segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Cuba, 64 anos de bloqueio: A engenharia de asfixia imposta pelos EUA pré-1962

Em 7 de fevereiro de 2026, o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos ao povo de Cuba completou 64 anos de instauração oficial. Antes disso, já haviam sido aplicadas medidas preliminares dessa ampla guerra econômica, tipificada como genocídio, que constitui uma violação flagrante e sistemática dos direitos humanos de todos os cubanos.

Ao longo desse período, gerações de cubanos nasceram e viveram, e muitos até morreram como consequência dessa medida desumana aplicada por sucessivas administrações estadunidenses, nas quais dezenas de operadores políticos a executaram com sanha, sem titubear nem medir seus efeitos letais, carências, penúrias e consequências, com o deliberado objetivo de submeter pela fome para alcançar o sonhado fim da Revolução Cubana.

“Agora ou nunca”, clamam hoje aqueles que exigem o bloqueio naval e aéreo, a intervenção militar disfarçada de humanitária e até os chamados “modernos golpes cirúrgicos”, dirigidos ao abrandamento da capacidade de resistir e vencer da Ilha insubmissa. Esperam, com paciência, um colapso que conduza à rendição de uma nação, de uma cultura e de um sistema político e social com todos e para o bem de todos.

São tubarões imperialistas prontos para devorar, que jamais se tornarão vegetarianos, incapazes de coexistir em paz com o irredento arquipélago situado a 90 milhas de suas costas, chegando ao absurdo de qualificá-lo como uma ameaça à segurança nacional do país mais poderoso do mundo — por enquanto. Mais ainda: chegaram a classificá-lo como uma “ameaça à humanidade”, como declarou um de seus funcionários mais tóxicos.

Mais de seis décadas se passaram desde a imposição do bloqueio mais prolongado da história, no marco da impiedosa guerra econômica desencadeada pelos Estados Unidos contra uma Revolução nascente e triunfante em um país submetido, desde 1902, a seus desígnios.

A joia insular é ambicionada desde os tempos dos Pais Fundadores da nação estadunidense, mas o inter crimines (ou caminho do crime) inicia-se em meados de 1959, quando Cuba ainda não havia se declarado socialista nem empresas estadunidenses tinham sido legitimamente nacionalizadas.

Vejamos como foi o início, o desenvolvimento e a implementação desse projeto assassino, que fracassou em seus intentos imperiais de dobrar a Revolução, mas que custou sangue, suor, lágrimas e enormes esforços.

<><> Pacote de agressões econômicas e militares

Em 11 de junho de 1959, no contexto da aplicação da Lei de Reforma Agrária, decretada em 17 de maio daquele ano, os Estados Unidos ameaçaram reduzir a cota açucareira, proibir investimentos privados estadunidenses e eliminar todo tipo de ajuda econômica caso propriedades estadunidenses fossem nacionalizadas sem uma compensação rápida.

Cinco meses depois, em 13 de novembro, para privar Cuba do necessário para se defender das constantes agressões e ameaças de invasão, o governo dos Estados Unidos pressionou o do Reino Unido para impedir a venda de 15 aviões de combate e a substituição da obsoleta tecnologia aérea, contrato que já havia sido planejado e acordado com empresas britânicas.

Em 26 de maio de 1960, a Embaixada dos Estados Unidos em Havana declarou que a Lei de Segurança Mútua de 1960 estabelecia que não seria concedida assistência a Cuba, a menos que o presidente determinasse que isso atenderia ao interesse nacional e hemisférico dos Estados Unidos. Em 17 de março daquele mesmo ano, havia sido aprovado um plano abrangente de ações contra Cuba, que incluía a organização da contrarrevolução interna e a criação de forças paramilitares para agredir direta ou indiretamente a Ilha. Os preparativos haviam começado na América Central.

Um mês depois, em 29 de junho, as empresas estadunidenses dedicadas ao refino e fornecimento de petróleo — TEXACO, ESSO e SHELL, tradicionais fornecedoras de combustível a Cuba — interromperam o abastecimento e se recusaram a processar o petróleo bruto adquirido na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), como resultado das pressões exercidas pelo governo dos Estados Unidos. As relações entre os dois países haviam entrado em rota de colisão: de um lado, a ilha agredida; de outro, o colosso agressor. Após mais de seis décadas, hoje se ameaça com o bloqueio total de combustíveis e até com a aplicação de medidas econômicas e tarifárias contra países que decidam vender petróleo a Cuba — uma medida ilegal e desprovida de argumentos.

A escalada agressiva avançava a passos largos, e o pacote de medidas coercitivas unilaterais era aplicado de forma escalonada, porém constante. Assim, em 6 de julho, apenas uma semana depois, foi aprovada a Lei Pública 86-592, que emendou a Seção 408 da Lei Açucareira de 1948 e autorizou o presidente dos Estados Unidos a determinar a cota açucareira cubana para o restante de 1960 e o primeiro trimestre de 1961, com base no interesse nacional e independentemente de qualquer outra disposição relativa a cotas.

Para concretizar essa medida de pressão, que impedia Cuba de obter recursos financeiros imediatos e de garantir o equilíbrio da balança de pagamentos, e com base na autoridade conferida pela Lei Açucareira de 1948, conforme emendada, o presidente estadunidense Dwight D. Eisenhower fixou a cota açucareira de Cuba para o ano de 1960 em 39.752 toneladas curtas, acrescidas do açúcar certificado antes de 3 de julho de 1960 para entrada no mercado, mas que ainda não tivesse sido efetivamente importado ou que estivesse armazenado para consumo.

Tal medida, ditada pela Proclama Presidencial 3355 (25 FR 6414), implicou a redução de 700 mil toneladas curtas da cota original de 3.119.655 toneladas curtas. Essa cifra representou 95% do remanescente da tonelagem a ser exportada para os Estados Unidos naquele ano, reduzindo, na prática, essas importações a zero. Uma partida de 2.379.903 toneladas curtas, em valor bruto, havia sido certificada de acordo com as regulamentações emitidas pelo Secretário de Agricultura.

Em 2 de setembro daquele ano, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos promulgou um decreto que retirou das licenças gerais para exportação a Cuba determinados veículos automotores e suas partes funcionais, passando a exigir, para esses itens, licenças validadas. Cinco dias depois, o Departamento do Tesouro, com o objetivo de facilitar a execução das regulamentações de exportação do Departamento de Comércio, emitiu uma disposição que incluiu Cuba em uma lista de países para os quais as embarcações não seriam despachadas pela alfândega enquanto não fossem apresentadas as guias completas de carga exportada e todas as declarações de exportação exigidas. Desde então, teve início a obsessão punitiva imperial de incluir a Ilha em listas infames.

As relações comerciais, naquele momento, ainda eram relativamente fluidas com os Estados Unidos, que haviam sido o destino e a origem cativos de mercadorias e matérias-primas de e para Cuba, a qual, como arquipélago, dependia fundamentalmente da via marítima para suas relações comerciais. As medidas adotadas destinavam-se a dificultar o livre exercício do comércio e a estrangular a economia nacional.

No final de setembro, o governo estadunidense notificou o governo cubano de sua decisão de suspender as operações da planta de concentração de níquel em Nicaro, de propriedade estadunidense. Até então, esse setor exportador havia sido uma importante fonte de emprego para centenas de cubanos. As transnacionais estadunidenses, numerosas e estabelecidas em Cuba, começaram a reduzir suas produções e iniciaram o roubo de talentos, oferecendo-lhes empregos em suas matrizes ou em subsidiárias localizadas em outros países da América Latina onde estavam representadas.

Ao final daquele mês de setembro, os Estados Unidos já privavam seus cidadãos do direito constitucional de viajar, medida que permanece vigente seis décadas depois. No último dia do mês, o Departamento de Estado anunciou ter recomendado aos cidadãos estadunidenses que “se abstivessem de viajar a Cuba, a menos que houvesse razões imperiosas para fazê-lo”.

O “gotejamento” das medidas repressivas intensificou-se em 20 de outubro, quando a invasão mercenária se encaminhava para sua fase final e estava pronta. Nessa data, o Departamento de Comércio emendou as Regulamentações de Exportação, estabelecendo controles estritos e totais que impunham a proibição das exportações para Cuba, excetuando apenas certos alimentos não subsidiados, medicamentos e suprimentos médicos especificamente autorizados.

O inventário de medidas destinadas a isolar Cuba do mundo continuou a se expandir. Assim, em novembro de 1960, foram emendadas as Regulamentações do Departamento Postal e implantadas as primeiras restrições ao serviço postal dos Estados Unidos para Cuba, incluindo o país entre aqueles para os quais as exportações estadunidenses estavam sujeitas a limitações especiais. Da mesma forma, passou-se a exigir, a partir da promulgação dessa disposição, uma licença geral para o envio de presentes, considerados como tais alimentos, roupas, medicamentos e fármacos.

Um golpe demolidor, segundo o entendimento dos estrategistas estadunidenses, foi desferido em 16 de dezembro daquele ano. Com base nas atribuições conferidas pela Lei Açucareira de 1948, o presidente estadunidense emitiu a Proclama Presidencial 3383, que reduziu a zero a cota açucareira cubana para o primeiro trimestre de 1961. Com essa medida, buscava-se asfixiar a economia cubana, dependente do açúcar como principal produto de exportação, obrigando posteriormente a sitiada ilha a buscar novos mercados para escoar sua produção.

Encerrava-se, assim, um ano marcado por severas medidas de pressão. A invasão seguia seu curso inexorável nesse último estertor da administração republicana, e a ruptura das relações diplomáticas configurava-se como uma opção preparatória, destinada a deixar o caminho livre para a gestão democrata sucessora, que daria continuidade à agressão diversificada, tendo a incursão mercenária como ponta de lança. Faltavam ainda três meses e meio para que a Revolução se declarasse socialista, e o bloqueio já espreitava com suas fauces abertas.

¨      Após décadas de sanções ocidentais, Cuba aprendeu a resistir a crises, afirma cientista político

Cuba aprendeu a resistir a diferentes crises ao longo de quase sete décadas de pressão e sanções dos Estados Unidos, disse à Sputnik o sociólogo e cientista político equatoriano Luis Ernesto Guerra.

Segundo ele, desde 1959, a partir do momento da vitória da Revolução Cubana, 13 presidentes norte-americanos impuseram e mantiveram sanções, bloqueios, medidas coercitivas unilaterais, o que foi considerado uma agressão contra o povo da Ilha da Liberdade.

Além disso, Guerra lembrou que nos Estados Unidos opera um "lobby anticubano" com sede em Miami, que também organiza vários métodos de agressão contra Cuba.

No entanto, o especialista político destacou que Cuba adquiriu experiência para resistir às ações hostis dos Estados Unidos e, graças à experiência acumulada ao longo de décadas, são capazes de resistir a essas crises e ameaças para prejudicar a ilha.

"Cuba é muito resiliente e capaz de resistir a crises e, graças a essa vasta experiência acumulada, sabe resistir e lutar. Cuba faz isso com dignidade, preservando a soberania", observou.

O especialista explicou que o governo norte-americano vive agora uma crise sistêmica e estrutural que se acumulou ao longo de décadas e, às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA, está recorrendo a ferramentas típicas da chamada "guerra híbrida".

Em 29 de janeiro, o presidente estadunidense Donald Trump assinou um decreto, segundo o qual os Estados Unidos podem impor tarifas de importação sobre mercadorias de países que vendem ou fornecem petróleo a Cuba, e também declarou estado de emergência, citando a ameaça à segurança nacional supostamente emanada de Havana.

¨      ‘Não vamos nos render’: Cuba anuncia medidas frente a brutal novo bloqueio dos EUA

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, anunciou nesta quinta-feira (5) a implementação de um conjunto de medidas governamentais, que incluem restrições ao consumo, para enfrentar uma complexa situação energética agravada pelas medidas coercitivas dos Estados Unidos.

Durante uma conferência de imprensa, o chefe de Estado explicou que, desde dezembro, o país não recebe combustível devido ao reforço do bloqueio contra a Venezuela, o que afeta a geração de energia elétrica e atividades econômicas e sociais básicas.

“Temos problemas na disponibilidade de combustível para garantir não apenas a geração elétrica, mas também atividades básicas que têm relação direta com a população”, afirmou.

O mandatário informou que o Conselho de Ministros se reuniu para aprovar diretrizes, atualizadas a partir das orientações do líder histórico da Revolução, Fidel Castro, durante o chamado “período especial”, com o objetivo de enfrentar o desabastecimento.

“Ainda que haja um bloqueio energético, nós não renunciamos a receber combustível em nosso país. Esse é um direito que temos, e estamos realizando todas as gestões para que o país volte a ter abastecimento”, assegurou.

Díaz-Canel qualificou de “condenável” e “criminosa” a política de uma potência que busca asfixiar uma pequena nação, ao questionar: “Que direito tem uma nação de impedir que um país receba combustível?”.

Como parte da estratégia para enfrentar os efeitos do bloqueio, o presidente detalhou várias ações em curso, como o aumento da produção nacional.

O mandatário especificou que será impulsionada a extração de petróleo e de gás associado e que, ainda este ano, está prevista a conexão de 20 mil novos consumidores em Havana à rede de gás manufaturado.

Indicou também que cientistas cubanos trabalham em projetos para refinar o petróleo bruto nacional e obter derivados como gasolina e diesel, após um teste bem-sucedido realizado no final do ano passado.

Avançam igualmente os trabalhos de recuperação e construção de novas capacidades de armazenamento de combustível, perdidas após o incêndio em Matanzas, para possibilitar o recebimento de maiores volumes.

“Vamos encarar isso como uma oportunidade para nos desenvolver, alcançar um desenvolvimento sustentável, sermos mais soberanos energeticamente e menos dependentes”, enfatizou o presidente.

O mandatário reconheceu que as medidas, algumas delas restritivas, “vão exigir esforço” e “sacrifício” da população, mas ressaltou que a opção da rendição não existe para Cuba.

 

Fonte: Por José Luis Méndez Méndez, para Cuba en Resumen/Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil

 

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