sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Chile: em meio a rupturas, Boric convida esquerda a trabalho conjunto pelo país

Transcorridas algumas semanas desde a esmagadora derrota no segundo turno presidencial de 14 de dezembro, pelas mãos do ultradireitista José Antonio Kast — que obteve uma vantagem de 16 pontos percentuais —, a esquerda chilena rompeu a frágil unidade pragmática que mantinha em torno do governo de Gabriel Boric. Desde então, o campo progressista passou a se afundar em recriminações mútuas e na cobrança de antigas contas pendentes.

A ruptura não foi imediata. Ela se precipitou cerca de um mês depois, quando veio a público um veredicto judicial que absolveu de responsabilidade penal o ex-tenente-coronel dos Carabineros Claudio Crespo. A decisão foi tomada apesar de ter sido comprovado que ele foi o autor, em 8 de novembro de 2019, dos disparos de espingarda que atingiram o rosto do então estudante de psicologia — e hoje deputado eleito — Gustavo Gatica, deixando-o permanentemente cego.

O veredicto provocou reações duras de parlamentares dos partidos governistas Frente Ampla (FA) — do qual Boric faz parte — e Comunista (PC). Eles atacaram seus pares, até então aliados, dos partidos Socialista (PS) e Pela Democracia (PPD).

Segundo FA e PC, PS e PPD foram responsáveis por, com seus votos, ter sido aprovada, em abril de 2023, uma lei que estabeleceu a chamada “legítima defesa privilegiada” para policiais. A norma presume que, ao utilizarem armas de fogo, os agentes atuam necessariamente para proteger sua vida ou integridade — ou a de terceiros — no cumprimento do dever, reduzindo sua responsabilidade penal. Para analistas, a medida “reforçou a permissividade diante do uso desproporcional da força”.

Foi justamente essa legislação que os juízes aplicaram para absolver Crespo. Impulsionada por deputados de direita e inicialmente descrita como “gatilho fácil” pela então ministra do Interior, Carolina Tohá, a lei foi aprovada após o assassinato de vários carabineiros. Ela também elevou a prisão perpétua qualificada como pena para o homicídio de um agente do Estado.

No entanto, desde sua aprovação, a norma passou a gerar forte polêmica. Isso se deu sobretudo pelo risco de impunidade em centenas de casos de violações de direitos humanos ocorridas após o estallido social de 2019.

Comunistas e frente-amplistas afirmaram não ter apoiado a “defesa privilegiada”. Em resposta, PS e PPD sustentaram que a norma contou com o respaldo do governo de Boric. A troca de acusações se intensificou, com o uso de termos como “oportunismo”, “deslealdade” e “desonestidade intelectual”.

Diante disso, os socialistas decidiram se retirar do comitê político do governo. “Não temos por que tolerar ataques arteros de quem são ou foram nossos companheiros de coalizão”, afirmaram.

<><> Desgaste antigo

O desfecho do caso Gatica, porém, não foi mais do que a gota d’água em uma relação que já vinha profundamente desgastada. O vínculo entre os partidos estava marcado por um histórico de ressentimentos acumulados ao longo dos anos.

PS, PPD, Democracia Cristã e Federação Regionalista Verde Social chegaram a um acordo para integrar uma nova coalizão, desta vez sem a participação do FA nem do PC.

Assim se posicionou o Partido Socialista, nas palavras de Paulina Vodanovic: “fechamento de ciclo, encerrando o governo (…) e nos projetando para o que vem, um novo ciclo.

Já o presidente do PPD, Jaime Quintana, afirmou: “Temos responsabilidades com o governo que honraremos até o último dia”. Confirmou, no entanto, que “haverá distintas oposições” ao futuro Executivo de Kast.

Continua após o anúncio

Gabriel Boric, cujo mandato presidencial se encerrará em 11 de março, dirigiu-se às lideranças da esquerda em 23 de janeiro em meio aos devastadores incêndios florestais que atingem o país. As queimadas deixaram ao menos 21 mortos, cerca de 2 mil casas destruídas e, até o momento, quase 60 mil hectares devastados.

“O Executivo, em sua totalidade, está dedicado a estar onde é necessário para os cidadãos afetados pela catástrofe. O que peço a todos os partidos políticos é que estejam à altura da situação”, declarou.

“As pessoas não querem ver brigas nem declarações cruzadas pela imprensa. No fim das contas, essas coisas acabam afastando a população da política. Querem nos ver trabalhando unidos pelo Chile. Por favor, de uma vez por todas, estejam à altura.”

¨      Nova presidenta direitista da Costa Rica anuncia mudança “profunda e irreversível”

Com a eleição, no último domingo (1º), da oficialista Laura Fernández como próxima presidenta da Costa Rica para o período 2026-2030, o país ratifica a guinada à direita e caminha para mudanças profundas e irreversíveis, conforme declaração da própria presidenta eleita. A oposição, por sua vez, advertiu que não permitirá “coisas indevidas”.

Fernández, que iniciará seu mandato em 8 de maio, anunciou em seu discurso de vitória após as eleições presidenciais a intenção de fundar “a terceira república”, prometendo à oposição que seu governo será de “diálogo e conciliação”.

“Cabe a nós edificar a terceira república. O mandato que o povo soberano me dá é claro: a mudança será profunda e irreversível”, disse a partir de um palanque montado nas imediações de um hotel em San José, onde se reuniram centenas de seus apoiadores.

<><> Mudanças políticas

Na Costa Rica, são conhecidos como segunda república as mudanças políticas surgidas após a guerra civil de 1948, como, por exemplo, a abolição do Exército e a elaboração de uma nova Constituição Política.

Fernández, cientista política de 39 anos, não detalhou quais novidades pretende impulsionar nesta chamada “terceira república”, mas, durante a campanha, prometeu reformar o Poder Judiciário e outras instituições do Estado. Ao mesmo tempo, dirigentes de seu partido reconheceram que um dos objetivos é reformar também a Constituição para permitir a reeleição consecutiva.

Com 88,4% das mesas apuradas, a presidente eleita figurava com 48,3% dos votos — muito acima dos 40% necessários para vencer no primeiro turno. O índice de abstenção foi de 30,3%, de acordo com dados do TSE.

Fernández — que afirma ser “uma democrata convicta” e “defensora da liberdade, da vida e da família” — conversou por telefone com o atual presidente, Rodrigo Chaves, economista de direita com altos índices de popularidade, de cujo governo foi ministra da Presidência e do Planejamento, e a quem agradeceu pelo “exemplo” dado ao longo de sua gestão.

<><> No Parlamento

O Partido Povo Soberano, de Fernández, conquistou 30 das 57 cadeiras do Congresso, segundo dados preliminares, mas deverá buscar acordos para aprovar as reformas profundas que exigem o voto de dois terços do Legislativo.

A oposição será liderada pelo social-democrata Partido Libertação Nacional, cujo candidato, Álvaro Ramos, obteve 33,3% dos votos e afirmou: “Desejo à senhora Laura Fernández que Deus lhe dê muita sabedoria para governar. Nós a apoiaremos quando suas decisões forem para o bem do país e não o faremos quando não estivermos de acordo.” Ramos também assegurou que seu partido fará “uma oposição construtiva”, mas ressaltou que “isso não significa permitir coisas indevidas”.

E acrescentou: “Na democracia, é válido discordar e é válido criticar; e também demonstraremos que podemos cumprir os acordos. […] A sociedade civil precisa seguir forte e participativa. Não abandonem seu espírito de luta; sigamos trabalhando juntos para resolver os problemas.”

Em uma sessão solene, a presidenta do Tribunal Supremo de Eleições (TSE), Eugenia Zamora, solicitou, por sua vez, “respeitar o veredicto das urnas sem renunciar à crítica democrática e à vigilância dos governantes”, e fez um apelo à “responsabilidade para frear a escalada de insultos”, que não aproxima a população da busca por soluções para enfrentar a “pobreza, a ignorância e a criminalidade”.

“Estivemos atentos a cada detalhe para garantir, mais uma vez, a pureza do sufrágio. (…) Agradecemos por eleições exemplares, livres e autênticas, que mais uma vez honram a mais nobre tradição costarriquenha”, afirmou Zamora.

¨      A Base de Manta no Equador: uma porta fechada ao imperialismo

Os Estados Unidos não se comprometem com ninguém. A segurança dos países onde instalam suas bases militares fica aquém de sua responsabilidade. Em uma analogia, essas bases funcionam como uma espécie de “cidadela privada”: cercada, isolada do entorno violento, apartada do que acontece além de seus próprios muros. Permanecendo como zonas do “American Way of Life” (Estilo de Vida Americano, em tradução livre). Foi justamente esse o caso da cidade de Manta, no Equador, e da base estadunidense que funcionou ali.

Em 2025, o retorno dessa base foi amplamente rejeitado em consulta popular. Nas urnas, o povo equatoriano esmagou essa proposta — assim como outras de caráter igualmente populista — e lançou um dardo certeiro contra o desgoverno necroliberal de Daniel Noboa.

As bases estrangeiras são um instrumento do imperialismo, e não há razão para que essas regras do jogo fossem diferentes no Equador. Apesar do entreguismo, que por vezes beira a servidão, de governos como os de Mahuad, Lucio, Moreno, Lasso ou do atual presidente, o país nunca foi um aliado estratégico dos Estados Unidos, tampouco possui uma tradição histórica de subordinação. O que o Equador tem, isso sim, é uma riqueza considerável a ser explorada. E hoje, “desfrutamos” de um valor agregado a esse cenário: o governo neoliberal mais submisso da costa do Pacífico sul-americano, fator que atrai os Estados Unidos, um império em declínio, empenhado em não perder tudo.

A quem insiste em diluir a realidade em uma consciência social e política adoçada, cabe lembrar um dado incontornável: a presença da Base de Manta jamais alterou a vida nem melhorou a segurança da cidade, da província de Manabí ou do Equador como um todo. Os números falam por si. Como diz a máxima, “os números não mentem” e, neste caso, o veredicto é duro. O período mais seguro da história recente de Manta foi entre 2007 e 2017, durante a década da Revolução Cidadã. Naqueles anos, a cidade — bem como todo o país — viveu um ciclo de bonança e estabilidade que a permitiu crescer, se desenvolver e se consolidar. Esse tempo ficou para trás. Hoje, ele já não existe.

Ao difundir informações falsas, a Embaixada dos Estados Unidos afirmava que, durante o período em que esteve instalada no porto manabita, “o FOL (relativo a Forward Operating Location – Localidades de Operação Avançada, em tradução livre) injeta mais de 6,5 milhões de dólares por ano na economia local de Manta”. Mas o mantense Miguel Morán, doutor na área, contestou a versão oficial, mostrando que não foi dinheiro o que beneficiou a população de Manta:

Durante sua permanência, os militares norte-americanos não consumiram produtos locais, e o dinheiro circulou em um círculo social restrito e de elite, entre bares de luxo e espaços exclusivos. O crescimento de Manta, se é que se pode chamá-lo assim, decorreu de outros fatores, e não da presença de militares estrangeiros […] Além disso, a própria Embaixada reconhece que o investimento realizado em Manta incluiu sobretudo custos operacionais do aeroporto, com mais de 2 milhões de dólares destinados ao funcionamento do Corpo de Bombeiros do FOL de Manta e cerca de 200 mil dólares em despesas de manutenção.Miguel Morán

O chefe do Corpo de Bombeiros durante o período de funcionamento da instalação militar, Sofonías Rezabala, contestou esse argumento e afirmou que o trabalho da corporação era autônomo e que nenhum veículo foi recebido do FOL, como sustentaram autoridades estadunidenses. “Quando houve o incêndio no centro da cidade, todos os bombeiros de Manta estavam lá. Os da FOL chegaram apenas depois, para recolher as cinzas”, relatou.

Bares, casas noturnas e cabarés se multiplicaram, e os empregos criados pelo FOL duraram apenas o tempo da reforma das instalações do aeroporto, cerca de oito meses. Depois disso, as vagas oferecidas restringiram-se a serviços de limpeza e transporte de carga, com salários muito inferiores aos pagos aos estadunidenses. O crescimento do turismo e do comércio, tão anunciado, beneficiou poucos. É o que relata Jacobo Jara, capitão reformado de 90 anos, que durante sua longa vida acompanhou de perto as transformações da cidade de Manta: Fui um dos mais afetados. Na Avenida Flavio Reyes, minha família e algumas dezenas de outras pessoas tinham negócios de pequeno porte. Antes da chegada dos norte-americanos, os aluguéis dos pontos comerciais custavam 50 dólares. Ali, trabalhávamos e vivíamos com dignidade; ganhávamos o suficiente para viver com decência. Depois que os norte-americanos chegaram — não digo que tenham sido eles a impor os preços, mas sob sua influência — passaram a pagar até 1.500 dólares nas áreas mais valorizadas. Com isso, os aluguéis saltaram de 50 para 500 dólares por mês. Nossos pequenos negócios não resistiram. Entraram outros, com maior poder econômico, e pessoas humildes foram expulsas de seus espaços e levadas à falência. Pequenos comerciantes que haviam trabalhado ali por tantos anos, de forma honesta, perderam tudo.Jacobo Jara

Em 1999, quando a Base de Manta entrou em operação, o índice de homicídios no Equador era de 8 mortes por 100 mil habitantes. Em 2006, esse número havia saltado para 17 — mais do que o dobro. Já no período de 2007 a 2017, a taxa caiu de 17 para apenas 5 mortes por 100 mil habitantes: um terço das vítimas e menos da metade do índice registrado em 2007. Um resultado expressivo, sustentado por dados públicos e de fácil acesso.

A diferença não está apenas nos números, mas também no enfoque político. Em 1999, o país era governado por Jamil Mahuad, que, ao lado de Guillermo Lasso, protagonizou o feriado bancário e o maior êxodo de equatorianos da história. Naquele contexto, buscava sustentar-se no poder por meio da presença estadunidense, estratégia que hoje reaparece no governo de Daniel Noboa. Já entre 2007 e 2017, a Alianza País governou com uma visão voltada ao povo, à igualdade, à equidade, ao respeito e à soberania. Os dados são claros: a saída da Base de Manta não lançou o país na violência nem no aumento da criminalidade. Ao contrário, todos os indicadores sociais e de segurança melhoraram durante a presidência de Rafael Correa.

É possível observar a comparação entre os dados do período em que a Alianza País esteve no governo — marcado por um desempenho positivo na área de segurança, com queda acentuada dos homicídios — e os anos de funcionamento da Base de Manta, quando as taxas de homicídio permaneceram muito elevadas.

Em resumo, a queda no indicador foi fruto de uma decisão política clara de enfrentar a criminalidade por meio de investimentos em recursos, pessoal qualificado e tecnologia, com ênfase especial em políticas sociais sem precedentes. Em 2016, o Equador tornou-se o segundo país mais seguro da América Latina, conquistando reconhecimento internacional.

O histórico da Base de Manta é prova de que a presença militar estrangeira por si só não traz paz nem desenvolvimento duradouro para a região, pelo contrário: foi a combinação entre soberania, investimento social e políticas públicas integradas que produziu os melhores resultados, pois a defesa do país e do bem-estar coletivo cabe aos seus cidadãos, e não a interesses estrangeiros.

 

Fonte: La Jornada/Diálogos do Sul Global

 

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