Romã
pode ajudar o coração? O que a ciência já sabe sobre a 'fruta da sorte'
Associada
a rituais de prosperidade no fim do ano, a romã ganhou nos últimos anos um novo
tipo de fama: a de possível aliada da saúde cardiovascular. Mas até que ponto
essa reputação se sustenta fora da tradição e dentro da ciência? A resposta é
mais complexa — e mais interessante — do que a ideia de que “faz bem” ou “não
faz”.
A romã
reúne compostos que chamam atenção de pesquisadores pela capacidade de reduzir
processos inflamatórios e oxidativos no organismo, dois mecanismos centrais na
formação da aterosclerose, doença que leva ao entupimento das artérias.
Mas, ao
mesmo tempo, faltam estudos de grande porte em humanos capazes de medir seu
impacto real sobre infartos, AVCs e mortalidade. Ou seja: há potencial, mas
ainda não há consenso.
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Por que a romã entrou no radar da cardiologia
O ponto
de partida está na composição única da fruta. A nutróloga Andrea Pereira,
integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, explica que a
romã é especialmente rica em polifenóis — antioxidantes potentes que, em
laboratório e em modelos animais, reduzem inflamação, estresse oxidativo e até
a formação de placas de gordura nos vasos.
“Alguns
estudos demonstram que esses compostos podem auxiliar na redução da pressão
arterial e na progressão da aterosclerose”, afirma.
Mas ela
faz um alerta importante: “Ainda faltam artigos robustos em humanos. O que
existe é promissor, mas insuficiente para criar recomendações formais.”
Esses
compostos incluem um grupo que é praticamente a “marca registrada” da romã: as
punicalaginas, antioxidantes muito potentes que, depois de digeridos, se
transformam em moléculas que ajudam a reduzir processos inflamatórios no
organismo.
A
presença desses polifenóis explica por que a romã é frequentemente comparada a
outras frutas ricas em antioxidantes — mas, segundo pesquisadores, com um
perfil químico mais potente e mais variado.
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O que os estudos já mostraram (e o que ainda não)
A
nutricionista e pesquisadora Maria Fernanda Naufel, PhD pela Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que existe um corpo crescente de
evidências clínicas que investigou sucos concentrados e extratos da fruta.
“Ensaios
clínicos randomizados, estudos de intervenção e meta-análises já observaram
reduções de marcadores inflamatórios, queda do LDL oxidado e diminuição da
pressão arterial após o consumo regular de suco de romã”, afirma. “Esses
resultados aparecem, sobretudo, em trabalhos que utilizaram 200 a 220 ml
diários de suco, a dose mais comum na literatura científica.”
As
evidências vêm de diferentes frentes. Uma meta-análise publicada no Journal of
the American Heart Association avaliou 14 ensaios clínicos e encontrou redução
consistente da pressão arterial em curto prazo entre participantes que
consumiam suco de romã diariamente.
Já
revisões sistemáticas reunidas no repositório PubMed Central, ligado aos
Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH), descrevem efeitos
anti-inflamatórios e uma diminuição da oxidação do LDL — o “colesterol ruim”.
Nesse
processo, essas partículas de LDL sofrem danos causados por radicais livres e
se tornam mais reativas. Quando oxidado, o LDL passa a se infiltrar com mais
facilidade na parede dos vasos sanguíneos, favorecendo a formação de placas de
gordura e acelerando o desenvolvimento da aterosclerose.
É
exatamente essa etapa — o início do entupimento das artérias — que alguns
estudos sugerem que a romã pode ajudar a retardar.
Nos
estudos clínicos, o suco também aparece como um agente capaz de melhorar a
função do endotélio, a camada que reveste os vasos sanguíneos e cuja disfunção
está no centro de doenças cardiovasculares. Essa melhora ajuda a explicar os
efeitos sobre pressão e fluxo sanguíneo.
Mas
todo avanço vem acompanhado de uma lacuna.
“Daqui
para frente, o que falta são grandes estudos prospectivos, com milhares de
pessoas acompanhadas por anos, para responder à pergunta mais importante: esses
efeitos intermediários realmente se traduzem em menos infartos, AVCs e
mortes?”, explica Naufel. Até lá, a fruta segue como coadjuvante, não como
intervenção terapêutica.
Cardiologista
do Hospital Icaraí, Cláudio Catharina reforça essa cautela. Para ele, embora
haja uma base teórica convincente, isso não se converteu — ainda — em impacto
clínico mensurável. “Os resultados não são consistentes entre os estudos, e
alguns achados até se contradizem. Não há evidência suficiente para indicar a
romã como tratamento para colesterol, pressão ou inflamação.”
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Fruta, suco ou cápsula? O que realmente importa
Para
quem está no supermercado diante da romã, a dúvida prática é outra: o que
funciona mais?
A
resposta depende do objetivo.
• A fruta in natura oferece fibras, menor
carga de açúcar e um aporte moderado de polifenóis — um pacote mais equilibrado
para consumo cotidiano.
• O suco, especialmente o concentrado, tem
a vantagem da concentração muito maior de polifenóis, o que explica por que ele
aparece com mais força nas pesquisas. Por outro lado, perde fibras e concentra
açúcares livres, o que exige parcimônia, especialmente para diabéticos.
• Extratos e suplementos, por sua vez,
parecem reproduzir apenas parte dos efeitos. Andrea Pereira é clara: “Não
existe recomendação médica para o uso de extratos de romã, porque faltam
pesquisas em humanos e porque estes produtos podem interagir com medicamentos.”
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Interações e cuidados
O
benefício por si só não é o único ponto analisado pela medicina — a segurança
também pesa na balança. Segundo Catharina, a preocupação não está na fruta em
si, que é segura mesmo para quem usa medicamentos cardíacos, mas nos extratos
altamente concentrados de romã, cuja composição é muito diferente da do
alimento natural.
Esses
produtos podem inibir enzimas do fígado responsáveis por metabolizar estatinas
e anticoagulantes, fazendo com que os remédios permaneçam no organismo por mais
tempo do que o esperado.
Nessa
situação, o risco é de potencialização indesejada do efeito das drogas — o que
pode aumentar sangramentos em quem usa anticoagulantes ou intensificar efeitos
adversos de algumas estatinas.
“É
preciso cautela”, afirma o cardiologista, especialmente porque grande parte dos
pacientes cardiopatas no Brasil utiliza ao menos um desses medicamentos.
A fruta
in natura, porém, não carrega esse risco. Consumida como parte da alimentação,
ela é considerada segura e não apresenta contraindicações para a maioria das
pessoas.
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Romã é melhor que outras frutas antioxidantes?
Naufel
explica que a vantagem da romã não está na comparação direta, mas na
singularidade de seus compostos. Ela reúne polifenóis que não aparecem juntos
em outras frutas — incluindo punicalaginas e elagitaninos em altas
concentrações — e isso cria um padrão diferente de ação no organismo.
Por
isso, a romã costuma se destacar em estudos focados em inflamação vascular,
estresse oxidativo e hipertensão leve.
Mas,
como reforça Andrea Pereira, isso não significa superioridade absoluta. “Ela
não oferece um benefício distinto a ponto de substituir outras frutas. O mais
importante é o conjunto da dieta.”
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Vale apostar na romã para o coração?
No fim,
a resposta é equilibrada — e talvez menos mágica do que a tradição sugere.
Tudo o
que a ciência já observou aponta que a romã tem, sim, potencial cardiovascular.
Mas esse potencial é coadjuvante, não curativo. Não substitui remédios, não
controla o colesterol sozinha e não impede infartos.
E, como
resume Naufel, “se usada de forma contínua e dentro de um padrão alimentar
saudável, pode oferecer benefícios modestos, mas reais, sobretudo para quem tem
risco aumentado”.
• O poder dos relacionamentos para
controlar a doença cardiovascular
Como
principal causa de morte em todo o mundo, a doença cardiovascular é prioridade
em pesquisas, assim como todas as questões relacionadas a ela. Torna-se cada
vez mais evidente que a recuperação de um paciente depende não apenas de
fatores físicos. Um novo estudo, publicado hoje no Canadian Journal of
Cardiology, destaca a importância do contexto social e emocional e enfatiza a
necessidade de apoiar a saúde cardíaca e a qualidade de vida a longo prazo para
ambos os membros do casal.
Uma
avaliação da eficácia das intervenções com foco nos casais – e não somente no
paciente portador da condição – para fatores de risco cardiovascular
modificáveis, saúde mental e qualidade do relacionamento mostrou que 77% dos
estudos revistos relatam melhorias no comportamento de saúde, com evidências
apresentadas tanto para resultados cardíacos quanto de saúde mental.
“Às
vezes, a doença cardíaca aproxima as pessoas, mas é um desafio para o
relacionamento. Aprendemos ao longo dos anos que os eventos cardíacos não
acontecem apenas ao paciente, mas ao casal”, observou Heather E. Tulloch, PhD,
CPsych, do University of Ottawa Heart Institute.
No
Canadá, um em cada 12 adultos com mais de 20 anos tem um diagnóstico de doença
cardíaca, o equivalente a 2,6 milhões de pessoas. Na União Europeia, ela é
responsável por um terço de todas as mortes e 20% de todas as mortes antes dos
65 anos de idade.
Essa
abordagem reconhece que os parceiros são peças-chave da recuperação, pois
estimulam o consumo de refeições saudáveis, encorajam a atividade física
regular e garantem que os medicamentos sejam tomados corretamente. Os
pesquisadores propõem um modelo de cuidados em etapas dentro da reabilitação
cardíaca, acompanhado de um rastreio sistemático e do encaminhamento para
serviços que ajudem os casais a lidar com o sofrimento.
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Isolamento e declínio cognitivo:
Outro
estudo, também publicado hoje em The Journals of Gerontology, Series B:
Psychological Sciences and Social Sciences, encontrou um padrão consistente de
maior isolamento social causando um declínio cognitivo mais rápido,
independentemente de as pessoas se identificarem ou não como solitárias. O
isolamento social é medido objetivamente por meio do padrão de sociabilidade
dos indivíduos, como a adesão a organizações comunitárias ou a participação
religiosa, ao passo que a solidão é um relato subjetivo da frequência com que
eles se sentem sós. Pesquisadores da Escola de Geografia e Desenvolvimento
Sustentável da Universidade de St. Andrews (Escócia), do Instituto Max Planck
(Alemanha) e da Universidade Emory (EUA) analisaram dados do Estudo Americano
de Saúde e Aposentadoria (US Health and Retirement), examinando 137.653 testes
de função cognitiva realizados entre 2004 e 2018 por mais de 30 mil indivíduos.
A
equipe descobriu que reduzir o isolamento social tem um efeito protetor sobre a
função cognitiva para todas as subpopulações, independentemente de gênero,
raça, etnia e nível educacional, com apenas pequenas diferenças entre as
categorias sociais.
“Perto
dos feriados, muitos de nós pensamos sobre a importância de estarmos rodeados
por familiares e amigos. Essa pesquisa mostra que também é importante para a
nossa saúde cognitiva. Viabilizar a interação social regular, especialmente
para aqueles que podem não ter família ou amigos por perto, deve ser uma
prioridade de saúde pública”, afirmou a autora principal do artigo, doutora Jo
Hale, da Universidade de St. Andrews.
Fonte:
g1

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