sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Farmácia, mercado e lojas acabam com escala 6×1, enquanto Brasília debate mudanças

ENQUANTO POLÍTICOS discutem em Brasília o fim da escala de trabalho 6×1 no país, algumas empresas decidiram por conta própria atender à demanda de trabalhadores e abolir o regime. Há exemplos de uma rede de farmácias, supermercados, lojas de departamento e até um hotel de luxo que concederam um dia a mais de folga por semana a seus empregados, adotando a escala 5×2 e se antecipando a uma mudança que especialistas no mercado de trabalho veem como inevitável.

“O Brasil está atrasado nessa mudança, mas ela vai ocorrer”, prevê Marcelo Manzano, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho) da universidade. “Há empresas que já entenderam isso e estão se adiantando, até para poderem se adaptar à nova realidade.”

O hotel Copacabana Palace, um dos mais luxuosos do Rio de Janeiro, é uma delas. No primeiro semestre de 2025, ele aboliu de forma progressiva a escala 6×1 imposta às cerca de 350 pessoas que compõem sua equipe operacional, incluindo todas na 5×2.

Segundo o Copacabana Palace, que hoje pertence à rede internacional Belmond, a folga semanal extra não alterou a carga horária semanal dos trabalhadores nem seus salários. A administração informou à Repórter Brasil que a mudança foi tomada, principalmente, para “melhorar a qualidade de vida dos colaboradores, promovendo maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional”, mas que também foi feita para que o estabelecimento se adaptasse a “desafios crescentes de atração e retenção [de empregados] no modelo 6×1”.

“Nenhum jovem mais quer trabalhar numa jornada exaustiva de seis dias de trabalho por semana”, ressaltou Ricardo Patah, presidente nacional da UGT (União Geral dos Trabalhadores) e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, setor formado em maior parte por trabalhadores ainda submetidos à 6×1.

<><> Mercados e farmácias se adaptam ao 5×2

A rede de supermercados Pague Menos, presente em 21 cidades do interior de São Paulo, tem cerca de 8.000 trabalhadores em 39 lojas e nos setores administrativos, centro de distribuição, entreposto de carnes e central de panificação.

Parte deles começou a trabalhar no modelo 5×2 no ano passado. A rede tem feito ajustes no funcionamento de suas lojas para a mudança de jornada. Parte delas não vai mais funcionar aos domingos. Outra teve o horário de funcionamento dominical reduzido, passando de 7h às 20h para 8h às 18h.

“Nosso objetivo é seguir gerando empregos, formando talentos e oferecendo condições para que cada profissional evolua junto com a empresa”, afirmou Sergio Biagioli, presidente da companhia, em um comunicado de balanço de final de ano. Segundo ele, a implantação da escala 5×2 seguirá em expansão em 2026.

Já no varejo farmacêutico, as mais de 1.600 lojas das redes Drogarias Pacheco e Drogaria São Paulo também mudaram o regime de trabalho de 6×1 para 5×2 durante 2025. As duas pertencem ao Grupo DPSP, que atua em nove estados e no Distrito Federal.

Marcos Colares, presidente do grupo, afirmou em comunicado da DPSP divulgado à época da alteração da jornada que a decisão buscava aumentar a qualidade de vida dos trabalhadores, mas também trazer mais saúde para os negócios da empresa. “A mudança impacta diretamente nos nossos objetivos a longo prazo, de trazermos cada vez mais saúde aos colaboradores, clientes e ao negócio”, disse o executivo.

A Abrafarma (Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias) e a Abras (Associação Brasileira de Supermercados) foram procuradas pela Repórter Brasil para comentar a adoção da escala 5×2 entre empresas dos dois setores, mas não responderam.

Em 2025, a Abras divulgou que os supermercados brasileiros tinham 350 mil vagas de trabalho que não conseguiam ser preenchidas. Para Patah, da UGT, isso tem relação com a escala 6×1. “Os supermercados sempre foram a porta de entrada do trabalhador no mercado de trabalho. Mas hoje eles não encontram empregados dispostos a trabalhar seis dias na semana pelo salário que o setor está disposto a pagar”, disse.

<><> Marca diz seguir modelo da Suécia

Já dentro de shoppings, o exemplo vem da rede de lojas de departamento H&M. A empresa de origem sueca abriu suas quatro unidades no Brasil no ano passado.  Em todas, o regime de trabalho é 5×2. 

“A escala 5×2 é uma diretriz global da H&M e está presente em praticamente todos os mercados onde atuamos. Por isso, esse modelo foi implementado desde o começo como parte do nosso compromisso de ser um empregador responsável, oferecendo equilíbrio entre vida profissional e pessoal e garantindo alinhamento com o nosso modo de operar globalmente”, justificou a companhia, em respostas encaminhadas à reportagem..

Segundo o texto, a escala com duas folgas semanais promove um ambiente produtivo, saudável e colaborativo. Com elas, a empresa diz alcançar maior consistência operacional e engajamento das equipes.

A Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) também foi questionada sobre a mudança na escala de trabalho de trabalhadores do setor. Não respondeu.

<><> Resistência empresarial em queda

Manzano, do Cesit, ressaltou que, apesar das entidades empresariais não declararem apoio ao fim da 6×1, parte dos empresários já entendeu que a rotina é insustentável. Segundo ele, há cada vez mais trabalhadores pedindo demissão de seus empregos — em 2025, o número deve chegar a cerca de 9 milhões. Parte disso se deve à rotina extenuante, avaliam os especialistas consultados.

Marilane Oliveira Teixeira, que também é pesquisadora do Cesit-Unicamp, reforçou que a insatisfação generalizada gera custos às empresas. A rotatividade reduz a produtividade. “A empresa aciona o RH, contrata, faz exame, treina o funcionário e ele pede demissão porque não vê sentido em trabalhar tanto para ganhar tão pouco”, acrescentou, lembrando que os baixos salários pagos no Brasil também são causa desse problema.

Segundo ela, 70% dos trabalhadores formais do país ganham até dois salários mínimos por mês. Hoje, isso não chega a R$ 3.300.

Procurado pela Repórter Brasil, o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) informou que não tem dados sobre a escala de trabalho dos empregados do país. Manzano e Teixeira veem uma tendência nacional de adoção desse regime de trabalho, mas desconhecem pesquisas que tenham mensurado isso no país.

Para ambos, a aprovação de projetos que prevêem a redução da jornada de trabalho no país seria positiva porque estabeleceria parâmetros gerais para todas as empresas. Isso evitaria que companhias que trabalhassem com jornadas menos curtas tivessem que concorrer contra aquelas que ainda adotam jornadas mais extensas.

A CNC (Confederação Nacional do Comércio) declarou que incentiva a busca de soluções [sobre a jornada] através da negociação coletiva — ou seja, sem imposição via lei. Para a entidade, a negociação entre trabalhadores e empresários ”permite que sejam levadas em conta as peculiaridades e possibilidades regionais dos diferentes setores da economia, inclusive do comércio de bens, serviços e turismo.”

<><> Como andam as propostas no Congresso?

Uma PEC sobre a redução da jornada de trabalho (148/2015) está pronta para ser votada no Plenário do Senado. Se aprovada, seguirá para a Câmara dos Deputados.

Na Câmara, também há uma PEC (8/2025) sobre o assunto apresentada no ano passado pela deputada Erika Hilton (PSOL/SP) e outros parlamentares. A proposta foi aprovada em setembro pela Comissão de Trabalho da Casa. Aguarda um despacho do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) para avançar em sua tramitação. Se for aprovada, a proposta terá de ser analisada pelo Senado.

Nesta semana, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que o fim da escala 6×1 é uma prioridade e que o governo federal pode enviar um projeto para unificar as propostas em tramitação no Congresso. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já declarou apoio ao fim da escala 6×1 e deve adotar a proposta como uma de suas bandeiras durante sua campanha eleitoral deste ano.

O MTE informou que o ministro Luiz Marinho apoia o fim da escala 6×1, mas que o governo não tem uma proposta sobre o tema.

O debate sobre o fim da 6×1 ganhou força justamente durante a eleição municipal de 2024. Naquele ano, foi eleito para vereador no Rio de Janeiro Ricardo Azevedo (PSOL, que usou como mote de sua campanha o VAT (Movimento Vida Além do Trabalho).

•        Brasil resgata 2,7 mil da escravidão em 2025, ano marcado por ‘intervenção’ de ministro

O BRASIL resgatou 2.772 trabalhadores em condições análogas à escravidão em 2025, segundo dados divulgados pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) nesta quarta-feira, 28 de janeiro, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo.

A marca foi atingida em um ano marcado pela interferência do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, e da direção da pasta na estrutura de combate ao trabalho escravo. Desde setembro, a cúpula do ministério retirou por conta própria ao menos três empregadores — incluindo a JBS Aves — da Lista Suja do Trabalho Escravo (entenda mais no decorrer da reportagem).

Cadastro oficial com os dados de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas administrativamente pelo crime, a Lista Suja é usada por empresas públicas e privadas, como bancos e supermercados, em seus gerenciamentos de risco, entre outras finalidades.

Os trabalhadores foram encontrados ao longo de 1.594 fiscalizações no decorrer do ano, realizadas com apoio de órgãos como Ministério Público do Trabalho, Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. Os estados com mais operações foram São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás. 

No total, os 2.772 resgatados receberam mais de R$ 9 milhões em verbas rescisórias. Além deles, outros 48 mil trabalhadores foram alcançados nas ações fiscais. Segundo a SIT (Secretaria de Inspeção do Trabalho), embora não estivessem em situação de trabalho escravo contemporâneo, eles tiveram assegurados outros direitos trabalhistas.

Desde 1995, quando tiveram início as fiscalizações, o Estado brasileiro já retirou mais de 68 mil vítimas dessa situação. Diferentemente dos últimos anos, a maior parte dos trabalhadores resgatados em 2025 (68%) atuava no meio urbano, segundo a SIT.

O setor com mais trabalhadores flagrados em condições sem dignidade foi o obras de alvenaria (601 resgatados), seguido por administração pública em geral (304), construção de edifícios (186), cultivo de café (184) e extração e britamento de pedras e outros materiais (126).

Em relação ao trabalho doméstico, foram realizadas 122 ações fiscais no país, com 34 trabalhadoras e trabalhadores resgatados.

Em nota divulgada nesta quarta, a SIT destacou o “compromisso de ampliar a atuação no combate ao trabalho escravo doméstico e de construir uma agenda específica voltada às trabalhadoras domésticas e às mulheres, considerando que essas trabalhadoras, muitas vezes, estão submetidas a condições de vulnerabilidade específicas que demandam atenção diferenciada do Estado”.

O ano de 2025 foi o terceiro maior em número de trabalhadores resgatados desde 2010, atrás apenas de 2023 (3.200 casos) e 2013 (2.808).

<><> Interferência do ministro e paralisação parcial das atividades

No ano passado, a cúpula do MTE fez uso da “avocação” (chamar para si a competência final sobre um ato administrativo) por três vezes, atendendo ao pedido de empregadores e intervindo em inspeção feita por auditores fiscais.

As empresas que se beneficiaram da intervenção ministerial foram a JBS Aves, a Santa Colomba Agropecuária e a Apaeb (Associação Comunitária de Produção e Comercialização do Sisal).

No caso da Apaeb, foi a primeira vez que um ministro anulou autos de infração lavrados pelos auditores fiscais do trabalho.

O episódio motivou a renúncia coletiva de auditores fiscais de cargos de coordenação. Até hoje os auditores fiscais mantêm uma paralisação parcial das atividades, em protesto ao que consideram “politização” do sistema de combate ao trabalho escravo.

<><> Como funciona a Lista Suja

A regra da Lista Suja prevê que, após apurada a responsabilidade por trabalho escravo pela área técnica da Inspeção do Trabalho, seja garantido amplo contraditório e direito de defesa em duas instâncias administrativas, antes de a autuação ser confirmada e o empregador ter seus dados inseridos no cadastro.

Desde novembro de 2003, quando a Lista Suja foi criada, uma “avocação” por um ministro do Trabalho, ou seja, a decisão do titular da pasta de puxar para si próprio a palavra final sobre uma autuação, congelando a entrada no cadastro, nunca havia acontecido. O período abrange os governos 1 e 2 de Lula, 1 e 2 de Dilma Rousseff, além das gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Um artigo da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) da década de 1940 prevê que o chefe do Ministério do Trabalho tenha a palavra final sobre a fiscalização. No entanto, isso  bate de frente com tratados internacionais ratificados pelo Brasil, segundo o Ministério Público do Trabalho.

 

Fonte: Reporter Brasil

 

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