Mauricio
Alfredo: O clã Bolsonaro e a economia da atenção - quando a punição vira
espetáculo
Desde
que Jair Bolsonaro passou a cumprir pena sob custódia da Polícia Federal e,
posteriormente, na Papudinha (DF), sua prisão deixou de operar como um ato de
silenciamento político para se converter em um evento comunicacional contínuo.
Mais do que um desdobramento jurídico da condenação por tentativa de golpe de
Estado, o encarceramento passou a ser explorado pelo ex-presidente e por seu
“clã”, formado por filhos e esposa, como matéria-prima narrativa, organizada
segundo a lógica da economia da atenção. A cela, o corpo fragilizado e a rotina
carcerária não aparecem como sinais de encerramento de ciclo, mas como novos
dispositivos de visibilidade, cuidadosamente mobilizados para manter Bolsonaro
no centro do debate público, mesmo privado do poder institucional.
O termo
economia da atenção foi utilizado pela primeira vez em 1971 pelo economista,
psicólogo e cientista político Herbert Alexander Simon, ao explicar como a
atenção pode ser capitalizada e tratada como uma mercadoria (2021). Na era da
informação e da tecnologia, a atenção humana se tornou um recurso escasso e
valioso, portanto, passou a ser mercantilizada.
Diante
de um fluxo ininterrupto de estímulos que soterra nossa capacidade de absorção,
a atenção consolidou-se como o novo ‘ouro’ da era digital. Nesse cenário de
déficit cognitivo crônico, o desafio central das narrativas já não é informar,
mas capturar o olhar em meio ao ruído, transformando a interrupção do fluxo
cotidiano em um fim em si mesmo. Sob essa lógica, o sucesso de uma mensagem não
reside necessariamente em sua veracidade, mas em sua potência de engajamento: o
espetáculo garante o clique, o clique sustenta a influência e o tempo de tela
do usuário torna-se a moeda definitiva de poder e sobrevivência política.
Na era
da atenção, a vida privada do líder é transformada em um espetáculo de reality
show. A produção contínua de fatos, declarações provocativas, conflitos
institucionais, gestos simbólicos de vitimização ou desafios calculados às
decisões judiciais, funciona como mecanismo de permanência no debate público.
Esse
comportamento não é aleatório. Ele explora um traço estrutural do ecossistema
informacional contemporâneo: a mídia que se obriga a reagir ao ruído para não
perder sua própria audiência.
Cada
nova controvérsia fortalece sua base, engaja as redes sociais, pressiona
adversários a responder e desloca o foco de sua responsabilidade penal
(tentativa de golpe de Estado), para o espetáculo do escândalo permanente. Na
economia da atenção, quem controla o tema do dia controla o poder. Ao pautar o
país com “quedas da cama”, refeições, ar-condicionado, smart TV, assistência
religiosa entre outros elementos do cotidiano carcerário, o clã retira o foco
da “realidade jurídica”, tentando cansar a opinião pública pelo excesso de
estímulos superficiais.
Assim,
mesmo juridicamente enfraquecido, Bolsonaro mantém relevância simbólica ao
transformar sua própria punição em conteúdo político. Desta forma, a estratégia
do “clã Bolsonaro” em gerar conteúdos com fortes emoções, irrigados de medo,
indignação e pena, cria uma narrativa de urgência que força o público e o
Judiciário a desviar o olhar do processo legal para o boletim médico. A tática
é clara: ocupar o espaço mental do eleitorado para evitar a erosão do capital
político e o papel de vítima vira estratégia deliberada: o próprio corpo serve
de palanque, a enfermidade torna-se justificativa e a medicina, quando
instrumentalizada, transforma-se em ferramenta de pressão sobre o sistema.
Há,
portanto, uma inversão perversa: a sanção institucional, que deveria reduzir
sua capacidade de influência, converte-se em combustível narrativo. A atenção
capturada semanalmente não visa convencer novos públicos, mas preservar a
coesão afetiva de seus apoiadores e manter aberto o canal de disputa do
imaginário político.
Essa
dinâmica não se limita ao espaço digital ou ao circuito midiático tradicional.
A passeata liderada por Nikolas Ferreira em defesa de Bolsonaro evidencia como
a economia da atenção opera pela conversão do engajamento virtual em presença
física, transformando a mobilização de rua em evento pensado para a
reprodutibilidade digital. Ao levar grupos de apoiadores às ruas em nome do
líder encarcerado, Nikolas atua como operador intermediário desse ecossistema
atencional, traduzindo o ruído carcerário em ato público e convertendo a
ausência física de Bolsonaro em uma presença hiperbólica nas redes. A
manifestação não expressa força institucional nem capacidade efetiva de decisão
política, mas cumpre uma função simbólica central: manter o ex-presidente
visível, reiterar a narrativa da perseguição e reforçar vínculos afetivos entre
líder e base, assegurando que a comunidade política permaneça mobilizada por
afetos, independentemente de qualquer projeto de governo.
Não se
trata de resistência política, mas de sobrevivência atencional: quando o poder
se perde, resta disputar o olhar. Uma vez esvaziada a capacidade de decidir e
governar, a estratégia desloca-se para a ocupação permanente do espaço mental
da sociedade, onde visibilidade, engajamento emocional e presença contínua
passam a substituir programas, projetos e mediações institucionais.
Trata-se,
portanto, menos de comunicação e mais de ocupação do espaço público, uma
estratégia típica de lideranças autoritárias em declínio, que sobrevivem não
pela força institucional, mas pela capacidade de monopolizar o olhar coletivo e
impor sua presença contínua no debate público.
No
limite, o que o caso Bolsonaro revela não é apenas a persistência de um líder
em declínio, mas a transformação da política em um regime de presença
compulsória. Na economia da atenção, desaparecer equivale a morrer
simbolicamente. Por isso, a produção incessante de fatos, dramas e
controvérsias não é excesso nem descontrole: é método.
O “clã
Bolsonaro” compreendeu que, uma vez perdido o poder institucional, resta
disputar o tempo mental da sociedade. A política deixa de ser exercida pela
capacidade de decidir e passa a ser exercida pela capacidade de interromper o
noticiário, bem como o debate público e a rotina informacional. Não se trata de
convencer, mas de ocupar; não de governar, mas de permanecer.
Nesse
sentido, a prisão não encerra o bolsonarismo: ela o reconfigura. A sanção
jurídica, que deveria produzir silêncio e retração, converte-se em
matéria-prima narrativa. O corpo fragilizado, o boletim médico, as queixas
cotidianas tornam-se dispositivos de visibilidade, capazes de manter viva uma
comunidade política que já não se organiza em torno de projetos, mas de afetos
compartilhados.
Enquanto
a democracia opera no tempo lento das instituições, o bolsonarismo insiste no
tempo acelerado do escândalo. E é nessa assimetria que reside seu último
trunfo: transformar a atenção em poder, e o ruído em forma de sobrevivência
política.
• Sem senso do ridículo: O drama da defesa
de Bolsonaro após laudo retratá-lo bem
Aestratégia
da defesa de Jair Bolsonaro (PL) para converter sua cela em uma prisão
domiciliar enfrentou um novo balde de água fria vindo da ciência forense. Nesta
sexta-feira (6), um laudo técnico da Polícia Federal encaminhado ao Supremo
Tribunal Federal (STF) desidratou a narrativa de fragilidade extrema que vinha
sendo construída pelos advogados. Segundo os peritos da corporação, após exames
detalhados e diálogos com o ex-presidente, ficou constatado que ele recebe
assistência adequada na “Papudinha”, onde cumpre sua pena de 27 anos e 3 meses.
A
despeito da tentativa de pintar um quadro de saúde debilitado, as conclusões
técnicas indicam que o ex-presidente golpista apresenta condições plenas para
seguir atrás das grades, desde que mantidas as medidas assistenciais já
vigentes em sua instalação. Mesmo diante desse diagnóstico claro, a defesa
parece não conhecer limites para a última fronteira do ridículo. Em nota
oficial, os advogados mantiveram o circo patético ao alegar que o laudo “não
conclui, de forma expressa, pela possibilidade de manutenção de Bolsonaro no
atual local de custódia. O laudo se limita a registrar a inexistência de
indicação de internação hospitalar imediata, consignando, contudo, que o quadro
clínico descrito exige a observância rigorosa de medidas médicas e
assistenciais específicas”.
O tom
dramático dos defensores escalou ao ponto de interpretarem notas técnicas como
uma sentença de morte iminente. Eles afirmam que o próprio documento da PF
reconheceria que a falta de amparo médico poderia gerar uma “descompensação
clínica súbita, com risco concreto de morte”, além de citar perigos de quedas
por questões funcionais. Contudo, essa interpretação de um “risco concreto de
morte” é descrita como um completo devaneio, uma vez que nada no texto dos
peritos aponta para tal gravidade. O que existe, na realidade, são sinais
neurológicos que elevam o potencial de quedas, exigindo investigação
diagnóstica, mas nada que comprometa a permanência no cárcere.
Nesse
cenário de insistência em mentiras e bobagens que tentam retratar o condenado
como um moribundo, a defesa ainda aposta em uma prorrogação do espetáculo. Eles
ressaltam que a avaliação técnica não terminou, aguardando agora o parecer de
um médico assistente indicado pela própria equipe de Bolsonaro. O objetivo
dessa manobra é evidente: encontrar algum “perito” que finalmente diga o que
eles querem ouvir — que Bolsonaro precisa ser transferido para casa.
Enquanto
os advogados tentam fabricar uma incompatibilidade entre o estado de saúde do
ex-presidente e o regime de custódia, os fatos mostram que as recomendações da
PF, embora preventivas, já foram adotadas e são suficientes. Em suma, o laudo
confirma que não há qualquer problema minimamente sério que impeça Bolsonaro de
continuar exatamente onde está, deixando o drama e o exagero restritos apenas
ao roteiro escrito por seus defensores.
• Drama sem fim: Michelle divulga “carta
de amor” de Bolsonaro
ex-presidente
Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe, entregou uma carta à
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro durante uma visita no Presídio da
Papudinha, em Brasília, onde cumpre pena.
Na
mensagem, Bolsonaro adota um tom íntimo e familiar ao afirmar que cuidar de
Michelle e das filhas é sua “maior missão” e que caminhar ao lado dela,
protegê-la e permanecer junto é uma “escolha diária”. O texto é mais uma peça
da encenação para gerar comoção nas redes.
“Carta
que recebi do meu amor no nosso aniversário de 18 anos de casados”, escreveu
Michelle Bolsonaro ao divulgar a carta em suas redes.
“Meu
amor, cuidar de você e das nossas filhas é a minha maior missão. Caminhar ao
seu lado, proteger, amar e permanecer é a minha escolha diária. Você é e sempre
será o meu Grande Amor. Eu te amo”, escreveu o ex-presidente.
O
episódio ocorre enquanto Bolsonaro permanece preso e aliados tentam manter
mobilização política para conseguir a prisão domiciliar para o ex-presidente.
• Nikolas Ferreira confronta Eduardo
Bolsonaro: “não vou jogar confete para quem tá me pressionando”
m
entrevista ao podcast de Márvio Lúcio, o Carioca, e Marcos Chiesa, o Bola,
ex-integrantes do Pânico, nesta quinta-feira (5), o deputado federal Nikolas
Ferreira (PL-MG) partiu para cima de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e aliados dele,
como Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, que o teriam acusando de “desleal ou
um traidor”.
Indagado
sobre a situação com o filho de Jair Bolsonaro (PL), que foi tratado como
“refugiado” por Carioca, Nikolas deu início a uma saraivada de críticas e
ataques ao ex-aliado.
“Cara,
eu não converso com ele e não faço nem questão de citar o nome dele aqui, de
verdade”, iniciou o deputado extremista.
Indagado
o motivo de não falar com Eduardo, Nikolas afirmou que “para mim as coisas vão
vir à tona”, quando foi interrompido por Carioca, que diz que “ele te apoiou”,
em relação à marcha recente até Brasília.
“É
muito fácil apoiar quando todo mundo está apoiando, fica inexorável”, desdenhou
Nikolas, que destilou as mágoas contra o filho de Bolsonaro.
“Ele
tentou descredibilizar a minha força nas eleições, dizendo que o Pablo Marçal
estava por trás de mim”, disse. “E, principalmente, ficar colocando na cabeça
das pessoas como se eu fosse um desleal ou um traidor. Para mim, a pergunta é
muito simples: qual o intuito disso?”.
“Porque
eles estavam incomodados, se estou falando besteira nem lembro ou não sei,
porque não sentiram um apoio efusivo seu a Eduardo Bolsonaro nos EUA”,
respondeu Carioca.
“Então,
eles têm que decidir, né? Ou eu sou um cara irrelevante que só faz vídeo ou
naquilo que entro, eu decido. Não dá para ser os dois ao mesmo tempo. Então
fica difícil, né, carioca? Quando você tá fazendo o seu trabalho e aí os caras
falam: ‘Ah, só vai fazer vídeo, só vai fazer vídeo’. E aí depois pede um vídeo
para causa que eles querem. Então sim, os caras querem o quê? Confete? Eu não
vou sair dando confete para quem está me pressionando”, disparou.
Nikolas
ainda minimizou as críticas aos ataques pela falta de apoio a Eduardo e mirou
Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, fiéis escudeiros do filho de Bolsonaro.
“Eu só
acho que realmente, esse tipo de coisa tem que ser muito bem avaliada. O
próprio Allan mesmo, foram diversas bravatas que foram feitas com diversas
coisas e que, cara, não se cumpriu e quem é o responsável por isso”, disse,
sobre as promessas de mais 72 horas de Eduardo e seus asseclas.
“Então
vamos lá, eu nunca fiz parte de nenhuma negociação, conversa do exterior a
respeito do plano que eles tinham, beleza? Nunca fui chamado e nunca estive
presente. Como que eu vou entrar em algo, falar para as pessoas sobre algo que
eu não tenho conhecimento a respeito? Cara, tem muita gente que me segue, que
me escuta, que me ouve e aí é o seguinte, eu vou falar sobre algo que eu não
tenho domínio, que eu não faço parte. E outra coisa, se a pessoa acha que um
projeto só vai dar certo se eu estiver nele, então o projeto não é dele, né? O
projeto é nosso. Tá. Porque se não se dá certo, é o crédito teu, se dá errado é
crédito meu”, afirmou.
Nikolas
foi duramente atacado após Donald Trump levantar sanções contra Alexandre de
Moraes e iniciar as negociações com o governo Lula, acabando com a guerra
tarifária contra o Brasil. Eduardo culpou os aliados no Congresso, o que foi
sentido pelo deputado aliado, pelo fracasso na tentativa de ataques ao Brasil,
com o intuito de livrar Bolsonaro da prisão.
O vídeo
gerou reações entre aliados de Eduardo Bolsonaro. Paulo Figueiredo prometeu
resposta a Nikolas.
“Só vou
responder a esse trecho que está circulando da entrevista do Nikolas no podcast
do Carioca, onde sou citado, no Paulo Figueiredo Show da semana que vem”,
afirmou.
Influenciador
ligado a Carlos Bolsonaro (PL-RJ), Kim Paim incitou estremistas a colocarem
Nikolas no alvo.
Outro
influenciador, que se identifica como “João 8:32”, em relação ao versículo
bíblico propagado por Bolsonaro, partiu para cima de Nikolas.
“O
nikolas sabotou o trabalho de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo na Magnitsky
e não moveu um dedo enquanto a lei estava em vigor. Zero caminhada, zero
articulação, NADA — só autopromoção nas redes sociais”
Fonte:
Le Monde/Fórum

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