Por
que vai ser difícil para Trump virar a página do escândalo dos arquivos de
Epstein
O
Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou, nos últimos dois
meses, milhões de documentos relacionados à
sua investigação sobre a rede de tráfico sexual de Jeffrey Epstein (1953-2019).
Agora,
o presidente Donald Trump quer que o país
vire a página. Mas será que ele irá conseguir?
O
vice-procurador-geral dos Estados Unidos, Todd Blanche, declarou concluída a
revisão governamental dos arquivos de Epstein, ordenada por uma lei aprovada pelo Congresso americano em novembro
passado. Por isso, segundo ele, não existem motivos para novas acusações.
"Existe
muita correspondência. Há muitos e-mails. Há muitas fotografias", afirmou
Blanche no domingo (1/2).
Mas
"isso não nos permite necessariamente processar ninguém", destacou
ele.
Mesmo
com o término da revisão pelo Departamento de Justiça, a Câmara dos
Representantes prossegue com sua própria investigação sobre Epstein.
O
ex-presidente americano Bill Clinton (1993-2001) e a ex-secretária de Estado
Hillary Clinton (2009-2013) devem testemunhar no final de fevereiro, depois das
ameaças, por parte dos republicanos, de serem declarados em desacato perante o
Congresso.
Paralelamente,
os congressistas americanos e as vítimas de Epstein continuam exigindo novas
revelações. Eles afirmam que há documentos que não foram incluídos nos arquivos
publicados.
Este é
mais um sinal de como se tornou difícil a situação para aqueles que, como o
presidente, desejam claramente virar esta página.
Até o
momento, Trump está saindo ileso da tempestade, sem indicações de prejuízos de
longo prazo.
Mas não
é o que acontece com outras figuras ricas e poderosas, que tiveram suas
conexões com Epstein detalhadas com maior proeminência nos arquivos — e que
continuaram mantendo contato com ele muito depois da sua condenação por crimes
sexuais, em 2008.
O
ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor; Peter Mandelson, ex-embaixador
britânico nos Estados Unidos; e o ex-secretário do Tesouro americano Larry
Summers são exemplos de pessoas que enfrentaram consequências pessoais e
profissionais devido aos seus vínculos com Epstein.
O
fundador da Microsoft, Bill Gates, e o multibilionário
da tecnologia Elon Musk, entre outros,
precisaram dar explicações sobre e-mails e menções dos seus nomes nos
documentos publicados.
Na Casa
Branca, Trump declarou na terça-feira (3/2) acreditar que "já está na hora
do país se ocupar de outra coisa".
"Não
saiu nada sobre mim", sentenciou Trump. Ele havia negado sistematicamente
ter cometido qualquer irregularidade em relação a Epstein.
Mas
isso não é totalmente correto. O nome do presidente aparece nos documentos mais
de 6 mil vezes. Epstein e seus associados o mencionavam com frequência.
Todos
os indícios sugerem que Trump e Epstein, ambos com residência em Nova York e
West Palm Beach, nos Estados Unidos, mantiveram relação amistosa durante grande
parte da década de 1990, até terem se distanciado, segundo Trump, no início dos
anos 2000.
Uma das
menções do nome de Trump, em um e-mail publicado em novembro, chamou
especificamente a atenção.
"Quero
que você saiba que esse cão que não latiu é Trump", escreveu Epstein no
seu e-mail, enviado em 2011 à sua cúmplice hoje condenada, Ghislaine
Maxwell.
"[A
vítima] passou horas com ele na minha casa, ele nunca mencionou isso", diz
o fragmento.
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Protegendo o presidente?
No
último lote de documentos, o Departamento de Justiça americano também publicou
uma lista de denúncias não verificadas pelo FBI. Algumas delas são de 2016,
quando Trump estava em plena campanha para seu primeiro mandato (2017-2021).
As
denúncias incluem diversas acusações de abuso sexual contra Trump, Epstein e
outras figuras de alto perfil.
Essas
denúncias, muitas delas sem provas que as respaldassem, desapareceram
temporariamente do website de documentos do Departamento de Justiça, no sábado
passado.
O
ocorrido só serviu para alimentar a suspeita entre alguns setores, de que o
órgão do governo estaria trabalhando para proteger o presidente.
"Alguns
dos documentos contêm acusações falsas e sensacionalistas contra o presidente
Trump, que foram apresentadas ao FBI pouco antes das eleições de 2020",
declarou o Departamento de Justiça sobre estes arquivos específicos.
O órgão
destacou que "as acusações são infundadas e falsas e, se tivessem alguma
credibilidade, sem dúvida já teriam sido utilizadas contra o presidente
Trump".
Foram
publicadas novas fotografias de Trump, mas nenhuma delas trouxe mais revelações
do que as imagens e vídeos que já são de domínio público. E o presidente,
conhecido por não usar e-mail, não tem nenhum registro documentado de
comunicação direta com Epstein.
Nenhuma
das informações novas contradiz substancialmente a afirmação do presidente de
que sua amizade com Epstein terminou perto de 2004.
O mais
similar a uma bomba política (uma nota obscena e sugestiva, que Trump teria
supostamente escrito para Epstein para inclusão em um livro de aniversário de
2002) foi publicada pelos administradores do espólio de Epstein, não pelo
governo. E Trump negou veementemente sua autenticidade.
Os
democratas defendem que a falta de provas incriminatórias contra Trump poderia
significar que o Departamento de Justiça teria retido documentos
comprometedores.
"Você
diz que todos os documentos foram publicados", escreveu em comunicado o
líder da minoria do Senado, Chuck Schumer.
"Isso
inclui todos os memorandos dos conspiradores, os memorandos de proteção
corporativa, os relatórios originais do Departamento de Polícia de Palm Beach
etc.? Foram publicados todos os documentos que mencionam a palavra
'Trump'?", questionou ele.
Uma das
vítimas de Epstein, Lisa Phillips, declarou à BBC que ela e outras
sobreviventes não ficaram satisfeitas com as ações do Departamento de Justiça
sobre o caso.
"O
Departamento violou todas as nossas três exigências", declarou ela.
"Primeiro,
muitos documentos ainda não foram publicados. Segundo, a data definida para a
publicação já passou há muito tempo. E, terceiro, o Departamento publicou os
nomes de muitas das sobreviventes, o que não está certo."
"Nosso
sentimento é que estão brincando conosco, mas não vamos deixar de lutar",
concluiu Phillips.
Mas a
raiva e a frustração entre os partidários de Trump, pela aparente reticência do
governo em publicar todos os arquivos de Epstein (talvez a mais forte ameaça à
posição política do presidente) parecem ter sido aplacadas com este novo lote
de documentos.
Alguns
críticos continuam condenando o presidente, como a ex-congressista republicana
Marjorie Taylor Greene. Mas grande parte da base de apoio do presidente parece
ter deixado para trás as notícias sobre Epstein.
Eles
dividem sua atenção entre os distúrbios em Minneapolis e a
investigação do FBI sobre as acusações de fraude nas eleições presidenciais de
2020 (vencidas por Joe Biden), entre outras notícias de destaque.
Isso
não significa que a história tenha terminado.
Os
democratas alegam obrigações legais e exigem o acesso a versões não editadas de
muitos dos documentos publicados. E o testemunho dos Clinton poderá gerar
sérias repercussões políticas.
Novas
revelações, independentes das ações do Departamento de Justiça, também poderão
reavivar o interesse público.
Mas
talvez o mais importante seja que os democratas no Congresso prometeram emitir
citações similares para que Trump e outros republicanos venham a testemunhar,
caso obtenham o controle da Câmara dos Representantes nas eleições de meio de
mandato, em novembro deste ano.
O
presidente pode insistir que está na hora da nação virar a página. Mas, anos
depois da morte de Epstein, esta saga demonstra que ainda tem vida própria.
¨
David Stern,
assessor de Andrew,era o "homem de confiança" de Jeffrey
Epstein no palácio
Jeffrey
Epstein queria que sua namorada bielorrussa de 26 anos, Karyna Shuliak, e a
amiga dela, Jen, se divertissem em Londres – e ele sabia exatamente a quem
pedir.
“Karyna,
minha namorada, e Jen, a moça alta que você conheceu, estarão em Londres na
terça e quarta-feira”, escreveu o financista desonrado de 63 anos,
aparentemente em abril de 2016, a um assessor do então Príncipe Andrew. “Elas
nunca estiveram lá antes. Se você estiver por perto, agradeceria qualquer ajuda
que pudesse dar a elas.”
O
destinatário do e-mail era David Stern, diretor da Pitch@Palace, empresa de
Andrew Mountbatten-Windsor, cujo escritório registrado ficava dentro do Palácio
de Buckingham. Stern, um cidadão alemão de 48 anos que acredita-se residir nos
Emirados Árabes Unidos, ficou muito feliz em ajudar.
Ele
aparentemente enviou um e-mail para Shuliak sugerindo que se encontrassem na
estação de metrô Green Park, no centro de Londres, e depois assistissem à troca
da guarda no palácio, a uma curta caminhada dali. Haveria ainda outra surpresa,
embora ele aparentemente não quisesse revelá-la explicitamente por e-mail.
“Vocês
dois DEVEM levar um documento de identidade com foto e o traje é formal, então
nada de jeans ou tênis etc. (eu sei que é chato, mas é muito rigoroso). Depois,
levarei vocês para almoçar.”
Epstein,
que já havia sido convidado ao palácio no passado, ficou satisfeito com o
itinerário: "Agradeço o que você planejou, obrigado."
Stern
aparentemente respondeu: "Com prazer. Estou sempre do seu lado!!"
Segundo
a última divulgação de milhões de documentos do Departamento de Justiça dos
EUA, ele cumpriu sua palavra ao financista e criminoso sexual condenado.
Stern
visitou Epstein em Nova York apenas alguns meses antes de sua prisão e suicídio em 2019 , e renunciou
ao cargo na empresa Pitch@Palace semanas depois de receber a notícia. Até o
fim, Stern foi, segundo os documentos, o homem de confiança de Epstein no
palácio – aparentemente buscando oportunidades de negócios, transmitindo
mensagens e dando instruções a Mountbatten-Windsor sob as ordens do financista.
Em
sua infame entrevista ao programa
Newsnight com Emily Maitlis , Mountbatten-Windsor afirmou que decidiu cortar
relações com Epstein em dezembro de 2010 e que viajou a Nova York para
comunicar isso pessoalmente a Epstein devido à sua "tendência a ser
honrado demais".
Os
e-mails divulgados em processos judiciais e os arquivos de Epstein já lançaram
sérias dúvidas sobre essas alegações, embora todos os esforços tenham sido
feitos na época para evitar que isso se tornasse público.
Após a
publicação de uma foto do príncipe com o braço em volta da então adolescente
Virginia Giuffre, em fevereiro de 2011, Mountbatten-Windsor enviou um e-mail
para Epstein. "Não se preocupe comigo!", escreveu ele. "Parece
que estamos juntos nessa e teremos que superar isso. De resto, mantenha contato
e nos encontraremos novamente em breve!"
Em
outubro daquele ano, Mountbatten-Windsor pareceu até disposta a ser vista com
Epstein, embora no exterior. "O Príncipe Andrew está fretando seu próprio
avião", escreveu Epstein a Stern. "Ele quer me levar com ele. Meu
nome estará nos registros de voo, etc. Acho mais seguro viajar separadamente.
Você concorda?"
Epstein
estava visivelmente ficando nervoso, percebendo que era sua ligação com a
família real que estava atraindo grande parte da atenção indesejada da mídia.
Ele havia ajudado a ex-esposa de Mountbatten-Windsor, Sarah Ferguson , com seus assuntos financeiros, mas
ela foi uma das primeiras pessoas de quem Epstein procurou se distanciar.
“Soube
pelo Duque que você teve um menino”, escreveu Ferguson em setembro de 2011.
“Embora vocês não tenham mantido contato, continuo aqui com amor, amizade e
parabéns pelo seu filho.”
Existia
há muito tempo uma relação de confiança entre Stern, o príncipe e Ferguson,
frequentemente referido como F em correspondências sobre assuntos delicados.
"A PA pediu-me para ver um sujeito que tem acesso ao petróleo da Nigéria
e, ao vendê-lo para a China (ou outra pessoa), F pode ganhar cerca de 6 milhões
de dólares", escreveu Stern a Epstein em setembro de 2010. "Isto
parece muito suspeito."
Em um
e-mail enviado naquele ano, Stern também havia cogitado a possibilidade de
criar um "pequeno escritório de investimentos altamente privado em
Londres, com uma filial em Pequim, para indivíduos de alto patrimônio líquido –
com foco em chineses, mas não exclusivamente, que funcione como um escritório
familiar ampliado".
Stern
prosseguiu dizendo que eles poderiam "incorporar [Mountbatten-Windsor]
discretamente e usar sua 'aura e influência', você decide sobre os
investimentos e eu gerencio as operações do dia a dia". Com relação a
outra ideia de investimento, Mountbatten-Windsor sugeriu que Stern poderia ser
"um fantasma para mim no lado positivo desta entidade".
Naquela
época, ele gozava de confiança e, em 2011, com Epstein receoso da pressão da
mídia devido à sua ligação com a família real, Stern parece ter se tornado o
principal interlocutor nas relações entre Epstein e o príncipe – geralmente
referido como PA nos e-mails.
“Novo
nome da empresa: Witan”, escreveu Stern sobre seu negócio no Reino Unido em um
e-mail para Epstein em fevereiro de 2011. “PA gostou e, como ele não sabia o
que era quando eu lhe contei, deve ser seguro”.
Stern
explicou que o Witan era o “conselho dos reis anglo-saxões na Inglaterra e da
Inglaterra: sua função essencial era aconselhar o rei sobre todos os assuntos
sobre os quais ele escolhesse pedir sua opinião”.
Em
setembro daquele ano, Stern pôde detalhar como esse papel aparentemente
clandestino ao lado de Mountbatten-Windsor estava se desenvolvendo durante uma
viagem com o príncipe à China e Kuala Lumpur. "A maioria das reuniões
agora é organizada por mim, exceto as com prefeitos e governadores, e nada em
Kuala Lumpur", gabou-se Stern para Epstein. "Eu fico nos
bastidores/escondido, apenas faço os arranjos."
Ele
mantinha Epstein a par de tudo, por mais trivial que fosse. A princesa Beatrice
tinha conseguido um emprego numa empresa chamada Signia Invest. "É aqui
que a filha da PA trabalha agora (não a bonitinha)", escreveu Stern em
junho de 2012.
O
aparente controle de Stern sobre o diário de Andrew e sua disposição em receber
instruções de Epstein em Nova York ficam evidentes nos e-mails. Em uma mensagem
para Epstein em junho de 2013, Stern escreveu: “Assistente pessoal no Vale do
Silício nos dias 25 e 26 de junho. Alguém que você queira que ele veja?”
“Sim,
Steve Sinofsky”, respondeu Epstein, colocando o ex-executivo da Microsoft em
cópia. Sinofsky respondeu: “Por favor, me avise como posso ajudar”.
A
caminho de uma viagem à China e ao Vietnã em novembro de 2015, Stern enviou
outro e-mail a Epstein, desta vez sobre Jes Staley, que acabara de ser nomeado
chefe do Barclays. "A caminho da Ásia com a PA", disse ele em outro
e-mail para Epstein. "Alguma notícia de Jes?"
Epstein
respondeu: "Peça à assessoria de imprensa para convidá-lo ao palácio,
etc."
“Estou
com o PA no Vietnã”, escreveu Stern. “Ele acabou de mandar uma mensagem para
Jes. Talvez você queira verificar.”
No mês
seguinte, Stern atualizou Epstein. "Jes disse à assistente pessoal para se
encontrarem em janeiro, quando ele estiver instalado", escreveu ele.
Alguns
meses depois, Epstein recebeu mais instruções. Ele tinha ouvido dizer que
Mountbatten-Windsor ia almoçar com o investidor de capital de risco Reid
Hoffman. Ele iria?, perguntou Epstein. Ele queria que ele estivesse lá.
“Você
deveria encontrar Reid e dizer a ele que faz parte do clube”, acrescentou
Epstein. Stern disse que já tinha um jantar marcado no Castelo de Windsor, mas
logo depois confirmou sua presença no almoço.
Em
fevereiro de 2016, Stern disse a Epstein que havia transmitido os cumprimentos
de aniversário do financista desonrado ao príncipe. "Achei que você
gostaria disso", acrescentou.
Stern
tinha muitas ideias sobre como a família real poderia ser usada a seu favor.
Ele enviou um e-mail para Epstein em outubro de 2016 sugerindo que comprassem o
Deutsche Bank e que a família real do Catar, sua maior acionista, poderia ser
"alinhada por meio da PA".
Epstein
respondeu: "Não". "Então o que compramos?", perguntou
Stern. "Dólares", foi a resposta.
Não
parece haver dúvidas de que funcionários do gabinete do príncipe em Londres
tinham conhecimento dos contatos contínuos.
Quando o jornal The Guardian noticiou, em
janeiro de 2015, que
Mountbatten-Windsor havia sido acusada de abuso sexual em um processo civil
contra Epstein, Stern enviou um e-mail a Epstein: "O escritório de
advocacia está perguntando se seus advogados podem avisá-lo com antecedência
para que eles estejam cientes/possam se preparar etc."
Stern
disse que transmitiria a indignação de Epstein com as declarações divulgadas
pelo palácio sobre a reportagem. "Antes que a PA me atacasse, teria sido
bom ter sido avisado com antecedência", escreveu Epstein. "Entendo
que ele tenha suas necessidades, mas ir além do necessário causou muitos
problemas deste lado do Atlântico."
Stern
concordou que descobriria quem havia emitido uma declaração
"estúpida".
A troca
de informações continuou quase até a prisão de Epstein. "Hoje em Tóquio
com PA", escreveu Stern para Epstein em fevereiro de 2018. Nessa mesma
viagem, Epstein foi informado por Stern de que estava com Mountbatten-Windsor
perto da ilha de Palau, no Pacífico, ao lado de um barco pertencente ao
programador e investidor Paul Allen.
A
resposta de Epstein foi curta e talvez indicativa de seu estado de espírito:
"Não estou bem. Tirar fotos?"
Andrew
Mountbatten-Windsor e David Stern foram contatados para comentar o assunto.
Fonte: BBC News Brasil/The Guardian

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