A
crescente demanda por 'acompanhantes de saúde' em um Brasil com famílias mais
enxutas e cada vez mais velho
O
envelhecimento da população brasileira e as famílias cada vez mais enxutas com
a redução do número de filhos tornaram a presença de um cuidador de idosos mais
comum em muitas casas — e levam o Congresso a discutir a regulamentação dessa
profissão.
Mas os
profissionais desse ramo também têm sido contratados, inclusive por pessoas
mais jovens, para ajudar em outras atividades do dia a dia — por exemplo, como
acompanhantes em exames e procedimentos hospitalares e agendando consultas para
clientes.
Por
meio de plataformas online como Cronoshare e GetNinja, clientes procuram por
auxiliares para determinadas funções, especificando suas demandas. Quando um
trabalhador se interessa, entra em contato com que fez o pedido.
A
contratação é informal, sem assinatura de contratos de trabalho, assim como o
pagamento, que costuma ocorrer via Pix.
Girlaine
Ferreira, de 56 anos, tem clientes assim com frequência, mas diz que essa
função ainda é pouco conhecida. Ela trabalha como cuidadora há seis anos e tem
um trabalho fixo, mas atua como acompanhante para fazer uma renda extra.
Cobra
R$ 220 no mínimo por acompanhamento, incluindo seu deslocamento — muitas vezes
com transporte público. Se a duração do serviço chega a 12h, o valor sobe um
pouco: R$ 250 durante a semana e R$ 300 nos finais de semana e feriados. Dessa
forma, ela diz que consegue ganhar 35% a mais todo mês.
Segundo
Girlaine, que atende na região metropolitana de São Paulo, os clientes costumam
ser de classe média ou alta, e ela apontar algumas razões para isso.
"Para
uma pessoa que vive somente com um salário mínimo, é mais difícil [contratar
esse tipo de serviço]", diz ela.
"Mas,
além da parte financeira, não existe ainda muita informação sobre esse
trabalho, e não é todo mundo que entende quem presta esse tipo de serviço.
Quanto menor for a instrução, menos a pessoa sabe que isso existe."
Girlaine
conta que já desempenhou funções variadas. Para uma brasileira que mora na
França, foi sua acompanhante em um exame. A mãe da cliente já era idosa, não
podia ir com ela, e o marido não estava no Brasil, por isso ela a procurou.
"Ela
devia ter uns 38, 40 anos. Acompanhei, esperei finalizar o procedimento,
comprei os remédios e, quando já estava bem, ela me liberou."
Com
formação no cuidado de idosos, Girlaine conta que não é necessário ter um curso
como acompanhante de saúde ou em áreas relacionadas à enfermagem, por exemplo.
Assim
como o cliente expõe suas demandas, o profissional também esclarece nas
plataformas o que pode ou não fazer como parte do serviço. Além de consultas e
exames, ela já acompanhou pacientes internados por longos períodos em
hospitais.
"Já
fiquei mais de mês em uma UTI, próximo da finitude do paciente", recorda.
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'Atendi cliente com fobia de dirigir'
A
auxiliar de enfermagem Edineusa Matos, 40 anos, também viu neste tipo de
acompanhamento uma oportunidade de ganhar mais. Ela trabalha há seis anos como
acompanhante na capital e no ABC paulistas.
"Como
trabalho como auxiliar de enfermagem em um turno de 12 horas e descanso por 36
horas, muitas vezes consigo fazer esses trabalhos à parte".
"No
começo, eu não sabia como me 'vender'. É preciso pensar como se projetar na
plataforma. Hoje, eu tenho uma avaliação cinco estrelas, mas não foi
fácil."
Hoje,
além do anúncio online, os novos clientes chegam até por meio de indicações.
Um
atendimento que chamou sua atenção foi o de uma mãe que precisava levar o filho
autista para o médico. A cliente queria ir de carro, mas tinha medo de dirigir
— e não queria usar aplicativos de transporte.
Edineusa
não costuma fazer as vezes de motorista, mas viu o serviço como uma gentileza
para a mãe.
"Ela
tinha especificado tudo isso no anúncio na hora de contratar, e o filho dela
era autista nível três [considerado o mais grave]. Dirigi para ela e fui com
ela ao médico", lembra.
Edineusa
conta também já foi retirar remédios de alto custo em um posto público e
auxiliou um paciente com bolsa de nefrostomia (usada para coletar urina
diretamente de um rim), entre outros serviços. Atualmente, ela acompanha um
paciente idoso na hemodiálise aos finais de semana.
Ela
ganha R$ 2,6 mil por mês como auxiliar de enfermagem e conta que têm conseguido
aumentar sua renda como acompanhante — em alguns meses, ganha com isso até mais
do que como o emprego oficial.
Com a
renda extra, Edineusa diz que financiou a compra de um apartamento e que
pretende se mudar da comunidade onde mora.
Ela
cobra por diária, de no mínimo de quatro horas: "O mínimo é R$ 130 o dia,
dependendo do procedimento. Quando há um esforço maior do meu trabalho, pode
chegar a R$ 260".
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Riscos de informalidade
O
trabalho de cuidador tradicional é previsto na Classificação Brasileira de
Ocupações (CBO) como "cuidador de idosos" e "cuidador em
saúde" — o que permite uma contratação com carteira assinada.
Esse
profissional pode acompanhar uma pessoa em consultas e exames, auxiliar em
exercícios leves e administrar medicamentos por via oral, desde que prescritos
por um médico.
O papel
do cuidador é observar sintomas, identificar sinais de emergência e acionar
ajuda especializada — sem diagnosticar doenças e receitar medicamentos.
No
mercado, é comum que seja exigido do trabalhador um curso de cuidador de idosos
e pessoas, que normalmente mínima tem carga de 360 horas.
Mas a
categoria ainda não tem um sindicato nacional unificado, apenas entidades
regionais e sindicatos de categorias próximas, como de trabalhadores de saúde e
de empregados domésticos.
Uma lei
que regulamenta especificamente a profissão de cuidador de idosos tramita
atualmente na Câmara dos Deputados.
Para a
advogada trabalhista Patrícia Schüler Fava, serviços esporádicos, como
acompanhar um paciente em exames e consultas, se enquadram como prestação de
serviço eventual.
Nesses
casos, não há vínculo empregatício, e o pagamento costuma ser combinado por
diária.
Mas a
situação muda quando a prestação do serviço vira rotina. O contratante passa a
ter obrigações formais como registro em carteira, controle de jornada e
cumprimento de todos os direitos trabalhistas previstos para a categoria.
"Pela
legislação, comparecer à residência pelo menos três vezes por semana, mesmo que
por poucas horas, já caracteriza a relação como trabalho doméstico", diz
Fava.
A BBC
News Brasil procurou a Cronoshare e GetNinja para abordar a questão da
formalização dos profissionais que oferecem serviços deste tipo oferecidos
nestas plataformas, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
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Envelhecimento acelerado e redes de apoio menores
A maior
longevidade e a queda da fecundidade no Brasil ajudam a explicar a maior
demanda pelos serviços oferecidos por Edineusa e Girlaine, segundo
especialistas entrevistados pela BBC News Brasil.
"Há
30 ou 40 anos, era comum ver babás em pracinhas, mas era raro encontrar
cuidadores de idosos. Hoje, em 2025, acontece o contrário", diz a médica
Roberta França, especialista em longevidade consciente e saúde mental e membro
da Sociedade Brasileira de Neuropsiquiatria Geriátrica.
A
médica defende ser preciso a profissionalização do setor e maior formação
técnica.
"Envelhecemos
em 30 anos o que a Europa levou mais de 100. Mas, diferentemente da Europa, não
enriquecemos antes de envelhecer e não nos preparamos para esse processo."
Márcio
Minamiguchi, demógrafo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), afirma que a geração que hoje tem cerca de 80 anos já demanda mais esse
tipo de cuidado como efeito de terem tido menos filhos e sua rede familiar ser
mais reduzida do que era comum no passado.
Segundo
Minamiguchi, neste cenário, o cuidado familiar tende a perder força, abrindo
espaço para a contratação de profissionais e de instituições de longa
permanência para idosos (ILPI) — popularmente conhecidos como
"asilos" ou "casas de repouso".
"São
mudanças rápidas e profundas, que tendem a expandir a oferta desses serviços,
mas que também enfrenta o desafio da disponibilidade de mão de obra."
A
antropóloga Valquíria Renk lembra, porém, que muitos brasileiros não têm
condições financeiras de contratar serviços de cuidado profissionais, o que faz
com que esse trabalho acabe recaindo sobre familiares — geralmente mulheres,
sem receber remuneração — ou sobre amigos e vizinhos.
Para
quem tem maior poder aquisitivo, o dinheiro pode não ser o maior problema, mas
sim a falta de tempo, por conta de jornadas longas de trabalho, por exemplo.
Contratar
alguém para cuidar de uma pessoa em tempo integral ou acompanhá-la no médico ou
outros serviços tem se tornado uma saída em casos assim, diz Renk.
"Pessoas
com mais recursos conseguem montar equipes multidisciplinares, garantir
fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e acompanhamento médico
contínuo", aponta a antropóloga, que é professora da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
"Esses
serviços têm custos elevados e muitas vezes não são cobertos pelo sistema
público de saúde."
Renk
afirma que a Política Nacional do Cuidado busca ampliar o reconhecimento social
desse tipo de atividade e ampliar a qualificação na área, mas ainda é pouco
eficaz.
Essa
política foi proposta pelo governo federal, aprovada pelo Congresso e
sancionada no final de 2024. Ela reconhece o cuidado como um direito universal
e uma responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, sociedade e setor
privado, dando diretrizes para isso.
O
objetivo é distribuir responsabilidades e garantir uma estrutura mínima para
que famílias consigam cuidar adequadamente de idosos, crianças, pessoas com
deficiência ou indivíduos com doenças crônicas.
Mas,
para França, a política está longe de produzir efeitos concretos — sem trazer
ações obrigatórias, ela depende de regulamentação, orçamento e implementação.
Essa
distância entre o que diz a lei e a realidade cotidiana deixa grande parte das
famílias sem apoio.
"O
que vemos no Brasil inteiro são famílias cuidando de idosos com demência ou
doenças graves sem qualquer auxílio. Esse cuidado recai sobre uma única pessoa,
normalmente uma mulher, que trabalha por longas jornadas, muitas vezes sem
remuneração."
Fonte:
BBC News Brasil

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