Paulo
Henrique Arantes: Os Estados Unidos contra a democracia — dentro e fora de casa
Os
Estados Unidos eram, até o advento Donald Trump, reverenciados como modelo de
democracia interna: dentro do seu território, reinavam a liberdade e a vontade
popular, a despeito das injustiças inerentes ao capitalismo. A esquerda que se
contrapunha a essa noção era taxada de dogmática, alinhada aos interesses do
bloco socialista comandado então pela União Soviética. Há verdade nisso,
especialmente no contexto da Guerra Fria, mas aquele tempo acabou.
A ideia
de democracia modelar americana é derrubada pela total inércia de suas
instituições diante do autoritarismo do atual presidente. A nação não possui os
tais freios e contrapesos alardeados para coibir os ímpetos fascistas de Donald
Trump, tanto que simplesmente não os coíbe ou o faz canhestramente. O
presidente faz o que bem entende e isso configura um país não-democrático.
Hoje, os Estados Unidos, em face da opressão e da perseguição a determinados
grupos e etnias, além do cerco a universidades e a veículos de imprensa não
alinhados, são um exemplo a não ser seguido até pelo Ocidente capitalista.
Internacionalmente,
a leitura é mais fácil. Os Estados Unidos jamais transmitiram ao mundo um
recado real de apreço pela democracia, contrariando seu próprio discurso. Na
América do Sul, apoiaram e financiaram todas as ditaduras militares do Século
XX. Quando derrubaram ditadores em outras partes do globo, o fizeram motivados
por escancarados interesses mercantis.
Os
Estados Unidos são um país belicoso e belicista. Muito mais do que entrarem em
guerras na condição de força decisiva, foram agressores, invadindo por
iniciativa própria e pilhando, como fazem na Venezuela e prometem fazer na
Groelândia. Assim aconteceu nas intervenções que promoveram de 1900 a 1934 na
Nicarágua, no Haiti, em Honduras, na República Dominicana e em Cuba,
objetivando ao controle político.
Na
ânsia de vencer uma Guerra Fria polarizadora, os Estados Unidos ingressaram no
Vietnã, conflito que durou de 1955 a 1975 e que era uma briga interna até que
os americanos a internacionalizassem.
O país
tido como modelo de democracia invadiu a Baía dos Porcos, em Cuba, no ano de
1961, para derrubar Fidel Castro – fracassou, como se sabe. Invadiu também
Granada, em 1983, alegadamente para proteger da influência comunista estudantes
americanos que cursavam medicina naquele país.
Os
Estados Unidos também entraram sem convite no Afeganistão, em 2001, e no
Iraque, em 2003. No primeiro caso, numa resposta cega aos ataques do 11 de
Setembro e, no segundo, para capturarem inexistentes armas de destruição em
massa.
Em
2011, foi a vez de a Líbia ser atacada pela Otan, sob liderança dos americanos,
mediante a justificativa de derrubar Muammar Gadaffi. O caso líbio sintetiza o
que os Estados Unidos costumam legar às populações dos países que invadem: a
Líbia não virou uma democracia estável, como prometiam os americanos, junto com
a França e o Reino Unido. O país africano entrou num processo prolongado de
colapso estatal, cujas consequências se arrastam até hoje.
De modo
inédito, Donald Trump ataca a democracia em território americano. Externamente,
não há muita novidade.
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Soberania não é tutela: o “Corolário Trump” e a volta do
intervencionismo estadunidense. Por Fernanda Trompczynski
Há
palavras que viram disfarces. “Soberania” é uma delas. Pode ser invocada em
nome da proteção dos povos contra a tirania – ou mobilizada para justificar que
uma nação imponha sua vontade à de seus vizinhos. É esse movimento que o
governo dos Estados Unidos tem feito ao ressuscitar a Doutrina Monroe e
revesti-la com um novo enunciado: o chamado “Corolário Trump”. O que se
apresenta como defesa da autonomia norte-americana no nosso hemisfério tem
funcionado, na prática, como o rebaixamento da soberania alheia a um mero
detalhe burocrático.
O
presidente Trump não tem sido nada sutil. Em mensagem oficial por ocasião dos
202 anos da Doutrina Monroe, em dezembro do ano passado, a Casa Branca celebrou
que, “revigorada” por esse corolário, a doutrina estaria “viva e bem” – e
conectou essa visão a operações, pressões regionais e à reorganização da ordem
hemisférica sob liderança estadunidense. A mesma lógica aparece em documentos
estratégicos e análises recentes: a ideia central é impedir que “competidores
não hemisféricos” obtenham influência, ativos estratégicos ou presença
considerada ameaçadora na região – diretriz que reabre a porta para coerção
econômica e, no limite, para a força militar.
O
problema, porém, não é apenas geopolítico. É democrático. Soberania não é
apenas uma palavra: é um conjunto de condições concretas que permitem a um povo
decidir seu próprio destino. Entre essas condições, duas são decisivas. A
primeira é a liberdade enquanto capacidade real de escolher caminhos políticos,
econômicos e sociais, sem tutela externa. A segunda é a subsidiariedade: o
princípio de que decisões devem ser tomadas no nível mais próximo possível das
pessoas afetadas, e só devem escalar a instâncias superiores quando isso for
estritamente necessário. Em outras palavras, o poder deve escalar por
necessidade – nunca descer como imposição.
Quando
uma potência declara que “sempre controlará seu próprio destino em nosso
hemisfério”, ela redesenha o mapa moral da soberania. Transforma o continente
em espaço de jurisdição informal e os demais países em unidades subordinadas a
um destino previamente definido em Washington. Isso agride a liberdade ao
constranger escolhas legítimas e viola a subsidiariedade ao deslocar decisões
que pertencem às sociedades para o topo de uma hierarquia externa. E quando
liberdade e subsidiariedade são esvaziadas, a soberania vira apenas rótulo:
permanece no discurso, mas se desfaz na realidade.
Historicamente,
a Doutrina Monroe foi mobilizada como linguagem “defensiva” contra
interferências europeias. Já o Corolário Roosevelt foi além: forneceu
justificativas explícitas para intervenções sob o pretexto de “ordem” e
“estabilidade” na América Latina, colocando os Estados Unidos na posição de
polícia hemisférica. Ao atualizar essa gramática, o “Corolário Trump”, recupera
justamente esse núcleo: uma potência que se atribui a função de árbitro do que
é aceitável na região e do que deve ser “corrigido” por meio de pressão,
sanções e, quando convém, ameaça ou emprego da força.
Nada
disso, entretanto, enfrenta as verdadeiras causas da insegurança. Ao contrário:
intervenções e tutelas tendem a corroer instituições, aprofundar dependências e
produzir ciclos de crise. O continente conhece bem esse roteiro, e conhece
também seu custo social e político. Por isso, num momento de intensa disputa na
política internacional, é urgente reafirmar a subsidiariedade como critério
democrático: decisões devem ser tomadas por quem vive suas consequências, com
mecanismos de cooperação internacional que ampliem capacidades e solidariedade,
e não que anulem a autonomia.
A
resposta ao “corolário Trump” não é se submeter a outro polo de poder. É
fortalecer um multilateralismo real, com centralidade dos direitos e da
autodeterminação dos povos, e construir uma integração regional que não
funcione como correia de transmissão de interesses externos. Isso exige
defender a não intervenção como princípio, rejeitar a coerção como método e
sustentar, na prática, a soberania democrática: aquela que se alimenta de
liberdade e de subsidiariedade.
Por
mais que se tente manipular seu significado, soberania não é o direito do mais
forte de impor limites aos demais. Soberania é o direito dos povos de
governarem a si mesmos – e isso só existe quando há liberdade e subsidiariedade
como princípios. Se democracia é, em última instância, o governo do povo,
nenhum hemisfério pode ser “propriedade” de um único povo – e nenhuma liberdade
se sustenta quando a soberania vira concessão.
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Nasce a “tripolaridade” no mundo multipolar. Por José
Reinaldo Carvalho
As
relações internacionais vivem um momento de redefinição profunda, no qual
gestos, encontros e palavras dos principais líderes globais ganham peso
estrutural. A realização, no mesmo dia, de uma reunião virtual entre o
presidente chinês Xi Jinping e o presidente russo Vladimir Putin, seguida de
uma conversa telefônica entre Xi e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
é um sinal eloquente de como a China se posiciona no centro da política global,
em um mundo que se consolida como multipolar e no qual se delineia com clareza
também uma dinâmica de tripolaridade entre as grandes potências.
China,
Rússia e Estados Unidos compartilham uma característica decisiva: são potências
com elevadas responsabilidades no Conselho de Segurança da ONU e exercem
influência determinante sobre os rumos da ordem internacional. As conversas
deste 4 de fevereiro evidenciam a determinação chinesa de promover a
coordenação entre as grandes potências e de atuar como um fator de estabilidade
estratégica global em um cenário marcado por graves turbulências.
O
encontro virtual entre Xi e Putin manteve uma tradição já consolidada de
diálogo próximo na véspera do Festival da Primavera, reforçando a dimensão
política e simbólica da relação sino-russa. A reunião expressou a continuidade
de uma comunicação estratégica intensa, sustentada por uma relação pessoal
consolidada entre os dois chefes de Estado.
Não
deve passar despercebida a designação das relações bilaterais entre esses dois
gigantes como “Parceria Estratégica Abrangente de Coordenação” e a assunção por
ambos do dever de unir esforços globais para defender a equidade e a justiça
internacionais, proteger os resultados vitoriosos da Segunda Guerra Mundial,
salvaguardar o sistema internacional centrado na ONU e as normas fundamentais
do direito internacional, além de manter conjuntamente a estabilidade
estratégica global.
Por seu
turno, Putin foi enfático ao afirmar que a Rússia confia plenamente na relação
bilateral e que, diante de um ambiente internacional complexo e instável, está
pronta para intensificar a coordenação estratégica com a China, contribuindo de
forma positiva para as relações internacionais. Esse alinhamento revela que, em
um contexto de crescente volatilidade, Pequim e Moscou buscam respostas mais
coordenadas e consistentes às grandes questões globais, assumindo um papel mais
ativo e visível na gestão das tensões internacionais.
No
mesmo dia, Xi Jinping dialogou com o presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, em uma conversa telefônica que também carrega forte significado
político. Xi afirmou: “No novo ano, espero trabalhar com o senhor para conduzir
o gigantesco navio das relações China-EUA com firmeza, superando ventos e
tempestades, e alcançar conquistas ainda maiores e mais positivas”. Ao
reconhecer que China e Estados Unidos têm agendas importantes em 2026, o líder
chinês defendeu que ambos os lados sigam os entendimentos já alcançados,
fortaleçam o diálogo, administrem adequadamente suas diferenças e ampliem a
cooperação prática.
Xi foi
ainda mais direto ao afirmar: “É sempre certo fazer algo bom, por menor que
seja, e sempre errado fazer algo ruim, por menor que seja. Devemos progredir
passo a passo para construir confiança mútua, encontrar a maneira certa de
conviver e fazer de 2026 um ano em que nossos dois principais países avancem
rumo ao respeito mútuo, à coexistência pacífica e à cooperação vantajosa para
ambos”. Pragmático, rendendo-se à evidência dos fatos que atestam a força
daquele que hostiliza como seu rival, num movimento para ganhar fôlego,
respondeu de forma positiva, declarando que os Estados Unidos gostariam de
trabalhar com a China e avançar nas relações bilaterais. O chefe da Casa Branca
chegou a classificar a conversa com Xi como “excelente”, uma avaliação que não
pode ser dissociada de cálculos estratégicos e pragmáticos.
Esses
movimentos se inserem em uma diplomacia de chefes de Estado de grandes
potências, o que apresenta também ao Brasil de Lula desafios e tarefas, dada a
relevância do nosso país como potência emergente do Sul Global.
As
interações quase simultâneas entre China, Rússia e Estados Unidos elevaram esse
impulso a um novo patamar. No pano de fundo, o mundo enfrenta debates cruciais:
unilateralismo versus multilateralismo, diálogo versus confronto, cooperação
versus conflito. Em meio a transformações sem precedentes em um século, cresce
entre os países a busca por maior certeza e estabilidade. As sucessivas
interações de líderes globais com Xi Jinping refletem esse anseio.
É nesse
contexto que se pode falar no nascimento de uma tripolaridade dentro do mundo
multipolar. A rivalidade entre as grandes potências não desaparece, mas em
determinadas circunstâncias pode e deve ser administrada. Mesmo Donald Trump,
presidente dos Estados Unidos, demonstra compreender que uma confrontação
direta com a China seria prejudicial aos interesses pragmáticos
norte-americanos, optando por manejar a relação com Pequim como uma forma de
ganhar tempo.
O
resultado é a afirmação e consolidação ainda maiores da multipolaridade, em que
o papel das grandes potências é relevante e neste âmbito, o da China se mostra
incontornável e cada vez mais central.
Como
país que constrói o socialismo com peculiaridades, sob a direção de um Partido
Comunista lúcido e experiente, este papel aparece como fator favorável à luta
dos países e povos por soberania, desenvolvimento, prosperidade e justiça, em
um processo que também é incontornável historicamente de luta pela emancipação
nacional e social.
O
Brasil tem diante de si o desafio de se inserir nesse processo de maneira
favorável aos interesses nacionais e impulsionar a contribuição do nosso povo
aos esforços pela paz mundial.
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Lula defende “parceria” com os EUA e diz que retorno de
Maduro à Venezuela “não é a preocupação principal”
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que pretende aprofundar o
diálogo político e econômico entre Brasil e Estados Unidos, defendendo uma
relação baseada em parcerias estratégicas e conversas diretas entre os chefes
de Estado. Ao comentar a situação venezuelana, Lula disse que a principal
preocupação não é o retorno do presidente Nicolás Maduro ao país, mas sim o
fortalecimento da democracia e a melhoria das condições de vida da população.
As
declarações foram dadas em entrevista ao UOL nesta
quinta-feira (5). Lula afirmou que planeja uma viagem a Washington,
possivelmente na primeira semana de março, para um encontro presencial com
Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos. “Eu vou à Índia, à Coreia. Essa
são as últimas duas viagens que eu faço para fora do Brasil, com exceção da
viagem a Washington, possivelmente na primeira semana de março, para ter uma
conversa olho no olho com o presidente Trump”, disse.
Segundo
o presidente brasileiro, o diálogo direto é essencial para lidar com interesses
comuns e divergências entre os dois países. “Somos presidentes das duas maiores
democracias do Ocidente. Não pode ficar conversando por Twitter. Temos que
sentar, ver quais são os problemas que afligem ele e os que me afligem, o que
interessa para os Estados Unidos e para o Brasil e vamos trabalhar juntos,
estabelecer acordos”, afirmou.
Lula
destacou que não há temas vetados no diálogo bilateral, desde que a soberania
brasileira seja respeitada. “Não tem tema proibido para mim. A única coisa que
eu não discuto é a soberania do meu país. Mas discutir parcerias na indústria
na exploração de terras raras, investimentos, aumento de exportação, tudo isso
somos livres para discutir”, declarou.
Ao
ampliar a análise para a América Latina, o presidente defendeu uma mudança de
postura histórica na política internacional da região. “Nós, latino-americanos,
precisamos aprender que temos 525 anos de história para saber o que deu certo
ou não na América Latina. Fomos colonizados por espanhóis e portugueses, pela
indústria inglesa e pelos países ricos, com os Estados Unidos tendo muita
influência. A América do Sul quase não conversavam. Toda a AMérica do Sul
espanhola era doutrinada a ter medo do Brasil, e o Brasil era doutrinado a não
se preocupar com os pobres. Eu tomei a decisão de que a gente deveria mudar a
lógica da política internacional do Brasil. Nós vivemos o melhor período de
política social, de inclusão social e crescimento da história da América do Sul
no período de 2002 a 2012”.
Questionado
sobre a possibilidade de retorno do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa à
Venezuela após o sequestro por forças dos Estados Unidos em 3 de janeiro, Lula
relativizou o tema. “Essa não é a preocupação principal. A preocupação
principal é a seguinte: há possibilidade da gente fortalecer a democracia na
Venezuela? E o povo da Venezuela, 8 milhões que estão fora, voltar? Há
condições de fazer com que a democracia seja respeitada efetivamente e o povo
possa participar efetivamente? O que está em jogo é se a gente vai melhorar a
vida do povo ou não, se vai gerar emprego, se vai voltar a produzir 3,7 milhões
de barris por dia”, afirmou.
O
presidente também disse ter reforçado ao presidente dos Estados Unidos a visão
de que a América do Sul deve ser tratada como uma região de paz. “O que estamos
dizendo ao presidente Trump? A América do Sul é uma zona de paz, a gente não
tem bomba atômica, arma nuclear. O que a gente quer é crescer economicamente,
fortalecer o processo democrático e melhorar a vida de milhões de
latino-americanos. A América Latina não pode continuar sendo pobre”, disse.
Para
Lula, a solução para a crise venezuelana deve partir do próprio povo do país.
“Eu disse ao presidente Trump: quem vai resolver o problema da Venezuela são os
venezuelanos. Permitam que eles resolvam os problemas deles. Eles têm que
assumir a responsabilidade. Ou nós, latino-americanos criamos coragem e criamos
instituições fortes entre nós e montamos um bloco para trabalharmos
conjuntamente com o resto do mundo, ou nós estamos fadados a mais um século de
pobreza e esquecimento. Depende de nós. Precisamos descolonizar a nossa
cabeça”, declarou.
Lula
também comentou a proposta de criação de um “Conselho de Paz” para tratar da
situação em Gaza e disse que o Brasil tem interesse em participar, desde que
haja representação palestina. “Eu disse ao presidente Trump que se o ‘Conselho
de Paz’ for para cuidar de Gaza, o Brasil tem todo o interesse de participar.
Agora, é muito estranho que voce crie um conselho e não tenha um palestino na
direção desse conselho. Que a proposta que foi apresentada de reconstrução é
mais um resort do que a reconstrução de Gaza. Quero saber quem vai reconstruir
as casas, os hospitais, as padarias, os bares que foram detonados. A vida de 75
mil de mulheres e crianças não retornarão mais. Estamos dispostos a participar,
mas é preciso que os palestinos estejam na mesa”, concluiu.
Fonte:
Brasil 247

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