Guilherme
Cavalcanti: Eleições 2026 - Congresso “inimigo do povo” muda o tom e promete
“entregas concretas”
Já na
primeira semana do ano legislativo, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo
Motta (Republicanos-PB), sinalizou um novo tom do legislativo. Em seu discurso
na última segunda-feira (2), falou em “entregas concretas”, em sintonia com “as
expectativas da população”, e anunciou que a agenda para o primeiro semestre
priorizará o fim da escala 6×1, o combate ao feminicídio e a regulamentação do
trabalho por aplicativos. “Que 2026 continue sendo um ano de entregas ao país,
atendendo sempre as expectativas da população, em sintonia com as ruas”,
afirmou.
O
comprometimento foi reconhecido pela ministra da Secretaria de Relações
Institucionais, Gleisi Hoffmann, que destacou o equilíbrio buscado por Hugo
Motta em pautar “uma das prioridades do governo”. “Nós conversamos sobre o
projeto de lei do fim da escala 6×1. Ele é muito simpático em colocar para
votar, mas nunca nos disse que asseguraria a aprovação. Ele sempre nos
assegurou que colocaria para discussão e que nós, com certeza, batalharíamos
pela aprovação”, disse a ministra na semana anterior à retomada do Congresso.
O
esforço de reposicionamento contrasta com a imagem cristalizada em 2024, quando
o Congresso acumulou desgaste ao travar pautas como a isenção do Imposto de
Renda para quem ganhava até R$ 5 mil, enquanto discutia projetos controversos,
como o chamado “PL da Dosimetria”, que poderia beneficiar os réus e envolvidos
nos atos golpistas de 8 de janeiro, e a “PEC da Blindagem”, que ampliava
mecanismos de proteção a parlamentares e limitava a atuação do Judiciário sobre
o Legislativo.
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Por que isso importa?
• Em ano eleitoral, as aprovações no
Congresso Nacional podem ajudar a decidir os votos dos brasileiros.
• Entre as ações da semana, deputados
aprovaram aumento dos salários de servidores da Câmara e do Senado.
Isso
ficou claro, logo no primeiro dia de trabalho, quando os deputados se
debruçaram sobre a Medida Provisória 1313/25, a “MP do Gás do Povo”, que prevê
a ampliação do acesso ao gás de cozinha para famílias de baixa renda, e
descrita por Motta como “um tema crucial para o dia a dia dos brasileiros”.
Na
avaliação do cientista político e professor da faculdade Insper Carlos Melo, o
Congresso de 2024 adotou uma oposição que acabou fortalecendo o governo ao se
recusar a votar matérias populares, abrindo espaço para ser enquadrado como
adversário da população.
“O
Congresso simplesmente não votava porque avaliava que o governo ganharia com
aquilo. Só que quebrou a cara: o PT foi eficiente, ganhou as redes sociais e
conseguiu mostrar que o Congresso se comportava como inimigo do povo”, diz o
professor.
Em ano
eleitoral, segundo Melo, a estratégia muda: parlamentares tentam compartilhar o
“saldo” de políticas com apelo social e evitar que o Executivo colha sozinho os
dividendos políticos.
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Movimentos sociais reconhecem e vigiam ‘estratégia’
Do
ponto de vista dos movimentos sociais, a reaproximação do Congresso é vista com
cautela. Para a coordenadora do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), Alana
Alves, a maior visibilidade no Parlamento cria uma oportunidade real de avanço,
mas exige vigilância constante para que a proposta não se reduza a um “palanque
eleitoral”.
“É uma
aproximação tardia, muito em função da nossa articulação e da pressão social
que foi construída”, afirma Alves, ressaltando que o modelo de jornada atual é
um problema estrutural vivido há décadas por milhões de trabalhadores, com
impactos diretos na saúde física, mental e nos vínculos familiares. “Desde que
o governo começou a falar sobre a pauta, a dar essa prioridade, muitos
parlamentares começaram a fomentar a pauta, a utilizar a pauta, e isso pra
gente não é ruim desde que seja um apoio efetivo”, alega.
O
sociólogo e diretor-executivo do Instituto Democracia em Xeque, Fabiano
Garrido, avalia que pautas como a MP do Gás do Povo e a redução da jornada de
trabalho voltaram ao centro do debate porque incidem diretamente sobre a
experiência material da população.
Na
mesma linha, o professor de políticas públicas do Ibmec-Brasília Jackson De
Toni, acredita que a combinação de pressão da opinião pública, articulação do
governo e proximidade das eleições cria incentivos para uma agenda mais social,
ainda que isso não signifique uma guinada estrutural.
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O confronto que ainda rende voto
A
tentativa de “limpar a barra” votando em pautas sociais que também beneficiam
eleitoralmente o governo, no entanto, não é unânime. Parlamentares da oposição
mais dura seguem no confronto e rejeitam projetos associados às pautas
governistas. Na votação da medida provisória do Gás do Povo, 29 deputados
federais votaram contra, em contraste com 415 votos favoráveis. Entre os
contrários, 19 parlamentares fazem parte do Partido Liberal (PL).
O
deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) foi um dos que votaram contra o Gás
do Povo e usou as redes sociais para justificar a posição. “Óbvio que votei
contra o projeto ‘Gás do Povo’, do Lula, porque sou a favor do ‘Gás dos
Brasileiros’, um programa que já existe e que o Lula quer complicar”, escreveu.
“Se a pobreza caiu como o Lula diz, por que 50 milhões de brasileiros ainda
dependem de gás ‘gratuito’ para cozinhar?”.
Para
Carlos Melo, a postura se explica menos pelo mérito da proposta e mais pela
lógica de nichos ideológicos específicos. “Bolha. Ele [Nikolas] fala pra uma
bolha hiper-oposicionista, ideológica, bolsonarista, que não vai concordar com
nada que o governo faça e, pelo contrário, quer argumentos para ser contra”,
afirma. “Ele está procurando o voto dos que estão na bolha dele”.
Para
Alana Alves, “a história recente mostra que o Congresso costuma reagir mais à
pressão do que antecipar essas demandas populares. “Se a pauta está sendo usada
como palanque político, isso também é uma forma de pressão para nós. A nossa
arma enquanto movimento social é pressionar. Nós colocamos esses parlamentares
lá, então nada mais justo do que exigir que eles nos ouçam”, conclui a
coordenadora do movimento pelo fim da escala 6×1.
• Novo líder do PT, vê centrão mais perto
da reeleição de Lula
O novo
líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), avalia que o cenário político
no Congresso ficou mais favorável ao governo em 2026, especialmente com a
provável saída do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, da corrida
presidencial. Em entrevista ao Valor, o parlamentar afirmou que, “sem ele”, o
Centrão tende a ficar mais disponível para negociações, o que pode influenciar
votações decisivas neste ano eleitoral.
Uczai
relatou que assumiu a liderança em meio a pautas sensíveis, como a redução da
jornada 6x1, a preservação do veto do presidente Lula ao projeto que reduz
penas de condenados por tentativa de golpe e a disputa sobre reajustes e
penduricalhos no Legislativo. Ele também disse que o PT é favorável a
investigações e apoiará iniciativas de CPI e CPMI relacionadas ao caso do Banco
Master, defendendo apuração “muito séria e sem pré-julgamento”.
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Empresários buscando o PT e a viagem de Lula aos EUA
O novo
líder petista contou que recebeu a reportagem durante uma reunião virtual com
empresários do setor madeireiro de Santa Catarina afetados pelo tarifaço
aplicado pelos Estados Unidos em 2025. Com a produção fortemente comprometida,
os empresários pediam um apelo ao presidente Lula, que viajará em março a
Washington para se reunir com Donald Trump, atual presidente dos Estados
Unidos.
Uczai
destacou o contraste político de representar a esquerda em um dos estados mais
alinhados ao bolsonarismo e, ao mesmo tempo, ser procurado por exportadores
tradicionais. “O pessoal do setor empresarial falando com o líder do PT,
pedindo socorro. Tem empresa que há 40 anos exporta 100% para os Estados
Unidos”, afirmou.
Na
leitura do deputado, esse tipo de movimento reforça que o governo “acertou” ao
encarar disputas de narrativa e agenda. Ele sustenta que temas como tributação,
política externa e medidas fiscais ganharam centralidade, e avaliou que parte
do empresariado passou a pressionar diretamente o Congresso e o Executivo
diante do novo ambiente internacional.
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Congresso, reajustes e o combate ao “extrateto”
Logo no
início de sua liderança, a Câmara aprovou um programa federal de ampliação do
acesso ao gás de cozinha para a população de baixa renda, mas a pauta acabou
ofuscada pela polêmica em torno de reajustes e benefícios para servidores da
Casa. Uczai disse apoiar reajuste, mas fez questão de separar o aumento
salarial do que chama de “extrateto”, isto é, a soma de benefícios que
ultrapassa o teto constitucional.
O
deputado afirmou que o governo não teria sido consultado sobre o “extrateto”,
embora, na sua visão, reajustes sejam necessários para evitar instabilidade e
desigualdade entre os Poderes. “Eu defendo que tem que ter [reajuste]. O Senado
teve 8%. Se você não dá aqui na Câmara, cria instabilidade, insegurança”,
declarou.
Ao
mesmo tempo, Uczai reforçou ser contrário a supersalários e disse ter projeto
para enfrentar privilégios. Para ele, o problema é quando, em vez de discutir
remuneração com transparência, o sistema empilha auxílios. “Em vez de discutir
os salários, cria-se penduricalho: auxílio-moradia, auxílio-alimentação,
auxílio disso, auxílio daquilo”, disse, defendendo um modelo mais direto, com
salário e pagamento das próprias despesas, sem “monte de benefício”.
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Jornada 6x1 e o veto de Lula sobre tentativa de golpe
Entre
as “missões” centrais do PT em 2026, Uczai apontou duas frentes: avançar na
redução da jornada 6x1 e preservar o veto de Lula ao projeto que reduz penas de
condenados por tentativa de golpe. No caso do veto, ele disse que pretende
buscar entre 40 e 50 votos no Centrão para sustentar a decisão presidencial.
O
deputado relatou ainda que teve uma conversa “tranquila” com Lula após assumir
a liderança e que o presidente pediu que os dois passem a conversar
semanalmente, para acompanhar o trabalho no Congresso.
Sobre a
redução da jornada, Uczai argumentou que o tema já ganhou dimensão social e até
produtiva. “Vivemos na sociedade do cansaço. Os próprios setores produtivos
estão percebendo”, afirmou, citando como exemplo que produtividade e qualidade
de vida podem caminhar juntas, e defendendo a apresentação de um projeto do
Executivo com urgência constitucional.
Na sua
proposta, a transição poderia ser negociada por etapas, com redução gradual da
carga semanal. Ele disse que é possível construir uma síntese das propostas já
existentes e estabelecer um cronograma progressivo, com debate político e
social estruturado, em vez de uma ruptura desorganizada.
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“Sem Tarcísio, Centrão fica mais aberto ao diálogo”
Uczai
avalia que a correlação de forças no Congresso tende a mudar com a provável
saída de Tarcísio do tabuleiro presidencial. Para ele, isso abre espaço para
que partidos do Centrão atuem com mais liberdade de negociação.
“Mudou
bastante. Sem ele, o Centrão fica mais aberto ao diálogo. Os partidos ficam
mais livres para conversar com diferentes setores. Isso muda a correlação de
forças no Congresso”, disse.
Essa
possível reacomodação, na visão do petista, pode ser decisiva em votações onde
o governo depende de uma margem apertada. Entre elas, além do veto de Lula,
está a tentativa de recuperar pontos do texto original da proposta de emenda à
Constituição da segurança pública, alterado pelo relator Mendonça Filho
(União-PE).
Uczai
também avaliou que a relação com o presidente da Câmara, Hugo Motta
(Republicanos-PB), está melhor do que no período anterior, marcado por tensão
pública entre Motta e o então líder Lindbergh Farias (PT-RJ). Embora tenha um
estilo menos incisivo, o novo líder disse que irá ao embate quando necessário.
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CPIs do Banco Master e a pressão social como motor
Questionado
sobre as iniciativas de investigação do caso Banco Master, Uczai afirmou que o
PT defende apuração por órgãos de Estado e também dará apoio a frentes
parlamentares. “Defendemos a investigação. Da Polícia Federal e do Banco
Central”, disse. Segundo ele, o partido apoiará a CPI proposta por Rodrigo
Rollemberg (PSB-DF) e a CPMI articulada por Fernanda Melchionna (Psol-RS).
Para
Uczai, porém, a efetivação de CPIs depende mais de ambiente político e
mobilização social do que de negociações internas. “Depende muito mais da
conjuntura e da pressão social do que do Congresso”, afirmou, argumentando que,
em temas sensíveis, o Legislativo tende a reagir à opinião pública.
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Segurança pública: integração nacional e resistência da extrema-direita
Na
pauta da segurança pública, Uczai disse que participou de debates recentes e
que houve interlocução entre o ministro da Justiça e o relator da PEC. Ele
afirmou que existem pontos “centrais” dos quais o governo não abre mão, com
foco numa política integrada e nacional, capaz de enfrentar crime organizado e
narcotráfico com compartilhamento de tecnologia, informações e operações.
Uczai
avaliou que a Polícia Federal já atua, mas “de forma insuficiente”, e defendeu
uma PF mais estruturada, presente em todo o país e apta a liderar um sistema
único de segurança pública articulado com estados e municípios. Ele também
afirmou que há resistência, especialmente da extrema-direita, e que a disputa
central é sobre o grau de integração: de um lado, uma coordenação robusta; de
outro, um modelo fragmentado.
Por
fim, ao tratar do projeto de lei antifacção que voltou do Senado com
alterações, Uczai disse que o texto anterior apresentava problemas técnicos e
que a reação social ajudou a “corrigir o rumo do debate”. Para ele, a versão
que retornou do Senado está em condições de votação e deve trancar a pauta nas
próximas semanas.
• Aliados veem Motta dependente de Lula em
2026: “O jogo virou”
A
relação entre o Palácio do Planalto e a presidência da Câmara dos Deputados
entrou em uma nova fase, segundo avaliação de parlamentares presentes no jantar
oferecido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a líderes da Casa. O
encontro ocorreu na quarta-feira (4), e aliados do deputado Hugo Motta
(Republicanos-PB) interpretaram falas do petista como um recado político
indireto sobre a disputa eleitoral de outubro.
De
acordo com a coluna do jornalista Igor Gadelha, do Metrópoles, Lula aproveitou
a ocasião para mencionar as “turbulências” enfrentadas por Motta à frente da
Câmara e, ao mesmo tempo, agradecer pelo avanço de projetos considerados
prioritários para o governo.
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No
jantar, Lula destacou que, apesar das dificuldades políticas enfrentadas ao
longo do período, sua gestão conseguiu aprovar matérias importantes com apoio
do Congresso. Entre elas, citou o projeto que amplia a faixa de isenção do
Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil.
Além
disso, o presidente afirmou que Hugo Motta “pode contar com ele para o que
precisar”, frase que foi recebida por deputados como um gesto carregado de
simbolismo. Para líderes próximos ao presidente da Câmara, o tom adotado por
Lula teve caráter estratégico: demonstrar que o governo conseguiu manter força
política suficiente para aprovar sua agenda, mesmo em cenários de
instabilidade.
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“O jogo virou”, avaliam aliados do presidente da Câmara
Nos
bastidores, aliados de Motta sustentam que a dinâmica de poder entre o
Executivo e a Câmara mudou. Segundo essa leitura, se até 2025 o governo
dependia mais do presidente da Casa para viabilizar votações de interesse do
Planalto, agora a situação seria inversa.
A
interpretação é que Hugo Motta passou a precisar mais do presidente Lula por
razões eleitorais. O deputado pretende disputar mais um mandato na Paraíba e,
caso seja reeleito, deve tentar novamente permanecer no comando da Câmara dos
Deputados.
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Disputa na Paraíba
Além de
seus próprios planos em Brasília, Hugo Motta também articula um projeto
político familiar: a candidatura de seu pai, Nabor Wanderley, atual prefeito de
Patos, ao Senado Federal. A movimentação reforça a importância de uma relação
sólida com o Planalto.
Motta e
Nabor têm forte base eleitoral no sertão paraibano, mas aliados reconhecem que
a disputa para o Senado tende a ser competitiva e deve incluir nomes próximos a
Lula. Nesse cenário, interlocutores do presidente da Câmara admitem que o apoio
do presidente pode ser decisivo para impulsionar a candidatura do prefeito.
De olho
nesse cenário, aliados de Hugo Motta afirmam que o deputado tem demonstrado
“boa vontade” em relação a projetos estratégicos para o governo ao longo de
2026. Entre as propostas citadas estão a regulamentação dos motoristas de
aplicativo e o debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1.
A
avaliação no entorno do presidente da Câmara é que, com o calendário eleitoral
se aproximando e com interesses diretos em jogo na Paraíba, Motta tende a
manter uma postura de maior alinhamento com o Planalto, buscando preservar
espaço político e ampliar suas chances tanto na disputa parlamentar quanto no
fortalecimento do projeto do pai para o Senado.
Fonte:
Agencia Pública/Brasil 247

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