Trump
está dando um golpe nos EUA
Não é
crise institucional. Não é polarização. Não é excesso retórico. Os Estados
Unidos vivem, em 2026, um golpe de Estado em andamento conduzido sem tanques,
mas com mapas eleitorais manipulados, instituições capturadas e uma população
submetida a operações psicológicas permanentes.
<><>
O golpe em curso: suspensão prática da democracia
Não é
crise institucional. Não é polarização. Não é excesso retórico. Os Estados
Unidos vivem, em 2026, um golpe de Estado em andamento conduzido sem tanques,
mas com a manipulação sistemática das regras políticas, o uso seletivo da
coerção estatal e a normalização da violência como método de governo. O erro
recorrente das leituras convencionais é tratar o processo como instabilidade
episódica quando, na realidade, o que está em curso é a suspensão prática da
democracia. As eleições continuam existindo, o Congresso permanece aberto e os
tribunais seguem funcionando, mas o princípio central da alternância de poder
já não orienta o sistema.
O golpe
contemporâneo não se anuncia porque não precisa. Ele se instala pela
administração do cotidiano político. Regras eleitorais são reescritas fora de
seus ciclos, instituições são pressionadas até perder autonomia real e a força
do Estado passa a ser empregada de maneira assimétrica contra territórios e
populações politicamente adversas. A legalidade deixa de operar como limite e
passa a funcionar como instrumento. O que define o golpe não é a ruptura formal
da Constituição, mas a conversão das instituições em engrenagens de um projeto
que já não admite a possibilidade de derrota.
Esse
novo limiar histórico se consolida quando um projeto de poder, liderado por
Donald Trump, passa a tratar a vitória eleitoral como condição inegociável e a
derrota como ameaça existencial. A partir desse ponto, a democracia deixa de
ser um meio legítimo de disputa e se transforma em obstáculo a ser contornado.
Quando o Estado reorganiza suas normas, seus aparatos e sua força para impedir
a própria contingência do resultado político, o regime já não pode ser descrito
como democrático. Ele passa a operar, na prática, como um sistema autoritário
em consolidação.
<><>
A racionalidade autoritária: quando perder não é opção
O
autoritarismo que avança hoje nos Estados Unidos não nasce de impulsos
irracionais ou de colapsos súbitos. Ele emerge de um cálculo político preciso.
Transformações demográficas profundas, concentração urbana, mudança no perfil
do trabalho e reorganização cultural produziram uma maioria social
estruturalmente desfavorável ao projeto político que sustenta o atual regime.
Esse dado não é conjuntural nem reversível no curto prazo. Diante dele, a
disputa eleitoral tradicional deixa de ser um caminho confiável para a
manutenção do poder.
Quando
vencer se torna improvável, a lógica da política se desloca. O problema já não
é construir consenso, mas neutralizar adversários. A arena do debate público
perde centralidade e cede lugar à engenharia institucional. O poder passa a ser
preservado não pela adesão da maioria, mas pela manipulação das condições que
definem quem conta, quem decide e quem pode participar do processo político. O
autoritarismo, nesse contexto, não é um desvio ideológico, mas uma solução
funcional para um projeto que já não consegue se reproduzir dentro das regras.
Essa
racionalidade explica a coerência das ações em curso. Ataques a instituições,
reconfiguração das regras eleitorais, uso seletivo da força do Estado e
deslegitimação preventiva de resultados não são excessos desordenados. São
peças de um mesmo tabuleiro. Quando um regime passa a operar com a premissa de
que perder eleições não é aceitável, ele abandona a democracia antes mesmo de
precisar suprimi-la formalmente. O autoritarismo contemporâneo começa
exatamente aí, no momento em que a contingência do resultado político deixa de
ser tolerável.
<><>
Gerrymandering de exceção: mapas como tecnologia de neutralização
O
gerrymandering deixou de ser uma distorção recorrente do sistema para se tornar
uma tecnologia de neutralização política permanente. A ruptura decisiva ocorre
quando o redesenho de distritos passa a ser imposto fora do ciclo censitário,
como resposta direta ao risco eleitoral. O mapa deixa de refletir mudanças
demográficas e passa a antecipar resultados. Não se corrige uma imperfeição
histórica; fabrica-se uma maioria institucional artificial capaz de sobreviver
à perda da maioria social.
Essa
mutação é acompanhada por coerção política aberta. Legislativos estaduais são
pressionados, ameaçados ou chantageados para aprovar mapas favoráveis, enquanto
o debate público é deslocado para disputas técnicas que ocultam o efeito real
do processo. Distritos são fracionados para diluir votos adversários ou
empacotados para confiná-los em poucas cadeiras. O rito eleitoral permanece
intacto, mas o princípio da equivalência do voto é corroído. A violência aqui é
estrutural: milhões de eleitores continuam votando, mas seus votos passam a
valer menos por desenho deliberado.
Quando
o acesso ao poder passa a depender da manipulação contínua das regras, o
sistema político deixa de ser competitivo. Ele se transforma em mecanismo de
reprodução forçada do poder. O gerrymandering de exceção permite vencer antes
da campanha, neutralizando o eleitorado antes do debate. Nesse estágio, o mapa
não organiza a representação; organiza a exclusão. Não se trata mais de um
problema da democracia, mas da evidência de que ela já foi suspensa na prática.
<><>
Violência federal seletiva: o ICE como instrumento de coerção política
A
escalada do uso de força federal em estados governados por democratas marca uma
inflexão decisiva do regime. A presença intensificada de agentes do Immigration
and Customs Enforcement em territórios politicamente sensíveis não pode ser
lida como política migratória ordinária. Trata-se de operações ostensivas,
concentradas, com aparato armado e impacto direto sobre comunidades civis,
realizadas sob justificativas amplas que permitem intervenções territoriais
prolongadas. O efeito não é apenas policial. É político. Produz medo,
desorganiza a vida cotidiana e cria um clima de exceção permanente em áreas
estratégicas do mapa eleitoral.
Em
estados como Minnesota, essa presença federal coincide com disputas centrais de
redesenho distrital e com resistências institucionais ao projeto do regime. A
imigração funciona como cobertura operacional para uma coerção que vai além do
enforcement. Ao tensionar autoridades locais, confrontar governos estaduais e
intervir de forma ostensiva em comunidades específicas, o poder federal
sinaliza que a dissidência territorial terá custo elevado. O objetivo não é
apenas aplicar a lei, mas impor um ambiente de instabilidade controlada capaz
de influenciar decisões políticas, reconfigurar correlações locais de força e
enfraquecer a capacidade de resistência institucional.
Esse
uso seletivo da violência estatal rompe um limite histórico fundamental. Pela
primeira vez em décadas, agências federais armadas passam a ser mobilizadas
como parte de uma estratégia política interna explícita, não apenas como
instrumento administrativo. A fronteira entre segurança pública e coerção
política é deliberadamente borrada. Quando a força do Estado é empregada para
intimidar territórios adversários e condicionar disputas eleitorais, a
democracia deixa de operar como espaço de mediação de conflitos e passa a
funcionar sob lógica de ocupação. A violência não é um desvio do regime. Ela é
parte constitutiva de sua forma de governar.
<><>
Supressão seletiva do voto: exclusão política dirigida
A
manipulação do mapa e o uso da coerção territorial seriam insuficientes sem um
terceiro eixo decisivo: a supressão seletiva do voto. O regime não busca
reduzir a participação eleitoral em geral, mas filtrar o eleitorado. Barreiras
administrativas, exigências documentais arbitrárias, redução de locais de
votação e mudanças procedimentais de última hora operam como mecanismos de
exclusão direcionada. O voto permanece formalmente garantido, mas seu exercício
passa a depender de obstáculos desigualmente distribuídos no território e na
estrutura social.
Esse
modelo produz um efeito preciso. Populações urbanas, pobres, racializadas e
politicamente adversas enfrentam custos crescentes para votar, enquanto setores
alinhados ao regime encontram um caminho desimpedido. A desigualdade política
deixa de ser um subproduto do sistema e passa a ser política pública. A eleição
não é cancelada; ela é calibrada. O direito universal se transforma em
privilégio condicionado à capacidade de atravessar uma burocracia hostil.
Ao
integrar supressão do voto, gerrymandering de exceção e coerção federal, o
regime constrói um sistema fechado. O mapa define onde o voto vale menos, a
burocracia define quem consegue votar e a força define quem pode resistir.
Nesse arranjo, a exclusão não precisa ser explícita para ser eficaz. Basta que
seja sistemática. Quando parcelas inteiras da sociedade são afastadas do
processo decisório por desenho institucional deliberado, a democracia deixa de
ser mecanismo de escolha coletiva e passa a funcionar como dispositivo de
triagem política.
<><>
Blindagem jurídica e legalização da exceção
Nenhum
golpe contemporâneo se sustenta sem blindagem jurídica. Nos Estados Unidos,
essa blindagem opera pela captura progressiva de cortes estaduais e pela
reinterpretação estratégica da Constituição, que passa a legitimar distorções
em vez de contê-las. Decisões judiciais transformam exceções em precedentes, e
precedentes em normalidade. O efeito não é a suspensão aberta do direito, mas
sua reprogramação para tolerar aquilo que antes era considerado inadmissível no
núcleo democrático.
A
separação entre legalidade e legitimidade se aprofunda. Medidas que violam a
equivalência do voto, fragilizam a autonomia eleitoral local ou autorizam
coerção estatal seletiva tornam-se defensáveis porque encontram respaldo formal
em interpretações estreitas, tecnicistas ou abertamente deferentes ao poder. O
Judiciário deixa de atuar como freio sistêmico e passa a funcionar como
homologador do novo arranjo. A Constituição não é revogada; ela é esvaziada por
leitura.
Esse
movimento fecha o circuito institucional do regime. A engenharia eleitoral
produz o resultado, a coerção garante a obediência e o Judiciário confere
aparência de normalidade. Quando a exceção passa a ser legalizada, o conflito
político deixa de encontrar limites internos. A democracia, ainda reconhecível
em sua forma, perde a capacidade de se corrigir a partir de dentro. O golpe não
precisa avançar por ruptura. Ele se consolida por jurisprudência.
<><>
Guerra psicológica e fechamento do ciclo autoritário
A
consolidação do regime não depende apenas de regras, força e tribunais. Ela
exige a conformação subjetiva da sociedade. É nesse ponto que a guerra
psicológica interna cumpre sua função decisiva. Narrativas de ameaça
permanente, fraude onipresente e inimigos internos produzem um estado emocional
contínuo de alerta e medo. A política deixa de ser espaço de deliberação e se
converte em campo de reação. A população é mobilizada não para decidir, mas
para aceitar. O autoritarismo se normaliza quando passa a parecer necessário.
Essa
engenharia emocional fragmenta a resistência e anestesia o conflito social.
Comunidades são isoladas, identidades são radicalizadas e qualquer defesa de
regras comuns passa a ser tratada como traição. A violência institucional deixa
de causar choque e passa a ser absorvida como ruído de fundo. Quando o medo
organiza a percepção da realidade, a suspensão de direitos deixa de ser
percebida como ruptura e passa a ser vivida como proteção. O consentimento não
é fabricado pela persuasão, mas pela saturação.
Com
isso, o ciclo se fecha. O mapa neutraliza a maioria, a burocracia filtra o
eleitorado, a força impõe a obediência, os tribunais legalizam a exceção e a
guerra psicológica garante a aceitação social do arranjo. A democracia não cai
em um dia porque já não precisa cair. Ela permanece de pé como forma vazia,
enquanto o poder passa a operar por coerção, exclusão e medo. Quando o sistema
já não aceita perder e a sociedade aprende a tolerar essa condição, o golpe
deixa de ser evento e se torna regime.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário