quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Aldo Fornazieri: Definições do cenário eleitoral

O grosso do cenário eleitoral de 2026 está praticamente definido: Lula será candidato a reeleição, Flávio Bolsonaro representará o bolsonarismo e a extrema-direita e haverá uma candidatura da centro-direita encampada pelo PSD, que tem como postulantes os governadores Ratinho Júnior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado. O mais provável é que o governador do Paraná seja o candidato. Poderão ter outras candidaturas como a de Zema, Aldo Rebelo etc.. Mas o cerne do cenário serão as três candidaturas. Dificilmente esse cenário mudará a não ser que algum grande incidente intervenha na conjuntura ou que a deusa Fortuna use suas artimanhas como o acaso e o imprevisto para mudar o rumo dos ventos.

Sempre dissemos que o governador Tarcísio não seria candidato à presidente, pois isto contrariava a lógica dos interesses políticos. A não ser em casos extremos, geralmente os políticos não jogam um jogo do tudo ou nada. Tarcísio não é candidato porque Bolsonaro não quis. Ele não é candidato porque a candidatura não estava no seu horizonte. Lançou alguns balões de ensaio para medir sua força e constituir algum poder de barganha.

Desde o início de 2023, o bolsonarismo, através de atos e movimentos desastrosos, vem fazendo um enorme esforço para ajudar a reeleger o presidente Lula. O governo, em contrapartida, pela sua apatia política age como se quisesse dizer: “olha, não e bem assim. Não sei se queremos ser reeleitos”. Deixou passar inúmeras ocasiões para impor uma derrota política, ideológica e moral ao bolsonarismo e à extrema-direita.

Em que pese os bons dados da economia, que não são traduzidos em capital político, o governo chega ao ano eleitoral praticamente estagnado: Lula lidera em todos os cenários e sua aprovação e a avaliação geral do governo seguem mais negativas do que positivas, como mostram as pesquisas de final de ano e a primeira pesquisa Quaest de 2026.

Em média, a aprovação negativa de Lula é de 50% e a positiva de 48%. Já na avaliação geral do governo na Quaest de janeiro de 2026 os números são os seguintes: a negativa é de 38%, a positiva é de 31% e regular, de 28%, com ligeira oscilação negativa em todos os números em relação a dezembro. Quanto à rejeição, Lula aparece com 54%, Flávio Bolsonaro com 55% e Ratinho Júnior com 41%.

O índice de rejeição é um indicador ambíguo. Em tese, ele indica que haveria espaço para o crescimento de uma candidatura de centro, centro-direita. Mas as eleições de 2018 e de 2022 mostram que num quadro de disputa polarizada, os polos da disputa tendem a ir para o segundo turno mesmo com alta rejeição. As candidaturas de centro ficaram espremidas entre os polos antagônicos.

Embora os números de Lula e do governo não sejam desesperadores, eles também não são confortáveis. Para que esse conforto seja alcançado antes do início da campanha, Lula deveria se aproximar dos 55% de aprovação e o governo deveria inverter as curvas das avaliações negativa e positiva. O razoável seria alcançar uma avaliação positiva de 40% a 42%.

As decisões de voto por parte dos eleitores, hoje, obedecem a critérios multifatoriais. Mas os dados da economia, como regra, ainda são o principal fator de decisão de voto. O governo vem colhendo indicadores econômicos positivos: baixo desemprego, recuperação da renda, inflação controlada, disparada da bolsa de valores, redução da pobreza… Mas o governo não consegue capitalizar esses feitos.

De acordo com a Quaest, 43% dos brasileiros avaliam que a economia piorou no último ano, 29% consideram que ela ficou estável e 24% julgam que ela melhorou. Confrontados com o desempenho real da economia, esses números chegam a ser inacreditáveis e mostram o desastre da comunicação, inapetência em promover a disputa política em torno do que é significativo e a passividade geral que domina o governo e sua base de apoio.

O comando político e os estrategistas do governo parecem não ter um diagnóstico acerca das dificuldades enfrentadas nas avaliações. Continuam negligenciando a atividade política nas redes e não prestam atenção nas atividades e conteúdos erosivos promovidos pela oposição. Com um simples acompanhamento de ativistas bolsonaristas nas redes, sem pesquisas mais aprofundadas, é possível detectar alguns motes fortes que provocam desgastes e não encontram contrapartidas: suposto envolvimento de pessoas ligadas ao governo no escândalo do INSS, aumento de impostos, aumento da dívida pública, excessos de bolsa família, corrupção, ajuda à Venezuela em detrimento da atenção à saúde dos brasileiros etc.

Lula enfrenta dificuldades também nas articulações estaduais, tanto para governos, quanto para o Senado. Em algumas pesquisas, Lula chega a estar em terceiro lugar nos três estados do Sul, atrás de Flavio Bolsonaro e de Ratinho Júnior. Santa Catarina e Paraná são casos perdidos. No Rio Grande do Sul, a melhor saída seria apoiar Juliana Brizola, mas o PT resiste. A região concentra 14,7% do eleitorado.

A situação mais delicada está no Sudeste, com 43% do eleitorado nacional. Nos dois principais estados – São Paulo e Minas Gerais – o quadro não é animador. Os dois possíveis candidatos que expressam maior potencial, Fernando Haddad e Rodrigo Pacheco, resistem aos apelos. Se não forem candidatos o risco de enfraquecimento da candidatura Lula na região é real. Já no Rio de Janeiro, a aliança com Eduardo Paes ainda não está pavimentada.

No Nordeste, segundo maior colégio eleitoral com 27,7% do eleitorado, o campo governista corre o risco de perder em estados historicamente marcados como lulistas: Bahia, Maranhão e Ceará. Os candidatos oposicionistas despontam na liderança nas pesquisas na disputa para os governos estaduais.

Na região Norte, com 8,3% do eleitorado, e no Centro-Oeste, com 6% do total de eleitores, as articulações governistas também são frágeis. No Norte, a principal articulação é com a família Barbalho (MDB) no Pará. No Centro-Oeste, o ministro Carlos Fávaro (PSD) é o principal operador a partir do Mato Grosso.

No atual cenário, em que pese Lula liderar todas as pesquisas de intenção de voto, o que se vislumbra é um quadro de dificuldades. O governo precisa, com urgência, buscar soluções para três grandes blocos de problemas: 1) melhorar sua avaliação, redefinindo seu modo de se comunicar, fazendo com que a economia e a política andem juntas; 2) definir estratégias mais agressivas e impactantes de disputa política em geral e nas redes sociais, sandio da letargia que o acomete e que acomete sua base de apoio; 3) correr atrás do prejuízo no atraso na montagem dos palanques estaduais e nas disputas para o Senado.

Adotar posturas triunfalistas nesse momento significa aumentar os riscos de derrota. É ilusão pensar que as eleições serão fáceis. O melhor a se fazer nesse momento consiste em produzir diagnósticos realistas dos problemas e dificuldades e enfrentá-los com urgência.

•        A soberba e a política. Por Oliveiros Marques

Não costuma entregar um final feliz a jornada política que se inicia alimentada por sentimentos de orgulho extremo, arrogância e uma pretensa superioridade moral, em que o personagem se julga melhor - e acima - dos demais. Atitudes fundadas na autossuficiência, na vaidade e no desprezo ao próximo são pecados recorrentes nesse roteiro e, não raras vezes, contribuem decisivamente para a derrota.

É exatamente esse o desenho que parece começar a se formar para as eleições deste ano no Estado de Santa Catarina. O governador Jorginho Mello (PL), talvez por acreditar que a Terra seja efetivamente plana - e que o mundo não dê voltas -, age como quem ignora as consequências do próprio movimento. Logo ele, que no intervalo de apenas quatro anos foi capaz de apoiar Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro com a mesma convicção. Talvez apenas surfando ondas aleatórias, como se estivesse sujeito ao efeito Coriolis gerado pela rotação do planeta, mas sem muita noção de direção.

Em um primeiro movimento, para não se contrapor à família Bolsonaro, aceitou sem grandes resistências a imposição da candidatura do vereador carioca Carlos Bolsonaro ao Senado Federal por Santa Catarina. A decisão causou um desarranjo considerável entre políticos do seu próprio campo, aliados que nunca lhe faltaram e que, de repente, se viram jogados aos leões. A deputada Carol de Toni (PL) e o senador Esperidião Amin (PP), ambos candidatos anunciados ao Senado, foram deixados à própria sorte. A deputada, após ameaçar deixar o partido e sustentar sua candidatura, aparentemente fechou um acordo interno no campo bolsonarista para formar uma dobrada com o vereador, estratégia destinada a concentrar entre ambos o primeiro e o segundo voto. Como sempre, é bom lembrar: esse tipo de arranjo precisa ser combinado com os russos - no caso, os eleitores.

Com a dobrada estabelecida, o senador catarinense Esperidião Amin ficou literalmente na chuva. Mantido o desejo de seguir candidato, restará a ele buscar acolhida em outra aliança. Muito provavelmente junto ao candidato João Rodrigues, prefeito de Chapecó, que, apesar de concorrer pelo PSD, dentro de uma espécie de doença infantil que acomete parcela significativa da política catarinense, insiste em afirmar ser amigo de infância de Jair Bolsonaro.

Mas a soberba de Jorginho Mello não se encerra aí. Em um movimento apressado e, ao que tudo indica, pouco refletido - talvez acossado por historinhas nas quais só ele acreditou -, anunciou o atual prefeito de Joinville, Adriano Silva (NOVO), como seu vice. Com isso, deixou ao relento mais um aliado histórico, desta vez o MDB. Um partido relevante no estado, com ampla capilaridade e presença expressiva de prefeitos e vice-prefeitos sob sua legenda.

Sou daqueles que compartilham a tese de que eleições se vencem com política temperada por uma dose qualificada de comunicação. A estratégia eleitoral tende a ser muito mais assertiva quando a política cumpre seu papel. Há casos de vitórias mesmo quando a comunicação não foi exemplar. Mas é praticamente impossível vencer quando o erro está na articulação política. Digo isso porque me parece que as eleições em Santa Catarina caminham para um desfecho bastante diferente daquele que muitos projetavam até um ou dois meses atrás. Se Esperidião Amin, sua federação União Progressista e o MDB catarinense tiverem um mínimo de amor-próprio, deverão buscar outros caminhos para suas candidaturas. E é justamente nesse vácuo que ganham tração João Rodrigues e Gelson Merísio - o candidato que, de terceira via, pode acabar se consolidando como alternativa objetiva.

 

Fonte: Jornal GGN/Brasil 247

 

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