Glauco
Faria: O cálculo de Caiado e Kassab
No
final de janeiro, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, anunciou sua saída do
União Brasil e, em seguida, sua filiação ao PSD. A justificativa foi o fato de
sua hoje ex-legenda, dentro da recém-formada e ainda não oficializada federação
União Progressista, inviabilizar sua possível candidatura à Presidência da
República.
A
principal resistência viria do novo partido parceiro do União Brasil, o PP. O
presidente nacional da sigla, Ciro Nogueira, um dos principais aliados do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), tentou por meses fazer com que o governador
de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fosse o candidato que
unificasse o campo da direita/extrema direita. Faltou combinar com o antigo
ocupante do Palácio do Planalto, hoje condenado e preso por seu envolvimento na
trama golpista, que decidiu não abrir mão de seu capital político em torno de
promessas a favor de uma incerta anistia ou indulto.
Com a
consolidação da pretensão presidencial do senador Flávio Bolsonaro, o sonho de
uma chapa que unisse radicais e o Centrão desmoronou. Agora, a estratégia
anunciada por parte desse segmento seria lançar mais de um nome na corrida, e a
receita de sucesso seria o que aconteceu na disputa do Chile, onde o campo da
direita se dividiu no primeiro turno e se aglutinou em torno de José Antonio
Kast no segundo, para garantir sua vitória. Contudo, a conta não é tão simples
e o contexto brasileiro é bem diferente do chileno. Diversos interesses,
partidários e regionais, vão entrar em conflito no processo de sucessão e nem
todos se sentem confortáveis com uma solução que não foi negociada,
demonstrando uma divisão que vai além dos imediatos objetivos eleitorais e
alcança o que algumas legendas pretendem se tornar no futuro.
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O recado dos radicais
Um
exemplo da insatisfação veio à tona de forma caricatural, como se caracterizam
inúmeras performances políticas dos extremistas. Nesta terça-feira (3), o
deputado estadual paulista Gil Diniz (PL) decidiu incluir o sobrenome
“Bolsonaro” à sua identificação na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp),
reafirmando sua pré-candidatura ao Senado. A “homenagem”, segundo ele, serve
ainda ao propósito de “marcar posição de que defende o presidente Bolsonaro e
sua família”.
“Aos
oportunistas que foram eleitos lá atrás surfando na onda Bolsonaro, quando eram
pequenininhos se arrastavam, eram ‘bolsonaristas de corpo e alma’. Alguns
chegavam a dizer que ‘eram mais Bolsonaro que os próprios filhos do presidente
Bolsonaro’ e que hoje se escondem, não falam nada, não dão apoio público à
indicação do presidente Bolsonaro. Tá todo mundo vendo, seus covardes”, disse
ele, aliado ferrenho do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro dentro da sigla,
em seu discurso no plenário da Casa.
O
recado tem múltiplas funções. Verbaliza um incômodo da base mais estritamente
ligada a Bolsonaro com figuras políticas que hesitam em prosseguir na barca do
ex-presidente e acena para seu ainda forte eleitorado, buscando lucrar
eleitoralmente em outubro. É ainda uma tentativa de pressionar politicamente o
ex-ministro de Bolsonaro, cria política sua, Tarcísio de Freitas. Uma pressão
que visa reforçar seu compromisso público com o clã e a candidatura de Flávio,
mas também uma espécie de “resgate”, para que ele volte a servir de forma plena
ao bolsonarismo, deixando de hesitar entre os radicais e a influência das
legendas do Centrão.
Com uma
vaga do Senado na chapa do governador e candidato à reeleição destinada ao PP,
na composição que tem o ex-secretário de Segurança Pública e deputado federal
Guilherme Derrite como postulante, o PL paulista pleiteia algo que vá além da
outra vaga, mirando o cargo de vice na chapa, ocupado hoje pelo ex-prefeito de
São José dos Campos, Felicio Ramuth, do PSD.
A
articulação não é escondida, sendo anunciada publicamente pelo presidente
nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que trabalha pela indicação do atual
presidente da Assembleia Legislativa do estado, André do Prado. “O partido e a
bancada vão trabalhar pelo André”, aponta Valdemar ao jornal Folha de S. Paulo.
Enquanto o dirigente partidário dava aparência de uma negociação tradicional na
esfera política, Diniz mostrava a outra faceta do segmento, ironizando uma
declaração de Tarcísio na qual afirmava que seria positivo mais de um candidato
do campo da direita se lançar à Presidência da República, já que todos se
uniriam contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual segundo
turno.
“Essa
mesma lógica vale para o governo de São Paulo? Porque, se vale para o governo
de São Paulo, vale a pena o Partido Liberal ter um candidato também, porque
ajuda a chapa de [deputado] estadual, ajuda a chapa de [deputado] federal. O
Partido Liberal é o maior partido do estado de São Paulo e o maior partido do
Brasil”, ameaçou o parlamentar. Embora a afirmação sobre a grandeza do PL possa
ser questionada em muitos aspectos, a legenda tem as maiores bancadas na Câmara
dos Deputados e na Alesp, sendo fundamental para a vitória de Tarcísio em
votações mais acirradas na Casa.
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Entre o histrionismo e a velha negociação
A dupla
tática do PL, de transitar pela política tradicional e fazer, ao mesmo tempo, o
jogo performático histriônico característico das redes sociais, representa o
que hoje é o ethos do partido, que acolheu o bolsonarismo após o
desentendimento do ex-presidente com o PSL e a frustrada tentativa de fundar
uma nova sigla. De uma agremiação típica do Centrão, que já havia ocupado a
Vice-Presidência da República no primeiro mandato de Lula, tornou-se o refúgio
preferencial da extrema direita, o que lhe rendeu crescimento em termos de
importância e também as maiores fatias dos fundos partidário e eleitoral.
Valdemar Costa Neto enxergou um nicho lucrativo e o abraçou.
Porém,
para outros partidos do campo da direita/centro-direita, a aproximação com o
campo delimitado pelo clã do ex-presidente limita sua atuação. Não é à toa que
parte desse grupo via em Tarcísio uma saída para seu dilema, uma espécie de
distanciamento saudável do extremismo sem perder seus votos. Além de ser mais
confiável nas tratativas políticas do que seu instável ex-chefe, o governador
paulista ganhou a simpatia da Faria Lima ao promover privatizações e traduzir a
retórica liberal em prática, sem as perturbações usuais de seu mentor. Ainda
que tenha nascido e se formado politicamente no seio do extremismo, sua imagem
suavizada permite que trilhe caminhos típicos da direita radicalizada em áreas
como a Segurança e a Educação, com a adoção, por exemplo, do modelo
cívico-militar em unidades de ensino, mas se passando por “moderado”.
Foi o
sonho dessa candidatura presidencial que embalou o presidente nacional do PSD,
Gilberto Kassab. Com a recusa do governador em assumir uma pretensão que não
seria encampada pelo clã Bolsonaro, o ex-prefeito da capital paulista, na
maioria do tempo discreto e afeito a negociações de bastidores, falou de forma
velada, mas nem tanto, sobre uma eventual “submissão” do governador ao
bolsonarismo, algo rebatido publicamente por Tarcísio. “É fundamental que ele
[Tarcísio] tenha a sua identidade. Uma coisa é gratidão, reconhecimento,
lealdade. Outra coisa é submissão. E acredito que ele pensa assim também”,
disse, em entrevista ao portal UOL.
Poucos
fariam tal comentário a respeito do próprio chefe de forma tão aberta – Kassab
é secretário de Relações Institucionais do governo paulista –, mas o fato é que
o dirigente pretendia ter uma posição de destaque na campanha malograda ao
Planalto, como uma espécie de copiloto de um projeto que escantearia ou
colocaria em segundo plano o bolsonarismo. Frustrada a tentativa, agora o
objetivo é outro.
Para
entender a movimentação do PSD, o que inclui a manobra de acolher Ronaldo
Caiado, é preciso resgatar as origens da legenda. Tido como um hábil
negociador, que sabe para onde o vento da política sopra, Kassab se aproximou
do PT após ser seu principal rival na cidade de São Paulo, quando derrotou
Marta Suplicy nas eleições municipais de 2008. Rompeu com seu antigo partido, o
DEM (ex-PFL, mais tarde fundido ao PSL para formar o União Brasil), para criar,
em 2011, o PSD.
Com a
nova sigla, virou uma legenda governista na ocasião e promoveu uma diáspora de
oposicionistas rumo à gestão da então presidenta Dilma Rousseff. Em 2014, o
partido oficializou seu apoio à reeleição da presidenta e foi o último a
desembarcar do governo antes da votação da abertura do processo de impeachment
na Câmara dos Deputados. Ao pedir demissão, em carta pública, de seu cargo de
ministro, alegou que se tratava de uma decisão partidária em prol do
impedimento da presidenta. “Diante disso [decisão do PSD], minha permanência à
frente do Ministério das Cidades é insustentável, conflita com a decisão do meu
partido e me leva a abrir mão do cargo, independentemente do resultado da
votação do próximo domingo”, afirmou. “Como V.Exa. já reconheceu, há necessidade
premente de um pacto nacional para que o País possa superar suas dificuldades
políticas e retomar seu desenvolvimento. O PSD não apenas concorda, mas apoia e
lutará com todas as suas forças por esse consenso.”
Isso
foi em 17 de abril de 2016. Já em 12 de maio do mesmo ano, menos de um mês após
sua saída, a vontade do “consenso” expressa por Kassab se materializava em sua
posse como ministro das Comunicações do governo de Michel Temer, pasta que
incorporava ainda as atividades do Ministério da Ciência, Tecnologia e
Inovação. A característica fisiológica e a flexibilidade, por assim dizer,
apresentadas pela sigla e por seu maior dirigente ilustravam que se tratava de
um partido típico do chamado Centrão, só que maior. Já havia nascido com mais
de 50 parlamentares e constituía, eleição após eleição, uma agremiação com
maior poder na arena institucional, chegando a ser a sigla com maior número de
prefeitos eleitos em 2022.
Mesmo
assim, desde seu nascimento o partido não contou com candidatos à Presidência
da República. Depois de Dilma, apoiou Geraldo Alckmin, então no PSDB, em 2018,
acreditando ainda na força do principal opositor do PT até àquela altura, sem
perceber que o polo de oposição ao centro e à direita havia caminhado para o
extremo. Em 2022, optou pela neutralidade, o que facilitou as alianças
estaduais ora para um lado, ora para outro. Agora, a desistência de Tarcísio
empurra a legenda, e parte do Centrão, para um dilema.
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O cálculo do PSD
Quando
Caiado migra para o PSD, afirma que busca o abrigo de uma legenda que tenha o
que chamou de “projeto nacional”. Se seu objetivo real fosse garantir, a todo
custo, uma candidatura ao Palácio do Planalto, seu destino seria o
Solidariedade, de Paulinho da Força, que havia prometido o posto ao governador
goiano, ou o Podemos. Contudo, seriam legendas menores, que brigam para superar
a cláusula de barreira e não têm estrutura para viabilizar uma postulação real.
E ele sabe o que é entrar em uma disputa presidencial em uma sigla com pouca
visibilidade, já que foi candidato em 1989 por outra “encarnação” pessedista,
ocasião em que obteve singelos 0,68% dos votos válidos.
Em sua
nova legenda, Caiado tem uma estrutura a seu dispor para manter o controle de
sua própria sucessão em Goiás, como também desfruta de uma posição melhor do
ponto de vista nacional. Se não for o presidenciável do PSD — o que é bem
provável, já que sai atrás do governador do Paraná, Ratinho Jr., que tem a
simpatia de Kassab –, garante um papel de protagonismo na agremiação, algo que
lhe foi negado na federação União Progressista. Além disso, não fica a reboque
do bolsonarismo, com quem já andou às turras durante a pandemia e também na
eleição para a prefeitura de Goiânia, em 2024, quando ele e Jair Bolsonaro
trocaram insultos publicamente.
Por seu
lado, Kassab tem a perspectiva de ganhar mais um governo estadual para seu
partido, aumentando também sua bancada no Legislativo. A filiação do governador
de Rondônia, também ex-União Brasil, caminha nesse sentido, fortalecendo o
horizonte eleitoral da agremiação. Com uma possível candidatura à Presidência,
o PSD demarca ainda uma distinção em relação a legendas do seu campo e ao que
foi sua própria trajetória até aqui.
Mesmo
não chegando a um eventual segundo turno, um candidato que alcance dois dígitos
ou percentual similar poderia ser decisivo na definição do vencedor,
assegurando maior importância à legenda em uma nova gestão. Mesmo no caso de
uma postura independente em função de disputas estaduais em curso, os
pessedistas sairiam fortalecidos e com um nome bem colocado para 2030. Este
seria um ganho político importante: a construção de um nome de visibilidade
nacional para um pleito que não contaria com a concorrência de Lula, em caso de
reeleição.
Enquanto
isso, a federação União Progressista, atrasada em suas proposições por conta de
discordâncias nos estados e pela longa espera das definições no campo do
ex-presidente, vê seu papel no tabuleiro político reduzido, assim como outras
siglas relevantes desde a redemocratização, casos do MDB e do PSDB, também
passam a se ver à margem no processo político-eleitoral. Nesse cenário, a
movimentação do PSD revela menos uma ruptura e mais uma tentativa de
reorganização da direita fora da órbita direta do bolsonarismo, sem romper
completamente com ele. O resultado desse cálculo não depende apenas do
desempenho eleitoral em 2026, mas de quem conseguirá, ao fim do processo,
definir os contornos e a identidade política da direita no pós-Bolsonaro.
Fonte:
Outras Palavras

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