Caso
Master: O Brasil terá maturidade para investigar suas elites sem repetir os
erros da Lava Jato?
A
liquidação do Banco Master abriu uma nova gaveta na caixa de Pandora da
relação, por vezes espúria, entre dinheiro e poder político no Brasil.
Quem
disser que tem clareza sobre como se deu a ascensão e a queda do banco Master —
e de seu principal expoente, o investidor e ex-CEO Daniel Vorcaro — em breve
será traído pela própria presunção. Muito ainda precisa ser esclarecido, e só
uma investigação aprofundada e multifacetada oferecerá um quadro minimamente
completo desses eventos e personagens.
O
caminho para essa investigação, porém, é cheio de armadilhas. Na história
recente, a finada Operação Lava Jato mostra como é fácil para instituições e
mídia trilharem desvios ou atalhos capazes de levar a economia e a política de
um país inteiro a uma espiral destrutiva.
Em
princípio, Master e Lava Jato parecem ter poucas semelhanças. Na Lava Jato, o
ex-juiz Sergio Moro, em conluio com procuradores da força-tarefa, subordinou
tribunais superiores e ditou a forma como a mídia e a sociedade discutiriam a
relação entre empreiteiras e partidos. No caso do banco Master, o Ministério
Público Federal tem atuação discreta e o juiz Dias Toffoli — já de antemão tido
por suspeito — controla a fervura em fogo baixíssimo.
Ademais,
a Lava Jato começou prendendo operadores da ponta — inicialmente doleiros,
depois dirigentes de uma estatal até escalar para o sistema político. Já o caso
Master começou logo pela prisão de um banqueiro. A diferença não é trivial.
Documentos e mensagens em posse de Vorcaro, ou mesmo uma eventual delação,
tendem a implicar imediatamente gente de maior estatura nos mais diversos
ambientes — o político, sim, mas também o financeiro-empresarial e até o
midiático.
Talvez
por isso mesmo alguns fantasmas da Lava Jato sigam à espreita.
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Os fantasmas
O
primeiro é o de que uma disfunção estrutural na relação entre dinheiro, estado
e política seja recortada seletivamente, resultando em vilões da vez — não
raramente escolhidos a partir de conveniências políticas e convergências de
interesses.
Na Lava
Jato, essa seletividade recaiu sobre a esquerda. E aqui há um registro factual,
e não uma afirmação política. Depoimentos de ex-diretores da Petrobras
mencionavam propinas desde os anos 1990, mas a força-tarefa considerou apenas
aquelas pagas a partir de 2003. Enquanto isso, mostrou a Vaza Jato, Sergio Moro
instruía seus procuradores a “não melindrarem” o ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso.
O
segundo fantasma é o da mistura entre delitos que de fato merecem denúncia e
punição com práticas que, embora imorais, não constituem crimes.
Na Lava
Jato, Moro e a força tarefa esticaram o conceito de “corrupção” para abarcar
condutas que seriam mais bem descritas como ilícitos eleitorais, improbidade
administrativa ou mesmo conflitos de interesse. O artifício ajudou a manter o
caso em Curitiba, mas sobre bases frágeis, apenas muito tempo depois
desmontadas pelo Supremo Tribunal Federal — não sem que o tribunal se tornasse
alvo de ataques sistemáticos dos lavajatistas.
Há, por
fim, um terceiro fantasma: fragilidades ou imperfeições institucionais
reveladas pelas investigações deixam de ser enfrentadas justamente porque se
demoniza o “sistema” como um todo.
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Soluções piores
Na Lava
Jato, veio à tona um problema estrutural antigo do sistema político brasileiro:
a necessidade permanente de financiamento eleitoral em um contexto
multipartidário altamente competitivo. Esse desenho institucional empurrava
partidos a encararem coalizões de governo de forma instrumental, privilegiando
a ocupação de espaços na máquina pública como meio de ampliar capacidade de
arrecadação — muitas vezes por vias ilícitas.
Ao
demonizarmos este sistema imperfeito como se fosse irrecuperável, saímos do
outro lado com soluções ainda piores: orçamento secreto, fundo partidário
bilionário e a inviabilização prática da formação de coalizões de governo.
Hoje,
poucos querem assumir o ônus de ocupar ministérios quando é possível controlar
recursos de emendas e fundos eleitorais à distância –– sem responsabilidade
pela formulação e implementação de políticas públicas e com reeleições
praticamente garantidas.
O tempo
dirá se conseguiremos evitar esses fantasmas e aproveitar o que, na Lava Jato,
acabou sendo uma oportunidade perdida.
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Caminhos possíveis
Por
ora, há dois caminhos. Podemos eleger bodes expiatórios enquanto negligenciamos
todo o resto; privilegiar condutas menores e imorais — mas não necessariamente
criminosas — e, assim, construir uma revolução jurídica sobre pés de barro; ou
demonizar instituições inteiras que ganharíamos mais em reformar.
Ou
podemos fazer o contrário –– compreender o caso na sua inteireza e para além do
binarismo entre mocinhos e bandidos; responsabilizar, na forma da lei, apenas
quem efetivamente cometeu crimes; e utilizar o escândalo como fonte de
aprendizado para reconstruir práticas e aperfeiçoar instituições.
Este
último caminho poderá nos levar a um lugar melhor. O outro provavelmente nos
fará entrar novamente naquela espiral destrutiva que, há menos de uma década,
conseguiu arruinar a economia, a política e as instituições.
A
imprensa não está alheia a essa encruzilhada. Cobrar que o Judiciário conduza o
caso de forma legal e legítima é correto; centrar o fogo exclusivamente na
Suprema Corte, enquanto se ignora a gestão temerária em bancos públicos e
governos, será repetir erros passados.
Investigar
como Vorcaro tentou construir uma rede de apoio por meio de contratos
milionários não está errado, mas não se pode fazer vista grossa para aparentes
falhas do regulador –– desde quando era gerido pelo “técnico” Campos Neto –– e
de outras instituições financeiras que, cientes da podridão dos ativos do
Master, continuaram a negociá-los. Afinal, há um motivo pelo qual a operação do
Master levava o nome de “Compliance Zero”.
E
convém manter sempre em mente que, contra tudo e todos, o Master foi liquidado
e Vorcaro chegou a ser preso. Nem tudo é um “mar de lama”. Há, na República,
instituições e pessoas suficientemente íntegras — por mais que reconhecê-los
não gere os cliques e a indignação a partir dos quais alguns jornalistas e
veículos ainda insistem em medir seu sucesso.
• PF mira Fictor por crimes financeiros
após ofensiva para comprar o Master
A
Polícia Federal abriu nesta quarta-feira (4) um inquérito para investigar o
Grupo Fictor por quatro crimes contra o sistema financeiro nacional: gestão
fraudulenta, apropriação indébita financeira, emissão de títulos sem lastro e
operação de instituição financeira sem autorização. A medida ocorre dias após o
conglomerado protocolar um pedido de recuperação judicial no Tribunal de
Justiça de São Paulo, declarando um passivo de R$ 4,2 bilhões.
O
avanço das autoridades sobre a Fictor confirma o alerta publicado pelo Jornal
GGN. Em reportagem do jornalista Luís Nassif, os negócios do grupo já haviam
sido apontados como “obscuros”, especialmente pela falta de transparência em
suas operações financeiras e pela estratégia agressiva de captação de recursos
junto a investidores. A análise antecipou que a pretensão da holding de
adquirir o Banco Master carecia de fundamentos sólidos, servindo apenas como
uma manobra para tentar estabilizar uma estrutura já fragilizada.
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A ‘cortina de fumaça’ e a Operação Compliance Zero
Para o
Banco Central e a Polícia Federal, o anúncio da compra do Master, feito em
novembro de 2025, na véspera da liquidação da instituição, não passou de uma
“cortina de fumaça”. A estratégia visava desviar o foco da crise de insolvência
do banco de Daniel Vorcaro e postergar ações regulatórias. Investigadores
apontam que a Fictor não possuía capacidade financeira para a transação e que
os supostos investidores árabes, citados pela empresa, jamais tiveram suas
identidades reveladas.
As
suspeitas ganharam tração após a deflagração da Operação Compliance Zero, que
apura um esquema bilionário de fraudes e desvio de recursos no mercado de
capitais. O inquérito busca agora comprovar se a Fictor utilizava sua estrutura
para mascarar prejuízos e operar fora das normas do sistema financeiro.
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Crise de liquidez e recuperação judicial
No
pedido enviado à 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais, a Fictor alega
que a liquidação do Master pelo BC afetou sua imagem e provocou uma corrida de
saques. A companhia afirma que a proteção judicial é necessária para evitar
“corridas individuais que pressionem ainda mais a liquidez e prejudiquem uma
solução coletiva e equânime”.
No dia
17 de novembro, véspera da liquidação do Master, Rafael Paixão, um dos sócios
da Fictor, ainda sustentava o otimismo da operação: “Esses aportes serão
definidos para mitigar o passivo do Master”.
“Com a
decretação da liquidação da instituição pelo Banco Central, um dia após o
anúncio da aquisição, a reputação do grupo foi atingida por especulações, que
geraram um grande volume de notícias negativas, atingindo duramente a liquidez
da Fictor Invest e da Fictor Holding”, diz nota da companhia.
A lista
de credores revela que a maior parte do rombo, cerca de R$ 4,1 bilhões,
pertence a credores quirografários (sem garantias reais), muitos deles
investidores atraídos pela promessa de participação em lucros de um
conglomerado que dizia atuar em setores diversos, como alimentos, energia e
imóveis.
Fonte:
Por Fábio de Sá e Silva, em The Intercept/Jornal GGN

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