O
que está por trás dos ataques de Elon Musk ao primeiro-ministro da Espanha
O
empresário americano Elon Musk entrou na política da Espanha nesta semana
com uma sequência inesperada de ataques ao primeiro-ministro espanhol, o
socialista Pedro Sánchez.
Musk
classificou Sánchez como "tirano", "traidor do povo
espanhol" e "fascista" em várias mensagens publicadas em sua
rede social, o X. Ele também se referiu ao primeiro-ministro espanhol
"sucio Sánchez" ("Sánchez sujo", em tradução livre) e
colocou o emoji de fezes ao lado do nome do político.
Os
ataques ocorreram após o anúncio de Sánchez de que a Espanha proibirá o acesso
às redes sociais por menores de
16 anos e promoverá mudanças na lei para que os executivos das empresas
proprietárias dessas plataformas respondam criminalmente por conteúdos ilícitos
nelas divulgados.
Musk
não foi o único empresário do setor a fazer críticas públicas. Nesta
quarta-feira (4/2), Pvel Durov, fundador do aplicativo de mensagens Telegram,
acusou Sánchez de impulsionar "regulações perigosas" capazes de levar
à criação de um "estado de vigilância" na Espanha. As acusações foram
publicadas no Telegram.
Sánchez
respondeu a esse último comentário no X.
"Deixe
os tecno-oligarcas latirem, Sancho, é sinal de que estamos avançando",
escreveu o primeiro-ministro espanhol, em referência a uma expressão espanhola
que, na cultura popular, costuma ser associada a um dos conselhos de Dom
Quixote de La Mancha a seu escudeiro Sancho Pança, personagens do romance
histórico do século 17 Dom Quixote, do espanhol Miguel de
Cervantes.
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O que Pedro Sánchez anunciou
Em um
evento internacional realizado nesta semana em Dubai, o primeiro-ministro
espanhol anunciou que a Espanha proibirá o acesso de menores de 16 anos às
redes sociais, que passarão a ser obrigadas a implementar sistemas eficazes
para verificar a idade dos usuários.
Sánchez
disse que "as redes sociais se tornaram um Estado falido, no qual as leis
são ignoradas e os crimes são tolerados", e prometeu que seu governo
protegerá os menores do "velho oeste digital".
O
primeiro-ministro espanhol afirmou ainda que, entre outras medidas, serão
promovidas reformas da lei para que os executivos das plataformas respondam
juridicamente pelas violações cometidas nelas. "Isso significa que os CEOs
das plataformas de tecnologia enfrentarão responsabilidade penal se não
removerem conteúdos de ódio ou ilegais."
"As
redes sociais, suas empresas, são mais ricas e mais poderosas do que muitos
países, incluindo o meu. Mas o seu poder e influência não devem nos amedrontar,
porque nossa determinação é maior", declarou Sánchez.
A
publicação do vídeo do discurso de Sánchez em Dubai levou à reação de Musk, que
publicou e compartilhou diversas mensagens no X.
Uma das
mensagens compartilhadas por Musk afirmava que "a Espanha está a caminho
de uma censura ao estilo norte-coreano" e que "o governo de Pedro
Sánchez está promovendo novas regulamentações perigosas que ameaçam suas
liberdades na internet".
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Europa contra as redes
O
embate entre Sánchez e Musk ocorre em um momento em que um número crescente de
países europeus começa a adotar medidas para conter abusos nas redes sociais e
proteger menores de uma exposição excessiva ou prejudicial.
A
partir do exemplo da Austrália, pioneira ao proibir o acesso às redes
sociais por
menores de 16 anos, França, Reino Unido e outros discutem leis na mesma
direção.
No
mesmo dia em que Musk criticava Sánchez no X, a polícia francesa realizou
buscas na sede da rede social X em Paris, no âmbito de uma investigação sobre a
disseminação de pornografia infantil, a divulgação de dados de pessoas físicas
e o incentivo à interferência estrangeira.
O X foi
obrigado a desativar uma função de sua ferramenta Grok, que permitia aos
usuários obter imagens de nudez geradas por inteligência artificial a partir de
fotografias de pessoas reais, após dias de polêmica internacional e da recusa
inicial de Musk em fazê-lo.
A Lei
de Serviços Digitais aprovada pela União Europeia também ampliou os requisitos
e exigências impostos às empresas proprietárias das redes sociais, sobretudo
aquelas controladas por gigantes da tecnologia dos EUA, como o X e a Meta.
O
governo do presidente americano, Donald Trump, criticou as medidas adotadas na
Europa como um ataque à liberdade de expressão, crítica que Musk também repetiu
e que contribuiu para o crescente distanciamento entre os EUA e seus aliados
europeus.
Musk
apoiou publicamente partidos da direita radical europeia, que disputam espaço
com forças como o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) de Pedro Sánchez
e com as formações de esquerda que integram sua coalizão de governo.
Sánchez
tem sido um dos líderes europeus mais críticos às redes sociais e a seus
proprietários bilionários, a quem frequentemente se refere como "a
tecnocasta".
"A
Europa deve enfrentar e se rebelar contra essa ameaça à democracia", disse
Sánchez em janeiro do ano passado.
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A polêmica sobre a regularização de imigrantes
Poucos
dias antes, Musk e Sánchez já haviam trocado mensagens nas redes sociais em
razão da decisão recentemente adotada pelo governo da Espanha de regularizar
centenas de milhares de imigrantes em situação
irregular no país.
A
ministra espanhola de Inclusão, Segurança Social e Migrações, Elma Saiz,
defendeu a regularização extraordinária de imigrantes como "necessária
para dar resposta à realidade que existe em nossas ruas" e afirmou que a
medida busca "reconhecer, dignificar e oferecer garantias, oportunidades e
direitos a pessoas que já estão em nosso país".
A
política de portas abertas à imigração promovida pelo governo Sánchez tem
chamado a atenção no cenário internacional, em um momento em que os EUA e
vários países europeus adotam medidas cada vez mais restritivas.
Musk,
que nasceu na África do Sul, que obteve a cidadania do Canadá por meio de sua
mãe canadenese e se naturalizou americano no início dos anos 2000 (segundo suas
biografias), também foi um dos críticos da regularização de imigrantes
anunciada pelo governo de Sánchez.
Musk
compartilhou com seus 233 milhões de seguidores no X um vídeo do comentarista
político malaio Ian Miles Cheong, no qual Sánchez é acusado de aprovar a
regularização para "derrotar a direita radical".
"A
lógica é simples: legalizar meio milhão de pessoas, acelerar seu acesso à
cidadania", dizia o vídeo de Cheong, compartilhado por Musk com o
comentário: "Uau".
Sánchez
respondeu a essa última mensagem de Musk com outra, na qual afirmou:
"Marte pode esperar. A humanidade, não". O primeiro-ministro espanhol
faz referências aos planos de Musk de colonizar Marte.
Os
principais partidos da oposição espanhola se posicionaram contra a mais recente
regularização de imigrantes promovida pelo governo de Sánchez, descrita pela
direita radical do Vox como "o assassinato da Espanha" e uma
"invasão".
A
medida também foi alvo de críticas porque o governo a aprovou sem passar pelo
Parlamento, onde não tinha o apoio necessário.
O
governo de Sánchez e as organizações sociais que apoiam a iniciativa sustentam
que ela servirá para garantir direitos às pessoas que já contribuem para o bom
momento econômico vivido pelo país e permitirá ampliar o emprego formal e, como
consequência, a arrecadação de impostos.
Há
diversos fatores envolvidos na decisão espanhola, a exemplo de perspectivas
econômicas, laços culturais (entre a Espanha e América Latina) e a composição
política do governo espanhol.
Segundo
especialistas ouvidos pela BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC), a
regularização dos imigrantes na Espanha favorecerá, por exemplo, a formalização
do emprego e a arrecadação pública no curto prazo ao reduzir a economia
informal, enquanto, no médio prazo, deve garantir maior sustentabilidade ao
sistema previdenciário, cada vez mais pressionado pelo envelhecimento
demográfico.
Fonte:
BBC News Mundo

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