Há
50 anos, reunião secreta no Chile lançou
a Operação Condor e uniu ditaduras do Cone Sul para eliminar opositores
Entre
os dias 25 e 29 de novembro de 1975, delegações de oficiais de inteligência de
seis ditaduras militares do Cone Sul reuniram-se na
Academia de Guerra do Chile, em Santiago, a fim
de coordenar ações contra opositores na região.
Organizado
pessoalmente pelo coronel do Exército do Chile e titular da
Direção de Inteligência Nacional (Dina), Manuel Contreras Sepulveda, o encontro
tinha por objetivo deixar para trás a colaboração eventual e lançar uma guerra
secreta contra a subversão no continente.
O
motivo da reunião foi sintetizado em documento preparatório distribuído um mês
antes pelos anfitriões nos seguintes termos:
"A
Subversão desde alguns anos se encontra presente em nosso Continente, amparado
(sic) por concepções político-econômicas contrárias à História, à Filosofia, à
Religião e aos costumes próprios dos países de nosso Hemisfério".
Diante
disso, o regime chileno propunha a criação de um "Sistema de Coordenação
de Segurança" integrado pelos seis Estados — Argentina, Bolívia, Brasil,
Chile, Paraguai e Uruguai — e todos os que quisessem aderir ao arranjo, com
exceção de "países marxistas".
O
esquema teria três pilares: um banco de dados sobre elementos subversivos —
algo similar ao que tem a Interpol, em Paris, mas dedicado à subversão, segundo
o documento preparatório —, uma central de informações alimentada por
transmissões via telex, meios de criptografia, telefones com misturadores de
voz e correios e reuniões de trabalho periódicas.
Segundo
Nilson Mariano, jornalista, escritor e mestre em História pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a cooperação entre
ditaduras do Cone Sul sempre existiram, mas antes de 1975 eram ocasionais e
bilaterais.
Autor
de Operación Cóndor: terrorismo de Estado en el Cono Sur (Lohlé-Lumen,
1998) e As garras do condor (Vozes, 2003), Mariano afirma que
essa irregularidade era motivada pelo "descompasso entre os períodos
autoritários nos países da região".
Para o
pesquisador, a Operação Condor "sistematizou e
organizou essas cooperações que antes eram pontuais".
Paradoxalmente,
dos seis Estados representados em Santiago há exatos 50 anos, cinco viviam sob
regimes policiais que, àquela altura, já haviam esmagado de forma inequívoca a
oposição doméstica.
A mais
longeva era a do Paraguai, onde o general
Alfredo Stroessner se mantinha no poder havia mais de 20 anos.
Em
seguida, figuravam as do Brasil e da Bolívia, com mais de 10 anos
cada uma.
Entre
as novatas, estavam as do próprio Chile e do Uruguai, com pouco mais de
dois anos, mas sem ameaça séria à vista.
A Argentina, embora formalmente
uma democracia em novembro de 1975 sob o governo da presidente María Estela
Martínez de Perón, a Isabelita, já vivia sob o signo da chamada Guerra Suja.
Instalada
no centro do poder, a organização armada Aliança Anticomunista Argentina, a
Triple A, promovia sequestros e chacinas de militantes de esquerda desde 1973.
Em
menos de quatro meses, os argentinos também cairiam sob o tacão militar.
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Os bastidores da participação brasileira
Coube
ao coronel do exército uruguaio e chefe da delegação do país, José A. Fons,
batizar o novo sistema.
"O
presente Organismo se denominará Condor, aprovado por unanimidade, conforme a
moção apresentada pela delegação do Uruguai em homenagem ao país sede",
informa a ata de encerramento da oficialmente denominada Primeira Reunião
Interamericana de Inteligência Nacional, de 28 de novembro de 1975.
Por
ironia, a majestosa ave de rapina típica dos Andes, que passou a simbolizar a
operação, é associada em toda a América Latina à autonomia e à
liberdade, chegando, no Brasil, a servir de emblema à geração romântica do
poeta baiano Castro Alves (1847-1871), defensor apaixonado da abolição da
escravidão.
A
reunião de Santiago não se limitou a batizar a parceria repressiva, adverte
Mariano.
"A
partir de novembro de 1975, sob o nome de Operação Condor, foram criados um
banco de dados dos que deveriam ser perseguidos e sequestrados e comandos
especiais para agir além das fronteiras, inclusive na Europa e nos Estados Unidos."
A ata
do encontro lavrada em 28 de novembro traz, porém, apenas as assinaturas dos
chefes de delegação de Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai.
A
representação brasileira não deixou sua firma para a história.
Três
semanas antes do encontro, um major do Exército brasileiro procurou o coronel
comandante do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), criado em 1823 e
subordinado ao Comando Militar do Planalto, em Brasília.
"Coronel,
fui designado para uma reunião em Santiago e não queria viajar sem que o senhor
soubesse", disse o primeiro.
Não
havia necessidades de serviço que justificassem o contato: o major, lotado no
Centro de Informações do Exército (CIE), não era subordinado ao coronel.
Havia,
no entanto, razões de camaradagem próprias da caserna.
Ao
cursar a Academia Militar de Agulhas Negras (Aman), no início dos anos 1950, o
então aspirante a oficial e agora major Thaumaturgo Sotero Vaz havia tido como
instrutor o agora coronel e futuro ministro-chefe da Casa Militar Danilo
Venturini.
A
reconstituição do diálogo entre os dois custou ao jornalista Luiz Cláudio Cunha
28 anos de investigações.
A
partir da conversa entre instrutor e pupilo, Cunha revelou pela primeira vez os
bastidores da participação brasileira no encontro de 1975 no livro Operação
Condor – o sequestro dos uruguaios: uma reportagem dos tempos da ditadura (L&PM,
2008).
Nascido
em 1932, Vaz, que atuava no CIE sob o codinome de Doutor Sabino, foi um dos
dois integrantes da delegação brasileira a Santiago.
O outro
foi o tenente-coronel Flávio de Marco, o Tio Caco do CIE.
Ambos
eram veteranos da repressão à Guerrilha do Araguaia, entre 1973 e 1974.
O
vice-diretor da Dina, coronel da Força Aérea do Chile Mario Jahn, revelaria
anos mais tarde à Justiça chilena ter entregue ao então ministro-chefe do
Serviço Nacional de Informações (SNI) e futuro presidente da República, general
João Batista de Oliveira Figueiredo, o convite para que fosse a Santiago à
frente de uma delegação do órgão.
"O
então ditador brasileiro Ernesto Geisel, a quem Figueiredo respondia
diretamente, não tinha interesse em se colocar sob o manto de Pinochet",
explica Cunha à BBC News Brasil.
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Brasil pretendia "controlar" esquema
Para
mostrar sua reserva, a ditadura brasileira resolveu enviar ao Chile uma
delegação do Centro de Informações do Exército (CIE), inferior ao SNI na
hierarquia do sistema de informações do regime.
O grupo
era composto por dois oficiais – e não três, como constava do convite –, de
patente inferior aos delegados de todos os outros cinco países participantes,
em sua maioria generais e coronéis.
Mais
notáveis ainda foram as instruções dadas pelo comandante do CIE,
general-de-brigada Confúcio Danton de Paula Avelino, a De Marco e Vaz.
Os
brasileiros deveriam participar do conciliábulo na condição de observadores e,
assim, abster-se de assinar qualquer documento.
De
Marco morreu em 1984, de infarto, quando exercia o cargo de
diretor-administrativo do Palácio do Planalto no governo Figueiredo.
Vaz
morreu em 2015, de problemas pulmonares, como general-de-exército da reserva.
Pouco
antes de morrer, negou-se a prestar depoimento à Comissão Nacional da Verdade,
utilizando como pretexto a saúde frágil.
"A
atitude do Brasil diante da reunião em Santiago, em vez de independência,
mostra o caráter cínico e hipócrita da ditadura brasileira", afirma Cunha,
que asessorou a Comissão Nacional da Verdade, instaurada quatro anos depois da
publicação de seu livro.
Documentos
desclassificados pelos Estados Unidos em 2019, revelados pelo jornalista
Roberto Simon no livro O Brasil contra a democracia: a ditadura, o
golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul (Companhia das
Letras, 2021), mostram que o Brasil tentou "controlar" a Condor.
Por um
lado, os militares brasileiros resistiram à pressão de seus parceiros chilenos,
argentinos e uruguaios para deflagrar assassinatos de opositores fora do Cone
Sul.
Por
outro, deram preferência a operações bilaterais de sequestro e morte na região.
A
reunião de Santiago foi meticulosamente preparada pela Dina chilena, principal,
mas não única interessada em ter as mãos livres para caçar inimigos além de
suas fronteiras.
A
palestra de abertura ficou a cargo do próprio general Augusto Pinochet, que, em seguida,
passou a coordenação dos trabalhos a Contreras.
O
encontro teve credenciamento, hospedagem e infraestrutura custeados pela
agência, que não se esqueceu de intercalar as sete sessões de trabalho com
turnos livres, viagem recreativa a Viña del Mar, visitas à Escola de Cavalaria
do Chile e até mesmo "a algum Centro Noturno".
Embora
a Operação Condor tenha sido formalizada apenas em 1975, a colaboração entre os
regimes tinha começado muito tempo antes.
Desde
1970, a parceria contra a subversão estava muito longe de se limitar ao
"acordo de cavalheiros" mencionado em seu documento de criação.
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Sequestro de brasileiro é primeira ação documentada
A
primeira colaboração comprovada de aparelhos repressivos de ditaduras do Cone
Sul ocorreu em 11 de dezembro de 1970.
Nesse
dia, agentes brasileiros e argentinos sequestraram em Buenos Aires o brasileiro
Jefferson Cardim de Alencar Osório — expulso do Exército em 1964 por se opor ao
golpe militar e que vivia no Uruguai na condição de refugiado sob a proteção do
Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).
Juntamente
com o militar, foram detidos e submetidos à tortura seu filho, Jefferson
Lopetegui de Alencar Osório, e um sobrinho uruguaio, Eduardo Lopetegui.
Em um
voo da Força Aérea Brasileira, Cardim e o filho foram transportados
clandestinamente para o Rio de Janeiro, onde o ex-major continuou sendo
torturado e permaneceu preso até 1977.
Anistiado
em 1979, o ex-oficial teve o benefício anulado pelo Superior Tribunal Militar
(STM), voltou a exilar-se na Venezuela e retornou ao país apenas em 1985, após
o fim do regime militar.
"O
sequestro de Cardim é a primeira ação documentada da Operação Condor, cinco
anos antes de o esquema receber esse nome", afirma o presidente do
Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), Jair Krischke, à BBC News
Brasil.
Em
dezembro de 1973, dois anos após o sequestro de Cardim, agentes argentinos e
brasileiros realizaram outros três sequestros em Buenos Aires.
As
vítimas foram o jornalista Edmur Péricles Camargo, o major brasileiro também
expulso do Exército Joaquim Pires Cerveira e o estudante João Batista Rita
Pereda.
Diferentemente
de Cardim, os três nunca mais foram vistos.
O
Estado brasileiro reconheceu a responsabilidade pelo desaparecimento de
Camargo, Cerveira e Rita e pagou indenizações às famílias dos três.
O
sigilo em torno da Operação Condor começou a ruir a partir de 1976, com o
envolvimento comprovado de agentes da Dina apoiados por exilados cubanos
anticastristas, no assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letelier em
Washington, D.C.
Juntamente
com Letelier, foi morta a americana Ronni Karpen Moffitt, colega do diplomata
no Institute for Policy Studies.
O
atentado, primeiro ato de terrorismo de Estado de um país estrangeiro em solo
americano, provocou o esfriamento definitivo das relações entre Estados Unidos
e Chile, além de suspensão de ajuda militar e embargo de armas ao país
sul-americano.
De
forma mais abrangente, o rastro da Dina na eliminação de Letelier contribuiu
para azedar as relações dos Estados Unidos com todas as ditaduras da região e
estimular a chamada política de direitos humanos do presidente Jimmy Carter
(1977-1981).
O caso
Letelier e outros com as digitais de agentes dos regimes do Cone Sul contribuiu
para criar dificuldades para a ditadura brasileira.
Aliada
às divisões na caserna durante os governos Ernesto Geisel (1974-1979) e João
Figueiredo (1979-1985) e ao reavivamento da atividade política de oposição, a
repercussão internacional dos assassinatos ganhou as páginas dos jornais.
Em
1978, não foi mais possível disfarçar os sinais de uma ação coordenada entre as
ditaduras.
No dia
12 de novembro daquele ano, policiais brasileiros e uruguaios sequestraram em
Porto Alegre os uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Rodríguez Díaz,
juntamente com os dois filhos menores de Lilian.
O crime
foi parcialmente frustrado pela súbita aparição, no apartamento das vítimas, de
dois jornalistas da sucursal da editora Abril em Porto Alegre, o então repórter
da revista Veja Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo da revista Placar João Batista
Scalco.
Avisados
por um denunciante anônimo de que estaria ocorrendo um sequestro em um edifício
do bairro Menino Deus, Cunha e Scalco bateram à porta de Lilian e Universindo.
Confundidos
com militantes pelos policiais, foram rendidos até que suas identidades fossem
checadas.
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Processos para apurar crimes da Condor
Como se
não bastasse o comprometimento do sigilo, o fotógrafo esportivo Scalco
reconheceu um dos policiais, o inspetor do Departamento de Ordem Política e
Social (Dops) Orandir Portassi Lucas.
Nos
anos 1960, o agente tivera segundos de fama como ponta-esquerda driblador do
Sport Club Internacional, onde recebera a alcunha de Didi Pedalada.
O
escândalo permitiu que Lilian e Universindo, embora sequestrados e torturados,
tenham tido suas vidas preservadas, diferentemente de outros 180 uruguaios
sequestrados no exterior, boa parte deles pela Operação Condor.
"Em
1978, nunca tínhamos ouvido falar de Operação Condor", afirma Krischke.
"De
repente, torna-se público que agentes uruguaios não apenas estavam operando
livremente em território brasileiro mas em cumplicidade com altas autoridades
do país."
Em
junho de 1980, numa decisão inédita, o juiz Moacir Danilo Rodrigues condenou
pela primeira vez dois agentes do Dops por envolvimento no esquema repressivo
continental em razão do sequestro dos uruguaios.
Rodrigues
tornou-se, assim, o único juiz brasileiro a proferir até a atualidade sentença
condenatória por crime cometido no âmbito da Operação Condor.
Na
totalidade, de 1976 a 2020, 10 países abriram processos judiciais para apurar
responsabilidades pelas ações da Condor, num total de 49 causas.
Além
dos seis representados na reunião de Santiago, fazem parte da lista Estados
Unidos, França, Itália e Peru.
Do
total de processos, 29 haviam resultado em sentenças condenatórias transitadas
em julgado até 2011, segundo o site plancondor.org, mantido pela University
College London e organizações pró-direitos humanos do Uruguai e do Chile.
Fonte:
BBC News Brasil

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