Keynes
e o keynesianismo militarista
O
próprio Keynes teria ficado deprimido, mas não surpreso com a facilidade com
que o fervor da guerra pode ser alimentado para racionalizar políticas
keynesianas que, de outra forma, seriam descartadas...
Neste
post, chamo atenção para o uso indevido da teoria de Keynes para justificar o
rearmamento, algo que denomino de “keynesianismo militarista”. Em outras
postagem, chamei atenção para o perigo das guerras imaginárias, não apenas para
justificar aumentos nos gastos militares, mas para conduzir guerras reais num
processo de escalada. Denomino, por isso, a guerra imaginária contra a Rússia
ou a China de cena paranoica.
A
economia de John Maynard Keynes (1883–1946) foi construída com base em sua
filosofia. A economia era o meio para alcançar a vida boa, não para garantir a
boa vida. O gênio próprio de Keynes era prático; o seu modo de encarar os
acontecimentos de sua época conspiraram para mantê-lo preocupado com os meios
para alcançá-la. No entanto, a sua crítica à economia de sua época sempre
esteve perpassada por seus compromissos filosóficos e isso é mais evidente no
tratamento que deu ao dinheiro.
Na
economia da época de Keynes, o dinheiro era visto como um meio que torna a
troca mais eficiente; não passa de “mera invenção para facilitar a circulação
dos produtos” como escreveu John Stuart Mill. Produz esse resultado por ser uma
régua” ou uma vara que mede os preços das mercadorias. Para que se mantenha
como uma medida confiável de valor, o valor do dinheiro precisa ser estável.
Era função dos banqueiros centrais manter uma relação fixa entre a oferta de
papel-moeda e a oferta de ouro. Essa foi a teoria que John Maynard Keynes
herdou quando começou a dar aulas sobre economia, em 1909. As pessoas adquirem
dinheiro, explicava aos alunos, apenas para se livrarem dele o mais rápido
possível.
No
entanto, em 1933, ele faria a surpreendente afirmação de que o dinheiro, longe
de ser aquela coisa insignificante dos economistas clássicos, desempenha “um
papel especial” no drama econômico. É ao mesmo tempo dador de vida e vampiro,
bombeador de sangue para a vida econômica e sugador que lhe tira essa vida.
Ao
fazer essa afirmação, Keynes ressaltou a distinção entre dinheiro como meio de
troca e dinheiro como reserva de valor. A economia padrão de sua época dava
muito pouco importância a esse ponto crucial. Como boa parte do consumo ocorre
necessariamente de forma “irregular” no tempo, poupar parece ser uma forma de
suavizar o consumo ao longo do tempo. Keynes mudou essa teoria. Ele substituiu
a função de “reserva de valor” do dinheiro por uma “demanda para guardá-lo” a
qual se mostrava independente de qualquer desejo de comprar bens produzidos,
presentes ou futuros.
Em The
Treatise on Money (1930), Keynes dividiu os fluxos de dinheiro em duas
esferas de circulação, a “industrial” e a “financeira”. A primeira mantém “o
processo normal de produção corrente, distribuição e troca, permitindo [pagar]
os vários fatores de produção, as rendas…”, correspondendo assim à teoria do
dinheiro como meio de troca. A novidade apareceu na segunda, ou seja, na
circulação financeira, que permite as “transações nas bolsas e no mercado
monetário [e] nas atividades especulativas”, pois esta circulação tem pouca ou
nenhuma relação com a produção. Ele usou esse esquema para explicar os ciclos
econômicos: booms e quedas resultam, em sua nova perspectiva, de mudanças entre
as duas esferas de circulação, à medida que a confiança aumenta ou diminui.
O
ataque de Keynes à teoria clássica do dinheiro culminou em sua Teoria
Geral do Emprego, Juros e Dinheiro (1936). Agora, ele introduziu o
conceito de preferência por liquidez na teoria do dinheiro. Pois, as pessoas
que o possuem podem preferir manter o seu dinheiro em forma “líquida” em vez de
investi-lo em ativos fixos, tais como máquinas e instalações. Ora, foi isso o
que se viu claramente na experiência da Grande Depressão, que começou em 1929.
Keynes
usou a nova teoria para explicar por que o desemprego dos anos 1930 se manteve
alto por tanto tempo. A economia clássica não conseguia dar uma explicação para
esse fato, argumentava ele, porque tinha uma teoria errada da taxa de juros. E
tinha a teoria errada dos juros porque tinha uma teoria errada do dinheiro.
Na
teoria clássica, a taxa de juros é o preço que equilibra a poupança e o
investimento. Como as pessoas economizam apenas para investir, a taxa de juros
aparece como aquele mecanismo que garante essa igualdade. Se o desejo de
economizar cresce mais do que o desejo de investir, as taxas de juros caem,
reduzindo as recompensas para poupança, aumentando os ganhos do investimento,
fazendo, assim, com que se igualem, sem alterar volume da atividade econômica.
Ora,
raciocinou Keynes, o colapso do investimento é simultaneamente uma fuga para a
liquidez. Esse salto para fora do processo produtivo dá ao dinheiro um prêmio
de liquidez, fazendo com que as taxas de juros subam em vez de caírem —
exatamente o oposto do que a teoria ortodoxa acreditava. Isso o levou a propor
que se visse a taxa de juros como recompensa por não entesourar, em vez de
vê-la como recompensa por poupar. A “poupança excedente” relativamente ao
investimento, que causa a queda, será então liquidada não por uma queda na taxa
de juros, mas por uma queda na renda nacional, levando ao “equilíbrio de
subemprego”. Esse é o argumento essencial de A Teoria Geral.
Toda
essa história depende crucialmente da existência de uma incerteza irredutível
ao cálculo de probabilidade sobre os eventos futuros. Eis como Keynes explicou
esse ponto:
“Por
“conhecimento incerto”, deixe-me explicar, não quero dizer apenas distinguir o
que é conhecido com certeza do que é apenas provável. O jogo de roleta não
está, nesse sentido, sujeito à incerteza… Até o clima é apenas moderadamente
incerto. O sentido em que uso o termo é aquele em que a perspectiva de uma
guerra europeia é incerta, ou o preço do cobre e a taxa de juros daqui a vinte
anos, ou a obsolescência de uma nova invenção, ou a posição dos proprietários
privados de riqueza no sistema social em 1970. Nesses casos, não há qualquer
base científica para estabelecer uma probabilidade calculável sobre os eventos.
Ela é, simplesmente, ignorada.”
É a
incerteza que confere o principal papel ao dinheiro no drama econômico. Em
condições de mercado nas quais as condições sobre o futuro são pobres, ou seja,
são desconhecidas, os investidores dependem da opinião convencional sobre que
preços poderão prevalecer. Quando as convenções usuais desmoronam, como
periodicamente acontece, mostrando a sua “fragilidade”, o dinheiro foge do
investimento e procura o entesouramento. Longe de ser algo insignificante, tal
como pensava por Mill, o dinheiro está no controle da ação econômica como forma
de lidar com a incerteza. Essa é, em poucas palavras, a teoria econômica do
dinheiro de Keynes.
Teria
Keynes dado um papel importante ao dinheiro se não o tivesse associado a algo
intrinsecamente imoral? Provavelmente não. Há uma forte base moral/psicológica
na visão de Keynes de que a “demanda por entesourar dinheiro”, longe de ser um
ato racional que visa equilibrar o consumo entre bens presentes e bens futuros,
tal como retratado pelos economistas em geral, é motivada pela avareza, pelo
amor ao poder e ao ouro — tal como o Shylock de Shakespeare.
O amor
pelo dinheiro como doença da alma é simbolizado na lenda do antigo rei Midas da
Frígia, cuja ganância por ouro era tão intensa que (pelo menos em algumas
versões) morreu de fome. O amor pelo ouro demonstrado por Midas não lhe
pareceu, porém, um caso de preferência racional pela liquidez, mas de morbidade
psicológica.
A sua
natureza paradoxal foi questionada por Aristóteles, quando, no Livro I,
capítulo 3 de A política, indagou: “é possível até acontecer o absurdo
de um homem dispor de dinheiro em abundância e morrer de fome, como o famoso
Midas da lenda, que devido à sua insaciável ambição foi levado a fazer uma
prece em consequência da qual todos os alimentos a ele servidos se
transformavam em ouro”? Aqueles países que permanecem no padrão-ouro, previu
Keynes em 1931, “cairão na maldição de Midas”.
Ao se
basear na lenda de Midas, Keynes explorou uma tradição profunda no pensamento
ocidental que considera o dinheiro estéril, e, portanto, o amor por ele como
algo perverso. Ele reconheceu que, no passado, “riscos e perigos de todos os
tipos” podem ter desempenhado grande influência em induzir as pessoas a
acumular dinheiro.
No
entanto, ele ficou intrigado com a persistência dessa propensão na civilização
europeia moderna, quando as condições de vida eram muito mais seguras. Foi para
explicar esse enigma que ele desenvolveu a ideia de que o “amor pelo dinheiro”
era a patologia particular de um tipo de caráter produzido pela civilização
judaico-cristã.
A
semelhança com a obra A ética Protestante de Max Weber é
óbvia. Mas, enquanto Weber retratou o puritano como um empreendedor heroico,
Keynes viu no “desejo desproporcional por adquirir e acumular riquezas” um
freio para o empreendimento produtivo. Este último vem do mutuário, não do
credor: não é a poupança, mas o empreendedor que constrói cidades e drena
pântanos.
O
prêmio de liquidez exigido pelos detentores de riqueza confere à classe dos
credores um poder desproporcional na economia capitalista. Na visão de Keynes,
a luta pelo poder entre credores e tomadores, credores e devedores, é o que
fornece o enredo econômico da história no capitalismo. Nela se dão os episódios
de inflação e deflação, de tal modo que são raros os momentos em que os preços
são estáveis e que há equilíbrio entre oferta e demanda.
A
defesa feita por Keynes do devedor aparece claramente em seus ataques à usura.
Ele apontou que duas reivindicações morais sustentavam as leis medievais contra
a usura. A primeira era a visão de que um contrato de dívida é uma espécie de
troca injusta, já que o credor quase sempre está numa posição mais forte do que
a do tomador do empréstimo. Segundo, as leis da usura refletiam uma hostilidade
profunda em relação ao “fazer dinheiro com dinheiro”.
Keynes
endossou enfaticamente a crítica ao primeiro princípio: em 1945, ele escreveu
que vem a ser “usara extrair do mutuário algum valor adicional ao verdadeiro
sacrifício do credor, algo que a necessidade extrema do mutuário torna
possível. Na verdade, há aqui o mesmo ponto que apresento na minha teoria da
preferência por liquidez”.
O
objetivo de todas as reformas econômicas de Keynes era reduzir o poder do
credor sobre a vida econômica. A inflação e a deflação, escreveu ele em 1923,
são ambas injustas, mas num mundo empobrecido vem a ser “pior provocar
desemprego do que decepcionar o rentista”. Ele viu dessa perspectiva o mundo
marcado pelo massacre e pela destruição, que fora deixado pela Primeira Guerra
Mundial.
O maior
problema deste mundo não era a inflação, mas a deflação. Podemos encontrar esse
fio em sua defesa do perdão da dívida alemã, em 1919, mas também no propósito
de alcançar a “eutanásia do rentista”, em 1936, passando por seus planos
sucessivos para evitar o acúmulo de ouro por países credores.
“O
ajuste [dos desequilíbrios da conta corrente]”, escreveu ele em 1941, “é
obrigatório para o devedor, mas se afigura voluntário para o credor”. A sua
proposta da construção de um “centro Internacional de compensação”, vetado
pelos americanos em Bretton Woods, foi projetado para tornar muito caro e, em
última análise, impossível para os países mais exportadores acumularem
excedentes.
Contudo,
a atitude de Keynes em relação ao “amor ao dinheiro” se mostra ambígua.
Trata-se de uma doença da alma, mas também vem a ser uma “felix culpa”,
porque ela é também o motor do crescimento econômico que – pensava – iria
libertar a humanidade do fardo do trabalho e, assim, permitiria um retorno ao
paraíso. Até que a realização dessa utopia viesse a ser alcançada, escreveu
Keynes, devemos fingir que “o belo é vil e o imundo é justo”. Para acelerar a
sua chegada, o Estado deveria, por meio de seus próprios programas de
investimento, garantir que “o desejo excessivo de riqueza” seja canalizado para
investimentos produtivos e não desviado para tesouros especulativos.
Ora, o
nosso problema econômico contemporâneo pode ser facilmente resumido em algumas
frases. Como resultado da extensa desregulamentação do sistema financeiro após
o fim dos anos 1970, o dinheiro tomou o controle da economia capitalista
mundial. O resultado assim obtido veio a ser muito parecido com o que Keynes
previra ao seu tempo: estagnação generalizada pontuada por instabilidade
financeira.
O
problema da época de Keynes era o desemprego em massa. O problema nas décadas
de 1970 e 1980 era a inflação, em parte causada pelos erros dos aplicadores das
políticas econômicas keynesianas. Como resultado, o sistema keynesiano de
gestão das economias acabou sendo derrubado. Prevenir a inflação, argumentou
Nigel Lawson, Chanceler do Tesouro da Grã-Bretanha entre 1983 e 1989, em uma
economia desregulada geraria pleno emprego.
Grandes
setores das economias ocidentais foram privatizados e desregulamentados nas
décadas de 1980 e início dos anos 1990 em nome da liberdade e da eficiência
econômica. Isso incluiu a abolição dos controles cambiais e a desregulamentação
dos serviços bancários. O dinheiro foi liberado para vagar pelo mundo em busca
do maior lucro possível. Como resultado, escapou da jaula em que as economias
gerenciadas das décadas de 1950 e 1960 o haviam colocado, ressurgindo como um
“grande ditador”.
O
colapso bancário de 2008 foi desencadeado pelo colapso da especulação
imobiliárias, alimentadas que estavam pelas dívidas nos Estados Unidos e na
Grã-Bretanha — como observou Martin Wolf, as autoridades monetárias dos dois
países haviam transformado suas populações em “especuladores altamente
alavancados em um ativo fixo”.
Desde
2008, os bancos centrais das economias desenvolvidas injetaram US$ 15 trilhões
em suas economias comprando a dívida de bancos, agências de crédito e até mesmo
governos em colapso. O relaxamento quantitativo (RQ), como ficou conhecido,
facilitou a ascensão ao poder de uma nova geração de “oligarcas” fabulosamente
ricos: Elon Musk (patrimônio líquido de 500 bilhões), Mark Zuckerberg (220
bilhões), Jeff Bezos (250 bilhões), e assim por diante.
O
crescimento econômico vindo supostamente do “gotejamento” para a economia real
de tal acumulação de dinheiro deveria permitir o pagamento das dívidas então
contraídas. Mas a imenso bombeamento de dinheiro não produziu o crescimento
necessário. Uma razão é que uma grande parte da liquidez criada pelo RQ acabou
circulando dentro do sistema bancário paralelo, em vez de financiar
investimentos produtivos na economia real. A consequência foi o acúmulo de
dívida líquida pública e privada, assim como um aumento correspondente no
prêmio de liquidez do dinheiro.
Então,
é preciso perguntar como os governos podem escapar das armadilhas da dívida? A
resposta é tristemente óbvia. John Lanchester escreveu: “Quão pouco dinheiro
haja para qualquer outra coisa, sempre há dinheiro suficiente para uma guerra”.
O “keynesianismo militar” é uma saída tentadora do impasse econômico,
fornecendo uma justificativa geopolítica para déficits e dívidas que seriam
rejeitados por motivos econômicos neoliberais.
Como
Keynes observou sarcasticamente: “Se a educação de nossos estadistas nos
princípios da economia não se tornar melhor, a construção de pirâmides, os
terremotos e até as guerras podem servir para aumentar a riqueza”. Como a
educação dos políticos contemporâneos regrediu aproximadamente ao ponto em que
estava na época de Keynes, o keynesianismo militar oferece agora uma fuga cada
vez mais tentadora da estagnação ou algo pior, a combinação de uma economia do
pleno emprego com a retórica da segurança nacional [tal como se viu na economia do nacional-socialismo]. Pois, de que valem
as tediosas alegações de austeridade fiscal e orçamentos equilibrados contra a
urgência da segurança nacional?
Chegamos,
assim, a uma conclusão bastante deprimente. A resposta para a pergunta “para
onde foi todo o dinheiro” injetado na economia após 2008 mostra que ele foi
“principalmente para a economia financeira”. Mas, como é possível tirá-lo de lá
agora? Eis a resposta: desenvolvendo a indústria armamentista em
suas formas tradicionais e nas suas novas formas híbridas. Eis que políticas
armamentista, que extrapolam os limites postos pela ortodoxia em política
econômica, gerarão empregos e crescimento.
O
próprio Keynes teria ficado deprimido, mas não surpreso com a facilidade com
que o fervor da guerra pode ser alimentado para racionalizar políticas
keynesianas que, de outra forma, seriam descartadas. Ele não apoiaria os
estados autoritários de hoje, Rússia e China, mas também não teria simpatia por
aqueles como Trump que continuamente ameaçam para obter vantagens.
Em um
mundo atual que se volta com muita facilidade para a circunscrição de blocos
econômicos e políticos antagônicos, a sua crítica aos “projetos e políticas
militaristas e imperialistas, sustentados por rivalidades raciais e culturais,
por monopólios, restrições e exclusões” é urgentemente apropriada, pois a
tecnologia atual da guerra pode destruir não apenas a civilização, mas a
própria vida.
Por
Lorde Robert Skidelsky no Substack do autor - Tradução: Eleutério F. S. Prado
para A Terra é Redonda

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