Aldo
Fornazieri: Definições do cenário eleitoral
O
grosso do cenário eleitoral de 2026 está praticamente definido: Lula será
candidato a reeleição, Flávio Bolsonaro representará o bolsonarismo e a
extrema-direita e haverá uma candidatura da centro-direita encampada pelo PSD,
que tem como postulantes os governadores Ratinho Júnior, Eduardo Leite e
Ronaldo Caiado. O mais provável é que o governador do Paraná seja o candidato.
Poderão ter outras candidaturas como a de Zema, Aldo Rebelo etc.. Mas o cerne
do cenário serão as três candidaturas. Dificilmente esse cenário mudará a não
ser que algum grande incidente intervenha na conjuntura ou que a deusa Fortuna
use suas artimanhas como o acaso e o imprevisto para mudar o rumo dos ventos.
Sempre
dissemos que o governador Tarcísio não seria candidato à presidente, pois isto
contrariava a lógica dos interesses políticos. A não ser em casos extremos,
geralmente os políticos não jogam um jogo do tudo ou nada. Tarcísio não é
candidato porque Bolsonaro não quis. Ele não é candidato porque a candidatura
não estava no seu horizonte. Lançou alguns balões de ensaio para medir sua
força e constituir algum poder de barganha.
Desde o
início de 2023, o bolsonarismo, através de atos e movimentos desastrosos, vem
fazendo um enorme esforço para ajudar a reeleger o presidente Lula. O governo,
em contrapartida, pela sua apatia política age como se quisesse dizer: “olha,
não e bem assim. Não sei se queremos ser reeleitos”. Deixou passar inúmeras
ocasiões para impor uma derrota política, ideológica e moral ao bolsonarismo e
à extrema-direita.
Em que
pese os bons dados da economia, que não são traduzidos em capital político, o
governo chega ao ano eleitoral praticamente estagnado: Lula lidera em todos os
cenários e sua aprovação e a avaliação geral do governo seguem mais negativas
do que positivas, como mostram as pesquisas de final de ano e a primeira
pesquisa Quaest de 2026.
Em
média, a aprovação negativa de Lula é de 50% e a positiva de 48%. Já na
avaliação geral do governo na Quaest de janeiro de 2026 os números são os
seguintes: a negativa é de 38%, a positiva é de 31% e regular, de 28%, com
ligeira oscilação negativa em todos os números em relação a dezembro. Quanto à
rejeição, Lula aparece com 54%, Flávio Bolsonaro com 55% e Ratinho Júnior com
41%.
O
índice de rejeição é um indicador ambíguo. Em tese, ele indica que haveria
espaço para o crescimento de uma candidatura de centro, centro-direita. Mas as
eleições de 2018 e de 2022 mostram que num quadro de disputa polarizada, os
polos da disputa tendem a ir para o segundo turno mesmo com alta rejeição. As
candidaturas de centro ficaram espremidas entre os polos antagônicos.
Embora
os números de Lula e do governo não sejam desesperadores, eles também não são
confortáveis. Para que esse conforto seja alcançado antes do início da
campanha, Lula deveria se aproximar dos 55% de aprovação e o governo deveria
inverter as curvas das avaliações negativa e positiva. O razoável seria
alcançar uma avaliação positiva de 40% a 42%.
As
decisões de voto por parte dos eleitores, hoje, obedecem a critérios
multifatoriais. Mas os dados da economia, como regra, ainda são o principal
fator de decisão de voto. O governo vem colhendo indicadores econômicos
positivos: baixo desemprego, recuperação da renda, inflação controlada,
disparada da bolsa de valores, redução da pobreza… Mas o governo não consegue
capitalizar esses feitos.
De
acordo com a Quaest, 43% dos brasileiros avaliam que a economia piorou no
último ano, 29% consideram que ela ficou estável e 24% julgam que ela melhorou.
Confrontados com o desempenho real da economia, esses números chegam a ser
inacreditáveis e mostram o desastre da comunicação, inapetência em promover a
disputa política em torno do que é significativo e a passividade geral que
domina o governo e sua base de apoio.
O
comando político e os estrategistas do governo parecem não ter um diagnóstico
acerca das dificuldades enfrentadas nas avaliações. Continuam negligenciando a
atividade política nas redes e não prestam atenção nas atividades e conteúdos
erosivos promovidos pela oposição. Com um simples acompanhamento de ativistas
bolsonaristas nas redes, sem pesquisas mais aprofundadas, é possível detectar
alguns motes fortes que provocam desgastes e não encontram contrapartidas:
suposto envolvimento de pessoas ligadas ao governo no escândalo do INSS,
aumento de impostos, aumento da dívida pública, excessos de bolsa família,
corrupção, ajuda à Venezuela em detrimento da atenção à saúde dos brasileiros
etc.
Lula
enfrenta dificuldades também nas articulações estaduais, tanto para governos,
quanto para o Senado. Em algumas pesquisas, Lula chega a estar em terceiro
lugar nos três estados do Sul, atrás de Flavio Bolsonaro e de Ratinho Júnior.
Santa Catarina e Paraná são casos perdidos. No Rio Grande do Sul, a melhor
saída seria apoiar Juliana Brizola, mas o PT resiste. A região concentra 14,7%
do eleitorado.
A
situação mais delicada está no Sudeste, com 43% do eleitorado nacional. Nos
dois principais estados – São Paulo e Minas Gerais – o quadro não é animador.
Os dois possíveis candidatos que expressam maior potencial, Fernando Haddad e
Rodrigo Pacheco, resistem aos apelos. Se não forem candidatos o risco de
enfraquecimento da candidatura Lula na região é real. Já no Rio de Janeiro, a
aliança com Eduardo Paes ainda não está pavimentada.
No
Nordeste, segundo maior colégio eleitoral com 27,7% do eleitorado, o campo
governista corre o risco de perder em estados historicamente marcados como
lulistas: Bahia, Maranhão e Ceará. Os candidatos oposicionistas despontam na
liderança nas pesquisas na disputa para os governos estaduais.
Na
região Norte, com 8,3% do eleitorado, e no Centro-Oeste, com 6% do total de
eleitores, as articulações governistas também são frágeis. No Norte, a
principal articulação é com a família Barbalho (MDB) no Pará. No Centro-Oeste,
o ministro Carlos Fávaro (PSD) é o principal operador a partir do Mato Grosso.
No
atual cenário, em que pese Lula liderar todas as pesquisas de intenção de voto,
o que se vislumbra é um quadro de dificuldades. O governo precisa, com
urgência, buscar soluções para três grandes blocos de problemas: 1) melhorar
sua avaliação, redefinindo seu modo de se comunicar, fazendo com que a economia
e a política andem juntas; 2) definir estratégias mais agressivas e impactantes
de disputa política em geral e nas redes sociais, sandio da letargia que o
acomete e que acomete sua base de apoio; 3) correr atrás do prejuízo no atraso
na montagem dos palanques estaduais e nas disputas para o Senado.
Adotar
posturas triunfalistas nesse momento significa aumentar os riscos de derrota. É
ilusão pensar que as eleições serão fáceis. O melhor a se fazer nesse momento
consiste em produzir diagnósticos realistas dos problemas e dificuldades e
enfrentá-los com urgência.
• A soberba e a política. Por Oliveiros
Marques
Não
costuma entregar um final feliz a jornada política que se inicia alimentada por
sentimentos de orgulho extremo, arrogância e uma pretensa superioridade moral,
em que o personagem se julga melhor - e acima - dos demais. Atitudes fundadas
na autossuficiência, na vaidade e no desprezo ao próximo são pecados
recorrentes nesse roteiro e, não raras vezes, contribuem decisivamente para a
derrota.
É
exatamente esse o desenho que parece começar a se formar para as eleições deste
ano no Estado de Santa Catarina. O governador Jorginho Mello (PL), talvez por
acreditar que a Terra seja efetivamente plana - e que o mundo não dê voltas -,
age como quem ignora as consequências do próprio movimento. Logo ele, que no
intervalo de apenas quatro anos foi capaz de apoiar Dilma Rousseff e Jair
Bolsonaro com a mesma convicção. Talvez apenas surfando ondas aleatórias, como
se estivesse sujeito ao efeito Coriolis gerado pela rotação do planeta, mas sem
muita noção de direção.
Em um
primeiro movimento, para não se contrapor à família Bolsonaro, aceitou sem
grandes resistências a imposição da candidatura do vereador carioca Carlos
Bolsonaro ao Senado Federal por Santa Catarina. A decisão causou um desarranjo
considerável entre políticos do seu próprio campo, aliados que nunca lhe
faltaram e que, de repente, se viram jogados aos leões. A deputada Carol de
Toni (PL) e o senador Esperidião Amin (PP), ambos candidatos anunciados ao
Senado, foram deixados à própria sorte. A deputada, após ameaçar deixar o
partido e sustentar sua candidatura, aparentemente fechou um acordo interno no
campo bolsonarista para formar uma dobrada com o vereador, estratégia destinada
a concentrar entre ambos o primeiro e o segundo voto. Como sempre, é bom lembrar:
esse tipo de arranjo precisa ser combinado com os russos - no caso, os
eleitores.
Com a
dobrada estabelecida, o senador catarinense Esperidião Amin ficou literalmente
na chuva. Mantido o desejo de seguir candidato, restará a ele buscar acolhida
em outra aliança. Muito provavelmente junto ao candidato João Rodrigues,
prefeito de Chapecó, que, apesar de concorrer pelo PSD, dentro de uma espécie
de doença infantil que acomete parcela significativa da política catarinense,
insiste em afirmar ser amigo de infância de Jair Bolsonaro.
Mas a
soberba de Jorginho Mello não se encerra aí. Em um movimento apressado e, ao
que tudo indica, pouco refletido - talvez acossado por historinhas nas quais só
ele acreditou -, anunciou o atual prefeito de Joinville, Adriano Silva (NOVO),
como seu vice. Com isso, deixou ao relento mais um aliado histórico, desta vez
o MDB. Um partido relevante no estado, com ampla capilaridade e presença
expressiva de prefeitos e vice-prefeitos sob sua legenda.
Sou
daqueles que compartilham a tese de que eleições se vencem com política
temperada por uma dose qualificada de comunicação. A estratégia eleitoral tende
a ser muito mais assertiva quando a política cumpre seu papel. Há casos de
vitórias mesmo quando a comunicação não foi exemplar. Mas é praticamente
impossível vencer quando o erro está na articulação política. Digo isso porque
me parece que as eleições em Santa Catarina caminham para um desfecho bastante
diferente daquele que muitos projetavam até um ou dois meses atrás. Se
Esperidião Amin, sua federação União Progressista e o MDB catarinense tiverem
um mínimo de amor-próprio, deverão buscar outros caminhos para suas
candidaturas. E é justamente nesse vácuo que ganham tração João Rodrigues e
Gelson Merísio - o candidato que, de terceira via, pode acabar se consolidando
como alternativa objetiva.
Fonte:
Jornal GGN/Brasil 247

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