O
frade que se casou aos 53 anos com uma freira
Vinte e
quatro anos depois de se tornar freira, um esbarrão em um monge na sala do
convento em Preston, no condado de Lancashire (noroeste da Inglaterra), mudou
tudo para a irmã Mary Elizabeth.
A
prioresa da ordem a levara para conhecer o frade Robert, que vinha de um
priorado em Oxford, para ver se ele queria comer alguma coisa. Mas a superiora
da irmã Mary Elizabeth foi chamada para atender a uma ligação, então os dois
ficaram sozinhos.
"Foi
a nossa primeira vez em uma sala juntos. Sentamos à mesa enquanto ele comia, e
a prioresa não voltou, então tive que deixá-lo sair."
Irmã
Mary Elizabeth viveu uma vida devota, austera e silenciosa como freira,
passando a maior parte de seus dias enclausurada em um pequeno quarto. Ao
deixar Robert sair pela porta, ela esbarrou no braço dele e disse que sentiu
algo diferente.
"Eu
apenas senti uma química, algo, e fiquei um pouco envergonhada. E pensei, Deus,
ele sentiu isso também. E, quando o deixei sair pela porta, foi bastante
estranho."
Ela
lembra que, cerca de uma semana depois, recebeu uma mensagem de Robert
perguntando se ela iria embora para se casar com ele.
"Fiquei
um pouco chocada. Eu usava um véu para que ele nem visse a cor do meu cabelo.
Ele não sabia nada sobre mim. Na verdade, [não sabia] nada sobre minha criação.
Ele nem sabia meu nome mundano", lembra ela.
Antes
de entrar na ordem carmelita — uma antiga ordem da igreja católica romana — aos
19 anos, a irmã Mary Elizabeth havia sido Lisa Tinkler, de Middlesbrough.
Embora
os pais dela não fossem religiosos, a peregrinação de uma tia a Lourdes
(França) despertou algo em Lisa quando ela tinha 6 anos, de modo que ela pediu
ao pai que construísse um altar no quarto dela.
"Eu
tinha uma estatueta de Nossa Senhora e uma garrafinha de água de Lourdes. Na
verdade, eu achava que era a garrafinha que era benta e não a água — então
bebia a água e depois a enchia de novo", conta ela.
Lisa
frequentava sozinha uma das igrejas católicas romanas em sua cidade natal e
sentava sozinha no segundo banco — onde ela diz que desenvolveu um amor
arrebatador pela Virgem Maria, mãe de Jesus, e finalmente o sentimento de que
tinha uma vocação.
Um
retiro de fim de semana em um mosteiro quando ela ainda era adolescente a
convenceu de sua vocação. O mosteiro era dirigido por freiras carmelitas de uma
ordem que teve origem no século 12 e onde a vida era particularmente espartana,
reclusa e rígida — mas ela decidiu que era essa a vida que queria levar.
Embora
Lisa quisesse entrar imediatamente na ordem, a mãe dela — que estava preocupada
com a decisão da filha — escreveu secretamente ao mosteiro para adiar sua
partida por alguns meses, para que Lisa pudesse passar mais um Natal em casa.
Ela partiu no Ano Novo.
"Desde
então, vivi como uma eremita. Tínhamos dois momentos de recreação por dia,
cerca de meia hora, quando podíamos conversar. Caso contrário, você ficava
sozinha em seu quarto. Você nunca trabalhava com ninguém, sempre sozinha",
diz.
Com o
passar dos anos, a irmã Mary Elizabeth sentiu seu vocabulário diminuir, pois
ela tinha pouco a conversar com as outras freiras — que eram décadas mais
velhas que ela — exceto sobre o clima e a natureza no jardim. Ela via a mãe
quatro vezes por ano através de uma grade.
"Quando
fiz meu aniversário de 21 anos, meu bolo e meus cartões passavam pela gaveta.
E, quando meu sobrinho nasceu, ele passou por uma espécie de compartimento
giratório", ela ri, lembrando dos momentos com muito carinho.
Ela
descreve a maneira como sentiu seu "mundo interior" se abrir à medida
em que o mundo exterior se fechava para ela. Havia uma sensação de
contentamento e realização. Mas, naquele dia na sala do convento, tudo mudou
com o toque de uma manga e uma mensagem perguntando se ela abandonaria a vida
monástica e se casaria.
Mas a
irmã Mary Elizabeth não deu respondeu a pergunta de Robert; ela não sabia o que
fazer.
Ele
poderia não saber nada sobre ela, mas ela sabia um pouco sobre ele.
Em suas
visitas de Oxford ao centro de retiro carmelita, em Preston, ele ocasionalmente
rezava missas no mosteiro próximo e Lisa assistia aos sermões dele através de
uma grade.
Através
das anedotas que ele contava, ela pôde saber que ele cresceu na Silésia, na
Polônia, perto da fronteira alemã, e que amava as montanhas. Mas na época, isso
não teve impacto sobre ela.
Mas
depois do esbarrão e da carta, isso mudou.
"Eu
não sabia o que era estar apaixonada e pensei que as irmãs pudessem ver isso em
meu rosto. Então, fiquei muito nervosa. Pude sentir a mudança em mim e isso me
assustou", diz ela.
A irmã
Mary Elizabeth finalmente criou coragem para dizer à prioresa que achava que
sentia algo por Robert. A resposta que obteve, entretanto, foi de descrença.
"Ela
não conseguia entender como isso tinha acontecido porque estávamos lá 24 horas
por dia, sete dias por semana, sob a vigilância dela o tempo todo. A prioresa
perguntou como eu pude me apaixonar com tão pouco contato", lembra ela.
A irmã
Mary Elizabeth ficou imaginando como seria reação de sua família ou de seu
bispo se ela fosse embora. Ela também pensou muito sobre como ficaria seu
relacionamento com Deus.
Mas a
interação com sua superiora a levou a fazer algo estranhamente impetuoso.
"Ela
foi brusca comigo. Então pus minhas calças e uma escova de dentes em uma bolsa
e saí, e nunca mais voltei como irmã Mary Elizabeth", conta Lisa.
Robert
havia enviado uma mensagem para ela dizendo que planejava visitar Preston
novamente naquela noite. Ele iria se encontrar com um amigo carmelita em um
pub. Esse amigo fora a primeira pessoa em quem ele confiou para contar sobre a
situação dele e de Lisa.
Lisa
imaginou que eles se encontrariam no pub Black Bull, a cerca de um quilômetro e
meio dali, então foi para lá que ela decidiu ir.
Mas, em
vez de ser um momento de alegria, Lisa foi atirada em um profundo tumulto
naquela noite de novembro de 2015.
"A
chuva caía forte enquanto eu caminhava pela estrada. O tráfego seguia na minha
direção com faróis brilhantes e eu apenas pensei 'Eu poderia terminar
isso'", diz ela, referindo-se a um pensamento suicida momentâneo.
"Eu
estava realmente lutando...e Robert poderia seguir com a vida dele. Mas também
me perguntei se ele realmente quis dizer o que disse sobre se casar."
Lisa
continuou andando até se encontrar encharcada, sem casaco, vestida em seu
hábito, do lado de fora do Black Bull. Ela só criou coragem para entrar quando
viu o monge lá dentro, por uma porta aberta.
"Quando
a vi, meu coração parou", diz Robert.
"Mas,
na verdade, fiquei paralisado de medo, achava que não estávamos prontos para
isso", diz ele.
Robert
já era frade carmelita havia 13 anos. Ele foi um pensador, acadêmico e teólogo
que chegou à vida monástica em busca de sentido durante o que descreveu como
uma crise de fé e identidade.
Olhando
para trás, ele sente que suas raízes tornaram essa confusão quase inevitável —
ele cresceu em uma região que tinha feito, há pouco, a transição da Alemanha
para a Polônia, com pai luterano e mãe católica.
Mas foi
um período sombrio após um relacionamento fracassado que o levou a continuar
sua busca por realização espiritual na Inglaterra, onde, apesar de ter sido
previamente educado em tradição protestante luterana, encontrou sei desígnio em
um mosteiro católico carmelita.
"Eu
não sabia muito sobre os carmelitas e não tinha pensado em me tornar um monge.
Na verdade, sempre desconfiei muito desse tipo de expressão de fé", diz
Robert.
Mas ele
diz que a ordem o ensinou a abraçar a escuridão, as dificuldades e a crise a
ponto de se sentir acomodado. No entanto, o encontro com Lisa — que ele mal
conhecia como irmã Mary Elizabeth — virou sua vida de cabeça para baixo.
"Aquele
toque de Lisa na minha manga começou uma mudança, mas enquanto eu sentia algo
crescendo gradualmente em meu coração, acho que nunca cheguei a um ponto em que
senti que estava me apaixonando loucamente. Porque ao se tornar um monge ou um
freira, eles ensinam como lidar com emoções como o amor", diz Robert.
Ele
explica que a mensagem dele para Lisa perguntando se eles poderiam se casar foi
quase uma luta intelectual consigo mesmo.
"Quando
ela apareceu no pub, o pequeno demônio em mim ficou apavorado. Mas meu medo não
era religioso ou espiritual, era puramente sobre como eu começaria uma nova
vida aos 53 anos", diz ele.
A
transição foi difícil, principalmente no início. Lisa se lembra de um momento
pouco antes do Natal, logo depois que ambos deixaram suas vidas monásticas.
"Olhei
para Robert e ele estava angustiado e chorando. Naquele momento, nós dois
chegamos ao fundo do poço e parecia que deveríamos ter um fim como o de Romeu e
Julieta e acabar com isso", diz Lisa.
"Foi
muito difícil porque ele se sentia muito sozinho e tão isolado que não sabia o
caminho a seguir. Mas nós apenas demos as mãos e superamos isso", diz ela.
Eles
contam que começaram a chorar quando foram perguntados, em uma agência de
empregos, sobre suas habilidades transferíveis.
Em
outra ocasião, quando dirigiam de Preston para Yorkshire, tiveram que parar o
carro para chorar.
"Encomendei
um livro em polonês sobre freiras que deixaram suas ordens por vários motivos.
Li e traduzi para Lisa no carro, mas ela teve que encostar na rodovia M62. Nós
dois precisávamos chorar porque as histórias eram muito emocionantes e pudemos nos
relacionar com elas", diz Robert.
O que
lhes trouxe paz foi o que os guiou à vida religiosa — a conexão com sua fé
pessoal.
"Durante
toda a sua vida religiosa, você ouve que seu coração deveria ser entregue
inteiro a Deus. De repente, senti que meu coração estava se expandindo para
abrigar Robert, mas percebi que também continha tudo o que tinha antes. E não
sinto nada diferente em relação a Deus. Isso foi reconfortante para mim",
diz Lisa.
Lisa
primeiro encontrou trabalho em uma casa funerária e depois como capelã de um
hospital. Robert, embora tenha ficado chateado com uma carta de Roma dizendo
que não era mais membro da ordem carmelita, logo foi aceito na Igreja
Anglicana.
Eles se
casaram e agora dividem uma casa na vila de Hutton Rudby, em North Yorkshire —
onde Robert foi nomeado vigário de uma igreja local. Eles dizem ainda estar em
uma jornada para se ajustar à vida fora do monastério.
Lisa,
em particular, que esteva isolada por 24 anos e não teve a experiência
acadêmica de Robert, diz se ver como uma observadora do mundo exterior. Só
agora ela está descobrindo quais estilos de cabelo e roupas funcionam melhor
para ela depois de uma vida vestindo hábito.
Ambos
ainda anseiam por elementos da vida monástica. Lisa até diz que, se não fosse
por Robert, voltaria a ser freira carmelita amanhã.
"Nós
nos acostumamos tanto com o silêncio e a solidão que é difícil se reencontrar
nos negócios do mundo. Você é puxado em tantas direções diferentes, então é uma
luta constante para mim e Robert permanecermos centrados e fundamentados",
diz Lisa.
Mas
eles encontraram uma solução que funciona.
"Muitas
vezes penso que vivo em um mosteiro aqui com Robert, como dois carmelitas, onde
tudo o que fazemos é oferecido a Deus. Nós nos ancoramos na oração, mas o amor
pode fazer um sacramento de tudo o que você faz e percebo que nada realmente
mudou para mim" conta ela.
Lisa
diz que os dois concordam que há três deles no casamento.
"Cristo
está no centro e vem antes de tudo. Se o retirássemos da equação, acho que não
teria durado muito."
Fonte:
BBC News

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