sábado, 7 de fevereiro de 2026

Paulo Henrique Arantes: Os Estados Unidos contra a democracia — dentro e fora de casa

Os Estados Unidos eram, até o advento Donald Trump, reverenciados como modelo de democracia interna: dentro do seu território, reinavam a liberdade e a vontade popular, a despeito das injustiças inerentes ao capitalismo. A esquerda que se contrapunha a essa noção era taxada de dogmática, alinhada aos interesses do bloco socialista comandado então pela União Soviética. Há verdade nisso, especialmente no contexto da Guerra Fria, mas aquele tempo acabou.

A ideia de democracia modelar americana é derrubada pela total inércia de suas instituições diante do autoritarismo do atual presidente. A nação não possui os tais freios e contrapesos alardeados para coibir os ímpetos fascistas de Donald Trump, tanto que simplesmente não os coíbe ou o faz canhestramente. O presidente faz o que bem entende e isso configura um país não-democrático. Hoje, os Estados Unidos, em face da opressão e da perseguição a determinados grupos e etnias, além do cerco a universidades e a veículos de imprensa não alinhados, são um exemplo a não ser seguido até pelo Ocidente capitalista.

Internacionalmente, a leitura é mais fácil. Os Estados Unidos jamais transmitiram ao mundo um recado real de apreço pela democracia, contrariando seu próprio discurso. Na América do Sul, apoiaram e financiaram todas as ditaduras militares do Século XX. Quando derrubaram ditadores em outras partes do globo, o fizeram motivados por escancarados interesses mercantis.

Os Estados Unidos são um país belicoso e belicista. Muito mais do que entrarem em guerras na condição de força decisiva, foram agressores, invadindo por iniciativa própria e pilhando, como fazem na Venezuela e prometem fazer na Groelândia. Assim aconteceu nas intervenções que promoveram de 1900 a 1934 na Nicarágua, no Haiti, em Honduras, na República Dominicana e em Cuba, objetivando ao controle político. 

Na ânsia de vencer uma Guerra Fria polarizadora, os Estados Unidos ingressaram no Vietnã, conflito que durou de 1955 a 1975 e que era uma briga interna até que os americanos a internacionalizassem. 

O país tido como modelo de democracia invadiu a Baía dos Porcos, em Cuba, no ano de 1961, para derrubar Fidel Castro – fracassou, como se sabe. Invadiu também Granada, em 1983, alegadamente para proteger da influência comunista estudantes americanos que cursavam medicina naquele país.

Os Estados Unidos também entraram sem convite no Afeganistão, em 2001, e no Iraque, em 2003. No primeiro caso, numa resposta cega aos ataques do 11 de Setembro e, no segundo, para capturarem inexistentes armas de destruição em massa. 

Em 2011, foi a vez de a Líbia ser atacada pela Otan, sob liderança dos americanos, mediante a justificativa de derrubar Muammar Gadaffi. O caso líbio sintetiza o que os Estados Unidos costumam legar às populações dos países que invadem: a Líbia não virou uma democracia estável, como prometiam os americanos, junto com a França e o Reino Unido. O país africano entrou num processo prolongado de colapso estatal, cujas consequências se arrastam até hoje.

De modo inédito, Donald Trump ataca a democracia em território americano. Externamente, não há muita novidade.

¨      Soberania não é tutela: o “Corolário Trump” e a volta do intervencionismo estadunidense. Por Fernanda Trompczynski

Há palavras que viram disfarces. “Soberania” é uma delas. Pode ser invocada em nome da proteção dos povos contra a tirania – ou mobilizada para justificar que uma nação imponha sua vontade à de seus vizinhos. É esse movimento que o governo dos Estados Unidos tem feito ao ressuscitar a Doutrina Monroe e revesti-la com um novo enunciado: o chamado “Corolário Trump”. O que se apresenta como defesa da autonomia norte-americana no nosso hemisfério tem funcionado, na prática, como o rebaixamento da soberania alheia a um mero detalhe burocrático.

O presidente Trump não tem sido nada sutil. Em mensagem oficial por ocasião dos 202 anos da Doutrina Monroe, em dezembro do ano passado, a Casa Branca celebrou que, “revigorada” por esse corolário, a doutrina estaria “viva e bem” – e conectou essa visão a operações, pressões regionais e à reorganização da ordem hemisférica sob liderança estadunidense. A mesma lógica aparece em documentos estratégicos e análises recentes: a ideia central é impedir que “competidores não hemisféricos” obtenham influência, ativos estratégicos ou presença considerada ameaçadora na região – diretriz que reabre a porta para coerção econômica e, no limite, para a força militar.

O problema, porém, não é apenas geopolítico. É democrático. Soberania não é apenas uma palavra: é um conjunto de condições concretas que permitem a um povo decidir seu próprio destino. Entre essas condições, duas são decisivas. A primeira é a liberdade enquanto capacidade real de escolher caminhos políticos, econômicos e sociais, sem tutela externa. A segunda é a subsidiariedade: o princípio de que decisões devem ser tomadas no nível mais próximo possível das pessoas afetadas, e só devem escalar a instâncias superiores quando isso for estritamente necessário. Em outras palavras, o poder deve escalar por necessidade – nunca descer como imposição.

Quando uma potência declara que “sempre controlará seu próprio destino em nosso hemisfério”, ela redesenha o mapa moral da soberania. Transforma o continente em espaço de jurisdição informal e os demais países em unidades subordinadas a um destino previamente definido em Washington. Isso agride a liberdade ao constranger escolhas legítimas e viola a subsidiariedade ao deslocar decisões que pertencem às sociedades para o topo de uma hierarquia externa. E quando liberdade e subsidiariedade são esvaziadas, a soberania vira apenas rótulo: permanece no discurso, mas se desfaz na realidade.

Historicamente, a Doutrina Monroe foi mobilizada como linguagem “defensiva” contra interferências europeias. Já o Corolário Roosevelt foi além: forneceu justificativas explícitas para intervenções sob o pretexto de “ordem” e “estabilidade” na América Latina, colocando os Estados Unidos na posição de polícia hemisférica. Ao atualizar essa gramática, o “Corolário Trump”, recupera justamente esse núcleo: uma potência que se atribui a função de árbitro do que é aceitável na região e do que deve ser “corrigido” por meio de pressão, sanções e, quando convém, ameaça ou emprego da força.

Nada disso, entretanto, enfrenta as verdadeiras causas da insegurança. Ao contrário: intervenções e tutelas tendem a corroer instituições, aprofundar dependências e produzir ciclos de crise. O continente conhece bem esse roteiro, e conhece também seu custo social e político. Por isso, num momento de intensa disputa na política internacional, é urgente reafirmar a subsidiariedade como critério democrático: decisões devem ser tomadas por quem vive suas consequências, com mecanismos de cooperação internacional que ampliem capacidades e solidariedade, e não que anulem a autonomia.

A resposta ao “corolário Trump” não é se submeter a outro polo de poder. É fortalecer um multilateralismo real, com centralidade dos direitos e da autodeterminação dos povos, e construir uma integração regional que não funcione como correia de transmissão de interesses externos. Isso exige defender a não intervenção como princípio, rejeitar a coerção como método e sustentar, na prática, a soberania democrática: aquela que se alimenta de liberdade e de subsidiariedade.

Por mais que se tente manipular seu significado, soberania não é o direito do mais forte de impor limites aos demais. Soberania é o direito dos povos de governarem a si mesmos – e isso só existe quando há liberdade e subsidiariedade como princípios. Se democracia é, em última instância, o governo do povo, nenhum hemisfério pode ser “propriedade” de um único povo – e nenhuma liberdade se sustenta quando a soberania vira concessão.

¨      Nasce a “tripolaridade” no mundo multipolar. Por José Reinaldo Carvalho

As relações internacionais vivem um momento de redefinição profunda, no qual gestos, encontros e palavras dos principais líderes globais ganham peso estrutural. A realização, no mesmo dia, de uma reunião virtual entre o presidente chinês Xi Jinping e o presidente russo Vladimir Putin, seguida de uma conversa telefônica entre Xi e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos é um sinal eloquente de como a China se posiciona no centro da política global, em um mundo que se consolida como multipolar e no qual se delineia com clareza também uma dinâmica de tripolaridade entre as grandes potências.

China, Rússia e Estados Unidos compartilham uma característica decisiva: são potências com elevadas responsabilidades no Conselho de Segurança da ONU e exercem influência determinante sobre os rumos da ordem internacional. As conversas deste 4 de fevereiro evidenciam a determinação chinesa de promover a coordenação entre as grandes potências e de atuar como um fator de estabilidade estratégica global em um cenário marcado por graves turbulências.

O encontro virtual entre Xi e Putin manteve uma tradição já consolidada de diálogo próximo na véspera do Festival da Primavera, reforçando a dimensão política e simbólica da relação sino-russa. A reunião expressou a continuidade de uma comunicação estratégica intensa, sustentada por uma relação pessoal consolidada entre os dois chefes de Estado.

Não deve passar despercebida a designação das relações bilaterais entre esses dois gigantes como “Parceria Estratégica Abrangente de Coordenação” e a assunção por ambos do dever de unir esforços globais para defender a equidade e a justiça internacionais, proteger os resultados vitoriosos da Segunda Guerra Mundial, salvaguardar o sistema internacional centrado na ONU e as normas fundamentais do direito internacional, além de manter conjuntamente a estabilidade estratégica global.

Por seu turno, Putin foi enfático ao afirmar que a Rússia confia plenamente na relação bilateral e que, diante de um ambiente internacional complexo e instável, está pronta para intensificar a coordenação estratégica com a China, contribuindo de forma positiva para as relações internacionais. Esse alinhamento revela que, em um contexto de crescente volatilidade, Pequim e Moscou buscam respostas mais coordenadas e consistentes às grandes questões globais, assumindo um papel mais ativo e visível na gestão das tensões internacionais.

No mesmo dia, Xi Jinping dialogou com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma conversa telefônica que também carrega forte significado político. Xi afirmou: “No novo ano, espero trabalhar com o senhor para conduzir o gigantesco navio das relações China-EUA com firmeza, superando ventos e tempestades, e alcançar conquistas ainda maiores e mais positivas”. Ao reconhecer que China e Estados Unidos têm agendas importantes em 2026, o líder chinês defendeu que ambos os lados sigam os entendimentos já alcançados, fortaleçam o diálogo, administrem adequadamente suas diferenças e ampliem a cooperação prática.

Xi foi ainda mais direto ao afirmar: “É sempre certo fazer algo bom, por menor que seja, e sempre errado fazer algo ruim, por menor que seja. Devemos progredir passo a passo para construir confiança mútua, encontrar a maneira certa de conviver e fazer de 2026 um ano em que nossos dois principais países avancem rumo ao respeito mútuo, à coexistência pacífica e à cooperação vantajosa para ambos”. Pragmático, rendendo-se à evidência dos fatos que atestam a força daquele que hostiliza como seu rival, num movimento para ganhar fôlego, respondeu de forma positiva, declarando que os Estados Unidos gostariam de trabalhar com a China e avançar nas relações bilaterais. O chefe da Casa Branca chegou a classificar a conversa com Xi como “excelente”, uma avaliação que não pode ser dissociada de cálculos estratégicos e pragmáticos.

Esses movimentos se inserem em uma diplomacia de chefes de Estado de grandes potências, o que apresenta também ao Brasil de Lula desafios e tarefas, dada a relevância do nosso país como potência emergente do Sul Global. 

As interações quase simultâneas entre China, Rússia e Estados Unidos elevaram esse impulso a um novo patamar. No pano de fundo, o mundo enfrenta debates cruciais: unilateralismo versus multilateralismo, diálogo versus confronto, cooperação versus conflito. Em meio a transformações sem precedentes em um século, cresce entre os países a busca por maior certeza e estabilidade. As sucessivas interações de líderes globais com Xi Jinping refletem esse anseio.

É nesse contexto que se pode falar no nascimento de uma tripolaridade dentro do mundo multipolar. A rivalidade entre as grandes potências não desaparece, mas em determinadas circunstâncias pode e deve ser administrada. Mesmo Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, demonstra compreender que uma confrontação direta com a China seria prejudicial aos interesses pragmáticos norte-americanos, optando por manejar a relação com Pequim como uma forma de ganhar tempo. 

O resultado é a afirmação e consolidação ainda maiores da multipolaridade, em que o papel das grandes potências é relevante e neste âmbito, o da China se mostra incontornável e cada vez mais central. 

Como país que constrói o socialismo com peculiaridades, sob a direção de um Partido Comunista lúcido e experiente, este papel aparece como fator favorável à luta dos países e povos por soberania, desenvolvimento, prosperidade e justiça, em um processo que também é incontornável historicamente de luta pela emancipação nacional e social.   

O Brasil tem diante de si o desafio de se inserir nesse processo de maneira favorável aos interesses nacionais e impulsionar a contribuição do nosso povo aos esforços pela paz mundial.

¨      Lula defende “parceria” com os EUA e diz que retorno de Maduro à Venezuela “não é a preocupação principal”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que pretende aprofundar o diálogo político e econômico entre Brasil e Estados Unidos, defendendo uma relação baseada em parcerias estratégicas e conversas diretas entre os chefes de Estado. Ao comentar a situação venezuelana, Lula disse que a principal preocupação não é o retorno do presidente Nicolás Maduro ao país, mas sim o fortalecimento da democracia e a melhoria das condições de vida da população.

As declarações foram dadas em entrevista ao UOL nesta quinta-feira (5). Lula afirmou que planeja uma viagem a Washington, possivelmente na primeira semana de março, para um encontro presencial com Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos. “Eu vou à Índia, à Coreia. Essa são as últimas duas viagens que eu faço para fora do Brasil, com exceção da viagem a Washington, possivelmente na primeira semana de março, para ter uma conversa olho no olho com o presidente Trump”, disse.

Segundo o presidente brasileiro, o diálogo direto é essencial para lidar com interesses comuns e divergências entre os dois países. “Somos presidentes das duas maiores democracias do Ocidente. Não pode ficar conversando por Twitter. Temos que sentar, ver quais são os problemas que afligem ele e os que me afligem, o que interessa para os Estados Unidos e para o Brasil e vamos trabalhar juntos, estabelecer acordos”, afirmou.

Lula destacou que não há temas vetados no diálogo bilateral, desde que a soberania brasileira seja respeitada. “Não tem tema proibido para mim. A única coisa que eu não discuto é a soberania do meu país. Mas discutir parcerias na indústria na exploração de terras raras, investimentos, aumento de exportação, tudo isso somos livres para discutir”, declarou.

Ao ampliar a análise para a América Latina, o presidente defendeu uma mudança de postura histórica na política internacional da região. “Nós, latino-americanos, precisamos aprender que temos 525 anos de história para saber o que deu certo ou não na América Latina. Fomos colonizados por espanhóis e portugueses, pela indústria inglesa e pelos países ricos, com os Estados Unidos tendo muita influência. A América do Sul quase não conversavam. Toda a AMérica do Sul espanhola era doutrinada a ter medo do Brasil, e o Brasil era doutrinado a não se preocupar com os pobres. Eu tomei a decisão de que a gente deveria mudar a lógica da política internacional do Brasil. Nós vivemos o melhor período de política social, de inclusão social e crescimento da história da América do Sul no período de 2002 a 2012”.

Questionado sobre a possibilidade de retorno do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa à Venezuela após o sequestro por forças dos Estados Unidos em 3 de janeiro, Lula relativizou o tema. “Essa não é a preocupação principal. A preocupação principal é a seguinte: há possibilidade da gente fortalecer a democracia na Venezuela? E o povo da Venezuela, 8 milhões que estão fora, voltar? Há condições de fazer com que a democracia seja respeitada efetivamente e o povo possa participar efetivamente? O que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não, se vai gerar emprego, se vai voltar a produzir 3,7 milhões de barris por dia”, afirmou.

O presidente também disse ter reforçado ao presidente dos Estados Unidos a visão de que a América do Sul deve ser tratada como uma região de paz. “O que estamos dizendo ao presidente Trump? A América do Sul é uma zona de paz, a gente não tem bomba atômica, arma nuclear. O que a gente quer é crescer economicamente, fortalecer o processo democrático e melhorar a vida de milhões de latino-americanos. A América Latina não pode continuar sendo pobre”, disse.

Para Lula, a solução para a crise venezuelana deve partir do próprio povo do país. “Eu disse ao presidente Trump: quem vai resolver o problema da Venezuela são os venezuelanos. Permitam que eles resolvam os problemas deles. Eles têm que assumir a responsabilidade. Ou nós, latino-americanos criamos coragem e criamos instituições fortes entre nós e montamos um bloco para trabalharmos conjuntamente com o resto do mundo, ou nós estamos fadados a mais um século de pobreza e esquecimento. Depende de nós. Precisamos descolonizar a nossa cabeça”, declarou.

Lula também comentou a proposta de criação de um “Conselho de Paz” para tratar da situação em Gaza e disse que o Brasil tem interesse em participar, desde que haja representação palestina. “Eu disse ao presidente Trump que se o ‘Conselho de Paz’ for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo o interesse de participar. Agora, é muito estranho que voce crie um conselho e não tenha um palestino na direção desse conselho. Que a proposta que foi apresentada de reconstrução é mais um resort do que a reconstrução de Gaza. Quero saber quem vai reconstruir as casas, os hospitais, as padarias, os bares que foram detonados. A vida de 75 mil de mulheres e crianças não retornarão mais. Estamos dispostos a participar, mas é preciso que os palestinos estejam na mesa”, concluiu.

 

Fonte: Brasil 247

 

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