O
racismo estrutural e como ele organiza a sociedade brasileira
O
debate sobre racismo estrutural tem crescido no Brasil nos últimos anos, mas
ainda encontra resistência, confusão e ataques intencionais. Muitas vezes, o
termo é criticado como se fosse uma acusação pessoal ou uma forma de minimizar
crimes racistas.
Mas
entender o que é racismo estrutural é fundamental para compreender por que as
desigualdades raciais continuam existindo no país, mesmo depois do fim da
escravidão e apesar de existirem leis que garantem igualdade para todos.
Falar
em racismo estrutural não significa negar que existe preconceito individual. É
reconhecer que o racismo funciona de forma mais profunda, invisível e
constante, moldando instituições, políticas públicas, relações entre as pessoas
e as oportunidades que cada um tem na vida.
É um
fenômeno que vem da história, da política e da economia, que passa de geração
em geração e organiza a sociedade brasileira. E aqui vamos entender como isso
aconteceu, quem são os pensadores que debatem sobre
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O que é racismo estrutural?
O
racismo estrutural é o conjunto de práticas, regras, valores e sistemas que
criam e mantêm desigualdades raciais de forma contínua. Diferente do racismo,
visto apenas como atitude pessoal, ele não precisa de intenção consciente de
discriminar para causar efeitos reais.
Como
explicam diversos estudos, o racismo estrutural existe quando a própria
organização da sociedade beneficia certos grupos raciais e prejudica outros.
Ele aparece no mercado de trabalho, na educação, na segurança pública, na
distribuição de renda, no acesso à saúde e na representação política.
Dessa
forma, o racismo é estrutural justamente porque está incorporado nas regras do
jogo social, tornando-se quase invisível, mas com consequências muito visíveis
na vida da população negra.
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Racismo estrutural no Brasil pós-escravidão
No
Brasil, o racismo estrutural está diretamente ligado à forma como aconteceu a
abolição da escravidão: sem nenhuma política de integração, reparação ou
inclusão social da população negra liberta.
Após
1888, a sociedade se reorganizou mantendo os mesmos privilégios raciais de
antes, só que agora sustentados por mecanismos que parecem neutros e
imparciais, mas que na prática continuam profundamente desiguais.
Ex-escravizados
foram abandonados à própria sorte, sem terra, sem educação, sem trabalho formal
ou qualquer tipo de apoio do Estado. Enquanto isso, imigrantes europeus
recebiam incentivos e oportunidades.
Essa
diferença de tratamento criou as bases da desigualdade racial que persiste até
hoje.
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Racismo além do preconceito individual
Reduzir
o racismo a atos individuais de preconceito é uma forma de invisibilizar suas
dimensões mais profundas. Quando o debate se limita a identificar “pessoas
racistas”, perde-se a capacidade de analisar como práticas institucionais
reproduzem desigualdade mesmo sem declarações explícitas de ódio racial.
O
racismo estrutural opera, por exemplo, quando processos seletivos favorecem
determinados perfis sociais, quando currículos escolares silenciam a história
negra ou quando políticas de segurança pública tratam determinados territórios
como zonas de exceção.
Isso
não significa que atitudes individuais não importem, mas que elas são apenas a
superfície de um problema muito maior. Um dos aspectos mais perversos do
racismo estrutural é, justamente, sua capacidade de se tornar invisível.
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Racismo estrutural nas instituições
O
racismo estrutural se manifesta claramente nas instituições brasileiras. Isso
inclui escolas, empresas, sistema de justiça, polícia, sistema de saúde e meios
de comunicação. Mesmo quando não existe uma política explícita de
discriminação, os resultados das ações institucionais revelam padrões raciais
consistentes e graves. Não é por acaso que quase 85% da população preta afirma
ter sofrido discriminação racial no país.
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No mercado de trabalho
A renda
média dos trabalhadores negros é 40% inferior à dos não negros, de acordo com
dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mesmo
quando negros alcançam o ensino superior, ganham 32% a menos que trabalhadores
brancos com o mesmo nível de escolaridade. Nos cargos de diretores e gerentes,
negros ganham 34% menos que brancos, e enquanto 17,7% das pessoas brancas
ocupam cargos de diretoria e gerência, entre negros esse número cai para apenas
8,6%.
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Na educação
Apenas
50% das pessoas negras de 25 anos ou mais concluíram o ensino básico em 2024,
contra 63,4% das pessoas brancas, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (PNAD) Contínua. Essa diferença começa cedo: crianças negras têm
menos acesso a creches do que crianças brancas, e homens negros têm, em média,
1,6 ano a menos de estudo que homens brancos.
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Na segurança pública
De
acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024, 79% das 44.127
mortes violentas intencionais no Brasil tiveram vítimas negras. A cada dez
pessoas mortas pela polícia, oito eram negras.
Pessoas
negras também são vítimas de homicídio com uma frequência 4 vezes maior do que
pessoas não negras, mostra estudo da USP.
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Na saúde
Já em
2022, a mortalidade materna de mulheres pretas foi de 100,38 óbitos para cada
100 mil nascidos vivos, mais que o dobro da mortalidade de mulheres brancas.
Somado a isso, um estudo do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdade Racial
(Cedra) mostrou que a estrutura racista do país resulta também na desigualdade
de acesso a serviços de saúde — no Brasil, 28% da população negra nunca foi ao
dentista ou não consulta um profissional há mais de três anos, já entre os
brancos, o número é de 20,1%.
Esses
números não são coincidência nem resultado apenas de escolhas individuais.
São
consequências de um sistema que privilegia sistematicamente pessoas brancas em
detrimento de pessoas negras, perpetuando desigualdades que vêm desde a
escravidão.
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Racismo estrutural e o Estado brasileiro
Em um
marco importante, em 2025 o Supremo Tribunal Federal reconheceu, por
unanimidade, a existência do racismo estrutural no Brasil. A decisão representa
um avanço simbólico e jurídico, ao afirmar que o Estado não pode ignorar a
dimensão estrutural do problema.
Apesar
da lei contra o racismo ter sido estabelecida em 1989 com a Lei nº 7.716 e ter
sido um marco importante na criminalização do racismo no país, uma atualização
trouxe as injúrias para um lugar mais próximo da realidade dos dias modernos.
Em
2023, a Lei 14.532/23, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
atualizou a legislação anterior porque tornou a injúria racial inafiançável,
equiparando-a ao crime de racismo, além de dobrar a pena se o crime for
cometido por mais de uma pessoa.
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Diferença entre injúria e racismo
Embora
a lei de 2023 tenha equiparado injúria racial e racismo em termos de punição,
eles continuam sendo crimes diferentes na prática.
A
injúria racial acontece quando alguém ofende a honra de uma pessoa específica
usando palavras ou atos racistas. Por exemplo: um torcedor que chama um jogador
negro de “macaco” durante uma partida, ou alguém que usa xingamentos racistas
contra uma pessoa durante uma discussão no trânsito.
Já o
racismo ocorre quando a discriminação é dirigida a um grupo inteiro de pessoas.
Por exemplo: uma empresa que proíbe pessoas negras de se candidatarem a vagas
de emprego, ou ataques contra praticantes de religiões de matriz africana como
a Umbanda.
A
principal diferença está no alvo: injúria racial atinge uma pessoa individual,
enquanto racismo atinge uma coletividade.
Atualmente,
ambos os crimes têm a mesma pena – reclusão de 2 a 5 anos e multa, são
imprescritíveis (podem ser julgados a qualquer tempo, sem prazo limite) e
inafiançáveis (não é possível pagamento de fiança para responder em liberdade).
A pena pode ser aumentada em situações específicas, como quando o crime é
cometido por mais de uma pessoa ou em contextos de lazer e esporte.
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Como o racismo organiza a sociedade
O
racismo estrutural organiza quem ocupa os espaços sociais. No Brasil, a
população negra está representada em trabalhos informais, mal remunerados e com
baixa proteção social, enquanto permanece pouco representada em cargos de
liderança, espaços acadêmicos e posições de poder político.
Porém,
o próprio espaço urbano também é atravessado pelo racismo estrutural. A
segregação territorial empurra populações negras para regiões com menor acesso
a serviços públicos, transporte, lazer e segurança.
A
distância entre moradia e trabalho, por exemplo, impacta diretamente a
qualidade de vida e as oportunidades econômicas. E, claro, essa dinâmica acaba
reforçando ciclos de pobreza e exclusão social que se perpetuam ao longo das
gerações.
O
racismo estrutural não é um conceito abstrato nem uma teoria distante da
realidade cotidiana. Ele está presente nas estatísticas, nas trajetórias de
vida, nas oportunidades negadas e nas violências naturalizadas.
Como
vimos, não se trata apenas de atitudes individuais ou ofensas pontuais, mas de
um sistema que organiza a sociedade brasileira de forma desigual, definindo
quem tem acesso a direitos, proteção, renda, educação e poder – e quem é
excluído desses espaços.
Punir
indivíduos que cometem crimes racistas é uma emergência, mas está longe de ser
suficiente.
Enquanto
as estruturas que produzem desigualdade permanecerem intactas, o racismo
continuará se reproduzindo, mesmo que mude de forma ou de discurso. Enfrentar o
racismo estrutural exige reflexão crítica, formação política, produção de
conhecimento e compromisso coletivo com a transformação social.
É
justamente nesse ponto que a educação crítica se torna fundamental.
• Colégio de elite do Rio é condenado por
omissão no combate ao racismo escolar
A
Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ) obteve no Tribunal de
Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) a condenação do Colégio Franco, na zona sul
da cidade, por falhas no enfrentamento a práticas racistas ocorridas em seu
ambiente escolar.
A
decisão reconheceu a omissão da instituição, a inadequação do serviço
educacional prestado e a existência de dano moral coletivo, fixando indenização
no valor de R$ 80 mil, além da imposição de medidas voltadas à prevenção de
novas violações.
O caso
teve início após uma estudante de 14 anos passar a sofrer ofensas racistas,
intimidações e humilhações, episódios que foram comunicados reiteradas vezes à
direção da escola. A menina, Ndeye Fatou Ndiaye, foi xingada e humilhada por
ser negra.
Mesmo
ciente das denúncias, a instituição limitou-se a adotar providências formais,
sem a implementação de medidas pedagógicas eficazes ou ações contínuas de
enfrentamento ao racismo.
Em
2020, novos ataques de cunho racista vieram a público por meio de mensagens
trocadas entre alunos em grupos de WhatsApp, gerando ampla repercussão
nacional.
Após a
divulgação do conteúdo, o colégio passou a adotar providências mais
consistentes. Para a Defensoria Pública, a mudança de postura evidenciou que,
até então, não havia resposta institucional adequada às práticas
discriminatórias.
A ação
civil pública foi ajuizada conjuntamente pela Defensoria Pública e pelo
Ministério Público. Entre os pedidos apresentados estavam a condenação por dano
moral coletivo, a adoção de políticas institucionais permanentes de
enfrentamento ao racismo, a criação de protocolos pedagógicos
antidiscriminatórios e a implementação de medidas de proteção à comunidade
escolar.
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Racismo no ambiente escolar
Ao
analisar o recurso da Defensoria, o TJ-RJ reconheceu que o racismo no ambiente
escolar ultrapassa a esfera individual, atingindo toda a coletividade e a
comunidade escolar como um todo, o que justifica a condenação por dano moral
coletivo.
Foram
mantidos apenas os pontos da sentença que haviam rejeitado os pedidos
relacionados à política de cotas, ao fornecimento de material escolar e à
divulgação da decisão na imprensa.
Durante
o julgamento, a Defensoria Pública realizou sustentação oral e ressaltou a
importância do reconhecimento da responsabilidade institucional das escolas
diante de situações reiteradas de discriminação racial, destacando o papel da
educação na promoção da igualdade e no enfrentamento ao racismo estrutural.
Fonte:
ICL Notícias

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