O
cão Orelha e a cadela do fascismo
O
epílogo da peça de Brecht, que deu origem ao provérbio “a cadela do fascismo
está sempre no cio”, compõe uma paródia histórica da ascensão daquele líder
alemão com bigode singular dentro do partido nazista. A alegoria de Brecht
serve como alerta de que não foi um fato isolado: se não tomarmos cuidado, ele
pode se repetir.
Na
segurança pública, existem propostas vencidas, antiquadas, obsoletas,
inconstitucionais, autoritárias, elitistas e/ou racistas que estão sempre no
banco de reservas dos times autoritários. São propostas simplórias, vendidas
como solução para problemas complexos, sempre ansiosas para entrar em campo.
Técnicos do time autoritário não tiram essas propostas do banco de reserva, nem
que seja para ser aquele jogador que vai entrar na partida só para quebrar o
craque do time adversário e ser expulso.
É o
caso da redução da idade penal ou, simplificando, menoridade penal. Basta haver
um crime de repercussão envolvendo a autoria de menores de idade que os
técnicos de times obscuros já pedem para a redução entrar em campo.
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Entra em campo o zagueiro “Menoridade Penal”
Para
fins de registro, estamos nos referindo ao caso de repercussão ocorrido
recentemente, onde adolescentes mataram o cão Orelha de forma brutal. O Orelha
era daqueles cachorros que todos que têm ou tiveram vivência em bairros
costumeiramente esquecidos pelo poder público conhecem: ninguém sabe se já teve
dono, mas todo mundo cuida e alimenta. Batizaram isso, modernamente, como “cão
comunitário”. Rapidamente, políticos e pessoas com viés autoritário voltaram a
falar sobre colocar o zagueiro Menoridade Penal em campo, como uma solução
imediata e definitiva para casos assim não ocorrerem mais.
Um
pouco mais de contexto para explicar a mais recente convocação do zagueiro
Menoridade Penal. Até 1926, era comum penalizar menores de idade como se fossem
adultos. Isso mudou em 12 de outubro de 1927, quando o primeiro Código de
Menores determinou que “o menor, de um ou outro sexo, abandonado ou
delinquente, que tiver menos de 18 annos de idade, será submettido pela
autoridade competente ás medidas de assistencia e protecção”(sic). Isso foi
confirmado pelo segundo Código de Menores em 1979, pela Constituição Federal de
1988 e pelo Estatuto da Criança e Adolescente, o popular ECA, em 1990.
Se
temos, praticamente, 100 anos que a sociedade brasileira decidiu que a
maioridade penal ocorre aos 18 anos, por que o zagueiro Menoridade Penal
continua no banco de alguns times? Precisamos falar do que é, do que não é e do
que deveria ser a segurança pública para entender isso.
O
começo de jogo é definir o que é segurança pública: partindo dos ensinamentos
da Professora Jacqueline Muniz (UFF), são políticas que estabelecem alguma
restrição de liberdades, individuais e coletivas, e formas diretas ou indiretas
de controle e regulação sobre pessoas, patrimônios e territórios. A definição,
porém, só ganha real significado quando a analisamos como uma prática social
concreta, e não como uma abstração.
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Segurança pública é escolha política
A
segurança pública não é uma abstração. É uma escolha política, em todos os
sentidos. Quem tem mais poder político desejará que a segurança pública
controle, por qualquer meio necessário, quem é visto como uma ameaça à ordem
dominante. No Brasil Colônia, quem estava fora do time dominante eram os
invasores estrangeiros, indígenas, quilombolas e qualquer um que desagradasse
os patrícios. No Brasil República, eram (são?) os adversários políticos,
grevistas, subversivos, artistas (somente os críticos), pobres e negros (que
estivessem fazendo qualquer outras coisas que não fosse trabalhar como se ainda
fossem escravizados. Era crime jogar capoeira).
E assim
chegamos ao ponto principal. Se a segurança pública é, antes de tudo, uma
política pública, seu desenho não pode se pautar por esse jogo de poder, mas
por uma pergunta fundamental: quais são as evidências de que a redução da
maioridade penal reduziria a incidência de crimes brutais cometidos por menores
no Brasil? Resposta curta: nenhuma.
Segundo
diversos estudos, como o “Aí voltei pro corre” (Instituto Sou da Paz), a
reiteração (prática de novos atos) de adolescentes no sistema socioeducativo
varia de 20 a 30%, enquanto a reincidência no sistema prisional adulto atinge
índices de 40% a 70%. Diante disso, a conclusão é indiscutível: colocar
adolescentes no sistema adulto, de reincidência mais alta e que serve como via
de recrutamento notória para facções criminosas, torna a redução da maioridade
penal uma medida ineficaz e perigosa.
Se não
existem evidências de que reduzir a maioridade penal afetará as estatísticas
criminais, por que manter o zagueiro Menoridade Penal no time? O que sabemos é
que essa insistência é baseada em populismo penal, pânico moral e ideias falsas
no encarceramento como única solução, não em evidências científicas.
Reiteradamente,
alertamos que lógica do tiro, porrada e bomba não é uma solução de segurança
pública: são ferramentas com uso adequado e regulamentado (ou que deveria ser)
dos trabalhadores da segurança pública. Isso impede que políticos, com viés
autoritário, bem como os cidadãos partidários desses políticos, defendam e
proponham que a redução da criminalidade ocorra apenas com mais armas, mais
mortes, mais encarceramento? Não.
Essas
medidas, quando tomadas de forma isolada, sem critérios e desvinculadas de uma
política ampla e baseada em evidências, não funcionaram, não funcionam e não
funcionarão. Mas sempre estarão em campo ou no banco de reserva de quem prefere
o populismo penal barato à transformação social complexa e necessária.
Como
ensina a alegoria de Brecht, o ventre de onde rastejou o fascismo permanece
fértil. E é dele que continuam a nascer ideias sobre segurança pública que,
como a redução da maioridade penal, vão contra a ciência e servem apenas à
perpetuação da violência e da exclusão. E não farão a menor justiça ao cão
Orelha.
Fonte:
Por Lívio José Lima-e-Rocha, em Ponte Jornalismo

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