Empresa
líder do pregão para escavar rio Tapajós tem multas do Ibama por dragagem
A
empresa que apresentou a melhor oferta no pregão do governo federal para dragar
o rio Tapajós, no trecho entre Itaituba e Santarém, no oeste do Pará, acumula
três autos de infração ambiental do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente) por irregularidades em obras de dragagem. As multas somam R$ 1,9
milhão e ainda tramitam na esfera administrativa, segundo o sistema de consulta
pública do Ibama.
A
dragagem do rio é motivo de protestos de povos indígenas e comunidades
tradicionais da região do Tapajós, que já bloquearam a rodovia, o acesso ao
aeroporto e ocupam há 15 dias a entrada do terminal de cargas da Cargill, em
Santarém. Eles querem a anulação do decreto federal que incluiu o rio no plano
nacional de hidrovias.
Até o
momento, o projeto avança sem licenciamento ambiental e sem consulta prévia às
aldeias, como prevê a Convenção 169 da OIT, regra que exige a escuta de
comunidades antes de intervenções no território.
A DTA
Engenharia, empresa que apresentou a menor oferta no pregão do governo federal
para executar os serviços de dragagem, teve dois autos de infração ambiental
lavrados pelo Ibama em maio de 2018, em Paranaguá (PR), nos valores de R$ 21
mil e R$ 1,5 milhão. Um terceiro auto foi aplicado em abril de 2023, em São
Sebastião (SP), no valor de R$ 311 mil. Somadas, as penalidades chegam a R$ 1,9
milhão.
O tipo
de serviço descrito nas autuações ambientais é semelhante ao que está em
disputa no Tapajós: retirada de sedimentos do fundo de rios e adequações em
canais de navegação para permitir a passagem de embarcações maiores.
As
lideranças indígenas que protestam em Santarém afirmam que a dragagem vai
alterar a pesca, a navegação local e o modo de vida das comunidades. Esse
também é o entendimento do MPF (Ministério Público Federal), que ajuizou Ação
Civil Pública pedindo a suspensão da dragagem por ausência de Estudo de Impacto
Ambiental e por falta de consulta às populações potencialmente afetadas.
A
procuradoria argumenta que a retirada de sedimentos altera a dinâmica do rio,
interfere na pesca, na qualidade da água e no modo de vida das comunidades.
Após decisão desfavorável, o órgão apresentou agravo de instrumento ao Tribunal
Regional Federal da 1° Região, onde o caso ainda aguarda análise.
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Proposta de empresa é 17% abaixo do orçado pelo governo
A DTA
atua há mais de duas décadas em dragagem portuária e obras hidráulicas de
grande porte. Entre os projetos divulgados pela empresa está a ampliação
artificial da faixa de areia de Balneário Camboriú (SC), intervenção que foi
alvo de questionamentos de pesquisadores e ambientalistas sobre os impactos
costeiros.
A
empresa também foi habilitada para participar de projetos ligados ao Pedral do
Lourenção, no rio Tocantins, onde a retirada de rochas para facilitar a
navegação provoca resistência de comunidades locais, pescadores e cientistas.
Na
licitação aberta pelo Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de
Transportes) em dezembro para a dragagem do Tapajós, a DTA fez uma oferta de R$
61,8 milhões, R$ 13 milhões abaixo do orçamento previsto pelo governo, de R$
74,8 milhões.
Segundo
o edital, o critério de julgamento é exclusivamente o menor preço, sem
pontuação técnica. Ao todo, dez companhias apresentaram propostas. A DTA
aparece no sistema como aceita e habilitada, o que significa que ela está à
frente do certame até a conclusão da fase de recursos.
Seguem
abertos os prazos para análise de recursos e questionamentos ao edital. O Dnit
prevê anunciar a vencedora em 10 de fevereiro, quando se encerra esse período.
Questionado
pela Repórter Brasil, o DNIT não respondeu se o histórico de multas ambientais
da DTA será considerado na habilitação do pregão.
O órgão
afirmou que realiza medições periódicas do leito do Tapajós e identificou sete
pontos críticos para a navegação, que levaram à abertura de uma licitação
específica para o licenciamento ambiental da intervenção, além do pregão para
contratação da empresa responsável pela dragagem.
O Dnit
confirmou que a obra não prevê o EIA/Rima (Estudo de Impacto Ambiental e
Relatório de Impacto Ambiental). Segundo o órgão federal, a Semas (Secretaria
do meio Ambiente do Pará) exige apenas o RCA (Relatório de Controle Ambiental)
e o PCA (Plano de Controle Ambiental), que são estudos de diagnóstico e
mitigação de impactos. De acordo com o Dnit, a obra só poderá ocorrer após a
aprovação desses documentos pela Semas.
Já a
Semas informou que, até o momento, não há qualquer demanda protocolada ou em
análise para autorização de dragagem no Tapajós. Segundo a secretaria, nenhum
pedido formal foi apresentado pelo órgão federal.
Procurada,
a DTA afirmou que “não tem nada a declarar porque não venceu esse certame
licitatório, em fase de julgamento pelo Dnit”.
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Indígenas ocuparam porto da Cargill e bloquearam rodovia da soja
Enquanto
o pregão ocorre em Brasília, os protestos ganham força em Santarém. Desde 22 de
janeiro, indígenas de 14 povos do Baixo Tapajós mantêm um acampamento
permanente em frente ao terminal da Cargill — empresa dos EUA e uma das maiores
do agronegócio brasileiro que atua na exportação de soja e milho.
O
bloqueio se estendeu à BR-163, principal rota de escoamento dos grãos, e, nesta
quarta-feira (4), chegou também ao aeroporto da cidade. Passageiros precisaram
atravessar a pé a área bloqueada para conseguir embarcar.
A
mobilização é organizada pelo Cita (Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns). Eles
pedem a revogação do decreto que incluiu o Tapajós no plano federal de
hidrovias e a suspensão da dragagem até que seja realizada a consulta prévia,
livre e informada às comunidades.
O
protesto é a continuação de um embate que já vinha desde o ano passado. Durante
a COP30, em Belém, indígenas do povo Munduruku bloquearam por horas a entrada
principal da área do evento para cobrar uma reunião com o governo federal. A
pressão obrigou as autoridades a negociar.
No dia
seguinte ao protesto na COP30,
Alessandra Korap Munduruku, uma das principais lideranças indígenas do
Brasil, disse à Repórter Brasil que “falta vontade política de Lula” para ouvir
os povos do Tapajós. Segundo ela, decisões sobre o rio continuam sendo tomadas
sem consulta. “O Tapajós não é mercadoria, o Tapajós não pode se negociar, é
vida, somos nós”, disse Alessandra.
Nesta
quinta-feira (5), Alessandra reforçou que a dragagem não é uma obra isolada,
mas que integra um pacote logístico que envolve também a Ferrogrão. “Não é só a
dragagem. Querem passar a ferrovia, carregar toneladas de soja e transformar o
Tapajós em corredor de exportação”, disse à Repórter Brasil.
A
Ferrogrão é uma ferrovia planejada para ligar Sinop (MT), no centro da produção
de soja, ao distrito portuário de Miritituba, em Itaituba(PA), às margens do
Tapajós, num trajeto de 933 quilômetros. A proposta é transferir o transporte
de grãos dos caminhões da BR-163 para os trilhos e, depois, para as barcaças
que descem o rio até os portos do Arco Norte. O projeto voltou à agenda do
governo federal e é alvo de questionamentos judiciais sobre impactos ambientais
e falta de consulta a comunidades tradicionais.
No caso
da hidrovia, Alessandra afirma que o plano prevê aprofundar o leito do rio e
retirar formações rochosas conhecidas como pedrais para permitir a navegação de
barcaças maiores. Para as comunidades, essas intervenções alteram o ecossistema
aquático. “Vai mexer com os peixes, com os tracajás, com tudo o que vive no
rio”, afirmou.
Para a
liderança, a intervenção representa uma ruptura no modo de vida das aldeias. “A
dragagem é a maior violência que pode acontecer com o Tapajós. O que a gente
ganha com isso? Destruição”, disse.
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Comunidades temem liberação de mercúrio ao revirar leito do rio
Alessandra
também relaciona o projeto de dragagem do Tapajós ao risco de contaminação por
mercúrio. Segundo ela, os peixes já apresentam sinais de poluição causada pelo
garimpo ilegal de ouro, e revolver o fundo do Tapajós pode espalhar ainda mais
sedimentos contaminados. “Quem vai sentir primeiro somos nós, indígenas, mas
não é só a gente. A cidade também come esse peixe.”
Pesquisadores
que atuam no Tapajós também alertam para possíveis impactos à saúde. O médico
Eric Jennings, que trabalha há anos na Amazônia com saúde de populações
ribeirinhas e investiga contaminação por mercúrio em comunidades isoladas,
explica que mexer o fundo dos rios pode aumentar a exposição ao metal, presente
naturalmente nos sedimentos da região.
Em
condições estáveis, o mercúrio permanece em formas menos tóxicas. Quando o
leito é revolvido, esse material pode ser disponibilizado a bactérias que
transformam o mercúrio inorgânico em metilmercúrio, composto mais perigoso que
entra na cadeia alimentar, segundo afirmou Jennings em publicação em rede
social.
Ao ser
revolvido, o metal é absorvido por algas microscópicas, passa para peixes
pequenos, depois para peixes maiores e, por fim, chega ao prato das comunidades
ribeirinhas e indígenas, cuja alimentação depende do pescado.
Em
mulheres grávidas, segundo Jennings, o mercúrio atravessa a placenta e atinge o
sistema nervoso central dos fetos, causando prejuízos motores, cognitivos e
neurológicos, com maior risco para gestantes, bebês e crianças em fase de
desenvolvimento.
No
Tapajós, o problema não é novo. O garimpo ilegal usa mercúrio para separar o
ouro do sedimentos: o metal é misturado à lama retirada do rio, liga-se ao ouro
e depois é queimado ou descartado, deixando resíduos que retornam à água e se
acumulam no fundo.
Parte
desse material já contaminou peixes consumidos pelas aldeias. Em reportagem
anterior da Repórter Brasil, indígenas do povo Munduruku relataram tremores,
fraqueza, atrasos no desenvolvimento infantil e malformações associadas à
exposição ao mercúrio. A possibilidade de que a obra volte a revolver
sedimentos reacende o temor de ampliar uma contaminação que hoje já faz parte
da rotina de quem vive do rio.
Alessandra
relembra que, após o protesto durante a COP30, representantes do governo
federal prometeram abrir uma agenda direta com Lula. “O que vale é olho no
olho”, afirmou. Segundo ela, o encontro ainda não ocorreu: “Se ele (Lula) não
tem coragem de falar com a gente, que assine a revogação do decreto”. Cerca de
mil pessoas participam do acampamento em Santarém, e a mobilização seguirá
enquanto o decreto não for revogado, afirma.
Ainda
na COP, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL),
afirmou que o governo realizaria consulta às comunidades antes de qualquer
intervenção. Dois meses depois, a licitação continuou.
Fonte:
Repórter Brasil

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