A
América Latina é o principal alvo da política belicista de Trump
O ataque
dos EUA à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro fazem parte de um plano
declarado do governo Trump no sentido de uma retomada imperialista no
hemisfério ocidental. Donald Trump e seus aliados já ameaçaram novas agressões
militares contra países como Cuba e Colômbia. Quão seriamente devemos levar
essas ameaças e quais são as perspectivas de resistência à nova estratégia de
Washington na América Latina?
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Antes do ataque dos EUA à Venezuela, ocorreram diversos
acontecimentos que pareciam favoráveis ao tipo de política
que Donald Trump e outros desejavam promover na região:
a saída da esquerda do poder na Bolívia
após mais de duas décadas;
a vitória de um defensor da extrema-direita de
Pinochet na eleição presidencial do Chile; e as vitórias
eleitorais da direita na Argentina e em Honduras após
a intervenção direta e autoritária
do próprio Trump, que disse às
pessoas em quem votar. Você diria que esses acontecimentos criaram uma sensação
de impulso ou confiança que encorajou a equipe de Trump a agir da maneira como
agiu?
TONY
WOOD - Alguns desses acontecimentos foram impulsionados por suas próprias
dinâmicas internas, como no caso da Bolívia. O colapso da longa hegemonia do
movimento de massas liderado inicialmente por Evo Morales e posteriormente por
Luis Arce teve muitos fatores internos, enquanto a intervenção retórica
autoritária do governo Trump na Argentina e em Honduras foi mais direta. Penso
que temos de fazer uma distinção entre mudanças a longo prazo que estão em
curso agora na América Latina — em parte devido a uma pressão contra o governo
em exercício, seja ele qual for, e que por acaso é a esquerda na Bolívia — e
desenvolvimentos que fazem parte de uma onda crescente de sucesso da direita. O
caso da Argentina é um bom exemplo para analisarmos. A eleição de Javier Milei
resultou do declínio gradual da vertente de centro-esquerda do peronismo e da
ascensão de uma direita libertária e neoliberal radical. Isso aconteceu em
2023, mas então Trump chegou ao poder e, com um regime de ideologia semelhante
que desejava fortalecer, exerceu pressão, o que se mostrou eficaz. Há um
elemento de oportunismo aqui, e não uma relação causal direta. Em certa medida,
o governo Trump não precisava de incentivo para agir. Provavelmente teria feito
algo semelhante com a Venezuela mesmo sem esses fatos recentes, pois o Estado
venezuelano já estava em sua mira há muito tempo. Isso também se aplica ao governo
Biden, no período entre os dois mandatos de Trump. Todos eles mantiveram as
sanções contra a Venezuela, com estratégias de pressão destinadas a coagir o
governo de Maduro e levá-lo à ruína. Trump, é claro, tentou uma operação de
mudança de regime durante seu primeiro mandato, em 2019, que não teve sucesso.
·
Apesar desses avanços da direita em diversos países,
ainda existem vários governos de esquerda na América Latina, do Brasil ao
México, Colômbia e Chile, onde, apesar da recente vitória da direita, Gabriel
Boric ainda é o presidente em exercício. Quais eram as relações desses governos
de esquerda com Maduro e o PSUV [Partido Socialista Unido da Venezuela] na
Venezuela às vésperas do ataque dos EUA? Como reagiram ao ataque quando ele
ocorreu?
TW - A
Onda Rosa original, que se estendeu dos anos 2000 aos 2010, e a onda mais
recente de governos de esquerda a partir de 2018, por vezes referida como Onda
Rosa 2.0, foram ambas bastante heterogêneas em suas orientações externas e em
suas relações diplomáticas. Não houve, de fato, uma frente unida no que diz
respeito à Venezuela em particular. Boric foi muito mais crítico do governo
Maduro e também tem sido crítico de Cuba. Ele insiste muito mais na necessidade
de credenciais democráticas no sentido de processos eleitorais formais e tem
sido bastante claro ao diferenciar sua versão da esquerda da versão
chavista/bolivariana. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva tem
sido menos categórico, mas também não tem demonstrado apoio categórico a
Maduro. O governo mexicano é bastante semelhante. Embora não tenha tido
relações particularmente cordiais com Maduro, a relação não se transformou em
hostilidade, como aconteceu com muitos governos de direita na região. Parte do
problema é que Maduro se tornou uma figura tóxica, e nenhum governo
progressista na América Latina obtinha benefícios significativos ao se
relacionar com ele. Além disso, se o seu país não tinha laços econômicos
específicos com a Venezuela, manter-se firme em relação ao país também não trazia
nenhuma vantagem para esses governos. Obviamente, existe a questão da
solidariedade com Cuba, mas muitos desses países mantêm essa relação
diplomaticamente, sem necessariamente oferecer assistência prática. A grande
exceção é o México, que, na verdade, fornece mais petróleo a Cuba atualmente do
que a Venezuela. Até a deposição de Maduro, a maioria desses governos não era
particularmente próxima ou cordial com ele, embora certamente se opusessem à
intervenção e à pressão dos EUA sobre a Venezuela, considerando-as uma violação
da soberania venezuelana. Mantinham essa linha diplomática, mas não iam muito
além disso. Acho que isso encorajou o governo Trump. Ele acreditava que ninguém
sairia correndo em defesa da Venezuela — certamente não militarmente, mas mesmo
diplomaticamente, a resposta provavelmente seria morna, porque nenhum desses
outros governos simpatizou particularmente com Maduro. Se tivessem tentado algo
semelhante contra [Hugo] Chávez — e no passado, obviamente, tentaram — a
resposta teria sido muito mais unida e muito mais firme. Na sequência do ataque, o México e o Brasil o
condenaram, assim como Boric. Na Colômbia, [Gustavo] Petro certamente o
condenou em termos inequívocos. Houve muitos ataques retóricos a esse exercício
de poder dos EUA, classificando-o como uma violação ilegítima da soberania
venezuelana. Essa posição é bastante consistente, mas eu diria também que se
trata de uma posição de princípio tomada a posteriori, e não de uma posição
fruto de conexões práticas próximas com o atual governo venezuelano.
·
Isso levanta a questão de quão abrangentes serão as
mudanças na própria Venezuela. Se for simplesmente uma questão de remover uma
pessoa da chefia do Estado, isso não significa necessariamente que a Venezuela
romperá relações com Cuba. Mas Trump tem feito várias declarações dizendo que,
sob o governo de Delcy Rodríguez, os venezuelanos serão muito mais submissos do
que eram sob o governo de Maduro. Quais seriam, em sua opinião, as implicações
dessa nova situação para Cuba? Qual a gravidade da crise que o sistema cubano
enfrenta atualmente?
TW - Cuba
representa uma situação muito diferente para os EUA em vários aspectos.
Certamente, Cuba está em uma situação muito ruim em termos humanitários: há o
impacto a longo prazo das sanções, combinado com o aumento dessas sanções
durante o primeiro mandato de Trump, que o governo Biden não fez nada para
suspender, e a sensação de que o cerco está sendo cada vez mais apertado. Além
disso, há a degradação a longo prazo da infraestrutura econômica do país:
coisas como o fornecimento de eletricidade estão em péssimo estado. Também
houve um êxodo muito grande de Cuba, muito maior do que as ondas migratórias
anteriores, como os êxodos de barcos da década de 1980. O que aconteceu nos
últimos anos é de uma escala completamente diferente. Essa perda de recursos
humanos, com pessoas deixando a ilha por diversos motivos, cobrou seu preço. Eu
diria que Cuba está em uma situação muito ruim. Poder-se-ia pensar que a
estratégia de Marco Rubio seria cortar todos os apoios restantes e forçar o
regime à ruína. Inicialmente, presumi que esse fosse o objetivo, certamente de
Rubio e da política externa estadunidense em geral. Mas, pelo que tenho visto
recentemente, os EUA vão, na verdade, permitir que as remessas de petróleo do
México continuem — cerca de 40% do petróleo de Cuba vem do México atualmente. Isso
se baseia na premissa de que o objetivo não é provocar o colapso total do
governo cubano, mas sim aumentar a pressão e torná-lo mais maleável. Não sei se
isso funcionará em Cuba na mesma medida. O governo é uma entidade muito mais
consolidada e muito menos centrada em uma única personalidade do que no caso da
Venezuela e de Maduro. O exército é muito mais sólido e unificado. Certamente
não acredito que eles vão invadir o país e realizar uma ocupação ou mudança de
regime num futuro próximo. Questiono até mesmo se eles tentarão uma operação do
tipo venezuelano, onde se decapita o regime e se faz os remanescentes
obedecerem às suas ordens. Em certa medida, este é um momento muito ruim e
ameaçador para Cuba. Mas, embora pareça estranho dizer isso após a violação da
soberania venezuelana pelos EUA, esta foi, na verdade, do ponto de vista
estadunidense, a opção que exigia o mínimo esforço para garantir um bom
resultado. Levou algumas horas, e agora eles têm um regime maleável na Venezuela
sem precisar enviar tropas terrestres. A visão deles sobre Cuba será: “Podemos
fazer o mesmo?” E se não funcionar, quais são as outras opções? Como eles vão
intensificar o conflito? Não tenho certeza se estão dispostos a escalar com
Cuba tanto quanto fizeram com a Venezuela. É possível que essa seja uma
estratégia de negociação trumpiana de usar a ameaça massiva e esperar que eles
cedam e concordem em realizar eleições que o indicado por Rubio vencerá.
Aqui
está outro ponto que vale a pena mencionar. Na Venezuela, havia uma oposição
financiada pelos EUA por mais de duas décadas. Eles cultivaram figuras de
liderança, uma das quais recebeu o Prêmio Nobel, para grande irritação de
Trump. Havia uma oposição pronta para ser colocada no poder, caso se quisesse
realizar uma operação de mudança de regime nos moldes antigos da política
externa estadunidense. Mas mesmo nesse cenário, os EUA não o fizeram. Em Cuba,
eles não têm essa infraestrutura pronta. Apesar do que o lobby cubano de
direita nos EUA vem dizendo há seis décadas, não existe uma alternativa pronta
para o que há atualmente em Cuba. Por mais brutal e irracional que seja o
governo Trump, acredito que ele fará uma avaliação da situação e não desejará criar
um atoleiro como o do Iraque apenas para agradar Rubio. Obviamente, Rubio
pressionará por alguma forma de mudança de regime, mas também acho que ele
ficará feliz em esperar e simplesmente aumentar a pressão sobre Cuba nos moldes
atuais até que uma oportunidade se apresente. Isso pode demorar um pouco.
·
O outro país da região que foi explicitamente ameaçado
com o uso da força por Trump é a Colômbia. Quão perigoso você diria que é o
momento atual para a Colômbia e, em particular, para o governo de Gustavo
Petro? A esquerda colombiana tem alguma vantagem que Maduro e o PSUV não tinham
em um possível confronto com Trump? Por um lado, Petro não alcançou o mesmo
patamar de Hugo Chávez durante sua primeira década no poder em termos de
sucesso eleitoral e conquistas concretas que pudesse apresentar. Por outro
lado, faz relativamente pouco tempo desde que Petro foi eleito pela primeira
vez, e seu governo não transmite a sensação de ter estado no poder por muito
tempo e de ter enfrentado uma grave crise econômica. Isso os deixaria em uma
posição mais forte caso o confronto com Trump se intensifique?
TW - É
interessante refletir sobre os motivos que levaram Trump a fazer essas ameaças
militares tão explícitas contra a Colômbia, se isso foi uma continuação da
estratégia adotada contra a Venezuela ou apenas um recurso retórico para
indicar a existência da ameaça. Vale lembrar que a Colômbia terá eleições
parlamentares em março e eleições presidenciais em maio, nas quais Iván Cepeda,
aliado de Petro, é candidato. Uma perspectiva seria a de que a eleição oferece
aos EUA a oportunidade de garantir um regime mais maleável na Colômbia sem o
uso da força militar. Há um candidato de direita do tipo [Javier] Milei,
Abelardo de la Espriella, que tem boas chances de se sair bem no primeiro turno
e que poderia potencialmente vencer um segundo turno contra Cepeda. De la Espriella
foi o consultor jurídico dos paramilitares de direita e representa uma
combinação da política de Milei com a política paramilitar de extrema-direita
colombiana. Ele seria o presidente ideal para a Colômbia, segundo o governo
Trump, e há boas chances de que ele vença sem interferência direta dos EUA. Há
várias coisas que os EUA poderiam fazer (e provavelmente tentarão) nos próximos
meses como estratégia de desestabilização. Posso muito bem imaginar os EUA
fomentando formas de violência para criar um clima de insegurança que favoreça
a direita. Nesse sentido, não considero provável uma intervenção militar dos
EUA na Colômbia a curto prazo, devido às eleições que se aproximam. Vejo, sim,
interferência dos EUA tanto na forma de discursos quanto em operações secretas.
Isso é bastante possível nos próximos meses, com o objetivo de eleger a figura
presidencial desejada. A Colômbia é uma peça importante do quebra-cabeça para
os EUA. Em termos de estratégia, eles mantêm uma relação militar há décadas, e
ter um canal confiável de direita na Colômbia sempre foi um pilar político
fundamental para os EUA. A capacidade de garantir esse resultado por meios
eleitorais seria uma verdadeira vantagem para o governo Trump, que não acredito
que valha a pena colocar em risco com uma intervenção militar. Além disso,
intervenções militares diretas dos EUA na América Latina poderiam facilmente
ter o efeito contrário e angariar apoio em torno daqueles que defendem a
soberania do país. Posso imaginar um cenário em que, quanto mais os EUA
ameaçarem a Colômbia nos próximos meses, melhor para a esquerda, pois ela
estará defendendo, pelo menos retoricamente, a soberania colombiana, enquanto a
direita, implorando por intervenção dos EUA, será vista como traidora do país.
Em
relação à questão de se a esquerda na Colômbia possui recursos que a Venezuela
e o PSUV não tinham, sim, é verdade que Petro não está no poder há tanto tempo,
relativamente falando. Ele não teve tempo suficiente para consolidar uma base
de apoio — na verdade, não teve tempo suficiente para que nenhuma das ações
positivas de seu governo criasse raízes. Petro tem dado muita ênfase à sua
estratégia de paz total, mas esta não tem tido o sucesso esperado. Houve também
um aumento recente da violência por parte de grupos guerrilheiros e
paramilitares. Isso não significa que o governo Petro tenha fracassado. Muitas
das suas ações foram bem-sucedidas, mas talvez não sejam suficientes para
consolidar uma base de apoio à esquerda e repelir o desafio eleitoral da direita.
·
Obviamente, é imprudente generalizar sobre o estado da
opinião pública na América Latina, porque é uma região enorme e muito diversa,
sem um senso necessário de identidade comum (como evidenciado pela grande
hostilidade contra imigrantes venezuelanos em países como o Chile, inclusive ou
principalmente por parte da direita). Mas é claro que também existem pontos em
comum, notadamente o fato de que todos eles precisam olhar para os Estados
Unidos e considerar o impacto que isso pode ter em suas sociedades. Qual tem sido a
reação da opinião pública às diversas manobras do governo Trump? Houve
mobilizações significativas por parte dos movimentos sociais atuantes na
região?
TW - Parte
da diferenciação diz respeito ao grau de dependência econômica de cada país em
relação aos EUA. Quando observamos a América Central, vemos que são países
menores, muito mais dependentes de remessas e do comércio com os EUA, o que os
torna vulneráveis a todos os tipos de
pressão política por uma série
de razões. O Brasil é um país
de escala totalmente diferente, com uma gama diversificada de parceiros
comerciais. As ameaças de tarifas da administração Trump se mostraram
contraproducentes, pois o Brasil possui, pelo menos em teoria, algumas opções
para diversificar suas relações comerciais e se fortalecer comercialmente. Em
nível governamental, uma consequência das ações do governo Trump foi pressionar
as elites latino-americanas a apoiarem pactos comerciais regionais. O acordo
comercial UE-Mercosul acaba de ser assinado. Foram necessários vinte anos para
que ele fosse concretizado — as ações de Trump foram o fator determinante para
convencer os envolvidos de que essa era uma boa ideia. Agora, temos um bloco de
livre comércio relativamente grande na América do Sul reduzindo as tarifas com
a UE, o que proporciona ao capital europeu uma posição estratégica
significativa que ele buscava há tempos. Em certa medida, no âmbito
governamental, trata-se de avaliar quais outras opções um país tem. Em termos de movimentos populares, certamente houve
manifestações de rejeição à intervenção dos EUA, com muitas manifestações de
rua no México, no Brasil e em outros lugares. Ao mesmo tempo, essa ofensiva
imperial dos EUA tem sido bastante seletiva em relação a seus alvos até agora.
A estratégia geral é muito clara, mas em termos de quem foi efetivamente alvo
até o momento, ela é bastante seletiva, momento a momento, e isso torna muito
mais difícil a organização em torno dela.
Para
além de uma posição geral de rejeição ao imperialismo estadunidense, que tem
sido uma constante da esquerda latino-americana há um século e por ótimos
motivos, não existe uma questão concreta em torno da qual se organizar, como
houve, por exemplo, com a imposição de uma ditadura no Chile na década de 1970.
Estamos nos estágios iniciais de descobrir como seria uma nova onda de
movimentos de solidariedade e o que eles seriam capazes de fazer. Sem dúvida,
há uma rejeição às intervenções dos EUA, mas qual é o objetivo organizador
disso em um país como o México ou a Bolívia, além da expressão da opinião
pública? Teremos que ver como essa neo-Doutrina Monroe evolui e quem serão os
próximos alvos para descobrir como a resposta dos movimentos populares se desenvolverá.
Eu esperaria um aumento do sentimento anti-imperialista, mas quais formas de
organização isso assumiria ainda não está claro. Pode se traduzir em resultados
eleitorais — esse é o exemplo mais óbvio. Outra questão é se os movimentos
populares na América Latina têm capacidade para realizar resistência civil em
massa, em vez de se mobilizarem em torno de um objetivo eleitoral de curto
prazo e depois se desmobilizarem. Isso é algo que temos visto acontecer muito
nas últimas décadas. Os movimentos populares se mobilizam com muito sucesso
para bloquear reformas neoliberais ou para eleger uma coalizão progressista, e
então ocorre uma onda de desmobilização. Outro ponto a mencionar é o aumento
real da insegurança em muitos países, o que teve um impacto desmobilizador e
desmoralizante. Há muito discurso sobre segurança na América Latina, com
menções à violência generalizada. Em certa medida, esse é um tema recorrente da
direita, mas não é totalmente fictício. Esse clima de insegurança é parte do
que tornou a direita eleitoralmente bem-sucedida, mas também afeta o cotidiano
das pessoas e impulsiona a migração. Tudo isso torna os atos coletivos de
organização e resistência muito mais difíceis. A ameaça de violência é muito
desencorajadora, por razões óbvias e válidas. Dentro desse clima generalizado
de insegurança, e com um alvo tão amplo quanto o imperialismo estadunidense,
como os movimentos de esquerda conseguem se organizar com sucesso em torno
disso?
·
Quais são as implicações da nova ênfase da administração
Trump na hegemonia hemisférica para os projetos de esquerda na América Latina?
Quais são as perspectivas de resistência ou mesmo (para usar termos mais
modestos) de conquistar algum espaço funcional?
TW - A
administração Trump apresenta sua estratégia para o hemisfério ocidental — a
reafirmação da Doutrina Monroe — como uma novidade, mas, na verdade, ela se
conforma a um padrão muito antigo. Trata-se de um retorno a um modelo de
relações dos EUA com o hemisfério ocidental que tem mais de um século. Esse
modelo foi posteriormente substituído pela estrutura da Guerra Fria e pela
ascensão dos EUA à preeminência global. Curiosamente, esse retorno ao
hemisfério ocidental representa, sob certa perspectiva, uma redução das
ambições dos EUA. Greg Grandin desenvolveu sua análise desse ponto em diversos
livros, particularmente em Empire’s Workshop [Oficina do
Império], onde argumenta que a América Latina é o lugar para onde os EUA vão
para se reinventar. Eles se retraem no hemisfério ocidental durante momentos de
crise. Você pode pensar nisso nesses termos: Trump é um fenômeno de crise,
relacionado ao colapso do regime neoliberal, paralelo ao declínio da
lucratividade no setor corporativo dos EUA e às vastas bolhas financeiras que
tiveram que inflar para compensar as taxas de crescimento em declínio. Há uma
crise generalizada do capitalismo estadunidense. Ao mesmo tempo, o poder global
dos EUA enfrenta a ascensão da China e os retornos cada vez menores de
aventuras militares como as do Iraque e do Afeganistão.Existe uma lógica por
trás da retração dos EUA no hemisfério ocidental: reinventar-se, reafirmar seu
poder, acumular algumas vitórias militares fáceis e, em seguida, controlar todo
o hemisfério e dominar seus recursos, conforme especificado no documento da
Estratégia de Segurança Nacional. Ao
mesmo tempo, o governo Trump reproduz o padrão da era de Teddy Roosevelt em um
contexto histórico muito diferente. Pensando nas intervenções das décadas de
1900 e 1910, os EUA eram a potência preeminente no hemisfério ocidental durante
esse período, além de uma potência global em ascensão. Naquela época, não havia
a ascensão da China nem investimentos chineses em larga escala em
infraestrutura por toda a América Latina. Certamente, a China não era o
principal mercado de exportação para diversos produtos dos países
latino-americanos. Os EUA estão se retraindo para o hemisfério ocidental
partindo do pressuposto de que podem dominar a região da mesma forma que faziam
há mais de um século, mas em um contexto onde esse domínio é muito mais
contestado, pelo menos economicamente, entre os EUA e a China. No médio prazo,
certamente veremos mais intervenções militares do tipo venezuelano —
infelizmente, isso é provável —, mas também uma batalha comercial muito maior
contra a China, buscando expulsar a influência chinesa usando a força militar
dos EUA para impor sua entrada em outros países. Será uma batalha econômica de
soma zero com a China pela influência na América Latina, visando tornar a
região domínio exclusivo dos EUA, não apenas em termos militares, mas também em
termos de recursos econômicos e lucratividade. Essa é claramente a essência da
estratégia de Trump. Prevejo que essa estratégia será violenta e também
contestada. O recuo dos EUA para o hemisfério ocidental deixa muito claro o que
está acontecendo e quem é o inimigo. A aliança entre as corporações estadunidenses
e as forças armadas dos EUA para explorar esses países ficará evidente, e isso,
por sua vez, fornecerá um foco de organização para a esquerda e para os
movimentos progressistas. Os EUA têm aliados fortes nas elites
latino-americanas que também têm acesso a essa tecnologia, portanto, os
desafios são muito grandes. Uma das consequências do governo Trump é deixar
muito claro o que você está enfrentando. Isso vale tanto para o âmbito interno
dos EUA quanto para o internacional. Você está lidando com um aparato estatal
brutal e autoritário, aliado a (e promovendo os interesses de) setores do
capitalismo estadunidense, trabalhando em perfeita sintonia. Isso representa um
desafio, mas também oferece um foco para a organização. Em seguida, precisamos
perguntar: o que a esquerda latino-americana tem em seu arsenal político e que
formas a oposição pode assumir? A grande força dos movimentos da Onda Rosa ao
longo do último quarto de século tem sido seu sucesso eleitoral em unir coalizões
díspares de pessoas em torno de um projeto antineoliberal.
Fonte: Entrevista
com Tony Wood - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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