sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Mariarosaria Fabris: Tropa de elite

Em 1º de outubro de 2007, o jornal Folha de S. Paulo publicava o desabafo do então animador de “O caldeirão do Huck”, programa veiculado nas tardes de sábado pela Rede Globo. O texto, intitulado “Pensamentos quase póstumos” iniciava com o apresentador imaginando como seria noticiado seu falecimento, se não tivesse escapado incólume de um assalto à mão armada:

“Luciano Huck foi assassinado. Manchete do ‘Jornal Nacional’ de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno cultura. Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio”.

A reação provocada pela divulgação pública do acontecido foi descomunal. Causou uma enxurrada de artigos e cartas de leitores, principalmente depois que a mesma seção “Tendências/Debates”, que havia hospedado o texto de Luciano Huck, na semana seguinte acolheu “Pensamentos de um ‘correria’”, no qual Ferréz, sem citar explicitamente o apresentador, rebatia seus argumentos, imaginando o que teria se passado pela cabeça do assaltante na hora de cumprir sua “missão”.

Dessa forma, à “biografia edificante” (como a denominou Fernando Barros Silva) da celebridade global contrapunha a vida de agruras de um “correria” anônimo da periferia de uma megalópole,[1] concluindo: “No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes”.

Estava instaurada, assim, uma espécie de foco de luta de classes – o povo, de um lado da barricada; a elite,[2] do outro –, com as opiniões divididas entre o ataque e a defesa do artigo de Luciano Huck e da réplica do escritor e rapper paulistano. “A elite branca brasileira ganhou um rosto. Ele é narigudo, casado, tem 36 anos e um patrimônio estimado (há cinco anos) em US$ 6 milhões.” – anunciava a revista Época, enquanto os “espoliados” das periferias, mais uma vez, tinham em Reginaldo Ferreira da Silva,[3] que nasceu nesse meio, um de seus paladinos.

Ao criticar a postura do apresentador, o cantor maranhense Zeca Baleiro (sempre no mesmo artigo) afirmou: “A nossa elite – se é que merece ser assim chamada – é mesmo patética. Só mostra indignação com a situação do país quando tem seu Rolex roubado. Queria ver Luciano Huck escrevendo um texto tão indignado caso presenciasse uma chacina no Capão Redondo”.

Ao defendê-la, Roberto da Matta (ainda no artigo de Celso Masson e Nelito Fernandes) asseverava: “A reação ao Luciano Huck é um exemplo de neofascismo. Qualquer um tem direito de denunciar a injustiça de que foi vítima”.[4] A pecha de neofascistas atribuída pelo antropólogo aos detratores de Luciano Huck, no entanto, não levava em consideração que este, num dos trechos menos comentados de seu texto, ao apelar para as forças da ordem, reais ou ficcionais – “Onde está a polícia? Onde está a ‘Elite da Tropa’? Quem sabe até a ‘Tropa de Elite’!

Chamem o comandante Nascimento!” –, clamava, em suma, pelo BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar), com suas ações táticas de combate ao crime, que tanto dividem a opinião pública,[5] e com seus VBTPs, ou seja veículos blindados de transporte de pessoal, popularmente chamados caveirões, sucessores dos paladinos e dos brucutus com que, nos anos 1960, o Batalhão de Choque da PM dispersava as manifestações contrárias ao regime (conforme dados da revista Piauí).

Parece que o apresentador, pelo fato de divertir as pessoas e presidir uma ONG[6] – confundindo, como tantos outros, obras de caridade com combate à desigualdade econômica –, acreditou ser imune à violência social, pela qual não se sentia responsável e para a qual só despertou ao ser atingido por “um assalto para chamar de seu” e ao ser “transformado num obelisco da desigualdade social brasileira”, nas palavras de Elio Gaspari.

Assim mesmo, ao contrário do que afirmou Fernando de Barros e Silva, a polêmica não o ajudou a “cair na real”, isto é, a pensar a serviço de quais interesses ele estava, que ideologia defendia, que modelo de sociedade perpetuava com seu programa.

Como observou o missivista Henrique Stecanella Cid, no “Painel do Leitor” da Folha de S. Paulo, em 10 de outubro de 2007: “Presidir uma ONG não deixará Luciano Huck livre de ser assaltado e não resolverá os problemas sociais que afligem as camadas mais pobres da população. Não só Luciano Huck mas todas as emissoras de TV deveriam refletir sobre sua programação. Será que se houvesse programas que incentivassem um pensamento mais crítico em relação a problemas sociais, políticos etc. não haveria uma cobrança maior da população em relação ao governo?”

“Em vez de ficar pensando que poderia ter morrido ou botar a culpa nas pessoas marginalizadas que veem apenas o crime como meio de vida, não só Luciano Huck mas todas as pessoas que de algum modo atingem um grande público deveriam refletir sobre a responsabilidade que têm quando um assalto ou outro tipo de crime acontece”.

Ou, como resumiu a leitora Susane Peixoto, no box “Uma polêmica no ar”, da revista Época de 15 de outubro de 2007: “Para acabar com a hipocrisia precisamos sim, cobrar as ações do poder público, mas também parar de achar que montar uma ONG (e faturar muito com isso em imagem, é claro) é fazer o seu papel”.

Invocado pelo apresentador, o capitão Nascimento, protagonista de Tropa de elite (2007), embora ainda não tivesse chegado às telas, era conhecido do público, uma vez que DVDs com o copião dessa obra de José Padilha já circulavam bem antes de sua estreia. Com o lançamento da versão final, a polêmica pró ou contra o filme, iniciada quando da circulação das cópias piratas, atingiu o clímax.

Tachada de fascista e acusada de fazer a apologia da tortura, de um lado; aplaudida por desmistificar a “vida bandida” e por atacar a ambiguidade da sociedade com relação ao consumo de drogas, de outro, essa produção de 2007 desencadeou uma forte reação no meio cinematográfico e na imprensa – destacando-se as seções de cartas de leitores e a internet –, e acabou transformando seu personagem principal, no herói ou no anti-herói por excelência.

A atitude hipócrita, que, na visão de José Padilha, a burguesia teria para com o consumo de maconha e outros “baratos” se explicitava na sequência em que alunos do primeiro ano de Direito de uma universidade particular da zona sul do Rio (a PUC, a qual, embora nunca nomeada, foi o cenário das filmagens) discutem a truculência empregada pelos policiais na repressão às drogas – das quais, depois se saberá, alguns são usuários.

Segundo João Pereira Coutinho, esse era o momento-chave de Tropa de elite: “quando os universitários discutem com aprovação do professor, Vigiar e punir, o estudo de Michel Foucault sobre o sistema prisional como instrumento de submissão e poder. Toda a gente aplaude Michel Foucault, transplantando as suas teses para o Rio dos nossos dias: a polícia é a face da repressão, os criminosos são vítimas e etc”.

“No meio dessa orgia de irracionalismo, é Matias, o policial-estudante que fala com experiência, quem coloca as coisas na sua devida proporção: os bandidos são bandidos, alguns policiais são corruptos; mas a fonte do mal está em meninos de classe média ou alta que ‘romantizam’ a marginalidade e, ao mesmo tempo, alimentam o tráfico. Silêncio na turma. E aplauso em mim”.

No meio acadêmico, no entanto, a sequência elogiada pelo articulista português causou polêmica. Sem deixar de reconhecer a existência do consumo de drogas nas universidades, muitos intelectuais reprovaram o modo simplista como foi estabelecida a equação entre os estudantes usuários de estupefacientes e a violência resultante do tráfico, atribuindo-o a uma postura moralista do diretor, o qual, assim, esposaria a visão estereotipada e homogeneizadora da polícia com relação à intelligentsia (conforme constatou Michele Oliveira).

É isso que parece ter incomodado mais os que não aplaudiram Tropa de elite, ou seja, o maniqueísmo ao retratar a luta entre o bem (o impoluto efetivo do BOPE) e o mal (a corrupção que grassa nas esferas públicas; a questão das drogas que torna cúmplices usuários endinheirados e traficantes favelados), luta para a qual só existiriam medidas extremas, isto é, o aniquilamento impiedoso de quem a ocasionou, sejam os filhos da burguesia executados pelos marginais, sejam os bandidos eliminados pelas forças da ordem.

Além do fato de a narração ser guiada pela voz-off do protagonista. Numa entrevista à Carta capital, José Padilha declarou: “É um erro primário confundir o meu ponto de vista com o dos personagens”, parecendo esquecer que o recorte dado à narrativa, a posição da câmera vem reforçar a visão de mundo levada para as telas.

Angustiada diante do tratamento dado por Tropa de elite à questão da violência, que lhe lembrou a época da ditadura,[7] a cineasta Lúcia Murat asseverou: “Eu efetivamente tenho uma outra opinião não somente em relação ao filme, mas ao que ele propõe em relação ao combate ao tráfico de drogas (ou talvez fosse melhor a ordem inversa: eu tenho uma opinião diferente da forma como ele vê este mundo e portanto uma outra opinião em relação ao filme que se origina desta visão)”.

O fato é que, nessa obra cinematográfica, apesar das declarações de seu realizador, não há uma crítica aos excessos de comportamento do capitão Nascimento. Sua crise, seu pânico, suas dúvidas dizem mais respeito a uma moral de paladino da justiça, que construiu para si, do que a uma moral social. E o desconforto nasce diante da “moral da história”: no estágio atual da sociedade brasileira, a violência só pode ser combatida com mais violência; a barbárie só pode ser vencida pela barbárie.[8]

Conforme afirmou o cineasta, em entrevista à Veja: “Como está dito no filme, o policial tem três escolhas: ou ele se corrompe, ou se omite ou vai para a guerra”. Ir para a guerra é o que faz o protagonista, torturando, matando, temperando o caráter de seu sucessor. Um retrato cru, se assim aprouver, mas também a “mais desoladora desistência” do resgate de valores éticos, como observou Jurandir Freire Costa, ou a falta total de uma escapatória, nos dizeres de Paulo Sant’Ana: “É um filme nauseante, como toda obra que pretende ser realista. Não há saída para todo o elenco de personagens, policiais, bandidos, consumidores de drogas, estão todos eles condenados por uma sentença moral que acaba atingindo a inteireza do meio social”.

Isso ficou bem patente na adesão de boa parcela do público às sequências de tortura, acolhidas não raras vezes com palmas ou gargalhadas, o que levou o roteirista do filme, Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, a afirmar à revista Brasileiros que existe “um pacto velado da população com a tortura”.

De fato, como Ignacio Cano declarou a Mario Cesar Carvalho: “Historicamente, a tortura sempre foi um mecanismo de controle das camadas populares. As primeiras polícias do Brasil foram criadas para diversas missões, entre elas a de açoitar os escravos que fugiam. A polícia no Brasil tortura como parte de seu trabalho desde que foi criada no começo do século XIX. Tortura no Brasil só é escândalo quando aplicada contra inocentes. Só vira escândalo quando atinge o alvo errado”.

Para o sociólogo, o combate às lesões corporais e às execuções sumárias praticadas pelas forças da ordem não é uma prioridade nem do governo federal nem dos governos estaduais,[9] e a prática da tortura parece estar tão entranhada na cultura nacional a ponto de ser considerada normal não só por agentes do Estado como por algumas de suas vítimas, enquanto ato punitivo. É dessa naturalização da violência em geral e da tortura em particular que nascem as manifestações de apoio a crimes cometidos em nome da lei, seja na realidade,[10] seja na ficção.

Na opinião de Roberto Schwarz, reportada por Marcos Strecker: “Estimulado pela farda, pela empatia com os atores, que são astros, e pela missão justiceira, o espectador pode se identificar à violência desvairada e aprovar inclusive a tortura. [..] É verdade também que o espectador sem queda para os prazeres sádicos pode encarar os heróis com distância horrorizada, como anti-heróis. Nesse caso, ele vê a polícia dividida entre a corrupção e o enlouquecimento, o que não é banal e não deixa de ser instrutivo. […] Em Tropa de elite, dependendo do ângulo, os fanáticos da justiça vão mais longe que os piores malfeitores. São exemplos da desigualdade degradada, ou das afinidades de fundo entre os polos sociais”.[11]

A degeneração do tecido social levou as pessoas a aceitarem medidas coercitivas, entrincheirando-se progressivamente na “arquitetura do medo”[12] (atrás de muros e grades em suas casas ou em condomínios cada vez mais autossuficientes), circulando em veículos blindados, frequentando templos de consumo exclusivos, pagando pela própria proteção, ao contratarem seguranças particulares ou se sujeitarem às milícias, como tem acontecido em vários condomínios fechados do Rio de Janeiro ou até mesmo em muitas favelas cariocas dominadas por estes grupos paramilitares que destronaram os traficantes. São as cidades transformadas em “fobópoles”, tomando-se aqui emprestado o neologismo criado por Marcelo Lopes de Souza.[13]

Segundo este autor (conforme referiu Bruno Paes Manso): “O modelo social capitalista produz maciça e crescentemente fatores de estímulo a diversos tipos de violência. Não me refiro somente a desigualdades materiais, que se associam muitas vezes a sentimentos de revolta e frustração por parte daqueles que não podem satisfazer suas necessidades e seus desejos de consumo, mas também a fatores como a desregulamentação do sistema financeiro internacional e, com isso, as facilidades para a lavagem de dinheiro sujo, ao estresse e a psicopatologias diversas associadas aos ritmos e modos de vida, entre muitos outros fatores. Por outro lado, ao mesmo tempo que cria essas condições, esse modelo se mostra incapaz de enfrentá-las com eficácia”.

Acossadas pelas disparidades sociais, autossegregadas pelo medo, as pessoas, na opinião da urbanista Raquel Rolnik (transcrita por Carlos Costa), tendem a ver a cidade como “um espaço de qualidade para poucos, enquanto as maiorias ficam de fora”, confinadas às franjas periféricas cada vez mais distantes do centro. O que deveria ser espaço de convívio se torna “campo de guerra” – usando uma expressão do arquiteto Marcelo Ferraz (registrada por Pedro Fernandes) –, quando os que lhe são “estranhos” o adentram, cobiçando os signos de prestígio que os happy few alardeiam.

Para Renato Mezan: “Como os poderosos são em pequeno número, usar um objeto de marca prestigiosa é também sugerir que pertencemos ao conjunto seleto dos que ‘podem’ – e mandam. Eis por que, além de servir a fantasias de exibição fálica, a roupa, a caneta, o carro (e o relógio) se tornaram ícones identificatórios que seu portador faz parte de um grupo valorizado, do qual a maioria está excluído”.

Dessa forma, o Rolex roubado de Luciano Huck não marcava as horas, mas media seu status.[14] Diante disso, por que não considerar o texto de Ferréz como uma forma de emprestar ao menos uma identidade aos que não têm nenhuma ou como mais uma tentativa de chamar a atenção para desigualdade que há entre “gente” e “subgente” (como salientou Jessé Souza) na sociedade brasileira? Por que não avaliar se, efetivamente, “o rolo não foi justo para ambas as partes”? Mais porque “as reiteradas manifestações de Luciano Huck desde a ocorrência do assalto não fazem outra coisa senão reforçar seu espaço, já nada desprezível, na mídia”, do que por outro motivo.

Se o apresentador, na óptica do modelo neoliberal tão bem representado pela rede televisiva na qual trabalha, ainda ficou no lucro, então para que o alarido público[15]? Por que fazer frente à violência com a “violência legítima”,[16] invocando logo o capitão Nascimento e seu caveirão da morte? Será que não haveria uma desproporção entre a infração cometida e a punição pretendida[17]? Ou ele achou que, ao expor a própria fragilidade, provocaria uma comoção nacional por ser um “cidadão exemplar”?

Ora, mas Luciano Huck não sabe que, neste País, os que não são imortalizados pela revista Caras e não pertencem à esfera das celebridades e das “pessoas bonitas”, não passam de um bando de ressentidos?

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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