Corte
de verba da polícia científica deixa corpos sem refrigeração no IML de Santos
Quando
as ondas de calor atingem a cidade de Santos, no litoral paulista, os moradores
do bairro Estuário, na zona portuária, ligam os ventiladores, abrem as janelas
e espirram aromatizantes em suas casas para lidar com o forte cheiro de
putrefação vindo do Instituto Médico Legal (IML) da cidade.
Segundo
o Sindicato dos Peritos Criminais do Estado de São Paulo (Sinpcresp), o motivo
do cheiro forte é a falta de refrigeração adequada aos corpos que ficam
expostos nas salas de autópsia em temperatura ambiente, o que escancara os
problemas estruturais que a polícia técnico-científica vive sob a gestão do
governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O odor,
segundo peritos e moradores, é o sintoma mais visível de um problema maior: um
levantamento feito pela Agência Pública constatou a redução de quase 64% do
orçamento destinado ao programa de melhoria, manutenção e construção das
instalações físicas destinadas à Polícia Técnico-Científica, de 2023 até 2026,
de acordo com as Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) dos quatro anos.
No ano
de 2023, o primeiro da gestão do governo Tarcísio, o orçamento para instalações
físicas, aprovado pela LOA, foi de R$ 23,9 milhões. Para 2026, no entanto, o
montante é de R$ 8,7 milhões.
O
investimento nas instalações físicas da polícia científica foi reduzido ano a
ano, caindo pela metade em 2024, com R$ 12 milhões investidos, para R$ 6
milhões em 2025 e um leve aumento para 2026, com R$ 8,7 milhões.
A
polícia técnico-científica é a responsável pela produção de provas periciais
para investigações criminais e decisões da Justiça. Ela realiza perícias em
locais de crimes e exames em vestígios como armas, drogas, documentos e
objetos. Também atua na área médico-legal, com necropsias e laudos sobre lesões
corporais, fundamentais para apurar mortes e violência.
“Talvez
ele [Tarcísio] não tenha o menor conhecimento, a menor noção do que é a Polícia
Científica, de qual é a sua importância para o Estado. Porque, se tivesse,
jamais ele deixaria chegar nesse ponto”, disse Bruno Lazzari, presidente do
Sinpcresp.
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Falta de estrutura causa mau cheiro no IML de Santos
Parte
dos corpos que chegam ao IML de Santos ficam expostos à temperatura ambiente,
porque a maca que deveria colocá-los nas geladeiras mais altas está quebrada.
Sendo assim, alguns ficam sobre mesas espalhadas pelo IML, até que se libere
espaços nas geladeiras.
“Para
um familiar que já está sensibilizado com a situação [da morte de um ente
querido], o impacto emocional deve ser muito grande. Afinal aquela situação
torna-se uma lembrança permanente”, argumentou Lazzari.
A
queima do café torrado foi uma das tentativas da moradora Daniela Tavares, de
39 anos, para espantar o cheiro podre que vem do IML, em frente à sua casa.
Segundo ela, no entanto, nada é forte o suficiente para aliviar a fetidez.
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Por que isso importa?
• Orçamento para instalações físicas da
polícia científica caiu de R$ 23,9 milhões em 2023 para R$ 8,7 milhões este
ano;
• Cortes deixaram o IML de Santos sem
equipamentos adequados para a refrigeração de corpos. Moradores convivem com o
mau cheiro vindo das instalações.
Há dois
meses, a filha de Tavares brincava na porta de casa, quando o vento bateu e o
fedor fez com que a brincadeira acabasse. “Tinha até urubus sobrevoando o
prédio [do IML] naquele dia, de tão forte que o cheiro estava”, contou a
moradora.
O
prédio da polícia científica de Santos, que abriga o IML, foi inaugurado em
2023. A nova sede do instituto foi recebida com protestos dos moradores do
bairro Estuário, que organizaram até mesmo um abaixo-assinado contra a
construção. “Nós espalhamos adesivos pelo bairro escrito: ‘IML não!”’, lembrou
Tavares.
“O
prédio de Santos, infelizmente, está muito longe da estrutura que entendemos
ser a adequada. É praticamente um galpão que foi adaptado”, disse o presidente
do sindicato.
Diante
da denúncia feita pelos vizinhos do IML, Lazzari disse que o Sinpcresp avalia
os riscos a que os servidores estão submetidos ao trabalhar nessas condições.
“Corpos
em decomposição possuem um cheiro muito desagradável. Trabalhar nessas
condições é insalubre. Os gases liberados por cadáveres em decomposição são
tóxicos e inflamáveis”, alertou.
Pelo
menos uma vez na semana, uma servidora da polícia científica, que preferiu não
se identificar, contou que sente mal-estar ao chegar na sede de Santos, por
conta do cheiro que vem do IML. “É mais comum as pessoas reclamarem de dor de
cabeça, porque fica o dia inteiro exposto ao cheiro”, contou.
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Problemas em outras unidades do estado
Os
problemas nas instalações físicas, entretanto, se estendem às outras unidades
da polícia científica espalhadas pelo estado. Além da precariedade dos
edifícios, faltam até mesmo materiais de higiene.
Uma
perita criminal que atua na capital e também pediu para manter sua identidade
em sigilo, contou à Pública que as viaturas utilizadas pela equipe “são
raramente lavadas, porque não há orçamento destinado a esse serviço”.
“Você
vai a um lugar totalmente insalubre, volta com sangue no pé e material
biológico contaminado, [entra na viatura] e não tem dinheiro para lavar viatura
[…] tem material biológico de muitos dos mortos que foram atendidos”, explicou.
Os
problemas estruturais se repetem em Votuporanga e Assis, no interior de São
Paulo, onde os prédios sofrem com infiltrações e viaturas antigas sem
circulação. Em dezembro de 2025, o sindicato denunciou que faltavam luvas para
manusear objetos apreendidos e precisavam arcar com equipamentos de proteção
individuais, que não eram fornecidos pelo estado.
“Eu
tenho que levar o meu material próprio, porque não tem nem sabão pra lavar uma
louça e às vezes falta papel higiênico”, disse a perita criminal que trabalha
em São Paulo.
Em
Assis, segundo o sindicato, três viaturas disponíveis para a equipe de peritos
estão paradas por mau funcionamento. Segundo servidores que atuam na unidade,
os veículos são antigos e, mesmo com pedidos de trocas, nada foi feito.
Na
unidade de Araçatuba, também no interior de São Paulo, os materiais coletados
durante as perícias são deixados pelo chão, porque não há local adequado para
armazenar os objetos apreendidos, que serão posteriormente periciados, longe de
refrigeração e ambiente seguro.
Procurada
para comentar os casos citados na reportagem, a Secretaria da Segurança Pública
(SSP), sob a gestão do secretário Nico Gonçalves, disse que não houve
descontinuidade ou “desinvestimento em sua estrutura e serviços”, embora os
dados públicos mostrem o oposto. Também que a SSP “manteve uma política
consistente e contínua de investimento e custeio na área de segurança e perícia
oficial.”
Sobre a
sede da Polícia Científica de Santos, a pasta negou que haja problemas de
funcionamento no IML de Santos e informou que “a superintendência acompanha
permanentemente a demanda da unidade para dimensionar melhor a sua capacidade
de resposta.”
A nota
finaliza dizendo que o Estado tem buscado melhorar os seus serviços,
“assegurando a plena operação da Polícia Técnico-Científica e das perícias
criminalísticas, além da preparação de investimentos estruturantes – como
modernização de instalações – com execução escalonada e responsável ao longo
dos exercícios.”
Fonte:
Por Rafael Custódio, da Agencia Pública

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