Mariarosaria
Fabris: Tropa de elite
Em 1º
de outubro de 2007, o jornal Folha de S. Paulo publicava o
desabafo do então animador de “O caldeirão do Huck”, programa veiculado
nas tardes de sábado pela Rede Globo. O texto, intitulado
“Pensamentos quase póstumos” iniciava com o apresentador imaginando como seria
noticiado seu falecimento, se não tivesse escapado incólume de um assalto à mão
armada:
“Luciano
Huck foi assassinado. Manchete do ‘Jornal Nacional’ de ontem. E eu, algumas
páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe,
uma homenagem póstuma no caderno cultura. Não veria meu segundo filho. Deixaria
órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma
multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em
silêncio. Por quê? Por causa de um relógio”.
A
reação provocada pela divulgação pública do acontecido foi descomunal. Causou
uma enxurrada de artigos e cartas de leitores, principalmente depois que a
mesma seção “Tendências/Debates”, que havia hospedado o texto de Luciano Huck,
na semana seguinte acolheu “Pensamentos de um ‘correria’”, no qual Ferréz, sem
citar explicitamente o apresentador, rebatia seus argumentos, imaginando o que
teria se passado pela cabeça do assaltante na hora de cumprir sua “missão”.
Dessa
forma, à “biografia edificante” (como a denominou Fernando Barros Silva) da
celebridade global contrapunha a vida de agruras de um “correria” anônimo da
periferia de uma megalópole,[1] concluindo: “No final das
contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais
valioso, que é sua vida, e o correria com o relógio. Não vejo motivo pra
reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas
as partes”.
Estava
instaurada, assim, uma espécie de foco de luta de classes – o povo, de um lado
da barricada; a elite,[2] do outro –, com as opiniões divididas
entre o ataque e a defesa do artigo de Luciano Huck e da réplica do escritor e
rapper paulistano. “A elite branca brasileira ganhou um rosto. Ele é narigudo,
casado, tem 36 anos e um patrimônio estimado (há cinco anos) em US$ 6 milhões.”
– anunciava a revista Época, enquanto os “espoliados” das
periferias, mais uma vez, tinham em Reginaldo Ferreira da Silva,[3] que
nasceu nesse meio, um de seus paladinos.
Ao
criticar a postura do apresentador, o cantor maranhense Zeca Baleiro (sempre no
mesmo artigo) afirmou: “A nossa elite – se é que merece ser assim chamada – é
mesmo patética. Só mostra indignação com a situação do país quando tem seu
Rolex roubado. Queria ver Luciano Huck escrevendo um texto tão indignado caso
presenciasse uma chacina no Capão Redondo”.
Ao
defendê-la, Roberto da Matta (ainda no artigo de Celso Masson e Nelito
Fernandes) asseverava: “A reação ao Luciano Huck é um exemplo de neofascismo.
Qualquer um tem direito de denunciar a injustiça de que foi vítima”.[4] A
pecha de neofascistas atribuída pelo antropólogo aos detratores de Luciano
Huck, no entanto, não levava em consideração que este, num dos trechos menos
comentados de seu texto, ao apelar para as forças da ordem, reais ou ficcionais
– “Onde está a polícia? Onde está a ‘Elite da Tropa’? Quem sabe até a ‘Tropa de
Elite’!
Chamem
o comandante Nascimento!” –, clamava, em suma, pelo BOPE (Batalhão de Operações
Policiais Especiais da Polícia Militar), com suas ações táticas de combate ao
crime, que tanto dividem a opinião pública,[5] e com seus
VBTPs, ou seja veículos blindados de transporte de pessoal, popularmente
chamados caveirões, sucessores dos paladinos e dos brucutus com que, nos anos
1960, o Batalhão de Choque da PM dispersava as manifestações contrárias ao
regime (conforme dados da revista Piauí).
Parece
que o apresentador, pelo fato de divertir as pessoas e presidir uma ONG[6] –
confundindo, como tantos outros, obras de caridade com combate à desigualdade
econômica –, acreditou ser imune à violência social, pela qual não se sentia
responsável e para a qual só despertou ao ser atingido por “um assalto para
chamar de seu” e ao ser “transformado num obelisco da desigualdade social
brasileira”, nas palavras de Elio Gaspari.
Assim
mesmo, ao contrário do que afirmou Fernando de Barros e Silva, a polêmica não o
ajudou a “cair na real”, isto é, a pensar a serviço de quais interesses ele
estava, que ideologia defendia, que modelo de sociedade perpetuava com seu
programa.
Como
observou o missivista Henrique Stecanella Cid, no “Painel do Leitor” da Folha
de S. Paulo, em 10 de outubro de 2007: “Presidir uma ONG não deixará
Luciano Huck livre de ser assaltado e não resolverá os problemas sociais que
afligem as camadas mais pobres da população. Não só Luciano Huck mas todas as
emissoras de TV deveriam refletir sobre sua programação. Será que se houvesse
programas que incentivassem um pensamento mais crítico em relação a problemas
sociais, políticos etc. não haveria uma cobrança maior da população em relação
ao governo?”
“Em vez
de ficar pensando que poderia ter morrido ou botar a culpa nas pessoas
marginalizadas que veem apenas o crime como meio de vida, não só Luciano Huck
mas todas as pessoas que de algum modo atingem um grande público deveriam
refletir sobre a responsabilidade que têm quando um assalto ou outro tipo de
crime acontece”.
Ou,
como resumiu a leitora Susane Peixoto, no box “Uma polêmica no
ar”, da revista Época de 15 de outubro de 2007: “Para acabar
com a hipocrisia precisamos sim, cobrar as ações do poder público, mas também
parar de achar que montar uma ONG (e faturar muito com isso em imagem, é claro)
é fazer o seu papel”.
Invocado
pelo apresentador, o capitão Nascimento, protagonista de Tropa de elite (2007),
embora ainda não tivesse chegado às telas, era conhecido do público, uma vez
que DVDs com o copião dessa obra de José Padilha já circulavam bem antes de sua
estreia. Com o lançamento da versão final, a polêmica pró ou contra o filme,
iniciada quando da circulação das cópias piratas, atingiu o clímax.
Tachada
de fascista e acusada de fazer a apologia da tortura, de um lado; aplaudida por
desmistificar a “vida bandida” e por atacar a ambiguidade da sociedade com
relação ao consumo de drogas, de outro, essa produção de 2007 desencadeou uma
forte reação no meio cinematográfico e na imprensa – destacando-se as seções de
cartas de leitores e a internet –, e acabou transformando seu personagem
principal, no herói ou no anti-herói por excelência.
A
atitude hipócrita, que, na visão de José Padilha, a burguesia teria para com o
consumo de maconha e outros “baratos” se explicitava na sequência em que alunos
do primeiro ano de Direito de uma universidade particular da zona sul do Rio (a
PUC, a qual, embora nunca nomeada, foi o cenário das filmagens) discutem a
truculência empregada pelos policiais na repressão às drogas – das quais,
depois se saberá, alguns são usuários.
Segundo
João Pereira Coutinho, esse era o momento-chave de Tropa de elite:
“quando os universitários discutem com aprovação do professor, Vigiar e
punir, o estudo de Michel Foucault sobre o sistema prisional como
instrumento de submissão e poder. Toda a gente aplaude Michel Foucault,
transplantando as suas teses para o Rio dos nossos dias: a polícia é a face da
repressão, os criminosos são vítimas e etc”.
“No
meio dessa orgia de irracionalismo, é Matias, o policial-estudante que fala com
experiência, quem coloca as coisas na sua devida proporção: os bandidos são
bandidos, alguns policiais são corruptos; mas a fonte do mal está em meninos de
classe média ou alta que ‘romantizam’ a marginalidade e, ao mesmo tempo,
alimentam o tráfico. Silêncio na turma. E aplauso em mim”.
No meio
acadêmico, no entanto, a sequência elogiada pelo articulista português causou
polêmica. Sem deixar de reconhecer a existência do consumo de drogas nas
universidades, muitos intelectuais reprovaram o modo simplista como foi
estabelecida a equação entre os estudantes usuários de estupefacientes e a
violência resultante do tráfico, atribuindo-o a uma postura moralista do
diretor, o qual, assim, esposaria a visão estereotipada e homogeneizadora da
polícia com relação à intelligentsia (conforme constatou
Michele Oliveira).
É isso
que parece ter incomodado mais os que não aplaudiram Tropa de elite,
ou seja, o maniqueísmo ao retratar a luta entre o bem (o impoluto efetivo do
BOPE) e o mal (a corrupção que grassa nas esferas públicas; a questão das
drogas que torna cúmplices usuários endinheirados e traficantes favelados),
luta para a qual só existiriam medidas extremas, isto é, o aniquilamento
impiedoso de quem a ocasionou, sejam os filhos da burguesia executados pelos
marginais, sejam os bandidos eliminados pelas forças da ordem.
Além do
fato de a narração ser guiada pela voz-off do protagonista. Numa
entrevista à Carta capital, José Padilha declarou: “É um erro
primário confundir o meu ponto de vista com o dos personagens”, parecendo
esquecer que o recorte dado à narrativa, a posição da câmera vem reforçar a
visão de mundo levada para as telas.
Angustiada
diante do tratamento dado por Tropa de elite à questão da
violência, que lhe lembrou a época da ditadura,[7] a cineasta
Lúcia Murat asseverou: “Eu efetivamente tenho uma outra opinião não somente em
relação ao filme, mas ao que ele propõe em relação ao combate ao tráfico de
drogas (ou talvez fosse melhor a ordem inversa: eu tenho uma opinião diferente
da forma como ele vê este mundo e portanto uma outra opinião em relação ao
filme que se origina desta visão)”.
O fato
é que, nessa obra cinematográfica, apesar das declarações de seu realizador,
não há uma crítica aos excessos de comportamento do capitão Nascimento. Sua
crise, seu pânico, suas dúvidas dizem mais respeito a uma moral de paladino da
justiça, que construiu para si, do que a uma moral social. E o desconforto
nasce diante da “moral da história”: no estágio atual da sociedade brasileira,
a violência só pode ser combatida com mais violência; a barbárie só pode ser
vencida pela barbárie.[8]
Conforme
afirmou o cineasta, em entrevista à Veja: “Como está dito no filme,
o policial tem três escolhas: ou ele se corrompe, ou se omite ou vai para a
guerra”. Ir para a guerra é o que faz o protagonista, torturando, matando,
temperando o caráter de seu sucessor. Um retrato cru, se assim aprouver, mas
também a “mais desoladora desistência” do resgate de valores éticos, como
observou Jurandir Freire Costa, ou a falta total de uma escapatória, nos
dizeres de Paulo Sant’Ana: “É um filme nauseante, como toda obra que pretende
ser realista. Não há saída para todo o elenco de personagens, policiais,
bandidos, consumidores de drogas, estão todos eles condenados por uma sentença
moral que acaba atingindo a inteireza do meio social”.
Isso
ficou bem patente na adesão de boa parcela do público às sequências de tortura,
acolhidas não raras vezes com palmas ou gargalhadas, o que levou o roteirista
do filme, Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, a afirmar à revista Brasileiros que
existe “um pacto velado da população com a tortura”.
De
fato, como Ignacio Cano declarou a Mario Cesar Carvalho: “Historicamente, a
tortura sempre foi um mecanismo de controle das camadas populares. As primeiras
polícias do Brasil foram criadas para diversas missões, entre elas a de açoitar
os escravos que fugiam. A polícia no Brasil tortura como parte de seu trabalho
desde que foi criada no começo do século XIX. Tortura no Brasil só é escândalo
quando aplicada contra inocentes. Só vira escândalo quando atinge o alvo
errado”.
Para o
sociólogo, o combate às lesões corporais e às execuções sumárias praticadas
pelas forças da ordem não é uma prioridade nem do governo federal nem dos
governos estaduais,[9] e a prática da tortura parece estar tão
entranhada na cultura nacional a ponto de ser considerada normal não só por
agentes do Estado como por algumas de suas vítimas, enquanto ato punitivo. É
dessa naturalização da violência em geral e da tortura em particular que nascem
as manifestações de apoio a crimes cometidos em nome da lei, seja na realidade,[10] seja
na ficção.
Na
opinião de Roberto Schwarz, reportada por Marcos Strecker: “Estimulado pela
farda, pela empatia com os atores, que são astros, e pela missão justiceira, o
espectador pode se identificar à violência desvairada e aprovar inclusive a
tortura. [..] É verdade também que o espectador sem queda para os prazeres
sádicos pode encarar os heróis com distância horrorizada, como anti-heróis.
Nesse caso, ele vê a polícia dividida entre a corrupção e o enlouquecimento, o
que não é banal e não deixa de ser instrutivo. […] Em Tropa de elite,
dependendo do ângulo, os fanáticos da justiça vão mais longe que os piores
malfeitores. São exemplos da desigualdade degradada, ou das afinidades de fundo
entre os polos sociais”.[11]
A
degeneração do tecido social levou as pessoas a aceitarem medidas coercitivas,
entrincheirando-se progressivamente na “arquitetura do medo”[12] (atrás
de muros e grades em suas casas ou em condomínios cada vez mais
autossuficientes), circulando em veículos blindados, frequentando templos de
consumo exclusivos, pagando pela própria proteção, ao contratarem seguranças
particulares ou se sujeitarem às milícias, como tem acontecido em vários
condomínios fechados do Rio de Janeiro ou até mesmo em muitas favelas cariocas
dominadas por estes grupos paramilitares que destronaram os traficantes. São as
cidades transformadas em “fobópoles”, tomando-se aqui emprestado o neologismo
criado por Marcelo Lopes de Souza.[13]
Segundo
este autor (conforme referiu Bruno Paes Manso): “O modelo social capitalista
produz maciça e crescentemente fatores de estímulo a diversos tipos de
violência. Não me refiro somente a desigualdades materiais, que se associam
muitas vezes a sentimentos de revolta e frustração por parte daqueles que não
podem satisfazer suas necessidades e seus desejos de consumo, mas também a
fatores como a desregulamentação do sistema financeiro internacional e, com
isso, as facilidades para a lavagem de dinheiro sujo, ao estresse e a
psicopatologias diversas associadas aos ritmos e modos de vida, entre muitos
outros fatores. Por outro lado, ao mesmo tempo que cria essas condições, esse
modelo se mostra incapaz de enfrentá-las com eficácia”.
Acossadas
pelas disparidades sociais, autossegregadas pelo medo, as pessoas, na opinião
da urbanista Raquel Rolnik (transcrita por Carlos Costa), tendem a ver a cidade
como “um espaço de qualidade para poucos, enquanto as maiorias ficam de fora”,
confinadas às franjas periféricas cada vez mais distantes do centro. O que
deveria ser espaço de convívio se torna “campo de guerra” – usando uma
expressão do arquiteto Marcelo Ferraz (registrada por Pedro Fernandes) –,
quando os que lhe são “estranhos” o adentram, cobiçando os signos de prestígio
que os happy few alardeiam.
Para
Renato Mezan: “Como os poderosos são em pequeno número, usar um objeto de marca
prestigiosa é também sugerir que pertencemos ao conjunto seleto dos que ‘podem’
– e mandam. Eis por que, além de servir a fantasias de exibição fálica, a
roupa, a caneta, o carro (e o relógio) se tornaram ícones identificatórios que
seu portador faz parte de um grupo valorizado, do qual a maioria está
excluído”.
Dessa
forma, o Rolex roubado de Luciano Huck não marcava as horas, mas media
seu status.[14] Diante disso, por que não
considerar o texto de Ferréz como uma forma de emprestar ao menos uma
identidade aos que não têm nenhuma ou como mais uma tentativa de chamar a
atenção para desigualdade que há entre “gente” e “subgente” (como salientou Jessé
Souza) na sociedade brasileira? Por que não avaliar se, efetivamente, “o rolo
não foi justo para ambas as partes”? Mais porque “as reiteradas manifestações
de Luciano Huck desde a ocorrência do assalto não fazem outra coisa senão
reforçar seu espaço, já nada desprezível, na mídia”, do que por outro motivo.
Se o
apresentador, na óptica do modelo neoliberal tão bem representado pela rede
televisiva na qual trabalha, ainda ficou no lucro, então para que o alarido
público[15]? Por que fazer frente à violência com a “violência
legítima”,[16] invocando logo o capitão Nascimento e seu
caveirão da morte? Será que não haveria uma desproporção entre a infração
cometida e a punição pretendida[17]? Ou ele achou que, ao expor a
própria fragilidade, provocaria uma comoção nacional por ser um “cidadão
exemplar”?
Ora,
mas Luciano Huck não sabe que, neste País, os que não são imortalizados pela
revista Caras e não pertencem à esfera das celebridades e das
“pessoas bonitas”, não passam de um bando de ressentidos?
Fonte:
A Terra é Redonda

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