Cientistas
descobrem açúcar que derrota bactérias resistentes a antibiótico
Pesquisadores
da Universidade de Sydney, na Austrália, desenvolveram uma estratégia
promissora para combater bactérias que não respondem mais aos antibióticos.
O
trabalho, publicado na revista Nature Chemical Biology, mostra que anticorpos
criados em laboratório conseguem eliminar infecções bacterianas normalmente
fatais em camundongos.
A
estratégia funciona focando em um açúcar encontrado apenas na superfície de
células bacterianas.
Os
anticorpos se ligam a essa molécula e alertam o sistema imunológico para
destruir o patógeno invasor.
De
acordo com o Daily Science, essa abordagem pode levar a uma nova geração de
imunoterapias para infecções multirresistentes adquiridas em hospitais.
O
açúcar alvo é chamado ácido pseudaminico. Embora se assemelhe a açúcares
encontrados em células humanas, essa molécula é produzida apenas por bactérias.
Muitos
patógenos perigosos a utilizam como parte essencial de sua superfície externa,
ajudando-os a sobreviver e evitar as defesas imunológicas.
Como o
corpo humano não produz esse açúcar, ele oferece um alvo altamente específico
para desenvolver imunoterapias que evitem danificar células saudáveis.
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Como os anticorpos foram desenvolvidos
A
equipe, liderada pelo professor Richard Payne da Universidade de Sydney,
trabalhou com os também docentes Ethan Goddard-Borger, do Wehi (instituto de
pesquisa médica mais antigo da Austrália), e Nichollas Scott, da Universidade
de Melbourne e do Instituto Peter Doherty para Infecção e Imunidade.
Os
pesquisadores sintetizaram o açúcar bacteriano e peptídeos decorados com açúcar
completamente do zero. Esse trabalho permitiu determinar a estrutura
tridimensional exata da molécula e como ela aparece nas superfícies
bacterianas.
Com
essas informações detalhadas, a equipe criou o que descrevem como um anticorpo
"pan-específico". Ele consegue reconhecer o mesmo açúcar em muitas
espécies e cepas bacterianas differentes.
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Resultados nos testes
Em
estudos de infecção em camundongos, o anticorpo eliminou com sucesso a
Acinetobacter baumannii multirresistente.
Essa
bactéria é uma causa bem conhecida de pneumonia adquirida em hospital e
infecções na corrente sanguínea, sendo especialmente difícil de tratar.
"A
Acinetobacter baumannii multirresistente é uma ameaça crítica enfrentada nas
modernas instalações de saúde em todo o mundo. Não é incomum que infecções
resistam até aos antibióticos de última linha", afirmou o professor
Goddard-Borger.
"Nosso
trabalho serve como um poderoso experimento de prova de conceito que abre a
porta para o desenvolvimento de novas imunoterapias passivas que salvam
vidas."
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Imunoterapia passiva
A
imunoterapia passiva envolve dar aos pacientes anticorpos já prontos para
controlar rapidamente uma infecção, em vez de esperar que o sistema imunológico
adaptativo do corpo responda. Essa abordagem pode ser usada tanto para tratar
infecções ativas quanto para preveni-las.
Em
ambientes hospitalares, poderia ser usada para proteger pacientes vulneráveis
em unidades de terapia intensiva que correm alto risco de infecções por
bactérias resistentes a medicamentos.
Scott
observou que os anticorpos também oferecem uma forma importante de estudar como
as bactérias causam doenças.
"Esses
açúcares são centrais para a virulência bacteriana, mas foram muito difíceis de
estudar. Ter anticorpos que conseguem reconhecê-los seletivamente nos permite
mapear onde aparecem e como mudam em diferentes patógenos. Esse conhecimento
alimenta diretamente melhores diagnósticos e terapias."
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Próximos passos
Nos
próximos cinco anos, a equipe planeja transformar essas descobertas em
tratamentos com anticorpos prontos para uso clínico, com foco na Acinetobacter
baumannii multirresistente.
Alcançar
esse objetivo removeria um dos membros mais perigosos dos patógenos Eskape e
marcaria um passo significativo no esforço global para combater a resistência
antimicrobiana.
Payne
lidera também o recém-anunciado Centro de Excelência do Conselho de Pesquisa
Australiano para Engenharia Avançada de Peptídeos e Proteínas. Esse centro se
baseará em descobertas como essa para acelerar a transição da pesquisa básica
para aplicações em biotecnologia, agricultura e conservação.
"Este
é exatamente o tipo de avanço que o novo Centro de Excelência foi projetado
para possibilitar. Nosso objetivo é transformar conhecimento molecular
fundamental em soluções do mundo real que protejam as pessoas mais vulneráveis
do nosso sistema de saúde."
• O desafio global da resistência aos
antimicrobianos
A
resistência de bactérias e fungos a medicamentos antimicrobianos já é
considerada uma das maiores ameaças à saúde pública mundial. O problema cresce
em ritmo acelerado e preocupa autoridades sanitárias porque compromete a
eficácia de tratamentos antes considerados seguros e coloca em risco
procedimentos médicos de rotina.
De
acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 7,7
milhões de pessoas morreram em 2019 vítimas de infecções bacterianas. Desses
óbitos, 4,95 milhões estiveram associados à resistência a antibióticos, sendo
1,27 milhão diretamente atribuídos a microrganismos resistentes. No Brasil,
dados do estudo Global Burden of Disease indicam que, em 2021, aproximadamente
31,7 mil mortes foram causadas diretamente pela resistência antimicrobiana,
enquanto 130 mil tiveram associação com o problema.
Especialistas
explicam que a resistência ocorre quando microrganismos se adaptam e deixam de
responder aos medicamentos disponíveis. O uso inadequado de antibióticos — como
automedicação, abandono precoce do tratamento ou dosagens incorretas — acelera
esse processo. O descarte irregular de medicamentos e o uso de antimicrobianos
em animais e na agricultura também contribuem para o surgimento de cepas mais
resistentes.
Embora
o fenômeno seja global, países de baixa e média renda sofrem mais. A falta de
acesso a água potável e saneamento básico, aliada a sistemas de saúde
fragilizados, cria condições para a disseminação de infecções e dificulta o
controle da resistência.
O
impacto vai além das doenças infecciosas. Sem antibióticos eficazes, cirurgias,
partos cesarianos, quimioterapia e até transplantes se tornam mais arriscados.
Segundo especialistas, a resistência antimicrobiana ameaça conquistas
fundamentais da medicina moderna.
A
resposta exige uma ação coordenada. O Banco Mundial calcula que seriam
necessários cerca de US$ 9 bilhões por ano para enfrentar o problema em países
de baixa e média renda. O investimento deveria incluir pesquisa e
desenvolvimento de novos medicamentos, ampliação do acesso à saúde,
fortalecimento de programas de prevenção e controle de infecções, além de maior
regulação sobre o uso de antimicrobianos na agropecuária.
Se nada
for feito, até 2050 o número de mortes por infecções hospitalares pode
ultrapassar o total de óbitos por câncer e doenças cardiovasculares.
Para a
OMS e instituições internacionais, não há mais tempo a perder. A resistência
antimicrobiana já impacta milhões de vidas todos os anos e, sem medidas
urgentes, pode transformar infecções tratáveis em problemas de saúde de difícil
ou impossível controle.
No
Brasil, é fundamental integrar-se ao movimento global por meio de parcerias
público-privadas. A indústria farmacêutica nacional tem competência técnica e,
com o apoio de políticas públicas consistentes, pode desempenhar papel decisivo
na luta contra a resistência antimicrobiana.
Fonte:
CNN Brasil

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