A
geração de 1930 e a formação social do Brasil
A
chamada “geração de 1930” representou um marco decisivo na interpretação da
história e da formação social do Brasil. Inseridos em um contexto de intensos
debates sobre identidade nacional, modernização e construção do Estado,
intelectuais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr.
elaboraram interpretações inovadoras sobre a colonização portuguesa e seus
efeitos de longa duração na sociedade brasileira. Ainda que não constituíssem
um grupo homogêneo do ponto de vista teórico ou político, esses autores
compartilhavam a preocupação em compreender as bases históricas das
desigualdades, das formas de sociabilidade e das instituições que moldaram o
país.
Essa
geração destacou-se por romper com leituras lineares, evolucionistas e
eurocêntricas da história nacional, propondo análises que articulavam dimensões
culturais, políticas, sociais e econômicas da colonização. Nesse movimento,
Freyre privilegiou a análise das relações sociais e culturais, enfatizando a
miscigenação como elemento constitutivo da sociedade brasileira; Sérgio Buarque
de Holanda voltou-se para o legado ibérico, o personalismo e as dificuldades de
consolidação de instituições impessoais; enquanto Caio Prado Jr. ofereceu uma
interpretação materialista, centrada no sentido econômico da colonização e na
inserção dependente do Brasil no sistema mundial.
Diante
da densidade e da diversidade dessas interpretações, o presente trabalho foi
organizado em duas partes complementares. Nesta primeira parte, o foco recai
sobre as interpretações culturais e político-institucionais da colonização
brasileira, a partir das obras de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda,
buscando evidenciar tanto suas convergências quanto suas tensões analíticas. Na
segunda parte, será examinada a interpretação de Caio Prado Jr., que desloca o
centro da análise para as estruturas econômicas e para a lógica da colonização
como empreendimento voltado à exploração e à dependência externa.
Ao
proceder dessa forma, busca-se não apenas apresentar as principais teses desses
autores, mas também evidenciar como suas leituras, produzidas no interior da
geração de 1930, continuam fundamentais para compreender dilemas persistentes
da sociedade brasileira, como a relação entre público e privado, a fragilidade
institucional e as desigualdades sociais herdadas do período colonial.
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Gilberto Freyre: A miscigenação como base da sociedade brasileira.
Gilberto
Freyre (1900–1987) foi um sociólogo, antropólogo e historiador brasileiro,
amplamente reconhecido como um dos maiores intérpretes da sociedade brasileira.
Nascido em Recife, Pernambuco, Freyre estudou no Brasil e nos Estados Unidos,
onde foi fortemente influenciado pelo pensamento sociológico. Em 1933, em meio
ao governo de Getúlio Vargas, Freyre publicou a sua obra mais famosa,
“Casa-Grande & Senzala”, uma análise pioneira da formação da sociedade
brasileira, enfatizando a influência das relações entre senhores de engenho e
escravizados na construção cultural, social e racial do país.
“Casa-Grande
& Senzala” foi escrita em meio a uma forte tentativa de construção da
Identidade Nacional Brasileira, valorizando as várias etnias e culturas que
contribuíram para a formação do país, e assim, é um dos primeiros estudos que
definem o conceito de Democracia Racial, isto pois Freyre via a miscigenação
como algo positivo no sentido de encurtar distâncias sociais. Essa valorização,
se contextualizarmos com o momento em que a sua obra foi escrita, parte ao
encontro do projeto de nação proposto no século XX, com a tentativa de resolver
conflitos de classe, gênero e raça. Diz ele:
“A
escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e
vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações – as dos
brancos com as mulheres de cor – de superiores com inferiores, e no maior
número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas,
adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de
constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A
miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de
outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical;
entre a casa-grande e a senzala.” (FREYRE, 2006)
De
acordo com o autor, as relações sociais na História de nosso país, tendiam a
ser harmônicas, porém, foram abaladas pela indústria do açúcar e pela escassez
de mulheres brancas. Sobre isso ele diz:
“No
Brasil, as relações entre os brancos e as raças de cor foram desde a primeira
metade do século XVI condicionadas, de um lado pelo sistema de produção
econômica – a monocultura latifundiária; do outro, pela escassez de mulheres
brancas, entre os conquistadores. O açúcar não só abafou as indústrias
democráticas de pau-brasil e de peles, como esterilizou a terra, em uma grande
extensão em volta aos engenhos de cana, para os esforços de policultura e de
pecuárias. E exigiu uma enorme massa de escravos. A criação de gado, com
possibilidade de vida democrática, deslocou-se para os sertões.” (FREYRE, 2006)
Ao
estudar o contato entre as culturas europeia e ameríndia, Gilberto Freyre
afirma que diferente de espanhóis e ingleses, os portugueses tiveram contato
com uma cultura rasteira e inferior aos que as outras nações encontraram, sem
grandes templos, adoração a deuses e hierarquia, afirmando muitas vezes a
inferioridade cultural dos povos indígenas no Brasil. Diz:
“Considerando
neste ensaio o choque das duas culturas, a europeia e a ameríndia, do ponto de
vista da formação social da família brasileira – em que predominaria a moral
europeia e católica – não nos esqueçamos, entretanto, de atentar no que foi
para o indígena, e do ponto de vista de sua cultura, o contato com o europeu.
Contato dissolvente. Entre as populações nativas da América, dominadas pelo
colono ou pelo missionário, a degradação moral foi completa, como sempre
acontece ao juntar-se uma cultura, já adiantada, com outra atrasada.” (FREYRE,
2006)
O
escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro é o conteúdo de
Casa-Grande & Senzala que Gilberto Freyre deu mais ênfase, devido aos
séculos de comércio de pessoas escravizadas da África ao Brasil e pela grande
contribuição cultural que as várias culturas advindas do continente tiveram na
formação do país. Na defesa da miscigenação, diz Freyre:
“Quanto
à miscibilidade, nenhum povo colonizador, dos modernos, os excedeu ou sequer
igualou nesse ponto aos portugueses. Foi misturando-se gostosamente com
mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços
que uns milhares apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de
terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos na extensão de
domínio colonial e na eficácia de ação colonizadora.” (FREYRE, 2006)
Gilberto
Freyre rebate a tese de que a cultura dos africanos era inferior à das
sociedades indígenas, e vai além, defende que na verdade eram superiores até
mesmo do que os portugueses. Por isso, tece as suas críticas aos conceitos
adotados pelo Darwinismo Social e pela Eugenia, muito utilizadas em fins do
século XIX e início do século XX:
“Escrever
‘nem pelos artefatos, nem pela cultura dos vegetais, nem pela domesticação das
espécies zoológicas, nem pela constituição da família ou das tribos, nem pelos
conhecimentos astronômicos, nem pela criação da linguagem e das lendas, eram os
pretos superiores aos nossos silvícolas’, é produzir uma afirmativa que virada
pelo avesso é que dá certo. Por todos esses traços de culturas material e
concorrer melhor que os índios à formação econômica e social do Brasil, às
vezes melhor que os portugueses.
Pode-se
juntar, a essa superioridade técnica e de cultura dos negros, sua predisposição
como que biológica e psíquica para a vida nos trópicos. Sua maior fertilidade
nas regiões quentes. Seu gosto de sol. Sua energia sempre fresca e nova quando
em contato com a floresta tropical.” (FREYRE, 2006)
Apesar
de sua visão inovadora, Freyre foi criticado por romantizar as relações
coloniais, muitas vezes negligenciando a violência e a opressão que
caracterizaram o sistema escravocrata e a miscigenação. Ainda assim, sua
abordagem antropológica foi fundamental para reposicionar o papel das culturas
africana e indígena na construção da identidade nacional.
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Sérgio Buarque de Holanda: A colonização e o legado do Iberismo e personalismo.
Sérgio
Buarque de Holanda (1902-1982), foi um dos maiores sociólogos e historiadores
do Brasil, sendo professor de diversas universidades no Brasil, como a antiga
Universidade do Distrito Federal e também universidades internacionais, como a
universidade de Roma.
Em
1929, na Alemanha, Holanda conheceu a obra do sociólogo Max Weber, e através do
método denominado “Tipo Ideal” ou “Tipo Puro”, desenvolveu o seu principal
trabalho, “Raízes do Brasil” (1936), um marco nos estudos sobre a formação
social e cultural brasileira, cujo objetivo é entender a formação da identidade
brasileira a partir de suas raízes ibéricas, analisando como essas influências
moldaram a cultura, a política e a sociedade do Brasil contemporâneo.
Em
Raízes do Brasil, Sérgio Buarque introduziu o conceito do “homem cordial”,
caracterizando uma forma de comportamento social brasileira baseada em relações
pessoais e afetivas, em contraste com estruturas burocráticas e impessoais
típicas do mundo moderno. A cordialidade é entendida aqui como uma forma de
sociabilidade que abrange tanto a amizade quanto a inimizade, sendo uma
expressão das relações interpessoais que se baseiam em laços emocionais e
familiares. Segundo o autor:
“A vida
em sociedade, entre nós, nunca foi organizada em bases exclusivamente
impessoais, mas sempre temperada pela influência do sangue, do parentesco, da
amizade, das simpatias e antipatias espontâneas.” (HOLANDA, 1997)
Buarque
destaca que essa cordialidade é “estranha a todo formalismo e convencionalismo
social”, o que significa que as interações são mais informais e pessoais, mas
também podem ser ambivalentes, pois a inimizade pode ser tão cordial quanto a
amizade. Essa cordialidade é vista como uma herança ibérica que influencia a
cultura e a política do país. Nas palavras do autor:
“A
contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao
mundo o ‘homem cordial’. O termo não significa apenas um homem gentil, ordeiro
e pacífico; representa, antes, o predomínio, na nossa sociedade, dos valores da
esfera privada sobre os da esfera pública.” (HOLANDA, 1997)
Nesse
sentido, a cordialidade é vista como uma herança da cultura ibérica, que se
manifestou na sociedade brasileira desde a colonização. Essa característica é
associada a um estilo de vida que valoriza a espontaneidade e a intimidade nas
relações, mas que também pode levar a uma falta de organização e hierarquia,
refletindo as limitações do iberismo. Sobre isso diz:
“O
patrimonialismo, herança da tradição ibérica, fez com que os interesses
particulares dominassem o espaço público, criando dificuldades para a
construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.” (HOLANDA, 1997)
A
interpretação da cordialidade também revela uma ambiguidade, pois, embora seja
uma característica que pode facilitar relações sociais, ela também pode
contribuir para a superficialidade das interações e a manutenção de estruturas
de poder que não promovem a verdadeira democratização. Buarque sugere que essa
cordialidade, ao mesmo tempo que é uma qualidade do brasileiro, pode ser um
obstáculo para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. De
acordo com o autor:
“No
Brasil, as relações de compadrio e favoritismo foram transpostas para as
esferas administrativa e política, reforçando o caráter patrimonialista das
instituições e dificultando a separação entre o público e o privado.” (HOLANDA,
1997)
Holanda
argumenta que a colonização portuguesa, em especial, se distingue da
colonização de outras partes da América, como a América do Norte, por seu
caráter menos metódico e mais adaptativo. Para ele, enquanto a colonização
inglesa na América do Norte era marcada por uma forte disciplina e planejamento
institucional, a colonização portuguesa no Brasil era movida por uma tendência
ao improviso, à flexibilidade, e a uma grande capacidade de adaptação às
circunstâncias locais, mas sem criar instituições robustas. A respeito disso
diz:
“O
colonizador português, diferentemente de outros povos europeus, revelou uma
extraordinária capacidade de adaptação às condições do novo mundo, mas sem um
planejamento rígido ou o estabelecimento de instituições sólidas.” (HOLANDA,
1997)
E
acrescenta que:
“A
empresa colonizadora portuguesa, a despeito de seu dinamismo, não seguiu uma
orientação metódica e bem planejada, mas antes se valeu do improviso e da
adaptação às circunstâncias.” (HOLANDA, 1997)
Esse
“iberismo” — termo que usa para descrever a influência dos valores culturais da
Península Ibérica — se reflete, segundo Holanda, na maneira como a vida social
brasileira desenvolveu uma aversão às formalidades e à burocracia, em contraste
com sociedades que herdaram a tradição anglo-saxã de maior rigidez
institucional. Para o autor:
“A
cultura ibérica contribuiu para o estabelecimento de uma sociedade onde as
normas formais são frequentemente secundárias em relação às relações pessoais e
de parentesco.” (HOLANDA, 1997)
Essa
herança ibérica, na visão de Holanda, gerou uma sociedade brasileira onde as
fronteiras entre o público e o privado são confusas, levando ao fortalecimento
do personalismo e à dificuldade de institucionalização de normas estáveis e
eficazes. Ao contrário de uma sociedade onde o espaço público é respeitado e
protegido, a sociedade brasileira se organiza em torno de interesses
particulares e relações informais, o que dificulta o desenvolvimento de uma
ética cívica sólida. Sobre isso diz Holanda:
“O
patrimonialismo representa um obstáculo à criação de instituições impessoais e
universais, pois a gestão do público frequentemente se confunde com interesses
privados.” (HOLANDA, 1997)
E
complementa dizendo:
“Nosso
horror às normas e regulamentos tem origem na forma como nos acostumamos a
resolver os problemas cotidianos pelo recurso direto às pessoas, e não às
instituições.” (HOLANDA, 1997)
Assim,
o iberismo, embora tenha facilitado a colonização, também representa um
obstáculo à modernização do Brasil. Ele associa essa tradição ibérica a
características como o patrimonialismo, a cordialidade política e o familismo,
que dificultam a racionalização e a impessoalidade nas instituições, elementos
considerados essenciais para o desenvolvimento moderno. Diz ele o seguinte a
respeito disso:
“O
estilo de colonização português, com sua flexibilidade e ausência de rigidez
institucional, favoreceu a formação de uma sociedade avessa à disciplina
necessária para a modernidade.” (HOLANDA, 1997)
Em
síntese, a análise de Sérgio Buarque de Holanda sobre o legado do iberismo no
Brasil, apresentada em Raízes do Brasil, demonstra como os valores e práticas
culturais herdados da colonização portuguesa moldaram significativamente a
identidade e a organização social do país.
O
conceito de “homem cordial” encapsula a ambivalência dessa herança, enquanto
promove uma sociabilidade baseada em laços afetivos, também dificulta a
consolidação de instituições impessoais e democráticas. A informalidade e o
personalismo, frutos do iberismo, explicam não apenas a fragilidade das
estruturas públicas, mas também os desafios de construção de uma cidadania
plena e de uma ética cívica robusta no Brasil contemporâneo.
Assim,
as interpretações de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, embora
distintas em seus pressupostos teóricos e em seus objetos privilegiados,
dialogam de maneira profunda ao buscarem compreender os fundamentos históricos
da sociedade brasileira a partir da experiência colonial. Ambos reconhecem que
a colonização portuguesa deixou marcas duradouras nas formas de sociabilidade,
nas relações de poder e na organização da vida social, ainda que atribuam
sentidos diferentes a esse legado.
Freyre
enfatiza a dimensão cultural da colonização, destacando a miscigenação e as
relações domésticas como elementos centrais na formação da sociedade
brasileira. Sua análise valoriza a plasticidade cultural do colonizador
português e a incorporação de elementos africanos e indígenas, propondo uma
interpretação que ressalta continuidades, acomodações e formas específicas de
convivência social. No entanto, essa ênfase na harmonia relativa das relações
sociais acabou por gerar críticas, sobretudo pela tendência a atenuar a
violência estrutural da escravidão e das hierarquias raciais que marcaram o
período colonial.
Sérgio
Buarque de Holanda, por sua vez, desloca o foco da análise para o plano
político-institucional, examinando como o legado ibérico contribuiu para a
formação de uma sociabilidade marcada pelo personalismo, pelo patrimonialismo e
pela dificuldade de separação entre as esferas pública e privada. O conceito de
“homem cordial” sintetiza essa ambiguidade, pois ao mesmo tempo em que expressa
uma forma específica de sociabilidade baseada em vínculos afetivos, cria os
obstáculos à construção de instituições impessoais, burocráticas e
democráticas.
Nesse
sentido, enquanto Freyre tende a interpretar a colonização a partir de suas
possibilidades integradoras e culturais, Sérgio Buarque evidencia seus limites
estruturais para a consolidação da modernidade política no Brasil. A comparação
entre ambos demonstra não tão somente diferenças de abordagem, mas também a
riqueza analítica da geração de 1930, que, ao articular cultura, política e
história, ofereceu interpretações decisivas para compreender as bases da
sociedade brasileira.
Essa
leitura conjunta permite perceber que as heranças coloniais não se manifestam
apenas no plano econômico, mas também nas formas de sociabilidade e nas
instituições políticas. É justamente esse deslocamento do debate — da cultura e
da política para a economia — que será aprofundado na segunda parte deste
trabalho, por meio da análise da interpretação materialista de Caio Prado Jr.
sobre o sentido da colonização brasileira.
Fonte:
Por João Pedro Marques, em A Terra é Redonda

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