sábado, 7 de fevereiro de 2026

Gustavo Tapioca: A extrema direita global prepara o cerco às eleições brasileiras

A entrevista do crítico e analista João Cezar de Castro Rocha divulgada nesta quarta-feira, 4, pelo YouTube lança luz sobre um erro estratégico que a democracia brasileira insiste em repetir. Tratar a extrema direita como fenômeno local, episódico ou espontâneo. Os documentos associados ao caso Epstein, longe de serem apenas um escândalo moral, funcionam como mapa de uma engrenagem internacional de poder, onde circulam dinheiro, influência política, chantagem e guerra cultural.

Nesse teatro, o Brasil não é periferia. É campo de testes.

<><> O método global da extrema direita

A extrema direita do século XXI não se organiza como partido tradicional, mas como rede transnacional de influência política. Seu núcleo é a guerra cultural permanente. Ou seja, a destruição deliberada da noção de verdade factual, o ataque sistemático às instituições e a conversão do conflito político em espetáculo emocional contínuo.

O principal formulador desse método é Steve Bannon, que transformou a política em engenharia do caos. A lógica é simples e brutal. Inundar o espaço público com desinformação, escândalos, teorias conspiratórias e ataques pessoais até que nenhuma checagem seja capaz de conter o fluxo. O objetivo não é convencer, mas desorganizar cognitivamente a sociedade.

Essa estratégia foi aplicada com êxito nos Estados Unidos sob Donald Trump e rapidamente exportada. Plataformas digitais fornecem a infraestrutura; igrejas e influenciadores garantem capilaridade social; empresários financiam a operação; e operadores políticos fazem a adaptação local. Trata-se de um projeto global, com execução descentralizada.

Os documentos ligados ao caso Epstein ajudam a revelar o pano de fundo dessa engrenagem: redes internacionais de poder que operam fora do escrutínio público, atravessando fronteiras, regimes políticos e sistemas jurídicos. Não se trata de conspiração abstrata, mas de ecossistema real, que combina dinheiro, chantagem, impunidade e propaganda.

<><> O Brasil como laboratório

A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, não foi um acidente histórico nem um surto irracional do eleitorado. Foi a primeira grande vitória da extrema direita global fora do eixo EUA–Europa, construída a partir de guerra digital em larga escala.WhatsApp, fake news industriais, disparos ilegais, ataques coordenados à imprensa, ao STF e ao sistema eleitoral não foram excessos laterais. Foram métodos. O Brasil reuniu condições ideais: alta penetração de aplicativos fechados, ausência de regulação das plataformas e uma crise política profunda após 2016.

O erro decisivo foi tratar aquele processo como algo superado com a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022. A rede não se dissolveu. Ela se profissionalizou. Aprendeu com os erros, ampliou financiamento, refinou linguagem e passou a operar com maior sofisticação técnica e narrativa.

<><> De 2018 a 2026: a mutação da guerra digital

Em 2018, a desinformação tinha um objetivo central: ganhar votos. Em 2026, o objetivo é mais profundo e mais perigoso: quebrar a governabilidade democrática, independentemente do resultado das urnas.

A advertência de João Cezar de Castro Rocha é direta. O que foi visto em 2018 será quase nada diante do que está sendo preparado. A nova fase combina inteligência artificial, vídeos sintéticos, microsegmentação emocional e ataques simultâneos às instituições.O plano mínimo é impedir a vitória no primeiro turno. O plano máximo é transformar o segundo turno em um campo de exaustão democrática, onde o processo eleitoral já nasce sob suspeita permanente. Não se trata apenas de disputar a eleição, mas de deslegitimar antecipadamente o vencedor.

<><> O alvo central é Lula

Nesse cenário, STF, TSE e mídia voltam a ser alvos prioritários. Não por acaso. Sem árbitros legítimos, a democracia se converte em conflito bruto. A extrema direita aposta na corrosão institucional preventiva: se tudo é apresentado como fraudulento, qualquer derrota vira golpe; qualquer vitória do adversário vira usurpação.

O alvo central dessa estratégia é Lula. O objetivo não é apenas derrotá-lo eleitoralmente, mas impedir que governe, mesmo que vença. Um presidente reeleito, porém, sitiado desde o primeiro dia, pressionado por campanhas de ódio permanentes, Congresso hostil e opinião pública intoxicada por desinformação.É a produção deliberada de um presidente pato manco, fabricado antes mesmo da posse.

<><> Bolsonaro, Bannon, Trump: a mesma engrenagem

Não há linha pontilhada aqui — há linha direta. Bolsonaro não foi um corpo estranho ao bolsonarismo global: foi expressão local do método de Bannon, aplicado com entusiasmo por Trump e adaptado às condições brasileiras. A retórica antissistema, o ataque às instituições, a fabricação industrial de mentiras e o flerte permanente com a ruptura democrática obedecem ao mesmo manual, operado por redes internacionais que continuam ativas.O bolsonarismo não acabou porque Bolsonaro perdeu. Ele persiste porque faz parte de uma arquitetura global de poder que não depende de eleições para sobreviver.

<><> Democracia sob cerco

“Sem medo de ser feliz” foi o slogan de um tempo em que eleições decidiam projetos de país. Hoje, a disputa é mais elementar: se o voto ainda vale alguma coisa.

A extrema direita globalista não precisa vencer para ganhar. Basta impedir que o vencedor governe. Basta transformar a democracia em um ritual vazio, permanentemente sabotado por dentro.

O alerta de João Cezar de Castro Rocha não é retórico. É estratégico. Ou o Brasil entende que enfrenta uma operação internacional de guerra política, ou seguirá reagindo como se estivesse diante de episódios isolados.

Em outubro, não estará em jogo apenas quem governa o país. O Brasil não escolherá apenas um presidente. Escolherá se o voto continuará sendo instrumento de soberania popular ou se será convertido em um rito vazio, cercado por mentiras industriais, ódio organizado e uma extrema direita global que não reconhece limites, não aceita derrotas e trabalha sistematicamente para transformar a democracia em uma formalidade sitiada.

•        Centrismo reacionário fortalece a extrema-direita nos EUA e no Brasil. Por Benedito Tadeu César

No artigo publicado no The Guardian, no dia 03 de fevereiro de 2026, intitulado “Beware of ‘anti-woke’ liberals: they attacked the left and helped Trump win” (Cuidado com os liberais ‘anti-woke’: eles atacaram a esquerda e ajudaram Trump a vencer, em tradução livre), o cientista político alemão Jan-Werner Müller, professor da Princeton University, lança uma advertência contundente aos que ainda acreditam que a autoproclamada posição centrista representa equilíbrio e racionalidade frente à polarização política. Em vez disso, Müller analisa como esse suposto centrismo — particularmente na forma dos chamados “liberais anti-woke” — serviu como combustível para a extrema-direita nos Estados Unidos, contribuindo diretamente para a reeleição de Donald Trump em 2024.

A ameaça autoritária não se fortalece apenas pela extrema-direita, mas também pela ação — muitas vezes disfarçada de neutralidade — de setores do centro político. É o que ele chama de centrismo reacionário.

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<><> O que é o centrismo reacionário, segundo Müller?

Centrismo reacionário é a postura política daqueles que se apresentam como “moderados”, “equilibrados” ou “racionais” num espaço político polarizado, mas que na prática atuam sistematicamente para deslegitimar a esquerda democrática, normalizar a retórica da extrema-direita e enfraquecer as instituições que sustentam o Estado de Direito.

Esses atores — jornalistas, políticos, analistas, juristas — se dizem alheios aos “radicalismos dos dois lados”, mas acabam criando uma falsa equivalência moral entre quem defende a ampliação de direitos e quem ataca frontalmente a democracia. Ao fazê-lo, deslocam o centro do debate público em direção à direita e, sob o pretexto de combater “excessos identitários” ou o “politicamente correto”, reforçam a agenda da reação conservadora.

Não se trata, evidentemente, de impedir críticas aos setores progressistas ou aos movimentos identitários. Essas críticas são legítimas — e necessárias — em uma democracia viva. Adendando Müller, a agressividade rancorosa, muitas vezes adotada por esses movimentos, precisa ser denunciada e combatida, pois afasta possíveis e necessários aliados. O problema, como apontado pelo autor, está na equiparação simplista e enganosa entre essas pautas e os projetos autoritários de extrema-direita, como se reivindicar inclusão e justiça social fosse tão “ameaçador” quanto flertar com o golpismo, o racismo e o negacionismo.

<><> A farsa do centro: como liberais “anti-woke” ajudaram Trump a vencer outra vez

Müller sustenta que muitos desses liberais “anti-woke” passaram a atuar como instrumentos da reação conservadora, ao reforçar de forma insistente a ideia de que os principais perigos para a democracia viriam dos “excessos identitários”, das pautas de justiça racial e de gênero, ou do que consideram a “ditadura do politicamente correto”.

A crítica de Müller vai além do conteúdo. Ele chama atenção para os efeitos discursivos e políticos dessa posição: ao atribuírem o mesmo peso às pautas progressistas e à retórica antidemocrática da direita, esses liberais acabam legitimando o discurso conservador radical, inclusive suas tentativas de silenciar minorias, restringir direitos e reverter avanços sociais.

O autor aponta que, ao transformar disputas legítimas sobre diversidade, reparação histórica e justiça social em “ameaças à liberdade de expressão”, os anti-woke deslocam o centro de gravidade do debate público. Isso cria um ambiente de falsa equivalência, no qual um presidente autoritário como Trump passa a ser visto como uma reação “compreensível” ao “excesso progressista”.

Seu argumento final é direto: em tempos de ameaça autoritária, a insistência de um centro que ataca a esquerda democrática e contemporiza com a extrema-direita não é moderação — é cumplicidade. A suposta objetividade do centro se dissolve quando os valores democráticos deixam de ser linha de base inegociável e passam a ser relativizados em nome da contenção do progressismo.

O alerta de Müller é especialmente relevante em democracias em crise, como a brasileira. Em um país onde forças autoritárias se reorganizam por dentro das instituições, o papel do centro que não prioriza a garantia da democracia deixa de ser o de mediação e passa a ser o de colaborador do retrocesso.

<><> A versão brasileira do centrismo reacionário

O caso brasileiro confirma com nitidez o diagnóstico de Müller, com a diferença de que o tema central para atacar a esquerda democrática não são as pautas identitárias, mas a utilização de uma bandeira tradicional da extrema-direita: a acusação de corrupção contra progressistas, que já foi feita contra outros governos deste campo político, ainda que não de forma tão sistemática.

A ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, como claro representante da extrema-direita, não foi um acidente. Foi o produto de uma narrativa construída — e amplamente veiculada pela grande imprensa — a partir da Operação Lava Jato e da atuação de setores do Judiciário reunidos na chamada República de Curitiba e suas ramificações no TRF4 e no STF. A corrupção foi transformada no mal absoluto da política e, narrativamente, esse mal foi concentrado no PT.

De 2014 a 2018, de forma crescente, capas e editoriais de revistas e jornais como Veja, O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo alimentaram regularmente a narrativa de que o PT era o centro da corrupção nacional, enquanto poupavam outros partidos — MDB, PSDB, DEM, PP, PL — mesmo diante de evidências semelhantes. O Judiciário agia, a mídia amplificava e a opinião pública assimilava: o inimigo era o PT.

<><> Jornal Nacional: o “duto de propina” diário

O Jornal Nacional desempenhou papel central nessa construção. Durante o auge da Lava Jato, o telejornal da Rede Globo veiculava diariamente gráficos animados que mostravam o suposto “duto de propina” ligando contratos públicos ao PT. A repetição dessa imagem tornou-se um símbolo audiovisual da condenação moral e política do partido — mesmo antes de julgamentos serem concluídos.

O recurso à repetição — especialmente no horário nobre — criou uma verdade midiática independente das provas e processos. O PT passou a ser percebido, não como mais um entre os partidos envolvidos, mas como o partido da corrupção. Essa repetição não informava: condenava previamente e fabricava um inimigo político permanente.

<><> O padrão que persiste

A lógica narrativa que se consolidou na Lava Jato não desapareceu — ela se atualizou. Sempre que um parlamentar do PT é investigado ou denunciado, o nome do partido aparece na manchete. Já em casos que envolvem figuras da direita ou do Centrão, o partido raramente é citado ou é relativizado como um detalhe irrelevante.

Essa assimetria não é apenas estética — ela tem consequências políticas. Produz uma opinião pública deformada, para a qual a corrupção é associada a um partido político específico, enquanto os demais são percebidos como parte da “normalidade” do sistema.

<><> O Caso Master e o ataque seletivo ao STF

O Caso Master, em andamento, é um exemplo atual e eloquente dessa distorção. A cobertura concentra-se quase exclusivamente no Supremo Tribunal Federal, acusado de abuso de poder ou ativismo, mesmo quando age dentro dos limites de sua prerrogativa constitucional. Em uma cruzada de ataques sistemáticos pela grande imprensa, membro do STF que se destacou no julgamento e na condenação dos golpistas de 8 de janeiro passou a ser questionado em sua integridade pessoal, o mesmo se dá com magistrado deste tribunal que está investigando as ações ilegais realizadas no âmbito da Operação Lava Jato.

Enquanto isso, parlamentares e governadores aliados da extrema-direita e do Centrão, fortemente implicados, são praticamente invisíveis na cobertura editorial. Mais importante, para esses setores, do que denunciar os políticos da extrema-direita e do Centrão que estão diretamente envolvidos em utilização de recursos públicos para salvar banco de amigo, é atacar e questionar o SFT. Exatamente a instituição da República que barrou o caminho da extrema-direita golpista.

É necessário dizer: a aprovação de um código de ética claro e público para o Supremo Tribunal Federal é legítima e desejável. Assim como em outras cortes constitucionais democráticas, a existência de mecanismos de transparência fortalece a confiança social na instituição. No entanto, essa necessidade não pode ser usada como cortina de fumaça para ataques sistemáticos à Corte nem para enfraquecer sua autoridade constitucional. O desgaste da imagem do STF é, neste caso, um subproduto de uma operação narrativa maior, que protege os aliados do projeto reacionário e canaliza o descontentamento popular contra os pilares institucionais do controle republicano e do equilíbrio entre os poderes.

<><> Narrativas desiguais, efeitos duradouros

O alerta de Müller ecoa forte no Brasil. O centrismo reacionário aqui — judicial, midiático e político — abriu caminho para Bolsonaro, deslegitimou o PT e os movimentos identitários como forças democráticas e segue corroendo as instituições republicanas. Ao buscar “neutralidade”, atacando a esquerda e os defensores republicanos da democracia e silenciando sobre os defensores do autoritarismo, esses atores não apenas se omitem: participam ativamente da destruição da democracia.

No Brasil, os efeitos são duradouros: a crise de confiança nas instituições, o desgaste seletivo do STF e a naturalização de figuras autoritárias como opções legítimas de governo. A política é reduzida a um embate moral, e nesse palco, a mídia define quem carrega o fardo do pecado e produz consequências que podem ser nefastas no resultado das eleições.

 

Fonte: Brasil 247

 

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