sábado, 7 de fevereiro de 2026

Por que vai ser difícil para Trump virar a página do escândalo dos arquivos de Epstein

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou, nos últimos dois meses, milhões de documentos relacionados à sua investigação sobre a rede de tráfico sexual de Jeffrey Epstein (1953-2019).

Agora, o presidente Donald Trump quer que o país vire a página. Mas será que ele irá conseguir?

O vice-procurador-geral dos Estados Unidos, Todd Blanche, declarou concluída a revisão governamental dos arquivos de Epstein, ordenada por uma lei aprovada pelo Congresso americano em novembro passado. Por isso, segundo ele, não existem motivos para novas acusações.

"Existe muita correspondência. Há muitos e-mails. Há muitas fotografias", afirmou Blanche no domingo (1/2).

Mas "isso não nos permite necessariamente processar ninguém", destacou ele.

Mesmo com o término da revisão pelo Departamento de Justiça, a Câmara dos Representantes prossegue com sua própria investigação sobre Epstein.

O ex-presidente americano Bill Clinton (1993-2001) e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton (2009-2013) devem testemunhar no final de fevereiro, depois das ameaças, por parte dos republicanos, de serem declarados em desacato perante o Congresso.

Paralelamente, os congressistas americanos e as vítimas de Epstein continuam exigindo novas revelações. Eles afirmam que há documentos que não foram incluídos nos arquivos publicados.

Este é mais um sinal de como se tornou difícil a situação para aqueles que, como o presidente, desejam claramente virar esta página.

Até o momento, Trump está saindo ileso da tempestade, sem indicações de prejuízos de longo prazo.

Mas não é o que acontece com outras figuras ricas e poderosas, que tiveram suas conexões com Epstein detalhadas com maior proeminência nos arquivos — e que continuaram mantendo contato com ele muito depois da sua condenação por crimes sexuais, em 2008.

O ex-príncipe Andrew Mountbatten-WindsorPeter Mandelson, ex-embaixador britânico nos Estados Unidos; e o ex-secretário do Tesouro americano Larry Summers são exemplos de pessoas que enfrentaram consequências pessoais e profissionais devido aos seus vínculos com Epstein.

O fundador da Microsoft, Bill Gates, e o multibilionário da tecnologia Elon Musk, entre outros, precisaram dar explicações sobre e-mails e menções dos seus nomes nos documentos publicados.

Na Casa Branca, Trump declarou na terça-feira (3/2) acreditar que "já está na hora do país se ocupar de outra coisa".

"Não saiu nada sobre mim", sentenciou Trump. Ele havia negado sistematicamente ter cometido qualquer irregularidade em relação a Epstein.

Mas isso não é totalmente correto. O nome do presidente aparece nos documentos mais de 6 mil vezes. Epstein e seus associados o mencionavam com frequência.

Todos os indícios sugerem que Trump e Epstein, ambos com residência em Nova York e West Palm Beach, nos Estados Unidos, mantiveram relação amistosa durante grande parte da década de 1990, até terem se distanciado, segundo Trump, no início dos anos 2000.

Uma das menções do nome de Trump, em um e-mail publicado em novembro, chamou especificamente a atenção.

"Quero que você saiba que esse cão que não latiu é Trump", escreveu Epstein no seu e-mail, enviado em 2011 à sua cúmplice hoje condenada, Ghislaine Maxwell.

"[A vítima] passou horas com ele na minha casa, ele nunca mencionou isso", diz o fragmento.

<><> Protegendo o presidente?

No último lote de documentos, o Departamento de Justiça americano também publicou uma lista de denúncias não verificadas pelo FBI. Algumas delas são de 2016, quando Trump estava em plena campanha para seu primeiro mandato (2017-2021).

As denúncias incluem diversas acusações de abuso sexual contra Trump, Epstein e outras figuras de alto perfil.

Essas denúncias, muitas delas sem provas que as respaldassem, desapareceram temporariamente do website de documentos do Departamento de Justiça, no sábado passado.

O ocorrido só serviu para alimentar a suspeita entre alguns setores, de que o órgão do governo estaria trabalhando para proteger o presidente.

"Alguns dos documentos contêm acusações falsas e sensacionalistas contra o presidente Trump, que foram apresentadas ao FBI pouco antes das eleições de 2020", declarou o Departamento de Justiça sobre estes arquivos específicos.

O órgão destacou que "as acusações são infundadas e falsas e, se tivessem alguma credibilidade, sem dúvida já teriam sido utilizadas contra o presidente Trump".

Foram publicadas novas fotografias de Trump, mas nenhuma delas trouxe mais revelações do que as imagens e vídeos que já são de domínio público. E o presidente, conhecido por não usar e-mail, não tem nenhum registro documentado de comunicação direta com Epstein.

Nenhuma das informações novas contradiz substancialmente a afirmação do presidente de que sua amizade com Epstein terminou perto de 2004.

O mais similar a uma bomba política (uma nota obscena e sugestiva, que Trump teria supostamente escrito para Epstein para inclusão em um livro de aniversário de 2002) foi publicada pelos administradores do espólio de Epstein, não pelo governo. E Trump negou veementemente sua autenticidade.

Os democratas defendem que a falta de provas incriminatórias contra Trump poderia significar que o Departamento de Justiça teria retido documentos comprometedores.

"Você diz que todos os documentos foram publicados", escreveu em comunicado o líder da minoria do Senado, Chuck Schumer.

"Isso inclui todos os memorandos dos conspiradores, os memorandos de proteção corporativa, os relatórios originais do Departamento de Polícia de Palm Beach etc.? Foram publicados todos os documentos que mencionam a palavra 'Trump'?", questionou ele.

Uma das vítimas de Epstein, Lisa Phillips, declarou à BBC que ela e outras sobreviventes não ficaram satisfeitas com as ações do Departamento de Justiça sobre o caso.

"O Departamento violou todas as nossas três exigências", declarou ela.

"Primeiro, muitos documentos ainda não foram publicados. Segundo, a data definida para a publicação já passou há muito tempo. E, terceiro, o Departamento publicou os nomes de muitas das sobreviventes, o que não está certo."

"Nosso sentimento é que estão brincando conosco, mas não vamos deixar de lutar", concluiu Phillips.

Mas a raiva e a frustração entre os partidários de Trump, pela aparente reticência do governo em publicar todos os arquivos de Epstein (talvez a mais forte ameaça à posição política do presidente) parecem ter sido aplacadas com este novo lote de documentos.

Alguns críticos continuam condenando o presidente, como a ex-congressista republicana Marjorie Taylor Greene. Mas grande parte da base de apoio do presidente parece ter deixado para trás as notícias sobre Epstein.

Eles dividem sua atenção entre os distúrbios em Minneapolis e a investigação do FBI sobre as acusações de fraude nas eleições presidenciais de 2020 (vencidas por Joe Biden), entre outras notícias de destaque.

Isso não significa que a história tenha terminado.

Os democratas alegam obrigações legais e exigem o acesso a versões não editadas de muitos dos documentos publicados. E o testemunho dos Clinton poderá gerar sérias repercussões políticas.

Novas revelações, independentes das ações do Departamento de Justiça, também poderão reavivar o interesse público.

Mas talvez o mais importante seja que os democratas no Congresso prometeram emitir citações similares para que Trump e outros republicanos venham a testemunhar, caso obtenham o controle da Câmara dos Representantes nas eleições de meio de mandato, em novembro deste ano.

O presidente pode insistir que está na hora da nação virar a página. Mas, anos depois da morte de Epstein, esta saga demonstra que ainda tem vida própria.

¨      David Stern,  assessor de Andrew,era o "homem de confiança" de Jeffrey Epstein no palácio

Jeffrey Epstein queria que sua namorada bielorrussa de 26 anos, Karyna Shuliak, e a amiga dela, Jen, se divertissem em Londres – e ele sabia exatamente a quem pedir.

“Karyna, minha namorada, e Jen, a moça alta que você conheceu, estarão em Londres na terça e quarta-feira”, escreveu o financista desonrado de 63 anos, aparentemente em abril de 2016, a um assessor do então Príncipe Andrew. “Elas nunca estiveram lá antes. Se você estiver por perto, agradeceria qualquer ajuda que pudesse dar a elas.”

O destinatário do e-mail era David Stern, diretor da Pitch@Palace, empresa de Andrew Mountbatten-Windsor, cujo escritório registrado ficava dentro do Palácio de Buckingham. Stern, um cidadão alemão de 48 anos que acredita-se residir nos Emirados Árabes Unidos, ficou muito feliz em ajudar.

Ele aparentemente enviou um e-mail para Shuliak sugerindo que se encontrassem na estação de metrô Green Park, no centro de Londres, e depois assistissem à troca da guarda no palácio, a uma curta caminhada dali. Haveria ainda outra surpresa, embora ele aparentemente não quisesse revelá-la explicitamente por e-mail.

“Vocês dois DEVEM levar um documento de identidade com foto e o traje é formal, então nada de jeans ou tênis etc. (eu sei que é chato, mas é muito rigoroso). Depois, levarei vocês para almoçar.”

Epstein, que já havia sido convidado ao palácio no passado, ficou satisfeito com o itinerário: "Agradeço o que você planejou, obrigado."

Stern aparentemente respondeu: "Com prazer. Estou sempre do seu lado!!"

Segundo a última divulgação de milhões de documentos do Departamento de Justiça dos EUA, ele cumpriu sua palavra ao financista e criminoso sexual condenado.

Stern visitou Epstein em Nova York apenas alguns meses antes de sua prisão e suicídio em 2019 , e renunciou ao cargo na empresa Pitch@Palace semanas depois de receber a notícia. Até o fim, Stern foi, segundo os documentos, o homem de confiança de Epstein no palácio – aparentemente buscando oportunidades de negócios, transmitindo mensagens e dando instruções a Mountbatten-Windsor sob as ordens do financista.

Em sua infame entrevista ao programa Newsnight com Emily Maitlis , Mountbatten-Windsor afirmou que decidiu cortar relações com Epstein em dezembro de 2010 e que viajou a Nova York para comunicar isso pessoalmente a Epstein devido à sua "tendência a ser honrado demais".

Os e-mails divulgados em processos judiciais e os arquivos de Epstein já lançaram sérias dúvidas sobre essas alegações, embora todos os esforços tenham sido feitos na época para evitar que isso se tornasse público.

Após a publicação de uma foto do príncipe com o braço em volta da então adolescente Virginia Giuffre, em fevereiro de 2011, Mountbatten-Windsor enviou um e-mail para Epstein. "Não se preocupe comigo!", escreveu ele. "Parece que estamos juntos nessa e teremos que superar isso. De resto, mantenha contato e nos encontraremos novamente em breve!"

Em outubro daquele ano, Mountbatten-Windsor pareceu até disposta a ser vista com Epstein, embora no exterior. "O Príncipe Andrew está fretando seu próprio avião", escreveu Epstein a Stern. "Ele quer me levar com ele. Meu nome estará nos registros de voo, etc. Acho mais seguro viajar separadamente. Você concorda?"

Epstein estava visivelmente ficando nervoso, percebendo que era sua ligação com a família real que estava atraindo grande parte da atenção indesejada da mídia. Ele havia ajudado a ex-esposa de Mountbatten-Windsor, Sarah Ferguson , com seus assuntos financeiros, mas ela foi uma das primeiras pessoas de quem Epstein procurou se distanciar.

“Soube pelo Duque que você teve um menino”, escreveu Ferguson em setembro de 2011. “Embora vocês não tenham mantido contato, continuo aqui com amor, amizade e parabéns pelo seu filho.”

Existia há muito tempo uma relação de confiança entre Stern, o príncipe e Ferguson, frequentemente referido como F em correspondências sobre assuntos delicados. "A PA pediu-me para ver um sujeito que tem acesso ao petróleo da Nigéria e, ao vendê-lo para a China (ou outra pessoa), F pode ganhar cerca de 6 milhões de dólares", escreveu Stern a Epstein em setembro de 2010. "Isto parece muito suspeito."

Em um e-mail enviado naquele ano, Stern também havia cogitado a possibilidade de criar um "pequeno escritório de investimentos altamente privado em Londres, com uma filial em Pequim, para indivíduos de alto patrimônio líquido – com foco em chineses, mas não exclusivamente, que funcione como um escritório familiar ampliado".

Stern prosseguiu dizendo que eles poderiam "incorporar [Mountbatten-Windsor] discretamente e usar sua 'aura e influência', você decide sobre os investimentos e eu gerencio as operações do dia a dia". Com relação a outra ideia de investimento, Mountbatten-Windsor sugeriu que Stern poderia ser "um fantasma para mim no lado positivo desta entidade".

Naquela época, ele gozava de confiança e, em 2011, com Epstein receoso da pressão da mídia devido à sua ligação com a família real, Stern parece ter se tornado o principal interlocutor nas relações entre Epstein e o príncipe – geralmente referido como PA nos e-mails.

“Novo nome da empresa: Witan”, escreveu Stern sobre seu negócio no Reino Unido em um e-mail para Epstein em fevereiro de 2011. “PA gostou e, como ele não sabia o que era quando eu lhe contei, deve ser seguro”.

Stern explicou que o Witan era o “conselho dos reis anglo-saxões na Inglaterra e da Inglaterra: sua função essencial era aconselhar o rei sobre todos os assuntos sobre os quais ele escolhesse pedir sua opinião”.

Em setembro daquele ano, Stern pôde detalhar como esse papel aparentemente clandestino ao lado de Mountbatten-Windsor estava se desenvolvendo durante uma viagem com o príncipe à China e Kuala Lumpur. "A maioria das reuniões agora é organizada por mim, exceto as com prefeitos e governadores, e nada em Kuala Lumpur", gabou-se Stern para Epstein. "Eu fico nos bastidores/escondido, apenas faço os arranjos."

Ele mantinha Epstein a par de tudo, por mais trivial que fosse. A princesa Beatrice tinha conseguido um emprego numa empresa chamada Signia Invest. "É aqui que a filha da PA trabalha agora (não a bonitinha)", escreveu Stern em junho de 2012.

O aparente controle de Stern sobre o diário de Andrew e sua disposição em receber instruções de Epstein em Nova York ficam evidentes nos e-mails. Em uma mensagem para Epstein em junho de 2013, Stern escreveu: “Assistente pessoal no Vale do Silício nos dias 25 e 26 de junho. Alguém que você queira que ele veja?”

“Sim, Steve Sinofsky”, respondeu Epstein, colocando o ex-executivo da Microsoft em cópia. Sinofsky respondeu: “Por favor, me avise como posso ajudar”.

A caminho de uma viagem à China e ao Vietnã em novembro de 2015, Stern enviou outro e-mail a Epstein, desta vez sobre Jes Staley, que acabara de ser nomeado chefe do Barclays. "A caminho da Ásia com a PA", disse ele em outro e-mail para Epstein. "Alguma notícia de Jes?"

Epstein respondeu: "Peça à assessoria de imprensa para convidá-lo ao palácio, etc."

“Estou com o PA no Vietnã”, escreveu Stern. “Ele acabou de mandar uma mensagem para Jes. Talvez você queira verificar.”

No mês seguinte, Stern atualizou Epstein. "Jes disse à assistente pessoal para se encontrarem em janeiro, quando ele estiver instalado", escreveu ele.

Alguns meses depois, Epstein recebeu mais instruções. Ele tinha ouvido dizer que Mountbatten-Windsor ia almoçar com o investidor de capital de risco Reid Hoffman. Ele iria?, perguntou Epstein. Ele queria que ele estivesse lá.

“Você deveria encontrar Reid e dizer a ele que faz parte do clube”, acrescentou Epstein. Stern disse que já tinha um jantar marcado no Castelo de Windsor, mas logo depois confirmou sua presença no almoço.

Em fevereiro de 2016, Stern disse a Epstein que havia transmitido os cumprimentos de aniversário do financista desonrado ao príncipe. "Achei que você gostaria disso", acrescentou.

Stern tinha muitas ideias sobre como a família real poderia ser usada a seu favor. Ele enviou um e-mail para Epstein em outubro de 2016 sugerindo que comprassem o Deutsche Bank e que a família real do Catar, sua maior acionista, poderia ser "alinhada por meio da PA".

Epstein respondeu: "Não". "Então o que compramos?", perguntou Stern. "Dólares", foi a resposta.

Não parece haver dúvidas de que funcionários do gabinete do príncipe em Londres tinham conhecimento dos contatos contínuos.

Quando o jornal The Guardian noticiou, em janeiro de 2015, que Mountbatten-Windsor havia sido acusada de abuso sexual em um processo civil contra Epstein, Stern enviou um e-mail a Epstein: "O escritório de advocacia está perguntando se seus advogados podem avisá-lo com antecedência para que eles estejam cientes/possam se preparar etc."

Stern disse que transmitiria a indignação de Epstein com as declarações divulgadas pelo palácio sobre a reportagem. "Antes que a PA me atacasse, teria sido bom ter sido avisado com antecedência", escreveu Epstein. "Entendo que ele tenha suas necessidades, mas ir além do necessário causou muitos problemas deste lado do Atlântico."

Stern concordou que descobriria quem havia emitido uma declaração "estúpida".

A troca de informações continuou quase até a prisão de Epstein. "Hoje em Tóquio com PA", escreveu Stern para Epstein em fevereiro de 2018. Nessa mesma viagem, Epstein foi informado por Stern de que estava com Mountbatten-Windsor perto da ilha de Palau, no Pacífico, ao lado de um barco pertencente ao programador e investidor Paul Allen.

A resposta de Epstein foi curta e talvez indicativa de seu estado de espírito: "Não estou bem. Tirar fotos?"

Andrew Mountbatten-Windsor e David Stern foram contatados para comentar o assunto.

 

Fonte: BBC News Brasil/The Guardian

 

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