sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Por que a direita radical da Europa está se afastando de Trump

O romance entre os partidos nacionalistas de direita da Europa e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece enfrentar uma crise.

Um ano depois de os líderes desses partidos europeus celebrarem o retorno de Trump à Casa Branca, muitos deles passaram a se distanciar do atual presidente americano.

A operação militar sem precedentes ordenada por Trump em 3/1 contra a Venezuela, que terminou com a captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, trouxe à tona as primeiras tensões.

"Há mil razões para condenar o regime de Nicolás Maduro: comunista, oligárquico e autoritário, mas a soberania estatal nunca é negociável", escreveu em sua conta na rede social X Marine Le Pen, líder do Reagrupamento Nacional (RN), partido de direita radical da França.

Semanas depois, as ameaças de Trump de impor novas tarifas a países europeus contrários a seus planos de assumir o controle da Groenlândia ampliaram ainda mais o afastamento.

"Amigos podem discordar. Isso faz parte da vida e da política, mas um presidente dos EUA ameaçar impor tarifas a menos que aceitemos que ele se aproprie da Groenlândia, por qualquer meio… Isso é um ato bastante hostil", declarou o parlamentar britânico Nigel Farage, líder do Reform UK, partido populista e eurocético (contrário à União Europeia).

No entanto, foram as declarações de Trump minimizando a colaboração de aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na guerra do Afeganistão que se tornaram a gota d'água para muitos políticos europeus de direita próximos de Trump.

"A Itália e os EUA estão unidos por uma amizade sólida, baseada em valores compartilhados e em uma colaboração histórica […], mas a amizade exige respeito", advertiu a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, que, graças à boa sintonia com Trump, vem atuando como ponte entre a Europa e os EUA sempre que surge um impasse nas relações.

As críticas e os questionamentos a Trump vieram do chamado universo Mega, sigla em inglês de Make Europe Great Again ("Faça a Europa Grande Novamente", em tradução livre, uma variação de Maga, slogan americano equivalente que se tornou marca do movimento trumpista). Mas embora essas declarações tenham rendido manchetes na imprensa ao redor do mundo, a situação começou meses atrás e bem mais perto dos EUA.

"O efeito bumerangue que identifiquei no início de 2025, segundo o qual a associação com Trump se transforma em uma desvantagem eleitoral no plano nacional, está se manifestando agora na Europa em relação aos partidos de direita radical, mas nós vimos isso antes no Canadá", afirmou o italiano Alberto Alemanno, professor de direito europeu da escola de negócios HEC de Paris (França), à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Alemanno lembrou que o atual primeiro-ministro do Canadá, o liberal Mark Carney, venceu as eleições gerais de 2025, apesar de, poucas semanas antes, as pesquisas indicarem vitória da oposição conservadora (mais próxima de Trump). Ele atribuiu o triunfo de Carney à sua "oposição firme à agenda de Trump". Durante a campanha eleitoral canadense, Trump não apenas impôs tarifas ao país vizinho como também ameaçou repetidas vezes transformá-lo no 51º Estado americano.

"A antiga relação que tínhamos com os EUA, baseada no aprofundamento da integração de nossas economias e em uma estreita cooperação militar e de segurança, terminou. Está claro que os EUA já não são um parceiro confiável", disse o então candidato Carney.

"Os esforços de Trump para enfraquecer os aliados dos EUA — sejam Canadá, México, Austrália, Dinamarca ou a União Europeia — os revitalizaram politicamente e os incentivaram a buscar maior autossuficiência", afirmou Alemanno. Ele também destacou que "o esforço desajeitado de Trump para arrancar concessões de seus aliados" acabou prejudicando a popularidade de seus seguidores de direita radical nesses países.

"O líder do Partido Conservador canadense, Pierre Poilievre [próximo a Trump], perdeu o assento no Parlamento que ocupava havia mais de 20 anos", exemplificou Alemanno.

<><> Erro de cálculo

O distanciamento de parte da direita nacionalista europeia em relação a Trump se acentuou poucas semanas depois do governo dos EUA divulgar sua nova doutrina de Segurança Nacional. Essa doutrina anunciou o apoio a partidos políticos "patrióticos" europeus para conter a suposta "eliminação da civilização" enfrentada pelo velho continente.

Ainda assim, alguns especialistas acreditam que fatores internos, em especial as perspectivas eleitorais desses partidos em cada país, pesaram mais do que o respaldo da Casa Branca.

"O governo Trump parece ter errado o cálculo em seus passos e ações em torno da Groenlândia", afirmou Brandon Bohrn, diretor do Projeto de Relações Transatlânticas da Fundação Bertelsmann, da Alemanha, em entrevista à BBC News Mundo.

Na mesma linha, Alemanno, da escola de negócios HEC, afirmou: "A utilidade de Trump para os populistas europeus termina onde começam as linhas vermelhas de seus eleitores. A Groenlândia é uma dessas linhas".

Justin Logan, analista de política externa do Cato Institute, um think tank (centro de estudos e debates) de Washington D.C. (EUA), concorda com essa avaliação. "Independentemente do que pensem a Alternativa para a Alemanha [AfD, Alternative für Deutschland, em alemão] ou o Reagrupamento Nacional sobre o desaparecimento da civilização e a migração na Europa, elas não apoiam a anexação de uma grande parte do continente pelos EUA", declarou Logan ao jornal americano New York Times.

Apesar de a AfD ser um dos partidos de direita que mais recebeu apoio do governo Trump, sua líder, Alice Weidel, acusou o presidente dos EUA de "descumprir sua promessa eleitoral fundamental: não interferir em outros países". E acrescentou: "Ele terá de dar explicações a seus eleitores".

Bohrn atribuiu a reação da AfD, descrita pelos serviços de inteligência alemães como uma "ameaça à democracia", aos resultados das pesquisas de opinião.

"Em países como a Alemanha, a percepção pública dos EUA se deteriorou consideravelmente ao longo do último ano, especialmente nas duas últimas semanas, o que torna cada vez mais arriscado, do ponto de vista da política interna, posicionar-se abertamente a favor dos EUA", afirmou.

Um levantamento do instituto ARD-DeutschlandTrend, divulgado na semana passada, mostrou que apenas 12% dos alemães apoiam tanto as ações dos EUA na Venezuela quanto sua posição em relação à Groenlândia, enquanto só 15% veem os EUA como um parceiro confiável.

Situação semelhante ocorre no Reino Unido. Atualmente, 35% dos britânicos consideram "hostil" o seu antigo aliado, e 30% apoiariam a imposição de sanções econômicas caso o país invadisse a Groenlândia. Outros 14% avaliam como adequada uma resposta militar nesse cenário, segundo dados de duas pesquisas realizadas pela empresa YouGov.

Esses dados explicariam porque Farage, líder do Reform UK e admirador fervoroso de Trump, admitiu que as ameaças sobre a Groenlândia representam a "maior ruptura" na relação entre EUA e países europeus desde a crise do canal de Suez de 1956 (quando os EUA estiveram ao lado da União Soviética na pressão contra a intervenção do Reino Unido, da França e de Israel pelo controle do canal no Egito).

Atualmente, os grupos nacionalistas ou de direita ocupam 26% dos lugares no Parlamento Europeu, segundo análise do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança. E lideram as intenções de voto ou competem pela liderança em muitos países da União Europeia.

<><> Uma divisão nos portões

Mas enquanto Meloni (Itália), Le Pen (França), Farage (Reino Unido) e Weidel (Alemanha) atraem atenção da mídia com seus questionamentos públicos em resposta às últimas ações de Trump, outros líderes do chamado Mega permanecem em silêncio.

Deste grupo fazem parte os primeiros-ministros Viktor Orbán (Hungria), Andrej Babis (República Checa) e Robert Fico (Eslováquia), todos declarados admiradores de Trump.

Por sua vez, o partido espanhol Vox evitou criticar Trump não apenas pelas ameaças tarifárias envolvendo a Groenlândia, mas também por ter excluído a líder oposicionista venezuelana María Corina Machado do cenário político planejado para depois da queda de Maduro.

Esse silêncio expõe uma divisão entre as formações direitistas europeias, que, embora nunca tenham sido unificadas, podem acabar vendo suas diferenças ainda mais aprofundadas.

"Se Trump continuar representando uma ameaça à soberania dos países europeus, isso certamente dividirá a direita radical europeia", afirmou o cientista político Daniel Hegedüs, diretor para a Europa Central do Fundo German Marshall dos EUA, em entrevista à revista Fortune.

<><> Retirada tática

Se de um lado Trump parece dividir a direita europeia mais radical e nacionalista, de outro ele acabou unindo líderes de países aliados que vêm sendo alvo de ataques e críticas do presidente americano há mais de um ano.

"As ações de Trump reacenderam a aliança franco-alemã — historicamente o motor do crescimento econômico da União Europeia —, o que vai alterar a trajetória política do bloco. A França e a Alemanha agora compartilham um objetivo: alcançar independência estratégica em relação aos EUA e fortalecer a resiliência geopolítica da Europa diante de um presidente imprevisível e pouco confiável", afirmou Alemanno, da escola de negócios HEC.

Alemanno também atribuiu ao ocupante da Casa Branca pela aproximação "inesperada" entre a União Europeia e o Reino Unido.

"Embora, após o Brexit, o Reino Unido mantenha a liberdade formal de se alinhar aos EUA ou à União Europeia, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, se posicionou claramente ao lado da Europa", acrescentou.

O afastamento entre Trump e a direita europeia é circunstancial ou definitivo? Especialistas ouvidos pela BBC News Mundo afirmam que ainda é cedo para responder.

"Por ora, isso parece mais um distanciamento tático do que uma ruptura estrutural, mas é cedo demais para conclusões definitivas. Muito dependerá dos próximos passos dos EUA em relação à Groenlândia", avaliou Bohrn, da Fundação Bertelsmann.

A tese é compartilhada por Alemanno. "A retórica imperial de Trump ameaça o 'nacionalismo respeitável' que as formações de direita europeias construíram cuidadosamente."

¨      Saída dos EUA de órgãos multilaterais abre janela para China

Em janeiro, mesmo mês em que os Estados Unidos anunciaram sua saída de 66 organizações multilaterais, a China recebeu líderes canadenses, finlandeses e britânicos.

Na ocasião, o presidente chinês, Xi Jinping, disse ao premiê britânico, Keir Starmer, que a ordem internacional está "sob grande pressão" e defendeu a construção de um "ordeiro mundo multipolar".

A mensagem não é novidade na retórica diplomática chinesa, mas tornou-se mais recorrente em meio à retirada dos EUA dos palcos internacionais, especificamente de iniciativas que tratam de mudanças climáticas, trabalho e migração – áreas que o presidente Trump considera parte da agenda progressista "contrária aos interesses" nacionais.

Enquanto isso, a China segue fazendo parte dessas entidades agora desprezadas pelos EUA, e tem se destacado globalmente.

E a expectativa é de que a influência global chinesa cresça ao longo da próxima década, segundo uma pesquisa de opinião recente realizada em 21 países – dez deles membros da União Europeia – pelo think tank Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR, na sigla em inglês).

"A diferença de poder [entre a China e os EUA] era bem mais clara no passado", pontua Claus Soong, analista do think tank berlinense Instituto Mercator para Estudos da China (Merics). "Agora, esse gap está cada vez menor."

Embora os EUA ainda sejam a nação mais poderosa do mundo, afirma Soong, a China os está alcançando "muito rapidamente".

<><> China corteja o Sul Global

O Sul Global – termo que engloba os países emergentes e em desenvolvimento – foi por muito tempo um ator central na estratégia diplomática da China. Um dos esforços mais visíveis neste sentido é a Nova Rota da Seda, um vasto programa de investimentos em infraestrutura lançado em 2013, destinado a expandir a influência de Pequim nos continentes asiático, africano, europeu e latino-americano.

"Um líder precisa de seguidores para apoiar ou justificar sua liderança", afirma Soong. E o apoio do Sul Global é decisivo para China diante da resistência do Ocidente.

No início do ano, a China divulgou uma série de dados que sugerem que sua economia tem resistido à pressão crescente dos Estados Unidos durante o segundo mandato de Donald Trump. A economia chinesa cresceu 5% e quebrou recorde de exportações em 2025. O bom resultado foi atribuído, em grande parte, às exportações para fora dos EUA, especialmente para o Sudeste Asiático.

Mas a estratégia da China também tem seus limites e riscos. Nos últimos anos, o país deu alguns passos para trás em sua Nova Rota da Seda, priorizando investimentos menores e mais focados diante do aumento dos riscos financeiros e do receio de países parceiros em se endividarem . 

"A economia é uma questão central. Quão sustentada estava a economia chinesa? O que mais a China está disposta a dar a outros países?", questiona Soong.

<><> Parcerias baseadas em oposição à agenda dos EUA

Os laços estreitos da China com a Rússia e a Coreia do Norte também despertaram temores sobre o impacto de parcerias autoritárias no cenário global. Xi esteve em 2025 com os líderes dos dois países em uma parada militar em Pequim, sinalizando o alinhamento da China com as duas nações vizinhas em termos de política e segurança.

A pesquisadora Sabine Mokry, do Instituto para Pesquisa em Paz e Políticas de Segurança da Universidade Hamburgo, afirma que cada parceiro autoritário da China cumpre um papel diferente na estratégia chinesa. "O governo chinês está tentando descobrir o que pode conseguir de cada regime", diz ela.

Um resultado tangível dessas relações pôde ser visto na Assembleia Geral das Nações Unidas. A China tem cada vez mais se alinhado com seus parceiros nas votações do órgão, especialmente em temas relacionados a direitos humanos e em resoluções envolvendo a Ucrânia.

Ainda assim, Mokry afirma que essa parceria tem sido transacional, mais baseada numa oposição aos EUA do que em valores comuns. "Se há uma oportunidade de mostrar que eles [China e outros países] cooperam, eles obviamente vão aproveitar isso. Mas a verdade é que ainda existe uma desconfiança profunda", ressalta ela.

<><> China não tem pressa em substituir os EUA

Nos últimos anos, a China tem enfatizado a narrativa de que é uma potência responsável e estabilizadora, especialmente em contraste com o que chama de "hegemonia" americana. Mas analistas creem que o objetivo de Pequim, em última instância, não é substituir a ordem global liderada pelos EUA por uma versão chinesa. Em vez disso, o objetivo do governo chinês parece ser assegurar a permanência no poder do partido comunista.

"Não é uma ambição do tipo 'tomar o mundo'", afirma Mokry. As motivações da China, segundo ela, têm que ser vistas sempre do ponto de vista da sobrevivência do regime. A pesquisadora cita o exemplo do primeiro mandato de Trump, de 2016 a 2020, quando os EUA também abandonaram diversos órgãos e tratados multilaterais. À época, a expectativa era de que a China assumiria o vácuo de liderança deixado pelos americanos, mas isso não ocorreu.

Soong, do Merics, faz uma análise semelhante e diz que é improvável que a China vá assumir a liderança de todas as instituições das quais os EUA se retiraram – exceto nos casos em que isso atenda explicitamente a interesses de segurança nacional.

Um exemplo disso, aponta, é a influência chinesa sobre a Organização Mundial da Saúde (OMS) , da qual Taiwan – território reivindicado pela China – continua a ser excluída. Este fato tem sido repetidamente citado pelos EUA, especialmente durante a pandemia de covid-19, como uma das razões para a sua saída do órgão.

<><> China quer assegurar hegemonia na Ásia

Essa atuação seletiva é apontada por analistas como sinal de um objetivo mais amplo da China: em vez de dominar o sistema global, reduzir a influência americana em regiões que considera estratégicas, especialmente na região Ásia-Pacífico.

Nos últimos meses, a China intensificou sua presença militar ao redor de Taiwan e no Mar do Sul da China, palco de tensões recentes com as Filipinas por causa de disputas territoriais.

"Pequim ficaria extremamente satisfeita se pudesse fazer o que quiser na Ásia", afirma Mokry. Mas o engajamento americano na região é tão importante, segundo ela, que livrar-se dos EUA "não deve ser assim tão fácil".

 

Fonte: BC News Mundo/DW Brasil

 

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