Liberdade
como simulacro
Maximilien
de Robespierre (1758-1794) inicia o tour de force intelecto-militante pela
democracia com uma concepção integral da política, que enlaça eticamente os
governantes e os governados. “A virtude republicana é tão necessária no governo
quanto no povo de forma geral”. O ideal igualitário e ativista pelos “Direitos
do Homem e do Cidadão” fazem de Robespierre uma referência.
Para o
membro do Le Club Jacobins, fundado em Paris, em 1789: “O princípio fundamental
do governo democrático ou popular, a força moral que o sustém e move é a
virtude, a virtude pública que produziu tais milagres na Grécia e em Roma e
outros ainda mais incríveis na França republicana – o amor ao país e suas
leis”. A virtude pública orienta o programa de uma democracia radical.
Conforme
o líder revolucionário: “Uma vez que a essência da república ou democracia seja
a igualdade, o amor ao país necessariamente abraça o amor à igualdade”. É o que
permite afiançar que a soberania política é exercida pelo povo – os iguais.
“A
democracia perece por dois excessos, a aristocracia daqueles que governam ou o
desprezo das pessoas pelas autoridades que elas próprias estabeleceram,
desprezo no qual cada facção ou indivíduo almeja o poder público e reduz o
povo, por meio do caos resultante, à nulidade ou ao poder um único homem”. O
alerta segue válido. A arrogância leva à instabilidade e à queda.
Na
distopia nutrida pela extrema direita hoje, o “regime de exceção” não ousa
dizer seu nome e cria oxímoros para a democracia (autoritária, iliberal).
Adeptos da tortura pela polícia e empresários financiadores da derrubada do
Estado de direito dissimulam o pendor protofascista, com a arte de fazer de
contas.
Na era
da pós-verdade (post-truth) “tudo pode ser dito”. Voltar às raízes da
utilização de conceitos repetidos por diferentes partidos e ideologias
contribui para dissipar a confusão e a alienação.
Muitos
creem que o direito à palavra confere uma licenciosidade linguística para
trocar os fatos por narrativas. Mas nada deve ser vocalizado em desalinho com
uma atitude ética. A verdade é um valor em todas culturas. Coibir as
dissonâncias cognitivas e as desinformações é proteger, de seus inimigos, a
democracia.
Para
desconstruir as estratégias de dominação, há que devolver as liberdades
pessoais ao berço onde nasceram: o autoritarismo militar, o patriarcado, a
repressão da sexualidade, a censura da expressão, a opressão de raça e gênero,
a disciplina sobre tudo.
A
ênfase nas “liberdades individuais” supõe batalhas no reinado ainda de Luís XVI
para aplicar o robesperriano “despotismo da liberdade contra a tirania”… no
século XXI. O lema age feito o quero-quero, canta longe do ninho e, com a
roupagem da Idade Moderna temperada desde então, introduz a defesa fanática do
deus-mercado no léxico político atual. Si non è vero è ben trovato.
Não se
ilude multidões de pobres e remediados direcionando sua rebeldia a favor do
“direito de propriedade”. Para a maioria, o axioma liberista é uma casa na
periferia para descansar antes de retornar à exploração. Daí a função do
simulacro das liberdades individuais para forjar as aparências – o segredo de
Polichinelo.
A
ultradireita reitera hierarquias rígidas e desregulamentações; das trabalhistas
às ambientais passando pelas tributárias. O legado de sua administração
lesa-pátria é a ignorância, a incompetência, a desonestidade. A continência à
bandeira dos Estados Unidos repete o ultrajante beija-mão colonialista à
metrópole – de que o agronegócio é um herdeiro. A reindustrialização
sustentável afronta a visão unidimensional do servilismo atávico. Dureza.
A
atração da agenda conservadora está no triunfo do mandonismo sobre os que estão
no degrau inferior da “vida como ela é”, sem o contrapeso do processo
civilizatório. Na microfísica do poder, quem pode mais manda em quem pode
menos: patrão sobre funcionário, proprietário sobre diarista, cliente sobre
garçom…
Para o
icônico jacobino, só os republicanos possuem uma virtude pública capaz de
sacrificar os interesses particulares para contemplar os interesses gerais da
população. Quando se espalha o habitus da corrupção, o louvor à cidadania
murcha. Montesquieu conclui que o problema da República é que faltam
republicanos.
Se a
burguesia joga no lixo da história o absolutismo; não obstante, tolera castas
no aparelho estatal por conveniência. Os auxílios pecuniários disto e daquilo e
as boladas de dinheiro retroativas da magistratura são concessões para seduzir
os juízes ao estilo bon vivant através de uma identificação caricata com os
burgueses. A inveja incita o mimetismo e esconde o ridículo.
Assim,
o STF (Supremo Tribunal Federal) referenda as Terceirizações com o “copia-cola”
do argumento esgrimido pela FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo) para uma “modernização nas relações de trabalho”. Atravessa a avenida
olhando apenas um lado. Com a curiosidade do sinaleiro no conto, de Charles
Dickens, indagaria as centrais sindicais sobre a proposta de espoliação na
formalidade. “Ei, vocês aí embaixo!”
A
experiência francesa principia no combate à classe de nobres, responsabilizada
pelo sofrimento dos servos; e na sequência mira o monarca. A correlação de
forças equilibrada enseja as soluções bonapartistas. Parece ser o modelo
a-histórico das insurreições.
No
Brasil, a imprensa corporativa busca transferir escândalos da iniciativa
privada para o colo do presidente Lula da Silva. Estimula a crise de autoridade
das instituições (jornalismo de pânico) para respaldar comexpedientes pelo alto
os candidatos subservientes ao status quo, em 2026. A meta é fragmentar a
audiência em unidades atomizadas assombradas pela alteridade.
A
preferência dos “donos da opinião” é pelo rumor de botas à participação, a
especulação financeira à produção, as fakes news à verdade. Uma linha separa o
sociopata de ocasião das finanças e do moralismo, enquanto o lawfare obstrui a
razão e as big techs regam o ódio e o ressentimento para colher bilhões sem
impostos.
Há duas
maneiras de ser “democrata”. Uma, de conteúdo social, evoca a acepção
setecentista da Conspiration pour L’Égalité (1796), o movimento precursor do
anarquismo e do socialismo, dos partidários da igualdade em uma ordem
alternativa. Outra, sem compromisso social, aceita a desigualdade embutida na
riqueza com o binômio “democracia representativa” inventado por um dos pais
fundadores dos EUA, Alexander Hamilton – para conter a subversão igualitarista.
O desafio é encontrar a síntese e, enfim, resolver o insolúvel enigma da
quadratura do círculo.
A
próxima eleição espelha a luta de classes. Os “grandes” querem dominar; os
“pequenos” querem se emancipar. A esquerda marcha junto ao povo com a chama da
“participação & representação”, apesar da conjuntura mundial repleta de
genocídios covardes como na Faixa de Gaza, e violações dos direitos
internacionais como na Venezuela no estertor ruidoso do imperialismo. “Viver é
muito perigoso”, diz Riobaldo nalguma vereda. Alguém duvida?.
Fonte:
Por Luiz Marques, em A Terra é Redonda

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