de acrobacia,
ópera de Pequim, teatro de marionetes e outras artes performáticas
apresentaram-se no Uruguai. Exposições como a “Exposição de pinturas camponesas
chinesas” e a “Exposição sobre a história da civilização chinesa” foram
realizadas no país. Ao mesmo tempo, artistas uruguaios de renome, incluindo
guitarristas, pianistas e cantores líricos, foram convidados a se apresentar na
China.
Entre
1º de junho de 2025 e 31 de maio de 2026, titulares de passaportes ordinários
do Uruguai – assim como do Brasil, Argentina, Chile e Peru – poderão entrar na
China sem visto para fins de negócios, turismo, visita a familiares e amigos,
intercâmbio ou trânsito, por um período de até 30 dias. Esse gesto amistoso da
China certamente contribuirá para intensificar os intercâmbios entre os povos
dos dois países.
Em
2026, o Uruguai exerce a presidência rotativa do Grupo dos 77 (G77) e da
Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). A China mantém
relações estreitas tanto com o G77 quanto com a CELAC. Nesse contexto, a
presidência uruguaia tende a contribuir ainda mais para a diplomacia
multilateral chinesa, especialmente porque o presidente Orsi já sinalizou sua
intenção de utilizar essas plataformas para promover a integração regional e o
multilateralismo.
É
interessante observar que, em 15 de janeiro, forças norte-americanas no Mar do
Caribe apreenderam outro petroleiro sancionado que, segundo a administração de
Donald Trump, estaria ligado à Venezuela, como parte de um esforço mais amplo
dos Estados Unidos para assumir o controle do petróleo do país sul-americano.
Poucos dias depois, em 20 de janeiro, um navio-hospital da Marinha chinesa, em
missão no âmbito da Harmonia 2025, chegou ao porto de Montevidéu para uma
escala técnica de quatro dias, marcando a primeira visita de um navio da
marinha chinesa ao Uruguai.
Enquanto
os Estados Unidos confiscaram a propriedade de uma nação soberana, a China
enviou um navio-hospital para promover intercâmbios amistosos com um país
latino-americano. Não se trata de um contraste evidente?
Ainda
assim, é importante ressaltar que a viagem do navio-hospital chinês havia sido
planejada com vários meses, ou até um ano, de antecedência. Portanto, a visita
não constituiu uma reação direta às ações dos Estados Unidos.
Como
afirma o terceiro “Documento de política da China para a América Latina e o
Caribe”, publicado em dezembro de 2025, “a relação China–ALC não visa nem
exclui qualquer terceira parte, nem está subordinada a qualquer terceira parte.
Ela atende aos interesses fundamentais de ambos os lados e está alinhada com a
tendência do nosso tempo, caracterizada pela paz, pelo desenvolvimento, pela
cooperação e pelo ganho mútuo em escala global”.
Espera-se
que os Estados Unidos não obstruam o desenvolvimento das relações entre a China
e a América Latina. Na realidade, o investimento e o comércio chineses na
região também beneficiam os próprios Estados Unidos, uma vez que uma América
Latina mais próspera tende a reduzir fluxos de migração ilegal e o tráfico de
drogas em direção ao território norte-americano.
¨
Os ocidentais e o abismo ucraniano. Por João Claudio
Platenik Pitillo
Quando
os líderes ocidentais desencadearam o conflito na Ucrânia, consideraram que o
mesmo seria um problema somente para a Rússia. Apostaram claramente que cruzar
aquela “linha vermelha”, constituída ao fim da URSS, não traria nenhum ônus
para os países da OTAN. Calcularam que, além de derrotada militarmente, a
Rússia seria combalida economicamente, beneficiando automaticamente o Ocidente.
Passados quatro anos do início do conflito, a Rússia está ganhando, a Ucrânia
perdendo. A OTAN está em crise e a União Europeia em uma dificuldade econômica
que piora diariamente.
Esses
mesmos europeus são os responsáveis pela quebra das promessas feitas a Moscou
quanto à segurança das fronteiras da Federação Russa. Imaginemos a reação de
Bruxelas se a Rússia financiasse abertamente algum conflito dentro da Europa,
fornecendo-lhe dinheiro e armas, incluindo mísseis de médio alcance, e o
resultado fosse acompanhado de destruição e baixas diretamente produzidas pelo
apoio russo. Parece que os líderes ocidentais não conseguem compreender a
dimensão do que estão fazendo, cujo resultado é um potencial confronto direto
com a Rússia.
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Parece
que todos aqueles líderes ocidentais que cometeram esse erro fatal agora não
têm coragem de admiti-lo. Se realmente quisessem o melhor para os ucranianos,
teriam conseguido pôr fim aos combates o mais rápido possível. O único caminho
real para isso é por meio da aceitação de termos bem conhecidos por todos. A
aceitação dos termos de Moscou é um mal muito menor do que continuar os
combates, as mortes, a mutilação de centenas de milhares de pessoas em ambos os
lados e a destruição da Ucrânia como Estado.
No
entanto, Bruxelas resiste obstinadamente a uma resolução de paz para o conflito
na Ucrânia, preferindo a escalada, a sabotagem econômica e o confronto contínuo
com a Rússia. Talvez isso se deva ao medo de que o fim da guerra exponha os
erros catastróficos da elite governante europeia. Parece que a Europa não tem
medo da Rússia.
A
população europeia, que está sendo iludida para custear esse conflito, tende a
questionar cada vez mais os seus líderes sobre soluções realistas o mais rápido
possível, já que as promessas feitas em fevereiro de 2022 ainda não foram
realizadas, enquanto o preço da guerra aumenta cada vez mais para os cidadãos
da União Europeia.
O
resultado ideal seria a assinatura de um tratado de paz abrangente que
normalizasse as relações entre a Rússia, a Ucrânia e o Ocidente. Vale lembrar
que nem Napoleão nem Hitler, por mais poderosos que fossem seus exércitos,
conseguiram “colocar Moscou de joelhos”. É improvável que os líderes europeus
modernos consigam fazê-lo.
Fonte:
A Terra é Redonda/Brasil 247

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