sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Romã pode ajudar o coração? O que a ciência já sabe sobre a 'fruta da sorte'

Associada a rituais de prosperidade no fim do ano, a romã ganhou nos últimos anos um novo tipo de fama: a de possível aliada da saúde cardiovascular. Mas até que ponto essa reputação se sustenta fora da tradição e dentro da ciência? A resposta é mais complexa — e mais interessante — do que a ideia de que “faz bem” ou “não faz”.

A romã reúne compostos que chamam atenção de pesquisadores pela capacidade de reduzir processos inflamatórios e oxidativos no organismo, dois mecanismos centrais na formação da aterosclerose, doença que leva ao entupimento das artérias.

Mas, ao mesmo tempo, faltam estudos de grande porte em humanos capazes de medir seu impacto real sobre infartos, AVCs e mortalidade. Ou seja: há potencial, mas ainda não há consenso.

<><> Por que a romã entrou no radar da cardiologia

O ponto de partida está na composição única da fruta. A nutróloga Andrea Pereira, integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, explica que a romã é especialmente rica em polifenóis — antioxidantes potentes que, em laboratório e em modelos animais, reduzem inflamação, estresse oxidativo e até a formação de placas de gordura nos vasos.

“Alguns estudos demonstram que esses compostos podem auxiliar na redução da pressão arterial e na progressão da aterosclerose”, afirma.

Mas ela faz um alerta importante: “Ainda faltam artigos robustos em humanos. O que existe é promissor, mas insuficiente para criar recomendações formais.”

Esses compostos incluem um grupo que é praticamente a “marca registrada” da romã: as punicalaginas, antioxidantes muito potentes que, depois de digeridos, se transformam em moléculas que ajudam a reduzir processos inflamatórios no organismo.

A presença desses polifenóis explica por que a romã é frequentemente comparada a outras frutas ricas em antioxidantes — mas, segundo pesquisadores, com um perfil químico mais potente e mais variado.

<><> O que os estudos já mostraram (e o que ainda não)

A nutricionista e pesquisadora Maria Fernanda Naufel, PhD pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que existe um corpo crescente de evidências clínicas que investigou sucos concentrados e extratos da fruta.

“Ensaios clínicos randomizados, estudos de intervenção e meta-análises já observaram reduções de marcadores inflamatórios, queda do LDL oxidado e diminuição da pressão arterial após o consumo regular de suco de romã”, afirma. “Esses resultados aparecem, sobretudo, em trabalhos que utilizaram 200 a 220 ml diários de suco, a dose mais comum na literatura científica.”

As evidências vêm de diferentes frentes. Uma meta-análise publicada no Journal of the American Heart Association avaliou 14 ensaios clínicos e encontrou redução consistente da pressão arterial em curto prazo entre participantes que consumiam suco de romã diariamente.

Já revisões sistemáticas reunidas no repositório PubMed Central, ligado aos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH), descrevem efeitos anti-inflamatórios e uma diminuição da oxidação do LDL — o “colesterol ruim”.

Nesse processo, essas partículas de LDL sofrem danos causados por radicais livres e se tornam mais reativas. Quando oxidado, o LDL passa a se infiltrar com mais facilidade na parede dos vasos sanguíneos, favorecendo a formação de placas de gordura e acelerando o desenvolvimento da aterosclerose.

É exatamente essa etapa — o início do entupimento das artérias — que alguns estudos sugerem que a romã pode ajudar a retardar.

Nos estudos clínicos, o suco também aparece como um agente capaz de melhorar a função do endotélio, a camada que reveste os vasos sanguíneos e cuja disfunção está no centro de doenças cardiovasculares. Essa melhora ajuda a explicar os efeitos sobre pressão e fluxo sanguíneo.

Mas todo avanço vem acompanhado de uma lacuna.

“Daqui para frente, o que falta são grandes estudos prospectivos, com milhares de pessoas acompanhadas por anos, para responder à pergunta mais importante: esses efeitos intermediários realmente se traduzem em menos infartos, AVCs e mortes?”, explica Naufel. Até lá, a fruta segue como coadjuvante, não como intervenção terapêutica.

Cardiologista do Hospital Icaraí, Cláudio Catharina reforça essa cautela. Para ele, embora haja uma base teórica convincente, isso não se converteu — ainda — em impacto clínico mensurável. “Os resultados não são consistentes entre os estudos, e alguns achados até se contradizem. Não há evidência suficiente para indicar a romã como tratamento para colesterol, pressão ou inflamação.”

<><> Fruta, suco ou cápsula? O que realmente importa

Para quem está no supermercado diante da romã, a dúvida prática é outra: o que funciona mais?

A resposta depende do objetivo.

•        A fruta in natura oferece fibras, menor carga de açúcar e um aporte moderado de polifenóis — um pacote mais equilibrado para consumo cotidiano.

•        O suco, especialmente o concentrado, tem a vantagem da concentração muito maior de polifenóis, o que explica por que ele aparece com mais força nas pesquisas. Por outro lado, perde fibras e concentra açúcares livres, o que exige parcimônia, especialmente para diabéticos.

•        Extratos e suplementos, por sua vez, parecem reproduzir apenas parte dos efeitos. Andrea Pereira é clara: “Não existe recomendação médica para o uso de extratos de romã, porque faltam pesquisas em humanos e porque estes produtos podem interagir com medicamentos.”

<><> Interações e cuidados

O benefício por si só não é o único ponto analisado pela medicina — a segurança também pesa na balança. Segundo Catharina, a preocupação não está na fruta em si, que é segura mesmo para quem usa medicamentos cardíacos, mas nos extratos altamente concentrados de romã, cuja composição é muito diferente da do alimento natural.

Esses produtos podem inibir enzimas do fígado responsáveis por metabolizar estatinas e anticoagulantes, fazendo com que os remédios permaneçam no organismo por mais tempo do que o esperado.

Nessa situação, o risco é de potencialização indesejada do efeito das drogas — o que pode aumentar sangramentos em quem usa anticoagulantes ou intensificar efeitos adversos de algumas estatinas.

“É preciso cautela”, afirma o cardiologista, especialmente porque grande parte dos pacientes cardiopatas no Brasil utiliza ao menos um desses medicamentos.

A fruta in natura, porém, não carrega esse risco. Consumida como parte da alimentação, ela é considerada segura e não apresenta contraindicações para a maioria das pessoas.

<><> Romã é melhor que outras frutas antioxidantes?

Naufel explica que a vantagem da romã não está na comparação direta, mas na singularidade de seus compostos. Ela reúne polifenóis que não aparecem juntos em outras frutas — incluindo punicalaginas e elagitaninos em altas concentrações — e isso cria um padrão diferente de ação no organismo.

Por isso, a romã costuma se destacar em estudos focados em inflamação vascular, estresse oxidativo e hipertensão leve.

Mas, como reforça Andrea Pereira, isso não significa superioridade absoluta. “Ela não oferece um benefício distinto a ponto de substituir outras frutas. O mais importante é o conjunto da dieta.”

<><> Vale apostar na romã para o coração?

No fim, a resposta é equilibrada — e talvez menos mágica do que a tradição sugere.

Tudo o que a ciência já observou aponta que a romã tem, sim, potencial cardiovascular. Mas esse potencial é coadjuvante, não curativo. Não substitui remédios, não controla o colesterol sozinha e não impede infartos.

E, como resume Naufel, “se usada de forma contínua e dentro de um padrão alimentar saudável, pode oferecer benefícios modestos, mas reais, sobretudo para quem tem risco aumentado”.

•        O poder dos relacionamentos para controlar a doença cardiovascular

Como principal causa de morte em todo o mundo, a doença cardiovascular é prioridade em pesquisas, assim como todas as questões relacionadas a ela. Torna-se cada vez mais evidente que a recuperação de um paciente depende não apenas de fatores físicos. Um novo estudo, publicado hoje no Canadian Journal of Cardiology, destaca a importância do contexto social e emocional e enfatiza a necessidade de apoiar a saúde cardíaca e a qualidade de vida a longo prazo para ambos os membros do casal.

Uma avaliação da eficácia das intervenções com foco nos casais – e não somente no paciente portador da condição – para fatores de risco cardiovascular modificáveis, saúde mental e qualidade do relacionamento mostrou que 77% dos estudos revistos relatam melhorias no comportamento de saúde, com evidências apresentadas tanto para resultados cardíacos quanto de saúde mental.

“Às vezes, a doença cardíaca aproxima as pessoas, mas é um desafio para o relacionamento. Aprendemos ao longo dos anos que os eventos cardíacos não acontecem apenas ao paciente, mas ao casal”, observou Heather E. Tulloch, PhD, CPsych, do University of Ottawa Heart Institute.

No Canadá, um em cada 12 adultos com mais de 20 anos tem um diagnóstico de doença cardíaca, o equivalente a 2,6 milhões de pessoas. Na União Europeia, ela é responsável por um terço de todas as mortes e 20% de todas as mortes antes dos 65 anos de idade.

Essa abordagem reconhece que os parceiros são peças-chave da recuperação, pois estimulam o consumo de refeições saudáveis, encorajam a atividade física regular e garantem que os medicamentos sejam tomados corretamente. Os pesquisadores propõem um modelo de cuidados em etapas dentro da reabilitação cardíaca, acompanhado de um rastreio sistemático e do encaminhamento para serviços que ajudem os casais a lidar com o sofrimento.

<><> Isolamento e declínio cognitivo:

Outro estudo, também publicado hoje em The Journals of Gerontology, Series B: Psychological Sciences and Social Sciences, encontrou um padrão consistente de maior isolamento social causando um declínio cognitivo mais rápido, independentemente de as pessoas se identificarem ou não como solitárias. O isolamento social é medido objetivamente por meio do padrão de sociabilidade dos indivíduos, como a adesão a organizações comunitárias ou a participação religiosa, ao passo que a solidão é um relato subjetivo da frequência com que eles se sentem sós. Pesquisadores da Escola de Geografia e Desenvolvimento Sustentável da Universidade de St. Andrews (Escócia), do Instituto Max Planck (Alemanha) e da Universidade Emory (EUA) analisaram dados do Estudo Americano de Saúde e Aposentadoria (US Health and Retirement), examinando 137.653 testes de função cognitiva realizados entre 2004 e 2018 por mais de 30 mil indivíduos.

A equipe descobriu que reduzir o isolamento social tem um efeito protetor sobre a função cognitiva para todas as subpopulações, independentemente de gênero, raça, etnia e nível educacional, com apenas pequenas diferenças entre as categorias sociais.

“Perto dos feriados, muitos de nós pensamos sobre a importância de estarmos rodeados por familiares e amigos. Essa pesquisa mostra que também é importante para a nossa saúde cognitiva. Viabilizar a interação social regular, especialmente para aqueles que podem não ter família ou amigos por perto, deve ser uma prioridade de saúde pública”, afirmou a autora principal do artigo, doutora Jo Hale, da Universidade de St. Andrews.

 

Fonte: g1

 

Nenhum comentário: