quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Segurança pública dominará 2026 e fará eleição virar disputa de poder sobre quem mata e quem morre no Brasil

Não há mais dúvida: a segurança pública será o tema central das eleições de 2026. Não porque a violência tenha explodido de forma inédita, nem porque o país esteja diante de uma crise fora de controle, mas porque o medo se consolidou como o principal ativo político do Brasil contemporâneo. 

A segurança deixou de ser uma política pública entre outras para se tornar uma linguagem de poder, uma estratégia eleitoral e, cada vez mais, um modelo de governo. Prova disso são os posts e anúncios marqueteiros de compra de “armas pesadas”, descolados de planos de segurança, sem a possibilidade de mensurar real custo e impacto. Os candidatos já estão em campanha. E isso responde aos brasileiros, que elegeram a segurança como sua maior preocupação nas últimas pesquisas.

Nos últimos anos, falar de segurança pública passou a ser uma forma eficaz de disputar votos, justificar exceções legais, silenciar críticas e reorganizar alianças políticas. Não se trata mais de apresentar diagnósticos ou soluções estruturais para a violência, mas de oferecer respostas simples, duras e moralizantes para problemas complexos. 

Nesse cenário, a milícia deixa de ser apenas um fenômeno criminal localizado e passa a ocupar um lugar central na compreensão da política brasileira. Durante muito tempo, ela foi tratada como um desvio, uma anomalia restrita ao Rio de Janeiro, resultado da presença anômala do estado em determinados territórios – não da ausência. Essa leitura nunca se sustentou. 

A milícia não cresce onde o estado falta. Ela cresce onde o estado atua de forma seletiva, protege aliados, elimina concorrentes e transforma a violência em ativo econômico e político. Trata-se de uma rede criminosa formada majoritariamente por agentes públicos, que nasce dentro das instituições e se expande a partir delas.

Ao longo das últimas décadas, a milícia deixou de ser apenas um grupo armado que controla bairros e passou a operar como uma engrenagem sofisticada de poder. Domina territórios, regula mercados, interfere em eleições, controla serviços essenciais e constrói alianças políticas duradouras. Não atua à margem do estado, mas em simbiose com ele. 

O que começou como controle armado de áreas específicas se transformou em um modelo replicável, com lógica empresarial, discurso moralizante e vocação nacional. 

É nesse ponto que a milicianização da política se torna evidente. Ela não depende, necessariamente, de milicianos eleitos ou formalmente identificados como tais. A milicianização ocorre quando candidatos, partidos e governos passam a adotar o método miliciano de governar. Um método baseado no controle territorial pela força, na naturalização da violência como forma de mediação social, na criminalização de adversários políticos e na captura de estruturas do estado para fins privados.

Essa estratégia se expressa em discursos que prometem mais polícia sem controle, mais armas em circulação, mais licença para matar e menos fiscalização. Em 2026, a disputa eleitoral tende a se organizar em torno de quem se mostra mais disposto a aprofundar esse caminho, apresentando a violência como solução e o endurecimento como virtude. Nada disso é improviso. Trata-se de um projeto político testado, que transforma o caos em plataforma e o medo em voto.

A segurança pública se consolidou como a linguagem eleitoral mais eficiente para justificar retrocessos democráticos. Em nome do combate ao crime, os eleitos flexibilizam garantias legais e enfraquecem-se mecanismos de controle – justamente o contrário do que deveriam fazer para atingir os objetivos que dizem ser a meta. 

Atacam a imprensa, pesquisadores e defensores de direitos humanos e blindam a atuação de agentes do estado. É uma linguagem emocional, simples e eficaz porque oferece culpados claros e soluções rápidas, ainda que ilusórias.

Nesse cenário, a milícia exerce um papel pedagógico. Ela demonstra, na prática, como é possível governar pela força, explorar economicamente o território, eliminar dissensos e manter apoio político. A expansão desse modelo não é apenas territorial, mas simbólica. Normaliza-se a ideia de que direitos são privilégios, de que a lei pode ser substituída pela força e de que a violência estatal é não apenas aceitável, mas desejável.

A ameaça que esse processo representa à democracia não se manifesta por meio de tanques nas ruas ou golpes clássicos. Ela se dá de forma mais silenciosa e eficaz, por dentro das instituições, com mandatos legítimos, discursos legais e eleições regulares. Tudo parece ok e democrático. A milícia não quer destruir o estado. Quer operá-lo, moldá-lo aos seus interesses e utilizá-lo como ferramenta de poder.

Se nada mudar – e eu duvido que mude –, 2026 será menos uma disputa de projetos de país e mais uma competição sobre quem administra melhor o medo. A segurança pública será o palco onde se decidirá quem pode matar, quem merece proteção e quem é considerado descartável – aprimorando cada vez mais a política em ação nos últimos 40 anos. 

Entender esse processo é fundamental, porque o problema não se resume a quem vencerá as eleições, mas ao modelo de poder que sairá fortalecido delas.

¨      Quem controlar o discurso da segurança pública terá vantagem nas eleições

O problema não é apenas a política de segurança que se pratica, mas a forma como se fala sobre ela. A esquerda insiste em subestimar este elemento. Enquanto a direita simplifica o discurso, promete punição imediata e transforma medo em resposta pronta, grande parte da esquerda segue falando de violência como se estivesse em um seminário, distante da exaustão cotidiana de quem vive cercado por ela.

Uma amiga resumiu a conversa quando comentávamos uma pesquisa do Instituto Genial/Quaest, divulgada logo após a chacina policial nos complexos da Penha e do Alemão, no fim de 2025: “Eles estão cansados de serem comparados com bandidos”. A família dela mora na Cidade de Deus. Está cansada de acordar todo dia sabendo que, para o resto da cidade, o CEP pesa mais do que qualquer outra coisa.

A pesquisa mostrava que mais de 60% dos moradores do estado do Rio de Janeiro aprovavam a megaoperação que deixou mais de 120 mortos. Uma operação que não prendeu o traficante mais procurado do estado, não desmontou estruturas criminosas e não alterou o controle territorial. Ainda assim, foi bem avaliada. Não porque tenha funcionado, mas porque pareceu funcionar.

Dias depois, outro levantamento ajudou a entender melhor esse cenário. Uma pesquisa de opinião encomendada pelo ICL Notícias revelou que boa parte dos brasileiros aceita a ideia de punir um inocente em nome do combate ao crime. Não como exceção, não como dilema extremo, mas como lógica aceitável. É um dado brutal. Porque ele não fala apenas de segurança pública. Fala do quanto a democracia brasileira está disposta a ceder quando o medo entra em cena.

Quando alguém aceita que um inocente pague o preço da política de segurança, está dizendo algo muito concreto: que algumas vidas são descartáveis. Que errar “para mais” é aceitável. Que a presunção de inocência pode ser relativizada se o alvo estiver no lugar certo — ou errado — do mapa social.

Essa lógica ajuda a explicar o paradoxo aparente revelado pela pesquisa da Quaest. Ao mesmo tempo em que aprovam operações letais, muitos dizem se sentir menos seguros depois delas. Não há contradição aqui. Há coerência. O que está sendo avaliado positivamente não é o efeito real da política, mas o gesto punitivo, a demonstração de força, a ideia de que o Estado está “fazendo alguma coisa”, ainda que isso custe vidas que nunca entram na conta.

O que essas pesquisas revelam não diz respeito apenas a uma operação policial ou a um estado específico, mas à forma como o medo vem reorganizando a política brasileira. Quando a punição de inocentes passa a ser socialmente aceita, princípios básicos da democracia deixam de ser limite e viram obstáculo. Operações letais não precisam produzir resultados concretos para serem aprovadas — basta parecerem duras. É assim que a violência se converte em ativo político, orienta escolhas eleitorais e redefine o debate público, às vésperas das eleições. O que hoje se aplica às favelas já ultrapassou seus territórios e passou a operar no centro da democracia brasileira.

É nesse ponto que a conversa com minha amiga deixa de ser pessoal e passa a ser política. Para a família dela, ser confundido com bandido não é um efeito colateral da política de segurança. É parte do método. É assim que se sustenta uma lógica em que punir inocentes deixa de ser escândalo e vira custo operacional.

O medo que aparece nas pesquisas não é abstrato. Ele atravessa o cotidiano de quem mora em favelas, periferias e bairros populares. Medo de sair cedo para trabalhar e não voltar. Medo de estar no lugar errado na hora errada. Medo de ser enquadrado, abordado, alvejado. Medo de viver sob um Estado que aceita errar sempre para o mesmo lado.

Quando a maioria da população aceita que um inocente seja punido, o que está em jogo não é apenas a eficácia do combate ao crime. É a redefinição silenciosa de quem merece proteção e quem pode ser sacrificado. A política de segurança deixa de ser política pública e passa a ser política de exceção permanente — aplicada sempre nos mesmos territórios, sobre as mesmas pessoas.

O resultado é conhecido. Operações espetaculares, contagem de mortos, imagens aéreas, coletivas de imprensa. O território segue controlado por grupos armados. A violência permanece. Mas a narrativa funciona. O medo se converte em voto. A brutalidade vira ativo político.

A família da minha amiga não quer viver num país onde aceitar a punição de inocentes seja sinal de maturidade política. Quer viver num país onde segurança não signifique suspeita permanente, onde direitos não sejam tratados como luxo e onde políticas públicas não precisem produzir pilhas de corpos para provar que existem.

Enquanto pesquisas continuarem mostrando que estamos dispostos a sacrificar inocentes em troca de uma sensação frágil de controle, o problema não estará apenas nas favelas. Estará no centro da nossa democracia — e no quanto estamos dispostos a abandoná-la para nos sentirmos, por alguns instantes, menos assustados.

As pessoas estão cansadas. Cansadas de tiroteio, de enterro, de bala perdida, de ver filho crescer com medo. Não estão pedindo soluções mágicas, mas querem ouvir alguém que reconheça esse cansaço sem tratá-las como ignorantes ou moralmente inferiores por sentirem medo. Quem conseguir falar com clareza sobre crime e violência, sem naturalizar a morte nem relativizar direitos, vai disputar esse terreno com vantagem.

A eleição de 2026 não será decidida apenas por quem promete mais força ou mais punição, mas por quem conseguir oferecer sentido em meio ao caos. Segurança pública virou linguagem política. E quem não aprender a falar essa língua — com responsabilidade, empatia e firmeza — corre o risco de continuar assistindo, de fora, enquanto outros transformam medo em voto.

 

Fonte: Por Cecília Oliveira, em The Intercep

 

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