O
papel estratégico da Groenlândia na disputa entre EUA, China, Rússia e Otan
pelo Ártico
Uma
ilha em que uma camada de gelo com até 3 quilômetros de espessura cobre mais de
80% do terreno. Durante a maior parte do ano, o gelo marinho se agarra à costa,
tornando-a inacessível a embarcações.
Foi ali
também onde foi registrada a temperatura mais fria da história no Hemisfério
Norte: - 69,6 ºC em 1991.
A Groenlândia não é
exatamente um destino comum para a maioria das pessoas, tampouco é considerada
um lugar muito procurado para se viver. Mas está atualmente no centro das
discussões das maiores potências globais sobre segurança nacional.
A ilha
de 56 mil habitantes se tornou um importante personagem da geopolítica desde
que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que
"não há volta atrás" em suas ameaças de assumir o controle do
território.
Nesta
semana, o vice-presidente americano, JD Vance, disse que os aliados europeus
dos EUA fizeram mais concessões nas negociações em relação à Groenlândia do que
admitem publicamente.
"Definitivamente,
conseguimos muito mais do que inicialmente", disse Vance, sem dar maiores
detalhes.
Ele
sugeriu que a "estrutura de um futuro acordo" — apresentada por Trump
no mês passado — seria benéfica para os EUA.
Muito
antes de o republicano assumir a Casa Branca pela primeira vez, em 2017, o
Ártico já era uma zona de muitas disputas. Durante a Guerra Fria, o Polo Norte
se tornou uma potencial rota de mísseis e União Soviética e EUA expandiram suas
operações militares na região.
Mas
segundo especialistas, a região voltou aos radares, especialmente das potências
ocidentais da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que agora se
organizam para fazer frente ao crescimento militar da Rússia no Ártico.
Moscou
possui algo entre 30 e 40 bases na região e usa uma cidade no extremo norte de
seu território como sede da sua maior e mais poderosa força naval, a Frota do
Norte.
Mas
como — e por que — essa ilha inóspita que atualmente faz parte da Dinamarca
alcançou essa posição de protagonista da geopolítica mundial?
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Da colonização nórdica às ameaças de Trump
Exploradores
e colonizadores nórdicos chegaram à Groenlândia pela primeira vez no final do
século 10. Acredita-se que o nome da ilha, que faz referência a "terras
verdes", tenha sido dado pelo explorador viking Erik, o Vermelho, para
tornar o local mais atraente para os colonizadores, que chegaram alguns anos
depois.
Nos
séculos 14 e 15, os assentamentos nórdicos praticamente desapareceram,
provavelmente devido à queda significativa das temperaturas provocada pelo
fenômeno conhecido como Pequena Era Glacial.
Em
1721, porém, colonizadores dinamarqueses voltaram ao local e começaram a se
estabelecer perto do que hoje é a capital, Nuuk: foi assim que a Groenlândia se
tornou território dinamarquês.
Em
1953, após anos como uma colônia, a Groenlândia foi oficialmente incorporada ao
Reino da Dinamarca e seus habitantes tornaram-se cidadãos dinamarqueses. Em
1979, após um referendo, a ilha ganhou o status de território autônomo.
Os
poderes do governo local foram ainda expandidos trinta anos depois, após outra
votação popular, abrindo caminho para discussões mais consolidadas sobre a
independência da Dinamarca.
Pesquisas
de opinião realizadas nos últimos anos indicam um padrão bastante consistente
em que algo em torno de 70% a 85% da população diz querer a independência. Mas
apesar da grande maioria dos partidos no Parlamento também apoiarem a causa, as
discussões avançaram lentamente nos últimos anos.
As
declarações de Donald Trump sobre os Estados Unidos tomarem o controle da ilha,
porém, fizeram que o tema ganhasse status internacional.
Durante
o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, na semana passada, o
americano disse que "não usará força"
para adquirir a Groenlândia — em uma declaração que contrastou com a ideia
expressada por ele no passado, quando chegou a dizer que conquistaria seu
objetivo "de um jeito ou de outro".
Agora,
Washington negocia as bases para um acordo de cooperação em segurança no Ártico
com a Otan.
Ainda
se sabe muito pouco sobre o entendimento, mas segundo informações divulgadas
pelo jornal The New York Times, uma das ideias em discussão inclui a
cessão pela Dinamarca da soberania sobre pequenas áreas da Groenlândia, onde os Estados
Unidos construiriam bases militares.
Para
defender a posse da Groenlândia, Trump mencionou a ameaça de navios russos e
chineses em volta da ilha. Mas a Dinamarca afirma que "hoje" esta
ameaça não existe.
Sobre
essa questão, os aliados da Otan tentaram tranquilizar os Estados Unidos de que
eles irão aumentar a segurança no Ártico. E o secretário-geral da aliança, Mark
Rutte, afirma que o acordo que está sendo discutido também exigirá esta
contribuição.
Segundo
especialistas, contudo, o interesse que a organização e seus membros têm
demonstrado no acordo e no tema fortalece a ideia de que o Ártico é cada vez
mais importante para seus membros.
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Minérios e localização estratégica
Mas por
quê?
A
primeira resposta para essa pergunta está nos
recursos naturais.
Segundo estimativas, a ilha abriga grandes reservas de minérios muito
cobiçados, como níquel, lítio, cobre e grafite.
Como
grande parte desse território é inexplorado e está sob gelo, ninguém sabe
exatamente o que há ali. Mas estudos sugerem que a Groenlândia tem depósitos de
38 dos materiais considerados críticos por União Europeia e Estados Unidos.
A ilha
também teria potencial de abrigar até um quarto das reservas globais de
terras-raras — minérios que são componentes essenciais para indústrias modernas
como as de veículos elétricos.
Trump
nega qualquer interesse nos minerais da Groenlândia, mas especialistas afirmam
que o acesso a esses componentes ajudaria os Estados Unidos a competir com seu
maior adversário comercial atual: a China.
"Por
um lado, essa questão toda se resume aos minerais críticos, e para os Estados
Unidos, a dependência de importações desses minerais, como grafite e zinco, é
de quase 100%. E o país vê a Groenlândia como uma forma de obter esses minerais
e reduzir a dependência da China", afirmou Gabriella Gricius, pesquisadora
do Instituto Ártico, em entrevista ao podcast Newscast, da BBC.
Mas
algo que Trump vem apontando com bastante clareza é o papel estratégico da
Groenlândia do ponto de vista de segurança. A posição geográfica da ilha, entre
Europa, América do Norte e Rússia, faz com que seja um excelente ponto para os
Estados Unidos instalarem interceptores de mísseis.
Os
americanos já possuem uma base militar ali, que serve de posto de observação. E
um acordo assinado na década de 1950 estabelece que Washington pode construir
instalações militares na ilha para proteger a região.
Mas
Trump alegou que a ilha é "vital" para o Domo de Ouro, um escudo
antimísseis que ele quer construir até o fim do seu mandato.
Mas não
é só isso. A Groenlândia — ou, nesse caso, a Dinamarca — é apenas um dos oito
países que possuem território no Círculo Polar Ártico. Canadá, Islândia,
Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia e os próprios Estados Unidos também
controlam áreas por ali.
E
alguns países do Ártico estão mais próximos do que muitos imaginam. Os Estados
Unidos e a Rússia, por exemplo, são vizinhos, com o Alasca e o nordeste da
Sibéria separados pelo Estreito de Bering, que tem cerca de 85 km em seu ponto
mais estreito — uma distância menor do que a entre as cidades de São Paulo e
Campinas.
A
situação se complica ainda mais quando analisada do ponto de vista das zonas de
influência globais e da disputa entre Estados Unidos, China e Rússia.
A
invasão da Ucrânia pelas forças russas em 2022 reacendeu as rivalidades da
Guerra Fria na região. Em questão de meses, a Finlândia e a Suécia entraram pra
Otan. E como um território da Dinamarca, a Groenlândia também faz parte da
organização.
Ou
seja, o mapa do Ártico está dividido: de um lado, Rússia. Do outro, países da
Otan.
"O
fato de a Groenlândia estar situada em uma parte muito importante do Ártico em
termos de preocupações com a segurança, especialmente com a crescente
militarização da região, coloca-a numa posição central entre os interesses da
Otan e da Rússia", afirma Marc Lanteigne, professor da Universidade Ártica
da Noruega, Tromsø.
O
especialista em segurança no Ártico afirma ainda que a ilha fica próxima a uma
rota marítima de grande importância, conhecida como Lacuna de GIUK. A passagem
fica entre a Groenlândia, a Islândia e o Reino Unido, e navios ou submarinos
que viajam do Ártico para o Oceano Atlântico geralmente passam por ela.
Durante
a 2ª Guerra Mundial, sua importância foi um dos motivos que levaram os EUA a
estabelecer uma base militar na Groenlândia para combater os submarinos
nazistas. Na Guerra Fria e até os dias atuais, esse ponto estratégico é
utilizado pela Otan para instalação de sistemas de vigilância subaquática para
monitorar submarinos.
E com o
derretimento do gelo na região, a expectativa é que novas possibilidades de
rotas na região se abram no futuro.
"Grande
parte do gelo marinho que antes dificultava o transporte marítimo na
Groenlândia e arredores desapareceu. Assim, grande parte do Ártico está
começando a se abrir para uso marítimo, tanto civil quanto, potencialmente,
militar", afirma Lanteigne.
"A
preocupação é que esta área precise de muito mais monitoramento. Há grande
receio de que navios russos e, potencialmente, chineses no futuro, possam
utilizar essas rotas."
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Presença russa e chinesa no Ártico
Não há
qualquer indício de que a Rússia ou a China tenham presença militar na
Groenlândia em si, diferentemente do que Trump alega. Os próprios governos
dinamarquês e groenlandês confirmaram a informação.
"A
Rússia não tem interesses militares perto da Groenlândia, que é patrulhada
extensivamente por navios dinamarqueses e de outros países da Otan. Seria
extremamente difícil para um navio militar russo se aproximar sorrateiramente
da ilha — e a relação custo-benefício de uma ação seria muito baixa",
opina Marc Lanteigne.
Mas os
dois países colaboram intensamente no Ártico, especialmente em projetos de
extração de gás natural.
A
Rússia também é o país com maior território e controle de águas na região,
abrangendo 53% do litoral do Oceano Ártico. Aproximadamente 2,5 milhões de
russos vivem ali, representando quase metade da população que vive no Ártico em
todo o mundo.
Além
disso, Moscou possui dezenas de instalações militares na sua costa leste — algo
em torno de 30 e 40, segundo diversas fontes.
Desde o
início dos anos 2000, Vladimir Putin comanda uma espécie de revitalização
militar e econômica dessa área. Em 2020, foi inaugurado o que ele diz ser o
posto militar mais ao norte do planeta, numa ilhada chamada Terra de Alexandra.
A base
Trevo Ártico abriga até 150 militares, incluindo uma unidade de defesa aérea.
O
principal ativo militar da Rússia, a Frota do Norte, também está sediada na
região, em Severomorsk. A frota é considerada a maior e mais poderosa força
naval do país, com navios convencionais e uma frota de submarinos estratégicos
que transporta a maior parte das ogivas nucleares da Marinha Russa.
Toda
essa presença ajuda a explicar a corrida dos Estados Unidos e da Otan por um
plano mais robusto de defesa por ali.
Somado
a isso, autoridades do governo e das forças militares russas já disseram que
estariam dispostos a enfrentar as forças ocidentais no Ártico, caso fosse
necessário, traçando paralelos com a situação na Ucrânia.
"A
Rússia não permitirá que ninguém a prive de seu futuro. Provamos isso em Donbas
[na Ucrânia] e provaremos no Ártico, se necessário", declarou Andrei
Khapochkin, senador da região de Sakhalin, no Extremo Oriente russo, em um
artigo para o jornal governamental Rossiyskaya Gazeta, publicado em novembro.
Rússia
e China também já realizaram exercícios militares conjuntos no Ártico, mas
segundo Marc Lanteigne, da Universidade Ártica da Noruega, Tromsø, "elas
são apenas para exibição".
"A
Rússia certamente está desenvolvendo sua capacidade militar no Ártico, mas
grande parte de sua atividade tem ocorrido nas proximidades da região de
Barents, Noruega, ou no Pacífico, perto do Alasca", diz.
Mas
especialistas afirmam também que as próprias ameaças dos Estados Unidos sobre a
Groenlândia podem incentivar Moscou, e eventualmente Pequim, a expandir ainda
mais sua presença e influência na região.
"Se
um país acredita que pode tomar qualquer coisa que beneficia sua segurança, por
que não faríamos o mesmo, se acreditássemos que isso beneficia a nossa
segurança?", disse Konstantin Remchukov, editor-chefe da Nezavisimaya
Gazeta, em entrevista à BBC News.
Fonte: BBC
News Brasil

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