Por
que Espanha contraria tendência mundial e abre as portas para imigração?
Em um
mundo desenvolvido que impõe cada vez mais barreiras à imigração, a Espanha segue na
contramão.
O
governo do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou na semana
passada (27/1), de forma inesperada, uma regularização extraordinária de
imigrantes indocumentados ou solicitantes de asilo que consigam comprovar
residência de ao menos cinco meses no país e não tenham antecedentes criminais.
O
Partido Socialista no poder e o partido de esquerda radical Podemos chegaram a
um acordo que posteriormente foi aprovado pelo Executivo por meio de um decreto
real, mecanismo que permitiu contornar o Parlamento, onde os socialistas não
têm maioria.
A
medida partiu de uma proposta assinada por cerca de 700 mil pessoas, com o
apoio de diversos grupos da sociedade civil, de associações de migrantes à
Igreja Católica.
A
ministra espanhola de Inclusão, Segurança Social e Migrações, Elma Saiz,
afirmou que a regularização era "necessária para dar respostas à realidade
que existe em nossas ruas".
Dos
49,9 milhões de habitantes da Espanha, mais de 9,8 milhões
nasceram em outro país, entre eles 3,4 milhões de estrangeiros com autorização
de residência, segundo dados oficiais.
Mais de
500 mil dos cerca de 850 mil imigrantes que hoje se encontram em situação
irregular poderão regularizar seu status migratório, segundo estimativas.
A
medida, que reflete uma política abertamente favorável à imigração, contrasta
com o endurecimento generalizado das políticas adotadas pela maioria dos países
desenvolvidos nessa área.
No
continente europeu, a Alemanha aprovou reformas legais para facilitar
deportações e detenções; a França restringiu os benefícios sociais e acelerou
as expulsões; a Itália aplica leis de caráter dissuasório e processa
solicitações fora do seu território; e o Reino Unido limitou drasticamente o
acesso ao asilo.
Nos
Estados Unidos, o presidente Donald Trump mantém uma campanha agressiva de
fechamento de fronteiras, repressão e deportação de imigrantes em situação
irregular; enquanto o Canadá, um país tradicionalmente aberto a estrangeiros,
reduziu a admissão de trabalhadores temporários e estudantes.
Por que
a Espanha se destaca como exceção?
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A economia
Apesar
de enfrentar problemas significativos, como baixos salários, alta taxa de
desemprego, perda de poder de compra e escassez de moradia, a economia
espanhola se fortaleceu nos últimos anos.
A
Espanha recuperou recentemente a 12ª posição entre as maiores economias do
mundo, ao ultrapassar o México, a Austrália e a Coreia do Sul, com um Produto
Interno Bruto (PIB, a soma de todas as riquezas produzidas) que já supera US$ 2
trilhões (pouco menor que o do Brasil, de US$ 2,29 trilhões), segundo dados do
Fundo Monetário Internacional (FMI).
"A
economia espanhola apresenta uma demanda de mão de obra em setores como o
serviço social, a construção e a hotelaria, que dependem diretamente da
imigração", disse Cecilia Estrada Villaseñor, doutora em migrações
internacionais da Universidad Pontificia Comillas (Espanha), à BBC News Mundo
(serviço em espanhol da BBC).
A
regularização, prevê Villaseñor, favorecerá no curto prazo a formalização do
emprego e a arrecadação pública ao reduzir a economia informal, enquanto, no
médio prazo, deve garantir maior sustentabilidade ao sistema previdenciário,
cada vez mais pressionado pelo envelhecimento demográfico.
"Quanto
ao impacto fiscal, estudos do Real Instituto Elcano, da Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico [OCDE, conhecida como "clube dos
países ricos"] e da Comissão Europeia mostram que, em média, os migrantes
tendem a contribuir mais do que consomem em serviços sociais", afirmou
Villaseñor.
Joaquín
Arango, professor catedrático emérito de Sociologia da Universidad Complutense
de Madrid e codiretor do Grupo de Estudos sobre Migrações Internacionais,
pondera que a demanda por mão de obra migrante "também ocorre na França,
na Itália ou na Alemanha, mas a Espanha é o país que se atreve a resolver esses
desajustes de forma mais enérgica".
"Outros
países o fazem em menor escala e de maneira mais discreta: a Itália está
ampliando os contingentes de trabalho para estrangeiros, inclusive em situação
irregular, mas de forma mais velada. A Alemanha reconhece que tem um déficit de
cerca de 1 milhão de pessoas no mercado de trabalho, mas encontra mais entraves
e age de maneira menos decisiva", explicou Arango.
A
Espanha terminou 2025 com 605.400 novos empregos e atingindo o recorde de 22,46
milhões de trabalhadores, além de registrar 118.400 desempregados a menos.
Apesar
de ter alcançado o melhor resultado dos últimos 17 anos, o país mantém um alto
nível de desemprego, pouco menos de 10%, em comparação com a média de 6% da
União Europeia, razão pela qual críticos da medida avaliam que absorver
centenas de milhares de pessoas não será tão simples quanto se propõe.
"Para
um país que tem um desemprego estrutural muito grande como o da Espanha, que é
uma anomalia dentro da Europa, isso sai muito caro, pois favorece a chegada de
mais imigração do que a de que precisamos", disse o analista demográfico
Alejandro Macarrón, coordenador do Observatório Demográfico do Centro de
Estudios, Formación y Análisis Social (CEU-CEFAS).
Macarrón
observa que a política de portas abertas à imigração, e o rápido aumento
populacional consequente, também agrava o que muitas pesquisas apontam como a
principal preocupação dos espanhóis: a dificuldade de acesso à moradia.
"As
pessoas que vivem em imóvel próprio, que ainda são a maioria, não enfrentam
esse problema e, de fato, veem seu patrimônio se valorizar. Mas, para quem é
diretamente afetado — os jovens e os próprios imigrantes —, é um problema
enorme", argumentou.
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O 'fator latino-americano'
Diversos
estudos mostram que, em geral, os espanhóis percebem a imigração de forma mais
favorável do que em outros países do Ocidente e, apesar de certas preocupações
com a integração dos estrangeiros, reconhecem sua contribuição econômica.
Especialistas
destacam que entra em jogo uma diferença fundamental em relação aos vizinhos
europeus: a origem dos imigrantes.
Cerca
de 48% dos estrangeiros residentes na Espanha são pessoas nascidas na América
Latina, que também representam 66% da imigração não europeia, segundo dados do
Real Instituto Elcano (centro de pesquisa e debates).
Colômbia,
Venezuela, Equador, Argentina e Peru são os países que mais somam imigrantes.
Na
ausência de dados oficiais, o centro de análise sociológica Funcas estima que,
dos mais de meio milhão de imigrantes em situação irregular que poderiam se
beneficiar da nova medida do governo, 9 em cada 10 são latino-americanos.
"Ao
dominar o idioma, eles podem começar a trabalhar assim que chegam à Espanha,
além de compartilharem nossa cultura, nossos valores e, em grande medida, a
religião", disse José Pablo Martínez, pesquisador em dinâmicas sociais e
econômicas das migrações do Real Instituto Elcano.
Segundo
Martínez, "isso, no plano social, representa um choque muito menos intenso
do que o que pode ocorrer em outros países com outro tipo de imigração, por
exemplo, a procedente de países muçulmanos na França ou na Alemanha".
Alejandro
Macarrón, do CEU-CEFAS, concorda nesse ponto ao argumentar que "a
facilidade teórica de integração é muito maior", já que "não existe
um conflito como o associado ao jihadismo" ou a outras correntes
religiosas e culturais.
Ainda
assim, a Espanha não esteve isenta de conflitos ligados à imigração, desde os
distúrbios de Torre Pacheco, em julho passado — com confrontos entre
estrangeiros, grupos de moradores e extremistas de direita após uma agressão
atribuída a jovens vindos do Magrebe —, até a recente desocupação em massa de
um prédio ocupado em Badalona, depois de meses de queixas de moradores sobre
insegurança.
Martínez
reconhece que, nesse sentido, "há uma questão social na Espanha, como em
outros países europeus, com uma série de problemas que também se manifestam
aqui e que levaram os demais a adotar mais restrições".
A BBC
News Mundo também falou com Silvana Cabrera, porta-voz da plataforma
Regularización Ya, um coletivo fundamental na pressão sobre o governo para
aprovar a nova medida.
Cabrera,
boliviana residente na Espanha, nega a influência do "fator
latino-americano".
"Nós
não participamos desse discurso. Acreditamos que é um discurso totalmente
colonialista e racista. Nós não somos irmãs. O Reino da Espanha não nos trata
como irmãs; nos maltrata e sofremos o mesmo racismo institucional",
afirmou.
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A estratégia política
Outro
fator que entra em jogo, segundo especialistas, é o político; desde a posição
ideológica do governo espanhol até os objetivos perseguidos para além dos
declarados publicamente.
"Na
Espanha, há um governo social-democrata de centro-esquerda que está mais
propenso à questão migratória do que os países com governos mais
conservadores", disse Martínez, do Real Instituto Elcano.
Macarrón,
do CEU-CEFAS, tem uma visão mais crítica: "O caso da Espanha é anômalo,
pois é o único país da Europa Ocidental que tem a extrema esquerda [em
referência ao partido Sumar] no governo. Enquanto no restante da Europa se
tenta regular a imigração, adequando os fluxos ao mercado de trabalho, na
Espanha parece que se faz apenas política ideológica".
Esta
não é a primeira regularização de imigrantes realizada na Espanha. As
anteriores ocorreram tanto sob governos do Partido Socialista quanto do
conservador Partido Popular (PP).
O
governo de José María Aznar, do PP, promoveu três regularizações, em 1996, 2000
e 2001, que beneficiaram mais de 520 mil pessoas no total. Já o governo
socialista de José Luis Rodríguez Zapatero realizou a maior até hoje, em 2005,
com 576 mil pedidos aprovados.
O
historiador Jordi Canal i Morell, professor da École des Hautes Études en
Sciences Sociales, em Paris (França), também critica o distanciamento espanhol
em relação ao continente.
"É
uma medida irresponsável. A questão da imigração e das regularizações é muito
séria e deve ser tratada à margem de apelos populistas. Precisa ser articulada
com os vizinhos e parceiros europeus", declarou à BBC News Mundo.
Por
outro lado, especialistas apontam que a frágil rede de alianças que mantém
Pedro Sánchez no poder o obriga a depender de partidos mais à esquerda, como o
Podemos e o Sumar.
"O
governo está ganhando tempo para sobreviver em uma correlação de forças
desfavorável e precisa do apoio desses partidos, todos favoráveis à
regularização", afirmou Arango, da Universidad Complutense de Madrid.
Arango
acredita que esse é o principal motivo que levou o governo a tramitar o decreto
real: "Com essa decisão, acredita que pode ampliar seus apoios
parlamentares e garantir uma maior sobrevivência política".
Outro
objetivo mencionado por Arango — mais altruísta, neste caso — é resolver o
problema do elevado número de imigrantes em situação irregular e do volume
crescente de pedidos de asilo que sobrecarrega a administração pública.
"Essa
regularização é uma forma de colocar ordem: ao aprová-la, as coisas se
facilitam e se ganha tempo até uma futura conjuntura semelhante, porque isso
voltará a acontecer. Durante um longo período, é possível zerar os
números."
Arango
ressalta que, diferentemente de outros países europeus, "no caso espanhol,
o temor à impopularidade de uma medida desse tipo é muito menor", já que a
sua sociedade se caracterizou historicamente "por um maior grau de
aceitação da imigração".
"Os
estudos colocam a Espanha entre os países mais favoráveis à aceitação da
imigração, às demandas de asilo e à proteção internacional", afirmou.
¨
Os imigrantes, os novos proletários mundiais! Por Emir
Sader
Nada
mais degradante, em um mundo com tantas coisas degradantes do que os precários
barcos em que africanos têm suas embarcações naufragadas, tentando chegar à
Europa!
Quem
são esses africanos? São alguns dos milhões de africanos cujos familiares foram
tirados das suas casas e trazidos, nos porões de navios negreiros, para ser
escravos na América, produzindo, como escravos, riquezas para a Europa!
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Simples
e terrível, mas muito real. São seus descendentes que agora, miseráveis e
abandonados, que tentam cruzar o Mediterraneo, da forma que seja, buscando
sobrevivência em condições menos ruins. Mesmo, quando conseguem chegar, sendo
dicriminados, como negros, como africanos, como miseráveis.
Me
lembro de estar em um seminário na Espanha, há algum tempo, quando um barco
desses virou no Mediterrâneo e todos os seus ocupantes morreram. Embora fosse
um seminário de gente progressista, não causou nenhuma reação, nenhuma
indignação, nenhuma manifestação.
Os
imigrantes, sejam de origem africana ou de outra origem, circulam pela Europa,
pelos Estados Unidos ou mesmo em países da América Latina, buscando alguma
forma de vida menor cruel do que a que tem nos seus países de origem. Eles, que
não nasceram escravos. Foram escravizados, tornados escravos, fazendo com que
escravos e negros se tornassem quase sinônimos.
O mundo
convive tranquilamente com a opressão e a exploração brutais da África, um
continente ao lado da Europa. Basta conseguir cruzar o Mediterrâneo, para
poderem chegar lá, onde serão tratados como raça inferior, onde serão
discriminados e às vezes até expulsos de volta para seus países de origem.
Destino
que acontece quando alguma embarcação é socorrida antes de naufragar, quando
sua população é devolvida para suas condições miseráveis de vida na África. Ou
quando alguns deles, por serem indocumentados, são expulsos para seus países de
origem.
É um
mundo “civilizado”, que produz a barbárie. Um mundo branco, loiro, ou de
qualquer tez. Menos negro ou da cor de pele dos muçulmanos, igualmente
discriminados.
“Civilização
ou barbárie”, como disse um prócer latino-americano. Ambos convivem, lado a
lado, por uma – a tal da “civilização” produz a barbárie, que ela continua a
explorar, como empregados e empregadas negras, a seu serviço.
A
miséria da África é um grito desesperado de quem, explorados e discriminados,
pedem ajuda. Quem ouve suas vozes, se sua miséria é funcional, para
desempenharem funções subalternas, que brancos não topariam cumprir? O que
seria da “civilização” branca sem a miséria negra?
Fonte:
BBC News Mundo/Brasil 247

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