Gustavo
Tapioca: A extrema direita global prepara o cerco às eleições brasileiras
A
entrevista do crítico e analista João Cezar de Castro Rocha divulgada nesta
quarta-feira, 4, pelo YouTube lança luz sobre um erro estratégico que a
democracia brasileira insiste em repetir. Tratar a extrema direita como
fenômeno local, episódico ou espontâneo. Os documentos associados ao caso
Epstein, longe de serem apenas um escândalo moral, funcionam como mapa de uma
engrenagem internacional de poder, onde circulam dinheiro, influência política,
chantagem e guerra cultural.
Nesse
teatro, o Brasil não é periferia. É campo de testes.
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O método global da extrema direita
A
extrema direita do século XXI não se organiza como partido tradicional, mas
como rede transnacional de influência política. Seu núcleo é a guerra cultural
permanente. Ou seja, a destruição deliberada da noção de verdade factual, o
ataque sistemático às instituições e a conversão do conflito político em
espetáculo emocional contínuo.
O
principal formulador desse método é Steve Bannon, que transformou a política em
engenharia do caos. A lógica é simples e brutal. Inundar o espaço público com
desinformação, escândalos, teorias conspiratórias e ataques pessoais até que
nenhuma checagem seja capaz de conter o fluxo. O objetivo não é convencer, mas
desorganizar cognitivamente a sociedade.
Essa
estratégia foi aplicada com êxito nos Estados Unidos sob Donald Trump e
rapidamente exportada. Plataformas digitais fornecem a infraestrutura; igrejas
e influenciadores garantem capilaridade social; empresários financiam a
operação; e operadores políticos fazem a adaptação local. Trata-se de um
projeto global, com execução descentralizada.
Os
documentos ligados ao caso Epstein ajudam a revelar o pano de fundo dessa
engrenagem: redes internacionais de poder que operam fora do escrutínio
público, atravessando fronteiras, regimes políticos e sistemas jurídicos. Não
se trata de conspiração abstrata, mas de ecossistema real, que combina
dinheiro, chantagem, impunidade e propaganda.
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O Brasil como laboratório
A
eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, não foi um acidente histórico nem um surto
irracional do eleitorado. Foi a primeira grande vitória da extrema direita
global fora do eixo EUA–Europa, construída a partir de guerra digital em larga
escala.WhatsApp, fake news industriais, disparos ilegais, ataques coordenados à
imprensa, ao STF e ao sistema eleitoral não foram excessos laterais. Foram
métodos. O Brasil reuniu condições ideais: alta penetração de aplicativos
fechados, ausência de regulação das plataformas e uma crise política profunda
após 2016.
O erro
decisivo foi tratar aquele processo como algo superado com a derrota eleitoral
de Bolsonaro em 2022. A rede não se dissolveu. Ela se profissionalizou.
Aprendeu com os erros, ampliou financiamento, refinou linguagem e passou a
operar com maior sofisticação técnica e narrativa.
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De 2018 a 2026: a mutação da guerra digital
Em
2018, a desinformação tinha um objetivo central: ganhar votos. Em 2026, o
objetivo é mais profundo e mais perigoso: quebrar a governabilidade
democrática, independentemente do resultado das urnas.
A
advertência de João Cezar de Castro Rocha é direta. O que foi visto em 2018
será quase nada diante do que está sendo preparado. A nova fase combina
inteligência artificial, vídeos sintéticos, microsegmentação emocional e
ataques simultâneos às instituições.O plano mínimo é impedir a vitória no
primeiro turno. O plano máximo é transformar o segundo turno em um campo de
exaustão democrática, onde o processo eleitoral já nasce sob suspeita
permanente. Não se trata apenas de disputar a eleição, mas de deslegitimar
antecipadamente o vencedor.
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O alvo central é Lula
Nesse
cenário, STF, TSE e mídia voltam a ser alvos prioritários. Não por acaso. Sem
árbitros legítimos, a democracia se converte em conflito bruto. A extrema
direita aposta na corrosão institucional preventiva: se tudo é apresentado como
fraudulento, qualquer derrota vira golpe; qualquer vitória do adversário vira
usurpação.
O alvo
central dessa estratégia é Lula. O objetivo não é apenas derrotá-lo
eleitoralmente, mas impedir que governe, mesmo que vença. Um presidente
reeleito, porém, sitiado desde o primeiro dia, pressionado por campanhas de
ódio permanentes, Congresso hostil e opinião pública intoxicada por
desinformação.É a produção deliberada de um presidente pato manco, fabricado
antes mesmo da posse.
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Bolsonaro, Bannon, Trump: a mesma engrenagem
Não há
linha pontilhada aqui — há linha direta. Bolsonaro não foi um corpo estranho ao
bolsonarismo global: foi expressão local do método de Bannon, aplicado com
entusiasmo por Trump e adaptado às condições brasileiras. A retórica
antissistema, o ataque às instituições, a fabricação industrial de mentiras e o
flerte permanente com a ruptura democrática obedecem ao mesmo manual, operado
por redes internacionais que continuam ativas.O bolsonarismo não acabou porque
Bolsonaro perdeu. Ele persiste porque faz parte de uma arquitetura global de
poder que não depende de eleições para sobreviver.
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Democracia sob cerco
“Sem
medo de ser feliz” foi o slogan de um tempo em que eleições decidiam projetos
de país. Hoje, a disputa é mais elementar: se o voto ainda vale alguma coisa.
A
extrema direita globalista não precisa vencer para ganhar. Basta impedir que o
vencedor governe. Basta transformar a democracia em um ritual vazio,
permanentemente sabotado por dentro.
O
alerta de João Cezar de Castro Rocha não é retórico. É estratégico. Ou o Brasil
entende que enfrenta uma operação internacional de guerra política, ou seguirá
reagindo como se estivesse diante de episódios isolados.
Em
outubro, não estará em jogo apenas quem governa o país. O Brasil não escolherá
apenas um presidente. Escolherá se o voto continuará sendo instrumento de
soberania popular ou se será convertido em um rito vazio, cercado por mentiras
industriais, ódio organizado e uma extrema direita global que não reconhece
limites, não aceita derrotas e trabalha sistematicamente para transformar a
democracia em uma formalidade sitiada.
• Centrismo reacionário fortalece a
extrema-direita nos EUA e no Brasil. Por Benedito Tadeu César
No
artigo publicado no The Guardian, no dia 03 de fevereiro de 2026, intitulado
“Beware of ‘anti-woke’ liberals: they attacked the left and helped Trump win”
(Cuidado com os liberais ‘anti-woke’: eles atacaram a esquerda e ajudaram Trump
a vencer, em tradução livre), o cientista político alemão Jan-Werner Müller,
professor da Princeton University, lança uma advertência contundente aos que
ainda acreditam que a autoproclamada posição centrista representa equilíbrio e
racionalidade frente à polarização política. Em vez disso, Müller analisa como
esse suposto centrismo — particularmente na forma dos chamados “liberais
anti-woke” — serviu como combustível para a extrema-direita nos Estados Unidos,
contribuindo diretamente para a reeleição de Donald Trump em 2024.
A
ameaça autoritária não se fortalece apenas pela extrema-direita, mas também
pela ação — muitas vezes disfarçada de neutralidade — de setores do centro
político. É o que ele chama de centrismo reacionário.
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O que é o centrismo reacionário, segundo Müller?
Centrismo
reacionário é a postura política daqueles que se apresentam como “moderados”,
“equilibrados” ou “racionais” num espaço político polarizado, mas que na
prática atuam sistematicamente para deslegitimar a esquerda democrática,
normalizar a retórica da extrema-direita e enfraquecer as instituições que
sustentam o Estado de Direito.
Esses
atores — jornalistas, políticos, analistas, juristas — se dizem alheios aos
“radicalismos dos dois lados”, mas acabam criando uma falsa equivalência moral
entre quem defende a ampliação de direitos e quem ataca frontalmente a
democracia. Ao fazê-lo, deslocam o centro do debate público em direção à
direita e, sob o pretexto de combater “excessos identitários” ou o
“politicamente correto”, reforçam a agenda da reação conservadora.
Não se
trata, evidentemente, de impedir críticas aos setores progressistas ou aos
movimentos identitários. Essas críticas são legítimas — e necessárias — em uma
democracia viva. Adendando Müller, a agressividade rancorosa, muitas vezes
adotada por esses movimentos, precisa ser denunciada e combatida, pois afasta
possíveis e necessários aliados. O problema, como apontado pelo autor, está na
equiparação simplista e enganosa entre essas pautas e os projetos autoritários
de extrema-direita, como se reivindicar inclusão e justiça social fosse tão
“ameaçador” quanto flertar com o golpismo, o racismo e o negacionismo.
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A farsa do centro: como liberais “anti-woke” ajudaram Trump a vencer outra vez
Müller
sustenta que muitos desses liberais “anti-woke” passaram a atuar como
instrumentos da reação conservadora, ao reforçar de forma insistente a ideia de
que os principais perigos para a democracia viriam dos “excessos identitários”,
das pautas de justiça racial e de gênero, ou do que consideram a “ditadura do
politicamente correto”.
A
crítica de Müller vai além do conteúdo. Ele chama atenção para os efeitos
discursivos e políticos dessa posição: ao atribuírem o mesmo peso às pautas
progressistas e à retórica antidemocrática da direita, esses liberais acabam
legitimando o discurso conservador radical, inclusive suas tentativas de
silenciar minorias, restringir direitos e reverter avanços sociais.
O autor
aponta que, ao transformar disputas legítimas sobre diversidade, reparação
histórica e justiça social em “ameaças à liberdade de expressão”, os anti-woke
deslocam o centro de gravidade do debate público. Isso cria um ambiente de
falsa equivalência, no qual um presidente autoritário como Trump passa a ser
visto como uma reação “compreensível” ao “excesso progressista”.
Seu
argumento final é direto: em tempos de ameaça autoritária, a insistência de um
centro que ataca a esquerda democrática e contemporiza com a extrema-direita
não é moderação — é cumplicidade. A suposta objetividade do centro se dissolve
quando os valores democráticos deixam de ser linha de base inegociável e passam
a ser relativizados em nome da contenção do progressismo.
O
alerta de Müller é especialmente relevante em democracias em crise, como a
brasileira. Em um país onde forças autoritárias se reorganizam por dentro das
instituições, o papel do centro que não prioriza a garantia da democracia deixa
de ser o de mediação e passa a ser o de colaborador do retrocesso.
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A versão brasileira do centrismo reacionário
O caso
brasileiro confirma com nitidez o diagnóstico de Müller, com a diferença de que
o tema central para atacar a esquerda democrática não são as pautas
identitárias, mas a utilização de uma bandeira tradicional da extrema-direita:
a acusação de corrupção contra progressistas, que já foi feita contra outros
governos deste campo político, ainda que não de forma tão sistemática.
A
ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, como claro representante da
extrema-direita, não foi um acidente. Foi o produto de uma narrativa construída
— e amplamente veiculada pela grande imprensa — a partir da Operação Lava Jato
e da atuação de setores do Judiciário reunidos na chamada República de Curitiba
e suas ramificações no TRF4 e no STF. A corrupção foi transformada no mal
absoluto da política e, narrativamente, esse mal foi concentrado no PT.
De 2014
a 2018, de forma crescente, capas e editoriais de revistas e jornais como Veja,
O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo alimentaram regularmente a narrativa de
que o PT era o centro da corrupção nacional, enquanto poupavam outros partidos
— MDB, PSDB, DEM, PP, PL — mesmo diante de evidências semelhantes. O Judiciário
agia, a mídia amplificava e a opinião pública assimilava: o inimigo era o PT.
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Jornal Nacional: o “duto de propina” diário
O
Jornal Nacional desempenhou papel central nessa construção. Durante o auge da
Lava Jato, o telejornal da Rede Globo veiculava diariamente gráficos animados
que mostravam o suposto “duto de propina” ligando contratos públicos ao PT. A
repetição dessa imagem tornou-se um símbolo audiovisual da condenação moral e
política do partido — mesmo antes de julgamentos serem concluídos.
O
recurso à repetição — especialmente no horário nobre — criou uma verdade
midiática independente das provas e processos. O PT passou a ser percebido, não
como mais um entre os partidos envolvidos, mas como o partido da corrupção.
Essa repetição não informava: condenava previamente e fabricava um inimigo
político permanente.
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O padrão que persiste
A
lógica narrativa que se consolidou na Lava Jato não desapareceu — ela se
atualizou. Sempre que um parlamentar do PT é investigado ou denunciado, o nome
do partido aparece na manchete. Já em casos que envolvem figuras da direita ou
do Centrão, o partido raramente é citado ou é relativizado como um detalhe
irrelevante.
Essa
assimetria não é apenas estética — ela tem consequências políticas. Produz uma
opinião pública deformada, para a qual a corrupção é associada a um partido
político específico, enquanto os demais são percebidos como parte da
“normalidade” do sistema.
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O Caso Master e o ataque seletivo ao STF
O Caso
Master, em andamento, é um exemplo atual e eloquente dessa distorção. A
cobertura concentra-se quase exclusivamente no Supremo Tribunal Federal,
acusado de abuso de poder ou ativismo, mesmo quando age dentro dos limites de
sua prerrogativa constitucional. Em uma cruzada de ataques sistemáticos pela
grande imprensa, membro do STF que se destacou no julgamento e na condenação
dos golpistas de 8 de janeiro passou a ser questionado em sua integridade
pessoal, o mesmo se dá com magistrado deste tribunal que está investigando as
ações ilegais realizadas no âmbito da Operação Lava Jato.
Enquanto
isso, parlamentares e governadores aliados da extrema-direita e do Centrão,
fortemente implicados, são praticamente invisíveis na cobertura editorial. Mais
importante, para esses setores, do que denunciar os políticos da
extrema-direita e do Centrão que estão diretamente envolvidos em utilização de
recursos públicos para salvar banco de amigo, é atacar e questionar o SFT.
Exatamente a instituição da República que barrou o caminho da extrema-direita
golpista.
É
necessário dizer: a aprovação de um código de ética claro e público para o
Supremo Tribunal Federal é legítima e desejável. Assim como em outras cortes
constitucionais democráticas, a existência de mecanismos de transparência
fortalece a confiança social na instituição. No entanto, essa necessidade não
pode ser usada como cortina de fumaça para ataques sistemáticos à Corte nem
para enfraquecer sua autoridade constitucional. O desgaste da imagem do STF é,
neste caso, um subproduto de uma operação narrativa maior, que protege os
aliados do projeto reacionário e canaliza o descontentamento popular contra os
pilares institucionais do controle republicano e do equilíbrio entre os
poderes.
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Narrativas desiguais, efeitos duradouros
O
alerta de Müller ecoa forte no Brasil. O centrismo reacionário aqui — judicial,
midiático e político — abriu caminho para Bolsonaro, deslegitimou o PT e os
movimentos identitários como forças democráticas e segue corroendo as
instituições republicanas. Ao buscar “neutralidade”, atacando a esquerda e os
defensores republicanos da democracia e silenciando sobre os defensores do
autoritarismo, esses atores não apenas se omitem: participam ativamente da
destruição da democracia.
No
Brasil, os efeitos são duradouros: a crise de confiança nas instituições, o
desgaste seletivo do STF e a naturalização de figuras autoritárias como opções
legítimas de governo. A política é reduzida a um embate moral, e nesse palco, a
mídia define quem carrega o fardo do pecado e produz consequências que podem
ser nefastas no resultado das eleições.
Fonte:
Brasil 247

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