segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Olímpio Cruz Neto: Caso Master - a cleptocracia de gravata que o Brasil aprendeu a tolerar

O escândalo do Banco Master não cabe no rótulo confortável de “caso bancário”. Ele funciona como radiografia — nítida, incômoda — de um mecanismo que o Brasil foi normalizando: a cleptocracia financeirizada, de terno e planilha, que não precisa de mala nem de obra superfaturada para operar. Basta uma arquitetura opaca, incentivos desalinhados, distribuição agressiva de risco e, quando o castelo cede, a tentativa de socializar o prejuízo, com verniz técnico e disputa narrativa.

A cronologia pública ajuda a entender por que o episódio ultrapassou o noticiário econômico e foi parar no coração do sistema político. Em novembro de 2025, o conglomerado Master entrou em liquidação. Em 21 de janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira, unidade ligada ao grupo, citando insolvência e deterioração financeira. E agora o tema chegou formalmente ao Senado: em 4 de fevereiro de 2026, a Comissão de Assuntos Econômicos instalou uma subcomissão para acompanhar as investigações e as condutas atribuídas ao banco.

O que se revela, no fundo, é menos um “desvio moral” do que um problema de desenho institucional. Ainda há espaço — demais — para que risco privado seja embalado como produto de varejo, vendido com linguagem de segurança e depois devolvido à sociedade sob a forma de crise política, judicial e reputacional. O país paga duas vezes: no dano e na confusão.

A seguir, os pingos nos 'is' — não como catarse, mas como diagnóstico.

>> 1) Supervisão tardia também é uma forma de omissão

A discussão séria não é se o Banco Central “fez algo”. Fez: a liquidação extrajudicial está entre as medidas mais duras do repertório regulatório. A pergunta incômoda é outra: por que o sistema precisou chegar ao último ato para que a intervenção se tornasse inevitável?

Quando a contenção preventiva falha, ou chega tarde, abre-se um buraco de confiança. E, num país onde a complexidade técnica costuma servir de escudo, esse buraco vira disputa: de versões, de culpas, de competências. A entrada do Tribunal de Contas da União no debate, revisando procedimentos e legalidade, sinaliza exatamente isso: o caso já é maior do que um banco. É sobre a previsibilidade do Estado quando a crise bate à porta.

>> 2) A esteira de distribuição: risco embalado como “renda fixa”

A cleptocracia moderna não opera sozinha. Precisa de uma esteira: canais de distribuição, validações simbólicas, narrativas de rentabilidade, intermediários que ganham no caminho e um varejo acostumado a comprar “renda fixa” sem compreender o risco de crédito que está por baixo do tapete.

Quando um caso desse tamanho estoura, a pergunta que deveria comandar o debate público é simples: como produtos de risco elevado viram consumo de massa? Quem ganha na ponta intermediária? Quais incentivos empurram a venda? Quais carimbos substituem a transparência? A cleptocracia se alimenta justamente da distância entre o que o investidor imagina estar comprando e o que a estrutura, de fato, é.

>> 3) O controlador como sintoma, não como personagem

É tentador transformar o controlador em caricatura — e isso até rende manchete. Mas o essencial é menos adjetivo e mais tipologia: apetite extremo por risco, assimetria de consequências, suspeitas graves em torno de estruturas e lastros e a velha lógica do “ganho privatizado, prejuízo pulverizado”.

O noticiário registra que Daniel Vorcaro foi preso no contexto de investigação e liberado sob monitoramento, e que a liquidação ocorreu em meio a apurações sobre fraude e papéis supostamente lastreados em ativos fictícios. Se as suspeitas se confirmarem, o roteiro é conhecido: distribui-se risco como produto “sofisticado”, judicializa-se o colapso e tenta-se empurrar a conta para mecanismos coletivos — formais ou informais.

>> 4) Quando chega ao Congresso, o colapso vira disputa de proteção

A ida do caso ao Senado é um marco. Pode ser trilho de transparência — quebrar sigilos, ordenar linha do tempo, produzir consequência. Mas pode também virar teatro: disputa de versões, blindagens, culpados úteis, fumaça para deslocar o foco do desenho estrutural que permitiu o enredo.

A pergunta política decisiva é direta: a subcomissão será instrumento de apuração com consequência ou mais um palco para administrar o escândalo até ele cansar?

>> 5) E a CVM: dissuasão real ou custo operacional?

Parte do que sustenta episódios assim passa pelo mercado de capitais, fundos, distribuição e estruturas de intermediação. Há um dado público relevante: em 2 de dezembro de 2025, o Colegiado da CVM rejeitou novas propostas de Termo de Compromisso envolvendo o Banco Master, empresas relacionadas e pessoas físicas, no contexto de processo sancionador.

Isso recoloca uma pergunta antiga em termos brutais: a capacidade sancionadora e preventiva da CVM assusta operadores bilionários? Ou termos, multas e acordos viraram custo operacional para apetite predatório? Regulador que não impõe custo real acaba virando parte do modelo.

>> 6) Autonomia do BC não é escudo mágico

O caso expõe um equívoco recorrente: tratar autonomia formal como sinônimo de independência prática e resposta eficiente. Autonomia é importante — mas não impede atraso, não bloqueia lobby, não resolve falhas de coordenação.

Se a supervisão entra tarde, a sociedade não se consola com a fórmula “é técnico e autônomo”. Ela perde duas vezes: perde no dano e perde na explicação. Autonomia só faz sentido quando vem acompanhada de accountability inteligível — prestação de contas sobre riscos emergentes, gatilhos de intervenção e coordenação com outros órgãos.

>> 7) Reforma do Estado: controle é infraestrutura, não moralismo

O Brasil ama discutir corrupção como pecado individual — e, assim, adia a pergunta sobre o sistema. O caso Master empurra o debate para o lugar certo: controle como infraestrutura. Integração BC–CVM–PF–MP, protocolos de crise, transparência ativa, rastreabilidade de risco no varejo.

A reforma necessária não é “mais Estado” ou “menos Estado”. É Estado capaz — capaz de enxergar, reagir e prevenir sem virar refém da complexidade que deveria regular.

>> 8) Banco público no enredo: quando o cidadão vira acionista do risco

A presença do BRB é um ponto sensível porque encosta na fronteira entre risco privado e lastro público. Reportagens registram depoimento de diretor do Banco Central indicando que o BRB pode ter de provisionar mais de R$ 5 bilhões por perdas ligadas a negócios com o Master, e que as transações entre as instituições somaram R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025.

Mesmo antes de qualquer conclusão definitiva, a lição institucional é simples: quando um banco público entra em operações de alto risco reputacional e sistêmico, o cidadão vira acionista involuntário do perigo. Se banco estatal atua no mercado, precisa de governança reforçada, limites rígidos de concentração e transparência acima do padrão.

>> 9) Quem vigia os vigilantes?

A pergunta final é a mais séria: como impedir que o sistema aprenda a repetir o ciclo? A resposta passa menos por indignação e mais por método.

Auditorias periódicas sobre supervisão, quarentenas reais contra porta giratória, métricas públicas de tempo de reação, reincidência e exposição — isso deveria fazer parte do desenho institucional. Não como revanche, mas como prevenção.

>> 10) Litígios de alto impacto: império da lei, não guerra de narrativa

Casos sistêmicos costumam virar litígio com efeito dominó. A sociedade precisa de trilhos processuais previsíveis e transparência proporcional ao risco sistêmico — especialmente quando decisões podem alterar o destino de uma liquidação, o ritmo de venda de ativos e a proteção de investidores.

O Caso Master é espelho de um país onde “complexidade” virou desculpa para “captura” e onde a cleptocracia não precisa vencer a lei: basta vencer o tempo.

•        PF abre novas frentes no caso Master e apura investimentos bilionários de fundos de estados e municípios

A Polícia Federal (PF) ampliou o cerco em torno do Banco Master ao avançar em diferentes frentes de investigação sobre a aplicação de recursos de fundos previdenciários estaduais e municipais na instituição financeira, que foi liquidada pelo Banco Central em novembro. As apurações miram aportes realizados por regimes próprios de previdência social, envolvendo cifras bilionárias direcionadas a títulos emitidos pelo banco. As informações são do jornal O Globo.

No Amapá, a PF realizou uma operação para apurar suspeitas de irregularidades na gestão de recursos do Regime Próprio de Previdência Social do Estado (RPPS/AP). O foco está na aprovação e execução de investimentos feitos pela Amapá Previdência (Amprev) em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master.

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Batizada de Operação Zona Cinzenta, a ação cumpriu quatro mandados de busca e apreensão, autorizados pela 4ª Vara da Justiça Federal. Entre os alvos estão o diretor da Amprev, Jolcildo Lemos, além de integrantes do comitê de investimentos da autarquia.

De acordo com a apuração, os investigados teriam participado de votações que aprovaram a aplicação em Letras Financeiras do Banco Master em três reuniões realizadas em julho de 2024. O investimento levou a Amprev a alocar R$ 400 milhões em papéis emitidos pela instituição.

O aporte feito pela Amapá Previdência é o segundo maior entre 18 entidades estaduais e municipais que aplicaram recursos no Banco Master. O maior investimento, segundo o levantamento, foi feito pelo Rioprevidência, fundo previdenciário do Estado do Rio de Janeiro, que aplicou cerca de R$ 970 milhões no banco.

No total, 18 entidades de regimes próprios de previdência social — sendo três estaduais e 15 municipais — direcionaram aproximadamente R$ 1,876 bilhão para Letras Financeiras do Banco Master entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. Esses títulos, conforme apontado, não possuem garantia.

No Rio de Janeiro, a PF já havia deflagrado, em 23 de janeiro, a Operação Barco de Papel, também relacionada às investigações envolvendo o Banco Master. A ofensiva teve como alvo diretores do Rioprevidência e apura operações financeiras realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024.

Segundo as informações, a apuração no estado envolve nove operações que resultaram na aplicação de cerca de R$ 970 milhões em Letras Financeiras emitidas pela instituição. Os recursos aplicados, conforme o levantamento, faziam parte do montante destinado ao pagamento de aposentadorias de servidores que ingressaram no serviço público na última década.

As investigações, no entanto, não se restringem ao Amapá e ao Rio. O caso ganhou dimensão nacional e já motivou a abertura de inquéritos por Ministérios Públicos em ao menos seis estados: Alagoas, Amapá, Amazonas, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo.

•        Governador da Bahia, descarta impacto do caso Master no PT

O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), descartou nesta sexta-feira (6) possíveis reflexos políticos do caso envolvendo o Banco Master sobre a imagem do PT e negou manter qualquer tipo de relação com empresários associados à instituição. Em entrevista a Milena Teixeira, do Metrópoles, o petista afirmou que não tem contato com Daniel Vorcaro, dono do banco, e sustentou que uma suposta conexão do PT baiano com o tema não tem relevância prática para a população.

Segundo Jerônimo, a repercussão do caso ocorre dentro do ambiente político, mas não se traduz em impacto real no cotidiano dos eleitores. Para ele, o nome de Vorcaro é praticamente desconhecido na Bahia, o que enfraqueceria qualquer tentativa de associar o partido ao episódio. “Isso acontece no ambiente da política. Se você percorrer qualquer município baiano, qualquer um, as pessoas não têm nem noção de quem é Vorcaro. Eu, por exemplo, não tenho contato, nunca tive”, declarou.

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O governador também comentou a suposta ligação do PT estadual com Augusto Ferreira Lima, apontado como sócio do Banco Master e conhecido como Guga Lima, reforçando que não mantém relação pessoal com o empresário. Jerônimo argumentou que qualquer interação envolvendo o governo baiano e agentes econômicos deve ser compreendida sob a ótica institucional.

Ele afirmou que o Estado realizou uma negociação por meio de procedimentos formais e regulares, destacando que o processo seguiu regras administrativas e não se deu por vínculo pessoal. “O que houve na Bahia foi a venda, se é possível ligar esse tema. No campo pessoal, se houver amizade com alguém, trata-se de uma relação entre pessoas. Eu falo enquanto instituição. A Bahia tem tranquilidade para dizer que o que fizemos foi lançar um processo de licitação para comercializar um equipamento que, na nossa concepção, não interessava ao governo”, afirmou.

Jerônimo também disse que tem sido alvo de conteúdos falsos ou distorcidos nas redes sociais, com imagens suas associadas ao caso. Ele garantiu que não possui amizade com os envolvidos e se colocou à disposição para esclarecer qualquer questionamento. “Tenho tranquilidade ao ver, às vezes, fake news e mentiras, nas quais colocam minha foto e dizem que tenho relação. Posso afirmar que não tenho amizade; quem quiser pode procurar, verificar, forneço qualquer tipo de informação do meu telefone. Não tenho relação. E, se tiver de sentar, sentarei. Enquanto governador, tenho que dialogar com as forças econômicas e políticas”, completou.

 

Fonte: Brasil 247

 

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