A
crise da ONU e a desordem do mundo
Em 24
de outubro de 2025, completaram-se 80 anos da entrada em vigor da Carta das
Nações Unidas, cujos 111 artigos estabelecem os princípios fundamentais e as
principais normas de funcionamento da Organização das Nações Unidas (ONU): algo
como a Constituição de uma nação. Esta data é tradicionalmente considerada como
a do nascimento da Organização e, num sentido mais amplo, do sistema
multilateral contemporâneo.
Trata-se
de um marco notável, que quase nenhuma outra organização internacional
conseguiu alcançar; a antecessora direta da ONU, a Sociedade das Nações, por
exemplo, durou na prática menos de 20 anos (de 1920 a 1939, embora só tenha
sido oficialmente dissolvida em 1946). Mas, ao contrário dos aniversários
anteriores de 50, 60 e 70 anos, desta vez o ambiente não foi festivo nem de
comemoração.
O
secretário-geral da ONU, o português António Guterres, gravou uma mensagem de
tom sombrio. “Levamos 80 anos trabalhando para forjar a paz, combater a pobreza
e a fome, promover os direitos humanos e construir um mundo mais sustentável”,
disse ele, antes de acrescentar: “Olhando para o futuro, enfrentamos desafios
de magnitude assombrosa: conflitos crescentes, caos climático, tecnologias
descontroladas e ameaças ao próprio tecido da nossa instituição”.
Uma
semana antes, António Guterres tinha sido ainda mais explícito. Falando diante
da Quinta Comissão da Assembleia Geral da ONU, que se ocupa da administração da
organização, ele tinha alertado que esta se encontrava numa “corrida para a
falência”. Ele referia-se a uma falência financeira.
Ao
longo de todo o ano de 2025, o congelamento das contribuições dos Estados
Unidos, determinado após o retorno de Donald Trump à Casa Branca, e o atraso
nos pagamentos por parte de outros grandes países, como China e Rússia, criaram
uma ausência dramática e sem precedentes de recursos em todo o chamado Sistema
das Nações Unidas, o conjunto de cerca de 50 agências, fundos, programas e
escritórios especializados que, ao longo das décadas, surgiram em torno da
Secretaria (a estrutura central, com sede em Nova Iorque, que abriga o
secretário-geral, a Assembleia Geral e seus órgãos, o Conselho de Segurança e
os vários departamentos responsáveis por assuntos políticos e econômicos,
missões de paz, comunicação, etc.).
No
entanto, a crise mais grave da ONU é sobretudo política e, neste caso, a
falência parece ser a de sua legitimidade, hoje abertamente questionada pelos
EUA, a superpotência mundial que há 80 anos impulsionou com mais força sua
criação.
Os EUA
começaram a planejar uma nova organização internacional já no final de 1939,
quando a Segunda Guerra Mundial tinha acabado de começar e o país ainda estava
longe de entrar na guerra. O presidente Franklin D. Roosevelt autorizou o então
secretário de Estado, Cordell Hull, a iniciar estudos secretos dentro do
Departamento de Estado, com o objetivo de projetar um novo sistema de segurança
internacional após o fim da guerra.
Um
jornalista e economista nascido no antigo Império Russo, numa família judaica
anticzarista que emigrou para os EUA no início do século XX, Leo Pasvolsky, foi
o principal animador do projeto secreto e quem redigiu o rascunho da Carta
fundacional. O nascimento da ONU, em 1945, foi um “ato de criação” deliberado
por parte de um pequeno grupo de responsáveis políticos estadunidenses e
aliados que aprenderam com o fracasso da Sociedade das Nações e conceberam uma
instituição que equilibrava os privilégios das potências vencedoras com uma
participação mais ampla e formalmente igualitária dos restantes países.
A Carta
das Nações Unidas, aprovada na Conferência de São Francisco (abril-junho de
1945), resultou assim de uma mistura de idealismo (“preservar as gerações
futuras do flagelo da guerra”, afirmar os “direitos humanos fundamentais” e
reconhecer a “autodeterminação dos povos”, o que facilitaria o caminho para os
processos de descolonização) e realismo duro (principalmente, através do
direito de veto garantido aos cinco membros permanentes do Conselho de
Segurança: EUA, União Soviética, Reino Unido, França e China).
Na
visão original de Franklin D. Roosevelt, após a vitória contra o nazifascismo,
a paz seria garantida pela ação de “quatro polícias” globais, cada uma das
quais manteria a ordem em sua respectiva zona de influência (o Reino Unido em
suas colônias e na Europa Ocidental, a URSS na Europa Oriental e na massa
continental euroasiática central, a China na Ásia Oriental e no Pacífico
Ocidental e os EUA no hemisfério ocidental).
Mas
quando o conflito mundial terminou (e Harry Truman assumiu a presidência dos
EUA após a morte de Franklin D. Roosevelt, em abril de 1945), a realidade já
era outra: anunciava-se a Guerra Fria entre os EUA e a URSS, o Reino Unido
estava economicamente de joelhos e a China era sacudida pela guerra civil, que
culminaria com a vitória da revolução comunista. Assim, em seu início, a ONU
era, na verdade, pouco mais do que uma ferramenta da política externa de
Washington. Dos 51 países fundadores (entre os quais havia 20 latino-americanos
e caribenhos), 42 eram aliados dos EUA, que, por sua vez, garantiam pouco menos
de 40% do financiamento da organização (a percentagem baixou para 33% em 1955,
para 25% em 1974 e, finalmente, para 22% a partir de 2001).
A
situação mudou gradualmente com o processo de descolonização na África e na
Ásia. Em 1965, os Estados-membros da ONU já eram 117 e a organização tornara-se
um campo de enfrentamento geopolítico entre o bloco ocidental e seus aliados, o
bloco soviético e seus satélites, e um número crescente de países não
alinhados. A campanha contra o regime de apartheid na África do Sul, por
exemplo, foi levada adiante pela Assembleia Geral da ONU desde a década de
1960, apesar da proteção política que o Reino Unido e os EUA ofereciam no
Conselho de Segurança.
Com o
aumento constante do número de países membros (que chegaram a 193 em 2011), a
dinâmica de funcionamento da Assembleia Geral (na qual cada país tem um voto,
independentemente de sua população e de seu PIB) e a crescente influência da
sociedade civil global, a ONU desenvolveu progressivamente uma relativa
independência dos países individuais, incluindo os membros permanentes do
Conselho de Segurança (os chamados P5).
O
âmbito de intervenção da ONU foi alargando-se gradualmente, passando de um
mandato inicial centrado exclusivamente na prevenção de conflitos para uma
agenda centrada no desenvolvimento sustentável, na proteção dos direitos
humanos, na luta contra a crise climática e na redução das desigualdades
econômicas, sociais e de gênero. Trata-se de uma agenda essencialmente
progressista e cosmopolita que tem colocado a ONU cada vez mais em conflito com
os EUA e com todos os governos autoritários e de extrema direita.
O
governo do presidente Jimmy Carter (1977-1981) foi o último a pagar
integralmente e dentro do prazo estabelecido as cotas de financiamento devidas
à ONU. O de Ronald Reagan (1981-1989), promotor da exportação da
contrarrevolução neoliberal em escala mundial, foi muito influenciado por think
tanks conservadores como a Heritage Foundation, que considerava a ONU um braço
propagandístico da URSS, hostil ao capitalismo e trampolim para o radicalismo
do Terceiro Mundo.
A
Heritage Foundation propôs que os EUA reafirmassem seu controle sobre a
organização, condicionando o pagamento de suas contribuições à realização de
certas “reformas” em seu funcionamento, ou simplesmente recusando-se a pagar
por programas que considerava questionáveis. No final do mandato de Ronald
Reagan, Washington devia à ONU contribuições atrasadas num total de 495 milhões
de dólares, equivalentes a cerca de 1,2 bilhão de dólares atuais.
Depois
de Ronald Reagan, nenhum governo estadunidense, nem democrata nem republicano,
pagou integralmente as cotas em atraso, e as relações com a ONU continuam
complicadas e tendencialmente conflituosas. Antes dos enfrentamentos com Donald
Trump, um dos momentos de maior atrito ocorreu durante a presidência do
democrata Bill Clinton, que, em 1996, vetou a reeleição para um segundo mandato
do então secretário-geral, o diplomata egípcio Boutros Boutros-Ghali.
Os
funcionários estadunidenses justificaram a decisão alegando uma “perda de
confiança” na capacidade de Boutros-Ghali para reformar a ONU, apontando os
desacordos sobre as missões dos Capacetes Azuis na Bósnia, Somália e Ruanda, e
sua pressão sobre Washington para o pagamento de mais de 1 bilhão de dólares em
contribuições atrasadas.
Oito
anos depois, em 2004, sob o mandato de George W. Bush, o presidente, o
Congresso e os meios de comunicação conservadores dos EUA lançaram uma violenta
campanha de difamação contra o então secretário-geral, Kofi Annan, um dos
chefes mais brilhantes e respeitados de toda a história da ONU, pedindo sua
destituição após acusá-lo de ter acobertado um escândalo de corrupção no
programa Petróleo por Alimentos no Iraque. Na verdade, Kofi Annan pagou o preço
por opor-se à invasão estadunidense do Iraque em 2003, definindo-a como ilegal
por não ter sido aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU.
No
entanto, apesar dos conflitos e tensões, durante um quarto de século, entre o
fim da Guerra Fria e meados da década de 2010, os EUA e seus aliados europeus
seguiram considerando o sistema multilateral construído em torno da ONU como um
instrumento útil para alcançar objetivos diplomáticos globais.
Em
2005, numa cúpula mundial convocada por ocasião do 60.º aniversário da
organização, a Assembleia Geral aprovou a histórica Resolução 60/01, que
atualizou a missão da ONU em relação a seu mandato original, afirmando que “a
paz e a segurança, o desenvolvimento e os direitos humanos são os pilares do
sistema das Nações Unidas e os fundamentos da segurança coletiva e do
bem-estar” e que “o desenvolvimento, a paz e a segurança e os direitos humanos
estão interligados e reforçam-se mutuamente”.
A
resolução também criou o Conselho de Direitos Humanos e sancionou o princípio
da “responsabilidade de proteger as populações do genocídio, crimes de guerra,
limpeza étnica e crimes contra a humanidade”. Dez anos depois, no final de
2015, em seu 70.º aniversário, a ONU conseguiu a aprovação unânime de dois
marcos históricos: a Agenda 2030 (um plano global para orientar o
desenvolvimento sustentável até 2030 através de 17 Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável e 169 metas que integram as dimensões econômica, social e
ambiental, com o objetivo de erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir
prosperidade e paz para todas as pessoas) e o Acordo de Paris, com o objetivo
de tentar limitar as emissões de gases de efeito estufa e o consequente
aquecimento global. Este foi, possivelmente, o canto de cisne do
multilateralismo que surgiu da Segunda Guerra Mundial.
Em
2016, dois acontecimentos eleitorais – o referendo no Reino Unido que decidiu a
saída da União Europeia (Brexit) e a eleição de Donald Trump – marcariam o
início de uma fase histórica de “interregno”, no sentido sugerido por Antonio
Gramsci: a crise consiste no fato de que o velho morre e o novo ainda não pode
nascer; nesse intervalo, ocorrem os mais variados fenômenos mórbidos. Este foi
também o ano do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff no Brasil, que abriu
caminho para a eleição de Jair Bolsonaro dois anos depois e, de fato, encerrou
a fase ascendente da “maré rosa” dos governos progressistas na América Latina.
A nova
fase histórica caracteriza-se pelo peso crescente da extrema direita na cena
mundial, pela crise das democracias liberais nos países ocidentais, pela
degradação generalizada dos direitos humanos, pelo colapso da globalização
comercial, pela explosão da desigualdade econômica e da influência política dos
multimilionários, pelo agravamento da emergência climática, o grande
crescimento dos fluxos migratórios e a deterioração progressiva da segurança
internacional, com a multiplicação de conflitos e violações constantes do
direito internacional, muitas vezes por parte dos próprios membros permanentes
do Conselho de Segurança da ONU.
O uso
(ou a ameaça de uso) da força bruta do poder militar voltou a ser o principal
instrumento das relações internacionais. Do diálogo e da negociação,
ferramentas-chave do multilateralismo, voltou-se ao unilateralismo da ação
militar. Não se trata apenas do sequestro do presidente venezuelano Nicolás
Maduro numa ação militar dos EUA, da agressão russa contra a Ucrânia ou da
aniquilação de Gaza e de seus habitantes por parte de Israel, com a proteção e
ajuda dos EUA e da Europa Ocidental, embora estas crises tenham evidenciado a
marginalização política da ONU e a impotência do Conselho de Segurança,
paralisado pelos vetos cruzados dos países com direito a veto.
De
acordo com um estudo do Conflict Data Program da Universidade de Uppsala
(UCDP), em 2024 ocorreu o maior número de conflitos com participação de atores
estatais desde 1946: foram registrados 61 conflitos, que afetaram 36 países
diferentes.
Fonte:
A Terra é Redonda

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