Farmácia,
mercado e lojas acabam com escala 6×1, enquanto Brasília debate mudanças
ENQUANTO
POLÍTICOS discutem em Brasília o fim da escala de trabalho 6×1 no país, algumas
empresas decidiram por conta própria atender à demanda de trabalhadores e
abolir o regime. Há exemplos de uma rede de farmácias, supermercados, lojas de
departamento e até um hotel de luxo que concederam um dia a mais de folga por
semana a seus empregados, adotando a escala 5×2 e se antecipando a uma mudança
que especialistas no mercado de trabalho veem como inevitável.
“O
Brasil está atrasado nessa mudança, mas ela vai ocorrer”, prevê Marcelo
Manzano, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Cesit
(Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho) da universidade. “Há
empresas que já entenderam isso e estão se adiantando, até para poderem se
adaptar à nova realidade.”
O hotel
Copacabana Palace, um dos mais luxuosos do Rio de Janeiro, é uma delas. No
primeiro semestre de 2025, ele aboliu de forma progressiva a escala 6×1 imposta
às cerca de 350 pessoas que compõem sua equipe operacional, incluindo todas na
5×2.
Segundo
o Copacabana Palace, que hoje pertence à rede internacional Belmond, a folga
semanal extra não alterou a carga horária semanal dos trabalhadores nem seus
salários. A administração informou à Repórter Brasil que a mudança foi tomada,
principalmente, para “melhorar a qualidade de vida dos colaboradores,
promovendo maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional”, mas que também
foi feita para que o estabelecimento se adaptasse a “desafios crescentes de
atração e retenção [de empregados] no modelo 6×1”.
“Nenhum
jovem mais quer trabalhar numa jornada exaustiva de seis dias de trabalho por
semana”, ressaltou Ricardo Patah, presidente nacional da UGT (União Geral dos
Trabalhadores) e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, setor formado em
maior parte por trabalhadores ainda submetidos à 6×1.
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Mercados e farmácias se adaptam ao 5×2
A rede
de supermercados Pague Menos, presente em 21 cidades do interior de São Paulo,
tem cerca de 8.000 trabalhadores em 39 lojas e nos setores administrativos,
centro de distribuição, entreposto de carnes e central de panificação.
Parte
deles começou a trabalhar no modelo 5×2 no ano passado. A rede tem feito
ajustes no funcionamento de suas lojas para a mudança de jornada. Parte delas
não vai mais funcionar aos domingos. Outra teve o horário de funcionamento
dominical reduzido, passando de 7h às 20h para 8h às 18h.
“Nosso
objetivo é seguir gerando empregos, formando talentos e oferecendo condições
para que cada profissional evolua junto com a empresa”, afirmou Sergio
Biagioli, presidente da companhia, em um comunicado de balanço de final de ano.
Segundo ele, a implantação da escala 5×2 seguirá em expansão em 2026.
Já no
varejo farmacêutico, as mais de 1.600 lojas das redes Drogarias Pacheco e
Drogaria São Paulo também mudaram o regime de trabalho de 6×1 para 5×2 durante
2025. As duas pertencem ao Grupo DPSP, que atua em nove estados e no Distrito
Federal.
Marcos
Colares, presidente do grupo, afirmou em comunicado da DPSP divulgado à época
da alteração da jornada que a decisão buscava aumentar a qualidade de vida dos
trabalhadores, mas também trazer mais saúde para os negócios da empresa. “A
mudança impacta diretamente nos nossos objetivos a longo prazo, de trazermos
cada vez mais saúde aos colaboradores, clientes e ao negócio”, disse o
executivo.
A
Abrafarma (Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias) e a Abras
(Associação Brasileira de Supermercados) foram procuradas pela Repórter Brasil
para comentar a adoção da escala 5×2 entre empresas dos dois setores, mas não
responderam.
Em
2025, a Abras divulgou que os supermercados brasileiros tinham 350 mil vagas de
trabalho que não conseguiam ser preenchidas. Para Patah, da UGT, isso tem
relação com a escala 6×1. “Os supermercados sempre foram a porta de entrada do
trabalhador no mercado de trabalho. Mas hoje eles não encontram empregados
dispostos a trabalhar seis dias na semana pelo salário que o setor está
disposto a pagar”, disse.
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Marca diz seguir modelo da Suécia
Já
dentro de shoppings, o exemplo vem da rede de lojas de departamento H&M. A
empresa de origem sueca abriu suas quatro unidades no Brasil no ano
passado. Em todas, o regime de trabalho
é 5×2.
“A
escala 5×2 é uma diretriz global da H&M e está presente em praticamente
todos os mercados onde atuamos. Por isso, esse modelo foi implementado desde o
começo como parte do nosso compromisso de ser um empregador responsável,
oferecendo equilíbrio entre vida profissional e pessoal e garantindo
alinhamento com o nosso modo de operar globalmente”, justificou a companhia, em
respostas encaminhadas à reportagem..
Segundo
o texto, a escala com duas folgas semanais promove um ambiente produtivo,
saudável e colaborativo. Com elas, a empresa diz alcançar maior consistência
operacional e engajamento das equipes.
A
Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) também foi questionada
sobre a mudança na escala de trabalho de trabalhadores do setor. Não respondeu.
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Resistência empresarial em queda
Manzano,
do Cesit, ressaltou que, apesar das entidades empresariais não declararem apoio
ao fim da 6×1, parte dos empresários já entendeu que a rotina é insustentável.
Segundo ele, há cada vez mais trabalhadores pedindo demissão de seus empregos —
em 2025, o número deve chegar a cerca de 9 milhões. Parte disso se deve à
rotina extenuante, avaliam os especialistas consultados.
Marilane
Oliveira Teixeira, que também é pesquisadora do Cesit-Unicamp, reforçou que a
insatisfação generalizada gera custos às empresas. A rotatividade reduz a
produtividade. “A empresa aciona o RH, contrata, faz exame, treina o
funcionário e ele pede demissão porque não vê sentido em trabalhar tanto para
ganhar tão pouco”, acrescentou, lembrando que os baixos salários pagos no
Brasil também são causa desse problema.
Segundo
ela, 70% dos trabalhadores formais do país ganham até dois salários mínimos por
mês. Hoje, isso não chega a R$ 3.300.
Procurado
pela Repórter Brasil, o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) informou que não
tem dados sobre a escala de trabalho dos empregados do país. Manzano e Teixeira
veem uma tendência nacional de adoção desse regime de trabalho, mas desconhecem
pesquisas que tenham mensurado isso no país.
Para
ambos, a aprovação de projetos que prevêem a redução da jornada de trabalho no
país seria positiva porque estabeleceria parâmetros gerais para todas as
empresas. Isso evitaria que companhias que trabalhassem com jornadas menos
curtas tivessem que concorrer contra aquelas que ainda adotam jornadas mais
extensas.
A CNC
(Confederação Nacional do Comércio) declarou que incentiva a busca de soluções
[sobre a jornada] através da negociação coletiva — ou seja, sem imposição via
lei. Para a entidade, a negociação entre trabalhadores e empresários ”permite
que sejam levadas em conta as peculiaridades e possibilidades regionais dos
diferentes setores da economia, inclusive do comércio de bens, serviços e
turismo.”
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Como andam as propostas no Congresso?
Uma PEC
sobre a redução da jornada de trabalho (148/2015) está pronta para ser votada
no Plenário do Senado. Se aprovada, seguirá para a Câmara dos Deputados.
Na
Câmara, também há uma PEC (8/2025) sobre o assunto apresentada no ano passado
pela deputada Erika Hilton (PSOL/SP) e outros parlamentares. A proposta foi
aprovada em setembro pela Comissão de Trabalho da Casa. Aguarda um despacho do
presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) para avançar em sua
tramitação. Se for aprovada, a proposta terá de ser analisada pelo Senado.
Nesta
semana, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que o
fim da escala 6×1 é uma prioridade e que o governo federal pode enviar um
projeto para unificar as propostas em tramitação no Congresso. O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já declarou apoio ao fim da escala 6×1 e deve
adotar a proposta como uma de suas bandeiras durante sua campanha eleitoral
deste ano.
O MTE
informou que o ministro Luiz Marinho apoia o fim da escala 6×1, mas que o
governo não tem uma proposta sobre o tema.
O
debate sobre o fim da 6×1 ganhou força justamente durante a eleição municipal
de 2024. Naquele ano, foi eleito para vereador no Rio de Janeiro Ricardo
Azevedo (PSOL, que usou como mote de sua campanha o VAT (Movimento Vida Além do
Trabalho).
• Brasil resgata 2,7 mil da escravidão em
2025, ano marcado por ‘intervenção’ de ministro
O
BRASIL resgatou 2.772 trabalhadores em condições análogas à escravidão em 2025,
segundo dados divulgados pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) nesta
quarta-feira, 28 de janeiro, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo.
A marca
foi atingida em um ano marcado pela interferência do ministro do Trabalho, Luiz
Marinho, e da direção da pasta na estrutura de combate ao trabalho escravo.
Desde setembro, a cúpula do ministério retirou por conta própria ao menos três
empregadores — incluindo a JBS Aves — da Lista Suja do Trabalho Escravo
(entenda mais no decorrer da reportagem).
Cadastro
oficial com os dados de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas
administrativamente pelo crime, a Lista Suja é usada por empresas públicas e
privadas, como bancos e supermercados, em seus gerenciamentos de risco, entre
outras finalidades.
Os
trabalhadores foram encontrados ao longo de 1.594 fiscalizações no decorrer do
ano, realizadas com apoio de órgãos como Ministério Público do Trabalho,
Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União, Polícia Federal e
Polícia Rodoviária Federal. Os estados com mais operações foram São Paulo,
Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás.
No
total, os 2.772 resgatados receberam mais de R$ 9 milhões em verbas
rescisórias. Além deles, outros 48 mil trabalhadores foram alcançados nas ações
fiscais. Segundo a SIT (Secretaria de Inspeção do Trabalho), embora não
estivessem em situação de trabalho escravo contemporâneo, eles tiveram
assegurados outros direitos trabalhistas.
Desde
1995, quando tiveram início as fiscalizações, o Estado brasileiro já retirou
mais de 68 mil vítimas dessa situação. Diferentemente dos últimos anos, a maior
parte dos trabalhadores resgatados em 2025 (68%) atuava no meio urbano, segundo
a SIT.
O setor
com mais trabalhadores flagrados em condições sem dignidade foi o obras de
alvenaria (601 resgatados), seguido por administração pública em geral (304),
construção de edifícios (186), cultivo de café (184) e extração e britamento de
pedras e outros materiais (126).
Em
relação ao trabalho doméstico, foram realizadas 122 ações fiscais no país, com
34 trabalhadoras e trabalhadores resgatados.
Em nota
divulgada nesta quarta, a SIT destacou o “compromisso de ampliar a atuação no
combate ao trabalho escravo doméstico e de construir uma agenda específica
voltada às trabalhadoras domésticas e às mulheres, considerando que essas
trabalhadoras, muitas vezes, estão submetidas a condições de vulnerabilidade
específicas que demandam atenção diferenciada do Estado”.
O ano
de 2025 foi o terceiro maior em número de trabalhadores resgatados desde 2010,
atrás apenas de 2023 (3.200 casos) e 2013 (2.808).
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Interferência do ministro e paralisação parcial das atividades
No ano
passado, a cúpula do MTE fez uso da “avocação” (chamar para si a competência
final sobre um ato administrativo) por três vezes, atendendo ao pedido de
empregadores e intervindo em inspeção feita por auditores fiscais.
As
empresas que se beneficiaram da intervenção ministerial foram a JBS Aves, a
Santa Colomba Agropecuária e a Apaeb (Associação Comunitária de Produção e
Comercialização do Sisal).
No caso
da Apaeb, foi a primeira vez que um ministro anulou autos de infração lavrados
pelos auditores fiscais do trabalho.
O
episódio motivou a renúncia coletiva de auditores fiscais de cargos de
coordenação. Até hoje os auditores fiscais mantêm uma paralisação parcial das
atividades, em protesto ao que consideram “politização” do sistema de combate
ao trabalho escravo.
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Como funciona a Lista Suja
A regra
da Lista Suja prevê que, após apurada a responsabilidade por trabalho escravo
pela área técnica da Inspeção do Trabalho, seja garantido amplo contraditório e
direito de defesa em duas instâncias administrativas, antes de a autuação ser
confirmada e o empregador ter seus dados inseridos no cadastro.
Desde
novembro de 2003, quando a Lista Suja foi criada, uma “avocação” por um
ministro do Trabalho, ou seja, a decisão do titular da pasta de puxar para si
próprio a palavra final sobre uma autuação, congelando a entrada no cadastro,
nunca havia acontecido. O período abrange os governos 1 e 2 de Lula, 1 e 2 de
Dilma Rousseff, além das gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Um
artigo da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) da década de 1940 prevê que o
chefe do Ministério do Trabalho tenha a palavra final sobre a fiscalização. No
entanto, isso bate de frente com
tratados internacionais ratificados pelo Brasil, segundo o Ministério Público
do Trabalho.
Fonte:
Reporter Brasil

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