Olímpio
Cruz Neto: Caso Master - a cleptocracia de gravata que o Brasil aprendeu a
tolerar
O
escândalo do Banco Master não cabe no rótulo confortável de “caso bancário”.
Ele funciona como radiografia — nítida, incômoda — de um mecanismo que o Brasil
foi normalizando: a cleptocracia financeirizada, de terno e planilha, que não
precisa de mala nem de obra superfaturada para operar. Basta uma arquitetura
opaca, incentivos desalinhados, distribuição agressiva de risco e, quando o
castelo cede, a tentativa de socializar o prejuízo, com verniz técnico e
disputa narrativa.
A
cronologia pública ajuda a entender por que o episódio ultrapassou o noticiário
econômico e foi parar no coração do sistema político. Em novembro de 2025, o
conglomerado Master entrou em liquidação. Em 21 de janeiro de 2026, o Banco
Central decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira, unidade ligada
ao grupo, citando insolvência e deterioração financeira. E agora o tema chegou
formalmente ao Senado: em 4 de fevereiro de 2026, a Comissão de Assuntos
Econômicos instalou uma subcomissão para acompanhar as investigações e as
condutas atribuídas ao banco.
O que
se revela, no fundo, é menos um “desvio moral” do que um problema de desenho
institucional. Ainda há espaço — demais — para que risco privado seja embalado
como produto de varejo, vendido com linguagem de segurança e depois devolvido à
sociedade sob a forma de crise política, judicial e reputacional. O país paga
duas vezes: no dano e na confusão.
A
seguir, os pingos nos 'is' — não como catarse, mas como diagnóstico.
>>
1) Supervisão tardia também é uma forma de omissão
A
discussão séria não é se o Banco Central “fez algo”. Fez: a liquidação
extrajudicial está entre as medidas mais duras do repertório regulatório. A
pergunta incômoda é outra: por que o sistema precisou chegar ao último ato para
que a intervenção se tornasse inevitável?
Quando
a contenção preventiva falha, ou chega tarde, abre-se um buraco de confiança.
E, num país onde a complexidade técnica costuma servir de escudo, esse buraco
vira disputa: de versões, de culpas, de competências. A entrada do Tribunal de
Contas da União no debate, revisando procedimentos e legalidade, sinaliza
exatamente isso: o caso já é maior do que um banco. É sobre a previsibilidade
do Estado quando a crise bate à porta.
>>
2) A esteira de distribuição: risco embalado como “renda fixa”
A
cleptocracia moderna não opera sozinha. Precisa de uma esteira: canais de
distribuição, validações simbólicas, narrativas de rentabilidade,
intermediários que ganham no caminho e um varejo acostumado a comprar “renda
fixa” sem compreender o risco de crédito que está por baixo do tapete.
Quando
um caso desse tamanho estoura, a pergunta que deveria comandar o debate público
é simples: como produtos de risco elevado viram consumo de massa? Quem ganha na
ponta intermediária? Quais incentivos empurram a venda? Quais carimbos
substituem a transparência? A cleptocracia se alimenta justamente da distância
entre o que o investidor imagina estar comprando e o que a estrutura, de fato,
é.
>>
3) O controlador como sintoma, não como personagem
É
tentador transformar o controlador em caricatura — e isso até rende manchete.
Mas o essencial é menos adjetivo e mais tipologia: apetite extremo por risco,
assimetria de consequências, suspeitas graves em torno de estruturas e lastros
e a velha lógica do “ganho privatizado, prejuízo pulverizado”.
O
noticiário registra que Daniel Vorcaro foi preso no contexto de investigação e
liberado sob monitoramento, e que a liquidação ocorreu em meio a apurações
sobre fraude e papéis supostamente lastreados em ativos fictícios. Se as
suspeitas se confirmarem, o roteiro é conhecido: distribui-se risco como
produto “sofisticado”, judicializa-se o colapso e tenta-se empurrar a conta
para mecanismos coletivos — formais ou informais.
>>
4) Quando chega ao Congresso, o colapso vira disputa de proteção
A ida
do caso ao Senado é um marco. Pode ser trilho de transparência — quebrar
sigilos, ordenar linha do tempo, produzir consequência. Mas pode também virar
teatro: disputa de versões, blindagens, culpados úteis, fumaça para deslocar o
foco do desenho estrutural que permitiu o enredo.
A
pergunta política decisiva é direta: a subcomissão será instrumento de apuração
com consequência ou mais um palco para administrar o escândalo até ele cansar?
>>
5) E a CVM: dissuasão real ou custo operacional?
Parte
do que sustenta episódios assim passa pelo mercado de capitais, fundos,
distribuição e estruturas de intermediação. Há um dado público relevante: em 2
de dezembro de 2025, o Colegiado da CVM rejeitou novas propostas de Termo de
Compromisso envolvendo o Banco Master, empresas relacionadas e pessoas físicas,
no contexto de processo sancionador.
Isso
recoloca uma pergunta antiga em termos brutais: a capacidade sancionadora e
preventiva da CVM assusta operadores bilionários? Ou termos, multas e acordos
viraram custo operacional para apetite predatório? Regulador que não impõe
custo real acaba virando parte do modelo.
>>
6) Autonomia do BC não é escudo mágico
O caso
expõe um equívoco recorrente: tratar autonomia formal como sinônimo de
independência prática e resposta eficiente. Autonomia é importante — mas não
impede atraso, não bloqueia lobby, não resolve falhas de coordenação.
Se a
supervisão entra tarde, a sociedade não se consola com a fórmula “é técnico e
autônomo”. Ela perde duas vezes: perde no dano e perde na explicação. Autonomia
só faz sentido quando vem acompanhada de accountability inteligível — prestação
de contas sobre riscos emergentes, gatilhos de intervenção e coordenação com
outros órgãos.
>>
7) Reforma do Estado: controle é infraestrutura, não moralismo
O
Brasil ama discutir corrupção como pecado individual — e, assim, adia a
pergunta sobre o sistema. O caso Master empurra o debate para o lugar certo:
controle como infraestrutura. Integração BC–CVM–PF–MP, protocolos de crise,
transparência ativa, rastreabilidade de risco no varejo.
A
reforma necessária não é “mais Estado” ou “menos Estado”. É Estado capaz —
capaz de enxergar, reagir e prevenir sem virar refém da complexidade que
deveria regular.
>>
8) Banco público no enredo: quando o cidadão vira acionista do risco
A
presença do BRB é um ponto sensível porque encosta na fronteira entre risco
privado e lastro público. Reportagens registram depoimento de diretor do Banco
Central indicando que o BRB pode ter de provisionar mais de R$ 5 bilhões por
perdas ligadas a negócios com o Master, e que as transações entre as
instituições somaram R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025.
Mesmo
antes de qualquer conclusão definitiva, a lição institucional é simples: quando
um banco público entra em operações de alto risco reputacional e sistêmico, o
cidadão vira acionista involuntário do perigo. Se banco estatal atua no
mercado, precisa de governança reforçada, limites rígidos de concentração e
transparência acima do padrão.
>>
9) Quem vigia os vigilantes?
A
pergunta final é a mais séria: como impedir que o sistema aprenda a repetir o
ciclo? A resposta passa menos por indignação e mais por método.
Auditorias
periódicas sobre supervisão, quarentenas reais contra porta giratória, métricas
públicas de tempo de reação, reincidência e exposição — isso deveria fazer
parte do desenho institucional. Não como revanche, mas como prevenção.
>>
10) Litígios de alto impacto: império da lei, não guerra de narrativa
Casos
sistêmicos costumam virar litígio com efeito dominó. A sociedade precisa de
trilhos processuais previsíveis e transparência proporcional ao risco sistêmico
— especialmente quando decisões podem alterar o destino de uma liquidação, o
ritmo de venda de ativos e a proteção de investidores.
O Caso
Master é espelho de um país onde “complexidade” virou desculpa para “captura” e
onde a cleptocracia não precisa vencer a lei: basta vencer o tempo.
• PF abre novas frentes no caso Master e
apura investimentos bilionários de fundos de estados e municípios
A
Polícia Federal (PF) ampliou o cerco em torno do Banco Master ao avançar em
diferentes frentes de investigação sobre a aplicação de recursos de fundos
previdenciários estaduais e municipais na instituição financeira, que foi
liquidada pelo Banco Central em novembro. As apurações miram aportes realizados
por regimes próprios de previdência social, envolvendo cifras bilionárias
direcionadas a títulos emitidos pelo banco. As informações são do jornal O
Globo.
No
Amapá, a PF realizou uma operação para apurar suspeitas de irregularidades na
gestão de recursos do Regime Próprio de Previdência Social do Estado (RPPS/AP).
O foco está na aprovação e execução de investimentos feitos pela Amapá
Previdência (Amprev) em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master.
Play
Video
Batizada
de Operação Zona Cinzenta, a ação cumpriu quatro mandados de busca e apreensão,
autorizados pela 4ª Vara da Justiça Federal. Entre os alvos estão o diretor da
Amprev, Jolcildo Lemos, além de integrantes do comitê de investimentos da
autarquia.
De
acordo com a apuração, os investigados teriam participado de votações que
aprovaram a aplicação em Letras Financeiras do Banco Master em três reuniões
realizadas em julho de 2024. O investimento levou a Amprev a alocar R$ 400
milhões em papéis emitidos pela instituição.
O
aporte feito pela Amapá Previdência é o segundo maior entre 18 entidades
estaduais e municipais que aplicaram recursos no Banco Master. O maior
investimento, segundo o levantamento, foi feito pelo Rioprevidência, fundo
previdenciário do Estado do Rio de Janeiro, que aplicou cerca de R$ 970 milhões
no banco.
No
total, 18 entidades de regimes próprios de previdência social — sendo três
estaduais e 15 municipais — direcionaram aproximadamente R$ 1,876 bilhão para
Letras Financeiras do Banco Master entre outubro de 2023 e dezembro de 2024.
Esses títulos, conforme apontado, não possuem garantia.
No Rio
de Janeiro, a PF já havia deflagrado, em 23 de janeiro, a Operação Barco de
Papel, também relacionada às investigações envolvendo o Banco Master. A
ofensiva teve como alvo diretores do Rioprevidência e apura operações
financeiras realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024.
Segundo
as informações, a apuração no estado envolve nove operações que resultaram na
aplicação de cerca de R$ 970 milhões em Letras Financeiras emitidas pela
instituição. Os recursos aplicados, conforme o levantamento, faziam parte do
montante destinado ao pagamento de aposentadorias de servidores que ingressaram
no serviço público na última década.
As
investigações, no entanto, não se restringem ao Amapá e ao Rio. O caso ganhou
dimensão nacional e já motivou a abertura de inquéritos por Ministérios
Públicos em ao menos seis estados: Alagoas, Amapá, Amazonas, Goiás, Rio de
Janeiro e São Paulo.
• Governador da Bahia, descarta impacto do
caso Master no PT
O
governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), descartou nesta sexta-feira (6)
possíveis reflexos políticos do caso envolvendo o Banco Master sobre a imagem
do PT e negou manter qualquer tipo de relação com empresários associados à
instituição. Em entrevista a Milena Teixeira, do Metrópoles, o petista afirmou
que não tem contato com Daniel Vorcaro, dono do banco, e sustentou que uma
suposta conexão do PT baiano com o tema não tem relevância prática para a
população.
Segundo
Jerônimo, a repercussão do caso ocorre dentro do ambiente político, mas não se
traduz em impacto real no cotidiano dos eleitores. Para ele, o nome de Vorcaro
é praticamente desconhecido na Bahia, o que enfraqueceria qualquer tentativa de
associar o partido ao episódio. “Isso acontece no ambiente da política. Se você
percorrer qualquer município baiano, qualquer um, as pessoas não têm nem noção
de quem é Vorcaro. Eu, por exemplo, não tenho contato, nunca tive”, declarou.
Play
Video
O
governador também comentou a suposta ligação do PT estadual com Augusto
Ferreira Lima, apontado como sócio do Banco Master e conhecido como Guga Lima,
reforçando que não mantém relação pessoal com o empresário. Jerônimo argumentou
que qualquer interação envolvendo o governo baiano e agentes econômicos deve
ser compreendida sob a ótica institucional.
Ele
afirmou que o Estado realizou uma negociação por meio de procedimentos formais
e regulares, destacando que o processo seguiu regras administrativas e não se
deu por vínculo pessoal. “O que houve na Bahia foi a venda, se é possível ligar
esse tema. No campo pessoal, se houver amizade com alguém, trata-se de uma
relação entre pessoas. Eu falo enquanto instituição. A Bahia tem tranquilidade
para dizer que o que fizemos foi lançar um processo de licitação para
comercializar um equipamento que, na nossa concepção, não interessava ao
governo”, afirmou.
Jerônimo
também disse que tem sido alvo de conteúdos falsos ou distorcidos nas redes
sociais, com imagens suas associadas ao caso. Ele garantiu que não possui
amizade com os envolvidos e se colocou à disposição para esclarecer qualquer
questionamento. “Tenho tranquilidade ao ver, às vezes, fake news e mentiras,
nas quais colocam minha foto e dizem que tenho relação. Posso afirmar que não
tenho amizade; quem quiser pode procurar, verificar, forneço qualquer tipo de
informação do meu telefone. Não tenho relação. E, se tiver de sentar, sentarei.
Enquanto governador, tenho que dialogar com as forças econômicas e políticas”,
completou.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário