Venezuela
– como sair do pântano
Passado
mais de um mês do ataque dos EUA contra a Venezuela, que incorpora diretamente
a América Latina a um cenário de guerra imperialista que se desenvolve em quase
todos os continentes, a reação popular suscitada pelos acontecimentos está, por
enquanto, bem aquém de sua gravidade, sem falar no apoio que governos
direitistas latino-americanos prestaram, sem a menor vergonha, ao ataque e à
violação da soberania nacional e continental.
Na
Venezuela dominam o estupor e a confusão. Em Cuba, país mais diretamente
afetado pela transformação da pátria de Bolívar em protetorado colonial
norte-americano, que perdeu 32 cidadãos combatentes no teatro da escalada, as
mobilizações tiveram mais um caráter oficial imposto pelo governo, distando de
uma autêntica mobilização popular.
Um
amigo cubano nos confiou que domina a “preocupação com um possível ataque, que
não decorre de uma atitude militante, e sim da típica ansiedade do civil em
relação a uma possível guerra. E outra preocupação que, inacreditavelmente,
surgiu entre os jovens: o que foi feito de Maduro foi necessário”.
No
Brasil, em 17 de janeiro houve uma plenária convocada pelas principais forças
de esquerda para organizar a luta contra a agressão ianque e pela libertação de
Maduro e sua esposa e deputada Cilia. Foi aprovado um dia continental de luta
nas ruas (para o 28 de janeiro, pois a data comemora 12 anos da proclamação da
CELAC: “América latina como zona de paz”) pela “liberdade de Maduro e Cília,
já! Fora Trump, somos Zona de Paz”. Em 3 de fevereiro haverá mobilizações em
todo continente, e também será um dia mundial de luta que se manterá todos os
dias 3 de cada mês.
A
mobilização, que deve imperativamente ser unitária, não nos poupa de
analisarmos o caráter da situação criada na Venezuela com a agressão militar,
que propicia uma transição política favorável ao imperialismo, de projeção
continental, inclusive no Brasil. Em 3 de janeiro, os venezuelanos acordaram
com o estrondo de explosões, o zumbido de helicópteros de ataque e o ruído de
aeronaves de última geração.
Pela
primeira vez na história da América do Sul, os Estados Unidos invadiram
diretamente o território de uma de nossas nações, deixando um rastro de caos e
destruição em menos de duas horas de operação. Aqueles que apoiaram o ataque
americano para depor Maduro do poder viram sua ilusão desfeita, pois
acreditavam que o ataque afetaria apenas os membros da cúpula do governo; os
mais de 100 mortos eram todos filhos e filhas de trabalhadores, pessoas comuns.
Nenhum indivíduo rico morreu, como sempre acontece são os pobres os que sofrem
as consequências da guerra. A dor dessa perda de vidas uniu todos os
venezuelanos.
Aqueles
que acreditavam que um ataque americano em solo venezuelano seria equivalente a
um novo Vietnã, tiveram que suportar a vergonha de testemunhar a maior derrota
e humilhação sofrida pelo exército venezuelano em sua história, com
consequências ainda mais desastrosas do que a perda da Primeira República para
os espanhóis, pois naquela época a resistência se reorganizou rapidamente e
retomou a luta pela independência nacional.
Isso
não acontece hoje; pelo contrário, vergonhosamente, a cúpula militar alega que
o ocorrido foi o triunfo da diplomacia sobre as armas, numa aceitação tácita
das tentativas de transformar a República em colônia. O ataque americano não só
ocorreu sem baixas em suas tropas, como também permitiu que ameaçassem um
segundo ataque, mais letal, fazendo com que o discurso da cúpula militar
abandonasse rapidamente toda a retórica anti-imperialista.
Hoje,
muitos venezuelanos se perguntam se, em meio à difícil conjuntura econômica,
forças armadas desse tipo são necessárias, se o volume de gastos militares se
justifica num país onde professores precisam ir à sala de aula com as solas dos
sapatos rasgadas.
Mas
naquele dia, a ordem jurídica internacional também se dissolveu, como se um dos
mísseis usados tivesse atingido os próprios alicerces da coexistência, o
direito e os órgãos judiciais multilaterais. O presidente Nicolás Maduro e a
congressista Cilia Flores foram algemados, sequestrados e levados para Nova
York, violando, além da soberania nacional venezuelana, a imunidade de seus
cargos e submetendo-os ao sistema judiciário de um país estrangeiro.
Algemados,
com sinais de terem sofrido violência durante o sequestro, foram exibidos como
troféus de guerra, transformados em prisioneiros; as acusações contra eles
foram lidas por um tribunal que defende a lei estadunidense e para quem a
Venezuela é apenas um lugar. O julgamento começou, e fala-se da necessidade de
devido processo legal, como se um ato que viola o direito internacional
precisasse ser legitimado. A única opção humanitária diante do sequestro é a
libertação; não há outra.
Sabemos
que o governo de Nicolás Maduro representou o pior infortúnio para a classe
trabalhadora na história republicana da Venezuela, um regime que interveio,
cooptou e submeteu as lideranças dos partidos de esquerda a decisões judiciais,
proibiu o direito à greve, apagou a noção de direitos adquiridos como parte da
negociação coletiva, destruiu os salários reduzindo o salário mínimo a meros
US$ 0,40 por mês e estabelecendo um teto máximo de renda de US$ 160 por mês
(bônus, não salário) e, desde 2018, impediu a legalização de sindicatos
independentes e, na prática, proibiu o direito à greve.
Embora
as sanções econômicas tenham afetado a economia e a renda do país, o sofrimento
da classe trabalhadora começou antes de 2017, ano em que foram impostas as
Medidas Coercitivas Unilaterais contra o comércio internacional venezuelano.
O que
ocorreu nos últimos anos na Venezuela foi uma brutal transferência da riqueza
nacional para o setor bancário e financeiro, para a velha classe dominante e
para a nova burguesia bolivariana. Em proporção direta ao aumento da receita do
país com a extraordinária venda de petróleo aos Estados Unidos devido à guerra
na Ucrânia, a renda salarial caiu; a curva de renda do país foi inversamente
proporcional à queda dos salários e da renda da classe trabalhadora.
Mas
Nicolás Maduro é, acima de tudo, um venezuelano, um latino-americano, que só
deve ser julgado em seu próprio país e sob suas leis nacionais. É o povo
venezuelano que deve decidir seu futuro político, e nunca qualquer potência
estrangeira.
É
impossível exigir o cumprimento do direito internacional para o presidente
Nicolás Maduro e sua esposa sem examinar a situação jurídica da classe
trabalhadora e dos cidadãos em geral no país. Somente no último ano, mais de
duas mil pessoas foram presas pelo crime de expressar opiniões contrárias ao
governo, acusadas de incitar o ódio e conspirar contra o Estado. Ser membro da
oposição na Venezuela representa um risco para a liberdade individual, a paz
familiar e a própria vida.
O
Ministro do Interior, Diosdado Cabello Rondón, cunhou o termo “tum tum” (bater
à porta), popularizando a operação policial que ocorre nas primeiras horas da
manhã nas casas de membros da oposição, sem mandado ou medidas cautelares, sem
acusações formais, que resulta em prisões. É aí que começa o calvário para as
famílias, que vasculham todos os centros de detenção, delegacias, tribunais e
promotorias, implorando por informações sobre seus entes queridos, apenas para
ouvir: “Não temos informações sobre esse caso”.
Muitos
permanecem em estado de desaparecimento forçado por semanas ou até meses, até
que se reconheça que estão detidos, sem que nenhuma acusação seja formalizada.
Mesmo em casos como o de Enrique Márquez (ex-candidato à presidência e
porta-voz da Frente Popular Democrática), alegou-se, após vários meses de seu
desaparecimento, que “ele não foi detido, mas sim convidado a conversar”. Na
grande maioria dos casos, não lhes é permitido contratar um advogado particular
para defendê-los e tentar localizar o processo, sendo-lhes atribuído um
defensor público, ou seja, um profissional do direito que trabalha para o
governo que os prendeu.
Essa
situação, descrita pelas famílias dos detidos como sequestro, afetou mulheres,
menores e trabalhadores. Um caso é mais bizarro que o outro: Félix Gustavo
Montoya, um aposentado de 72 anos, foi preso em Calabozo, no estado de Guárico,
acusado de traição por pichar grafites contra o governo; Luis Óscar Rondón
Rodríguez, preso em 29 de julho de 2024 (após as eleições), foi espancado pelo
“crime” de estar no lugar errado na hora errada; Juan Valero, um eletricista,
está preso há um ano sem justa causa; Juan Francisco Alvarado, um estudante de
comunicação, foi preso por denunciar apagões em sua comunidade pelo próprio
aplicativo criado pelo governo para esse fim e condenado a 15 anos de prisão.
Existem
centenas de casos de prisões arbitrárias, sentenças desproporcionais e
infundadas, julgamentos sem o devido processo legal, prisões sem ordem judicial
ou acusação formal, sem garantias processuais, a maioria dos quais ocorreu
desde 29 de julho de 2024.
Muitos
dos detidos simplesmente haviam publicado algo crítico ao governo em suas redes
sociais, algo comum em qualquer lugar do mundo. Antes de 3 de janeiro, o
governo não reconhecia a existência de presos políticos (pessoas comuns detidas
por expressarem opiniões contrárias aos resultados das eleições ou às políticas
governamentais) e cidadãos ainda desaparecidos.
Foi
preciso que Donald Trump, após anunciar sua intenção de transformar a Venezuela
em uma colônia, pedisse o fechamento de El Helicoide (uma prisão para
opositores do governo, local denunciado pelo uso de tortura) e a libertação de
presos políticos, para que o presidente da Assembleia Nacional, Jorge
Rodríguez, falasse em uma libertação em massa de mais de 400 detidos – ele
agora afirma que o número chegou a 626 – e na revisão de mais casos.
No
entanto, o Comitê para a Liberdade dos Ativistas Sociais alertou, em 23 de
janeiro de 2026, que apenas 172 cidadãos haviam sido libertados sob fiança.
Outras organizações de direitos humanos e sindicais, como Provea, Laboratório
de Paz, Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa, Espaço Público,
COFAVIC, confirmam isto.
O Fórum
Penal, uma ONG de direitos humanos, relata que, após os eventos de 3 de janeiro
de 2026, o número de detidos aumentou em decorrência da aplicação do Artigo 5º
do Decreto de Comoção Externa, publicado após o sequestro de Maduro e sua
esposa. Em outras palavras, está sendo aplicada uma espécie de porta giratória:
enquanto alguns são libertados, outros são detidos. As acusações geralmente são
de incitação ao ódio, traição ou conspiração.
Desde a
publicação do decreto, autoridades militares e policiais, juntamente com
agentes de inteligência disfarçados de membros de grupos armados pró-governo,
têm revistado celulares nas ruas em busca de qualquer crítica ao governo, que
consideram prova de que os indivíduos estariam incriminados por uma das
acusações mencionadas. Muitos cidadãos estão saindo de casa sem seus celulares
para evitar detenções arbitrárias.
Enrique
Márquez (detido há mais de um ano), Nicmer Evans (cientista político, diretor
do veículo de mídia alternativa Punto de Corte e ex-membro da Marea Socialista)
e uma longa lista de presos começaram a ser libertados, mas muitos outros
permanecem detidos por motivos políticos. Centenas de líderes sociais e
sindicais, moradores de bairros pobres cujo único crime foi publicar críticas a
Nicolás Maduro, ainda estão presos.
Muitos
desses indivíduos são relativamente desconhecidos na mídia, invisíveis para a
grande imprensa, e suas mães, esposas e filhos estão realizando vigílias em
frente aos centros de detenção. Surgentes, uma ONG que denunciou amplamente o
ataque dos EUA à Venezuela, relata que a luta das mães pela liberdade de seus
filhos presos está crescendo, exigindo uma verdadeira anistia geral e a
libertação de todos os detidos.
Seria
um ato de cinismo político exigir o devido processo legal para o presidente
Maduro sem exigir o mesmo para os milhares de venezuelanos que vivenciam em
primeira mão o desrespeito à lei. Um ato de racionalidade e inteligência
política por parte do quarteto que lidera o governo interino (Delcy e Jorge
Rodríguez, Diosdado Cabello e Vladimir Padrino) seria abrir as portas de todos
os centros de detenção de presos políticos. Esse gesto contribuiria para
alimentar o sentimento nacional anti-imperialista para enfrentar o inimigo da
pátria.
O
bloqueio naval e militar dos EUA às costas venezuelanas, em curso desde agosto
de 2025, juntamente com a manipulação da mídia internacional e o soft
power estadunidense nos últimos anos, busca retratar a Venezuela como
uma nação dividida entre bolivarianos (chavistas e apoiadores de Maduro) e a
direita democrática.
Essa
polarização visa obscurecer a existência da oposição de esquerda, ou seja,
excluir a esquerda da equação política para a resolução do conflito. Na esfera
midiática eles obtiveram grande sucesso, pois hoje muitos, no exterior, se
surpreendem quando lhes dizemos que a verdadeira esquerda na Venezuela não é
composta por apoiadores de Nicolás Maduro.
A razão
para esse ocultamento deliberado, compartilhado pelo imperialismo e pelo
governo venezuelano, é que as classes dominantes sabem que será muito difícil
restaurar o padrão de vida e os salários da população aos níveis de 2013 ou
1982, como prometeram recentemente, especialmente após a violação da soberania
pelas forças militares dos EUA. Isso colocou o descontentamento, a rebelião e a
agitação social no horizonte da política nacional. Isolar a esquerda visa
impedi-la de ganhar influência nesse cenário.
Nos
últimos anos, mesmo num contexto de severas limitações às liberdades políticas,
desenvolveu-se uma ampla oposição de esquerda, que engloba o PCV Dignidade, o
PPT, a corrente COMUNES, a Maré Socialista, o Partido Socialismo e Liberdade, o
Bloco Histórico e outros movimentos. Simultaneamente, a classe trabalhadora tem
reconstruído os seus mecanismos de organização e luta, sobretudo através do
Comité Nacional dos Trabalhadores em Luta (CNCTL) e do pacto de unidade
finalmente assinado por todas as principais federações operárias em 12 de
dezembro de 2025
Essa
realidade preocupa a burguesia (tanto da Quarta quanto da Quinta República) e
os Estados Unidos, que bloquearam a divulgação de suas atividades na grande
mídia, e sua presença sofre os rigores da exclusão algorítmica nas redes
sociais. Tanto o governo de Nicolás Maduro – e agora o de Delcy Rodríguez –
quanto os Estados Unidos, ao se referirem à oposição, fazem-no apenas no
sentido de mencionar a direita, tanto a cooptada pelo governo quanto a liderada
por María Corina Machado.
Eles
imaginam que, se impedirem a existência da oposição de esquerda de ser
divulgada, ela desaparecerá. Trata-se de um tremendo erro de cálculo. A
esquerda tem vasta experiência em sobreviver sob regimes autoritários e
ditatoriais e começou a reconstruir sua relação com o movimento social que
resiste à polarização.
Mas a
negação da existência de uma oposição de esquerda na Venezuela não é uma
posição defendida apenas pelo governo, pelo imperialismo estadunidense e pela
direita local e global; um setor da esquerda global preferiu ignorar isso,
agarrando-se ao conforto do pensamento binário e atribuindo ao regime de
Nicolás Maduro um caráter revolucionário e anti-imperialista que ele abandonou
na prática há muito tempo.
A
verdade é que o governo venezuelano perdeu seu caráter de esquerda há muito
tempo, mesmo mantendo elementos retóricos, enquanto implementava um pacote
neoliberal e negociava um estatuto semicolonial com os Estados Unidos. O ápice
dessa dualidade esquizofrênica foi o encontro em Caracas, a cidade bombardeada,
entre a presidente interina e a liderança do governo venezuelano com o diretor
da CIA – justamente a pessoa responsável por orquestrar o atentado de 3 de
janeiro e o sequestro de Nicolás Maduro.
É
estarrecedor que a esquerda não compreenda que o que importa é estar ao lado
daqueles que vivenciam as dificuldades da classe trabalhadora, e não calcular
quantos governos se identificam como de direita e quantos como progressistas; a
política do povo não é um jogo de monopólio. De fato, enquanto o líder da
Central Bolivariana Socialista de Trabalhadores (CBST), burocrática e alinhada
aos patrões, jamais liderou uma greve em defesa da classe trabalhadora, dezenas
de líderes sindicais de base na Venezuela estão atualmente presos ou sujeitos a
medidas restritivas de liberdade, simplesmente por ousarem exigir aumentos
salariais e o direito à greve.
Em seus
próprios países, os membros dessas organizações de esquerda não se calariam
diante de cortes salariais ou da repressão aos movimentos sociais. É um papel
lamentável desempenhado por essa esquerda que, por meio de omissão consciente,
contribui para obscurecer a existência de uma oposição de esquerda na
Venezuela.
A
esquerda enfrenta a tarefa de organizar a resistência contra os avanços do
fascismo, da extrema-direita e do imperialismo, construindo alianças
anti-imperialistas inclusive em escala global, sem obscurecer a verdadeira
situação da classe trabalhadora venezuelana. Devemos promover a unidade de
ação, exigindo a restauração dos direitos democráticos básicos da classe
trabalhadora, pois os únicos que se beneficiam da falta de organização autônoma
dos trabalhadores são o capitalismo e o imperialismo.
Uma
política desta natureza, longe de enfraquecer, fortaleceria a mobilização
unitária anti-imperialista, ao dotá-la da única levedura que pode lhe dar
consistência e continuidade: a perspectiva da unidade na luta dos trabalhadores
e povos oprimidos da América Latina e do mundo inteiro.
Fonte:
Por Luis Bonilla-Molina, em A Terra é Redonda

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