Como
um mundo conflagrado abre caminho para a política da extrema direita
Há alguns acontecimentos capazes de
revelar transformações já em curso antes mesmo de serem
percebidas. Tratar as declarações e ameaças de
Trump meramente como bravatas de um mandatário excêntrico já se provou um
erro de leitura; estamos, na verdade, diante de sintomas de uma reconfiguração
estrutural da ordem internacional.
Em
janeiro de 2026, reportagens do periódico canadense Globe and Mail revelaram
que as Forças Armadas daquele país vinham desenvolvendo cenários de
contingência para tensões com os Estados Unidos, incluindo a modelagem de
resposta a uma hipotética invasão americana. A informação passou quase
despercebida fora do Canadá, talvez porque já tenhamos nos
acostumado a ouvir um presidente dos Estados Unidos tratar países
soberanos como imóveis à venda e alianças históricas como contratos
rescindíveis. É assim que funciona normalização do impensável, como
uma erosão gradual, perceptível apenas quando o terreno já cedeu.
Comparações com
os anos 1930 tornaram-se um lugar-comum, mas poucos as desenvolvem
com o devido rigor. Não
há, por óbvio, uma equivalência
literal — a Polônia foi invadida por força militar direta, o que
não ocorreu na Venezuela —,
mas certamente pode-se identificar uma lógica de
escalada comum. Vale examinar esse tipo de estrutura: primeiro,
a quebra de um tabu menor; depois, a anexação de um território estratégico sob
o pretexto de proteção ou compra; finalmente, a consolidação de uma esfera de
influência exclusiva. Nessa chave interpretativa, a Venezuela funcionaria como
o ponto de ruptura das normas de não intervenção, por meio de sanções,
retórica belicosa e operações encobertas. Levando em conta as ameaças que
se sucederam ao sequestro de Nicolás Maduro, a Groenlândia
corresponderia ao território estrategicamente vital cuja absorção é
apresentada, inicialmente, como uma transação comercial razoável, enquanto
o Canadá representaria a extensão lógica de uma política de consolidação
hegemônica hemisférica. Mutatis mutandis já vimos algo assim
nos livros de história do século XX.
De
fato, as diferenças estruturais entre os dois contextos são significativas e
devem ser consideradas. A existência de arsenais nucleares introduz uma
variável de contenção inexistente nos anos 1930. A destruição mútua assegurada
limita o espectro de ações militares diretas entre grandes potências,
canalizando os conflitos para formas híbridas e guerras por procuração. Além
disso, a interdependência econômica contemporânea difere substancialmente
daquela do período entre guerras. Os custos de uma ruptura comercial total
distribuem-se de maneira muito mais ampla, criando, dentro de cada país, grupos
interessados na manutenção de algum grau de cooperação. A configuração
multipolar atual, com a emergência da China como potência de primeira grandeza,
tampouco reproduz a bipolaridade germano-americana da ascensão nazista.
Essas
diferenças, entretanto, não invalidam comparações. O paralelo captura com
precisão, justamente, a dinâmica psicológica da escalada: cada
transgressão não punida reduz o custo percebido da próxima; a inação coletiva
sinaliza fraqueza e convida à agressão; a fragmentação dos interesses impede a
formação de coalizões de contenção. Herman Kahn, em seu
trabalho sobre a escalada nuclear, descreveu essa lógica como
uma escada de 44 degraus entre a crise diplomática e a guerra termonuclear — estamos
subindo os primeiros degraus. No entanto, talvez a chave de
interpretação mais útil venha de outra tradição: Karl Polanyi, ao analisar
o colapso da ordem liberal do século XIX, mostrou como sistemas aparentemente
estáveis desmoronam quando suas contradições internas atingem um ponto
crítico. Por esse viés, o “moinho satânico” do mercado
autorregulado acabou por destruir as bases sociais de sua própria existência.
Algo análogo pode estar em curso: a ordem baseada em regras, ao servir de instrumento
para a hegemonia de um único ator, minou as condições de sua própria
legitimidade.
A
Groenlândia ocupa uma posição central nesse tabuleiro por razões materiais
concretas. O aquecimento global está abrindo rotas de navegação antes
impraticáveis no Ártico, reduzindo dramaticamente as distâncias entre a Ásia e
a Europa. A Passagem Noroeste, através do arquipélago canadense, e a Rota do
Mar do Norte, ao longo da costa russa, representam alternativas cada vez mais
viáveis aos canais de Suez e do Panamá. O recuo das geleiras torna acessíveis
vastas reservas de minerais críticos. A Groenlândia abriga depósitos
significativos de terras raras, elementos essenciais para a
fabricação de baterias, smartphones, turbinas eólicas e
tecnologias de ponta. Atualmente, a China controla a ampla maioria da produção
e do processamento global desses minerais. Para os estrategistas em Washington,
essa dependência tornou-se inaceitável no contexto de uma competição hegemônica
prolongada.
A
dimensão militar agrava o quadro. A Base Espacial
de Pituffik (antiga Base Aérea de Thule), operada
pelos Estados Unidos na Groenlândia desde 1951, constitui um componente central
do sistema de defesa antimísseis norte-americano e do monitoramento do espaço
aéreo ártico. A transformação dessa presença militar em controle soberano pleno
adquire uma lógica estratégica própria em um cenário de deterioração das
relações com a Rússia e a China. Controlar o Ártico nas próximas décadas
significa controlar fluxos comerciais, recursos críticos e vantagens militares
decisivas. A lógica em operação não pertence a um negociante imobiliário
caprichoso, mas a um império consciente de que as condições materiais
de sua hegemonia estão sendo ameaçadas.
Analistas
de geopolítica ártica têm discutido possíveis trajetórias de escalada. Uma
sequência hipotética envolveria, primeiro, a pressão econômica sobre a
Dinamarca mediante tarifas e ameaças de retirada da proteção da OTAN para
forçar a venda ou cessão de direitos de soberania. Em segundo lugar,
a ocupação militar sob o pretexto de impedir a influência russa ou
chinesa (uma presença efetiva que anularia a soberania dinamarquesa).
Terceiro, o fomento de movimentos independentistas na Groenlândia, seguidos de
um pedido de associação ou anexação aos Estados Unidos. Se a
Groenlândia for absorvida sem uma resposta militar global (o que
deve, sim, acontecer), o Canadá tornar-se-ia o próximo alvo por
continuidade geográfica e integração econômica. A estratégia seguiria outro
modelo, a anexação por ruptura: uma guerra de tarifas extrema para
colapsar a economia canadense e forçar uma união aduaneira total; o
questionamento da legitimidade do governo de Ottawa em proteger o Ártico, levando
a incursões militares coordenadas e permanentes. Trata-se, evidentemente, de
cenários especulativos, não de planos em execução. Contudo, o fato de serem
hoje discutidos abertamente já indica a magnitude da ruptura em curso.
A
arquitetura institucional construída após 1945 não foi desenhada para conter
sua principal potência. A OTAN, pensada como uma aliança defensiva contra a
União Soviética, não possui protocolos para o cenário em que seu membro
hegemônico decide anexar o território de um aliado. O Artigo 5, que prevê a
defesa coletiva, pressupõe uma agressão externa. Diante de uma
movimentação estadunidense sobre a Groenlândia, a Europa ficaria
paralisada entre a lealdade atlântica e a defesa dos princípios supostamente
fundantes de seu projeto político. É difícil prever como essa tensão se
resolveria na prática — declarações recentes de líderes europeus
oscilam entre a reafirmação ritual da aliança e sinais crescentes de
desconforto.
Os
modelos de teoria dos jogos aplicados ao cenário — particularmente o
equilíbrio de Nash e o modelo de Stackelberg para interações
líder-seguidor — apontam para um resultado previsível: a acomodação
fragmentada. O custo de enfrentar os Estados Unidos excede, para cada ator
individual, o custo de aceitar a transgressão. A partir dessa lógica,
a Europa provavelmente tentaria negociar um status especial para evitar o
colapso da aliança atlântica, sancionando os EUA apenas simbolicamente. A
dependência europeia do guarda-chuva nuclear americano, embora questionada há
décadas, permanece um fator estrutural que condiciona qualquer capacidade de
resposta autônoma.
A China
exploraria diplomaticamente a situação, apresentando-se como defensora da ordem
baseada em regras historicamente promovidas pelos próprios Estados
Unidos. Há uma ironia nessa inversão: Pequim, frequentemente acusada de
violar normas internacionais no Mar do Sul da China, encontraria na agressão
americana a oportunidade para reposicionar-se como garantidor da
estabilidade global, atraindo o Canadá e parceiros europeus descontentes para
sua esfera de influência econômica. A estratégia chinesa, assim, seria de
contenção econômica, não de confrontação militar. A Rússia, por outro lado,
optaria por uma escalada oportunista. O precedente de uma anexação territorial
bem-sucedida pelos Estados Unidos enfraqueceria dramaticamente as objeções
ocidentais à própria conduta russa na Ucrânia, abrindo espaço para movimentos
análogos no Ártico e na Europa Oriental, sob o cálculo de que Washington não
poderia responder militarmente a múltiplas crises simultâneas.
Projeções
do Peterson Institute e de modelos semelhantes indicam
três trajetórias possíveis, dependendo da intensidade do conflito. No cenário
de sucesso rápido limitado à Groenlândia, o crescimento global desaceleraria
significativamente, com os Estados Unidos capturando rendas de recursos
enquanto enfrentam custos diplomáticos. No cenário de conflito prolongado
envolvendo o Canadá, haveria estagnação global, com o colapso do comércio
norte-americano afetando severamente os setores automotivo e de energia. No
cenário de uma guerra fria ártica total, os modelos sugerem uma recessão global
prolongada, com o risco de conflito nuclear tático tornando-se uma variável de
mercado constante. A transição de um sistema baseado em regras para um sistema
baseado exclusivamente no poder tende a produzir inflação estrutural em
qualquer dos cenários: fragmentação das cadeias de suprimento, multiplicação de
barreiras tarifárias e incerteza generalizada quanto à estabilidade dos acordos
comerciais.
O uso sistemático do
dólar como instrumento de coerção geopolítica (promovendo sanções,
congelamento de ativos, exclusão de sistemas de pagamento etc.) vem
incentivando a busca por alternativas há pelo menos uma década. Uma ruptura
aberta com aliados tradicionais intensificaria dramaticamente esse movimento. Nesse
sentido, analistas ligados ao BRICS projetam uma queda expressiva da
participação do dólar nas reservas globais até o fim da década, embora céticos
apontem a ausência de uma alternativa plenamente desenvolvida como freio a
essa transição. A direção do movimento, de todo modo, parece clara.
A
América Latina ocupa uma posição específica nesse realinhamento. A região deixa
de ser tratada como parceira e passa a ser classificada como Recurso
Estratégico de Segurança pelos Estados Unidos. O objetivo seria,
assim, garantir a autossuficiência hemisférica em energia, minerais
críticos e alimentos, blindando o bloco americano contra sanções e a influência
sino-russa. A Venezuela representa o primeiro teste. A intervenção militar,
justificada por uma retórica de segurança nacional e proteção de interesses
energéticos, quebraria o tabu da soberania hemisférica vigente desde o fim da
Guerra Fria. O Caribe e a América Central entrariam na sequência, visando
garantir rotas comerciais e recursos energéticos contra a presença chinesa
crescente na região.
O
Brasil enfrenta, nesse contexto, o cenário mais complexo de sua história
diplomática. A tradição construída ao longo de mais de um
século — não intervenção, solução pacífica de controvérsias,
multilateralismo — pressupõe um mundo onde esses princípios possuem
alguma eficácia. Em um sistema no qual a força volta a ser o árbitro último das
disputas, essa tradição perde sua ancoragem. A questão deixa de ser moral
ou identitária para tornar-se eminentemente prática: como preservar a
autonomia decisória quando as regras do jogo estão sendo reescritas
unilateralmente?
A
análise por teoria dos jogos do dilema brasileiro revela uma estrutura de
incentivos perversa. Há indícios de tarifas elevadas sobre exportações
brasileiras como instrumento de pressão para forçar o abandono da parceria
com a China e a exclusão de tecnologias chinesas, como o 5G. Um alinhamento
incondicional com Washington implicaria a perda do mercado chinês, hoje o maior
parceiro comercial do país, que absorve uma parcela substancial das exportações
de commodities agrícolas e minerais. A estratégia de maior viabilidade, segundo
esses modelos, seria uma neutralidade ativa operacionalizada através do BRICS.
O Brasil poderia emergir como articulador de um bloco de não alinhados na
América do Sul, preservando a soberania regional contra a doutrina de intervenção
hemisférica.
Essa
estratégia exigiria, certamente, a capacidade de resistir a pressões
consideráveis, possivelmente incluindo sanções setoriais e campanhas de
desestabilização — novamente, guerra híbrida. A experiência histórica
indica a possibilidade de potências médias preservarem margens de autonomia
mesmo em contextos de forte polarização, desde que disponham de coesão interna,
diversificação de parcerias e clareza estratégica: a ausência de qualquer
desses elementos compromete dramaticamente as chances de sucesso. O cenário
mais preocupante não envolve uma pressão externa bem-sucedida, mas sim uma
fragmentação interna que inviabilize qualquer estratégia coerente. As divisões
políticas que atravessam a sociedade brasileira refletem clivagens profundas
sobre o próprio projeto de país, algo que tem ficado cada vez mais
evidente.
Finalmente,
há uma dimensão dessa crise que transcende a geopolítica em sentido estrito. O
desmantelamento da ordem internacional pela força unilateral funciona como
validação ideológica para movimentos até então considerados marginais. A
anexação de territórios estrangeiros sem consequências catastróficas
demonstraria, na prática, o direito internacional como uma ficção sustentada
apenas pelo equilíbrio de poder; um equilíbrio passível de alteração
unilateral por quem dispõe de meios para tanto. Essa demonstração valida uma
narrativa segundo a qual as regras são obstáculos artificiais impostos
pelos fracos aos fortes, e nações verdadeiramente soberanas não se submetem a
constrangimentos externos. Ressoam aí tradições políticas supostamente
desacreditadas pelo século XX: o nacionalismo étnico, a noção de espaço vital e
a glorificação da força como virtude política suprema.
Emerge
daí uma nova forma de autoritarismo adaptada ao século XXI, focada no controle
de recursos escassos (como água, minerais, terras aráveis) e na
exclusão violenta de migrantes climáticos. Sua legitimação não se baseia
primariamente em mitologias raciais ou projetos imperiais explícitos, mas na
promessa de proteção em um mundo percebido como caótico. Em um contexto de
escassez crescente, migrações massivas e erosão das certezas, a oferta de
ordem e segurança — mesmo ao custo da
liberdade — encontra uma audiência receptiva. A normalização opera
através do que caberia chamar de estética da eficiência: regimes dispostos a
quebrar tabus seriam mais capazes de proteger seus cidadãos do que
democracias liberais paralisadas por procedimentos. A democracia, nessa
visão, constituiria um luxo de tempos de abundância, incompatível com as
exigências de um planeta em crise permanente.
O mundo
projetado para as próximas décadas não envolve necessariamente uma guerra
aberta entre grandes potências. Os arsenais nucleares continuam funcionando
como limitadores últimos. O mais provável é um conflito híbrido permanente, com
guerras por procuração intensificadas, ataques cibernéticos a infraestruturas
críticas, bloqueios econômicos e escaramuças contidas abaixo do limiar da
destruição mútua assegurada. O Ártico transforma-se no epicentro dessa
confrontação, uma zona de tensão constante, uma espécie de Mar do Sul da
China setentrional, onde as potências testam continuamente os limites umas das
outras sem jamais ultrapassar a linha vermelha. A desintegração funcional da
ONU e da OMC produz um mundo de blocos comerciais armados, onde a paz constitui
apenas um intervalo entre sanções.
Obviamente,
nada disso está determinado. Trajetórias históricas são moldadas por
contingências, escolhas e eventos imprevisíveis, mas a análise de
tendências permite identificar pontos de pressão e decisões capazes de fazer a
diferença. O desafio para países como o Brasil é triplo: resistir à pressão
econômica sem capitular, articular uma resistência regional sem isolamento e
defender princípios democráticos e multilaterais sem ingenuidade quanto à sua
fragilidade presente. Nenhuma dessas tarefas é simples, e o sucesso em qualquer
delas depende de condições domésticas que estão longe de estarem
asseguradas.
O custo
mais elevado da nova ordem, caso se consolide, não será apenas econômico ou
geopolítico. Será moral. A barreira ética contra o uso arbitrário da força,
construída sobre os escombros de duas guerras mundiais, terá sido rompida.
O fascismo, em suas novas roupagens, deixará de ser uma aberração histórica
para tornar-se uma opção de governança entre outras, avaliada não por sua
moralidade, mas por sua eficácia percebida e capacidade de engajamento em
tempos de algoritmos. Trata-se de um retorno ao estado de
natureza hobbesiano na esfera internacional: o forte faz o que pode,
o fraco sofre o que deve. É contra essa normalização que vale a pena
resistir.
Fonte: Por
Estevão Rafael Fernandes, no Blog da Boitempo

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