segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Mauricio Alfredo: O clã Bolsonaro e a economia da atenção - quando a punição vira espetáculo

Desde que Jair Bolsonaro passou a cumprir pena sob custódia da Polícia Federal e, posteriormente, na Papudinha (DF), sua prisão deixou de operar como um ato de silenciamento político para se converter em um evento comunicacional contínuo. Mais do que um desdobramento jurídico da condenação por tentativa de golpe de Estado, o encarceramento passou a ser explorado pelo ex-presidente e por seu “clã”, formado por filhos e esposa, como matéria-prima narrativa, organizada segundo a lógica da economia da atenção. A cela, o corpo fragilizado e a rotina carcerária não aparecem como sinais de encerramento de ciclo, mas como novos dispositivos de visibilidade, cuidadosamente mobilizados para manter Bolsonaro no centro do debate público, mesmo privado do poder institucional.

O termo economia da atenção foi utilizado pela primeira vez em 1971 pelo economista, psicólogo e cientista político Herbert Alexander Simon, ao explicar como a atenção pode ser capitalizada e tratada como uma mercadoria (2021). Na era da informação e da tecnologia, a atenção humana se tornou um recurso escasso e valioso, portanto, passou a ser mercantilizada.

Diante de um fluxo ininterrupto de estímulos que soterra nossa capacidade de absorção, a atenção consolidou-se como o novo ‘ouro’ da era digital. Nesse cenário de déficit cognitivo crônico, o desafio central das narrativas já não é informar, mas capturar o olhar em meio ao ruído, transformando a interrupção do fluxo cotidiano em um fim em si mesmo. Sob essa lógica, o sucesso de uma mensagem não reside necessariamente em sua veracidade, mas em sua potência de engajamento: o espetáculo garante o clique, o clique sustenta a influência e o tempo de tela do usuário torna-se a moeda definitiva de poder e sobrevivência política.

Na era da atenção, a vida privada do líder é transformada em um espetáculo de reality show. A produção contínua de fatos, declarações provocativas, conflitos institucionais, gestos simbólicos de vitimização ou desafios calculados às decisões judiciais, funciona como mecanismo de permanência no debate público.

Esse comportamento não é aleatório. Ele explora um traço estrutural do ecossistema informacional contemporâneo: a mídia que se obriga a reagir ao ruído para não perder sua própria audiência.

Cada nova controvérsia fortalece sua base, engaja as redes sociais, pressiona adversários a responder e desloca o foco de sua responsabilidade penal (tentativa de golpe de Estado), para o espetáculo do escândalo permanente. Na economia da atenção, quem controla o tema do dia controla o poder. Ao pautar o país com “quedas da cama”, refeições, ar-condicionado, smart TV, assistência religiosa entre outros elementos do cotidiano carcerário, o clã retira o foco da “realidade jurídica”, tentando cansar a opinião pública pelo excesso de estímulos superficiais.

Assim, mesmo juridicamente enfraquecido, Bolsonaro mantém relevância simbólica ao transformar sua própria punição em conteúdo político. Desta forma, a estratégia do “clã Bolsonaro” em gerar conteúdos com fortes emoções, irrigados de medo, indignação e pena, cria uma narrativa de urgência que força o público e o Judiciário a desviar o olhar do processo legal para o boletim médico. A tática é clara: ocupar o espaço mental do eleitorado para evitar a erosão do capital político e o papel de vítima vira estratégia deliberada: o próprio corpo serve de palanque, a enfermidade torna-se justificativa e a medicina, quando instrumentalizada, transforma-se em ferramenta de pressão sobre o sistema.

Há, portanto, uma inversão perversa: a sanção institucional, que deveria reduzir sua capacidade de influência, converte-se em combustível narrativo. A atenção capturada semanalmente não visa convencer novos públicos, mas preservar a coesão afetiva de seus apoiadores e manter aberto o canal de disputa do imaginário político.

Essa dinâmica não se limita ao espaço digital ou ao circuito midiático tradicional. A passeata liderada por Nikolas Ferreira em defesa de Bolsonaro evidencia como a economia da atenção opera pela conversão do engajamento virtual em presença física, transformando a mobilização de rua em evento pensado para a reprodutibilidade digital. Ao levar grupos de apoiadores às ruas em nome do líder encarcerado, Nikolas atua como operador intermediário desse ecossistema atencional, traduzindo o ruído carcerário em ato público e convertendo a ausência física de Bolsonaro em uma presença hiperbólica nas redes. A manifestação não expressa força institucional nem capacidade efetiva de decisão política, mas cumpre uma função simbólica central: manter o ex-presidente visível, reiterar a narrativa da perseguição e reforçar vínculos afetivos entre líder e base, assegurando que a comunidade política permaneça mobilizada por afetos, independentemente de qualquer projeto de governo.

Não se trata de resistência política, mas de sobrevivência atencional: quando o poder se perde, resta disputar o olhar. Uma vez esvaziada a capacidade de decidir e governar, a estratégia desloca-se para a ocupação permanente do espaço mental da sociedade, onde visibilidade, engajamento emocional e presença contínua passam a substituir programas, projetos e mediações institucionais.

Trata-se, portanto, menos de comunicação e mais de ocupação do espaço público, uma estratégia típica de lideranças autoritárias em declínio, que sobrevivem não pela força institucional, mas pela capacidade de monopolizar o olhar coletivo e impor sua presença contínua no debate público.

No limite, o que o caso Bolsonaro revela não é apenas a persistência de um líder em declínio, mas a transformação da política em um regime de presença compulsória. Na economia da atenção, desaparecer equivale a morrer simbolicamente. Por isso, a produção incessante de fatos, dramas e controvérsias não é excesso nem descontrole: é método.

O “clã Bolsonaro” compreendeu que, uma vez perdido o poder institucional, resta disputar o tempo mental da sociedade. A política deixa de ser exercida pela capacidade de decidir e passa a ser exercida pela capacidade de interromper o noticiário, bem como o debate público e a rotina informacional. Não se trata de convencer, mas de ocupar; não de governar, mas de permanecer.

Nesse sentido, a prisão não encerra o bolsonarismo: ela o reconfigura. A sanção jurídica, que deveria produzir silêncio e retração, converte-se em matéria-prima narrativa. O corpo fragilizado, o boletim médico, as queixas cotidianas tornam-se dispositivos de visibilidade, capazes de manter viva uma comunidade política que já não se organiza em torno de projetos, mas de afetos compartilhados.

Enquanto a democracia opera no tempo lento das instituições, o bolsonarismo insiste no tempo acelerado do escândalo. E é nessa assimetria que reside seu último trunfo: transformar a atenção em poder, e o ruído em forma de sobrevivência política.

•        Sem senso do ridículo: O drama da defesa de Bolsonaro após laudo retratá-lo bem

Aestratégia da defesa de Jair Bolsonaro (PL) para converter sua cela em uma prisão domiciliar enfrentou um novo balde de água fria vindo da ciência forense. Nesta sexta-feira (6), um laudo técnico da Polícia Federal encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) desidratou a narrativa de fragilidade extrema que vinha sendo construída pelos advogados. Segundo os peritos da corporação, após exames detalhados e diálogos com o ex-presidente, ficou constatado que ele recebe assistência adequada na “Papudinha”, onde cumpre sua pena de 27 anos e 3 meses.

A despeito da tentativa de pintar um quadro de saúde debilitado, as conclusões técnicas indicam que o ex-presidente golpista apresenta condições plenas para seguir atrás das grades, desde que mantidas as medidas assistenciais já vigentes em sua instalação. Mesmo diante desse diagnóstico claro, a defesa parece não conhecer limites para a última fronteira do ridículo. Em nota oficial, os advogados mantiveram o circo patético ao alegar que o laudo “não conclui, de forma expressa, pela possibilidade de manutenção de Bolsonaro no atual local de custódia. O laudo se limita a registrar a inexistência de indicação de internação hospitalar imediata, consignando, contudo, que o quadro clínico descrito exige a observância rigorosa de medidas médicas e assistenciais específicas”.

O tom dramático dos defensores escalou ao ponto de interpretarem notas técnicas como uma sentença de morte iminente. Eles afirmam que o próprio documento da PF reconheceria que a falta de amparo médico poderia gerar uma “descompensação clínica súbita, com risco concreto de morte”, além de citar perigos de quedas por questões funcionais. Contudo, essa interpretação de um “risco concreto de morte” é descrita como um completo devaneio, uma vez que nada no texto dos peritos aponta para tal gravidade. O que existe, na realidade, são sinais neurológicos que elevam o potencial de quedas, exigindo investigação diagnóstica, mas nada que comprometa a permanência no cárcere.

Nesse cenário de insistência em mentiras e bobagens que tentam retratar o condenado como um moribundo, a defesa ainda aposta em uma prorrogação do espetáculo. Eles ressaltam que a avaliação técnica não terminou, aguardando agora o parecer de um médico assistente indicado pela própria equipe de Bolsonaro. O objetivo dessa manobra é evidente: encontrar algum “perito” que finalmente diga o que eles querem ouvir — que Bolsonaro precisa ser transferido para casa.

Enquanto os advogados tentam fabricar uma incompatibilidade entre o estado de saúde do ex-presidente e o regime de custódia, os fatos mostram que as recomendações da PF, embora preventivas, já foram adotadas e são suficientes. Em suma, o laudo confirma que não há qualquer problema minimamente sério que impeça Bolsonaro de continuar exatamente onde está, deixando o drama e o exagero restritos apenas ao roteiro escrito por seus defensores.

•        Drama sem fim: Michelle divulga “carta de amor” de Bolsonaro

ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe, entregou uma carta à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro durante uma visita no Presídio da Papudinha, em Brasília, onde cumpre pena.

Na mensagem, Bolsonaro adota um tom íntimo e familiar ao afirmar que cuidar de Michelle e das filhas é sua “maior missão” e que caminhar ao lado dela, protegê-la e permanecer junto é uma “escolha diária”. O texto é mais uma peça da encenação para gerar comoção nas redes.

“Carta que recebi do meu amor no nosso aniversário de 18 anos de casados”, escreveu Michelle Bolsonaro ao divulgar a carta em suas redes.

“Meu amor, cuidar de você e das nossas filhas é a minha maior missão. Caminhar ao seu lado, proteger, amar e permanecer é a minha escolha diária. Você é e sempre será o meu Grande Amor. Eu te amo”, escreveu o ex-presidente.

O episódio ocorre enquanto Bolsonaro permanece preso e aliados tentam manter mobilização política para conseguir a prisão domiciliar para o ex-presidente.

•        Nikolas Ferreira confronta Eduardo Bolsonaro: “não vou jogar confete para quem tá me pressionando”

m entrevista ao podcast de Márvio Lúcio, o Carioca, e Marcos Chiesa, o Bola, ex-integrantes do Pânico, nesta quinta-feira (5), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) partiu para cima de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e aliados dele, como Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, que o teriam acusando de “desleal ou um traidor”.

Indagado sobre a situação com o filho de Jair Bolsonaro (PL), que foi tratado como “refugiado” por Carioca, Nikolas deu início a uma saraivada de críticas e ataques ao ex-aliado.

“Cara, eu não converso com ele e não faço nem questão de citar o nome dele aqui, de verdade”, iniciou o deputado extremista.

Indagado o motivo de não falar com Eduardo, Nikolas afirmou que “para mim as coisas vão vir à tona”, quando foi interrompido por Carioca, que diz que “ele te apoiou”, em relação à marcha recente até Brasília.

“É muito fácil apoiar quando todo mundo está apoiando, fica inexorável”, desdenhou Nikolas, que destilou as mágoas contra o filho de Bolsonaro.

“Ele tentou descredibilizar a minha força nas eleições, dizendo que o Pablo Marçal estava por trás de mim”, disse. “E, principalmente, ficar colocando na cabeça das pessoas como se eu fosse um desleal ou um traidor. Para mim, a pergunta é muito simples: qual o intuito disso?”.

“Porque eles estavam incomodados, se estou falando besteira nem lembro ou não sei, porque não sentiram um apoio efusivo seu a Eduardo Bolsonaro nos EUA”, respondeu Carioca.

“Então, eles têm que decidir, né? Ou eu sou um cara irrelevante que só faz vídeo ou naquilo que entro, eu decido. Não dá para ser os dois ao mesmo tempo. Então fica difícil, né, carioca? Quando você tá fazendo o seu trabalho e aí os caras falam: ‘Ah, só vai fazer vídeo, só vai fazer vídeo’. E aí depois pede um vídeo para causa que eles querem. Então sim, os caras querem o quê? Confete? Eu não vou sair dando confete para quem está me pressionando”, disparou.

Nikolas ainda minimizou as críticas aos ataques pela falta de apoio a Eduardo e mirou Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, fiéis escudeiros do filho de Bolsonaro.

“Eu só acho que realmente, esse tipo de coisa tem que ser muito bem avaliada. O próprio Allan mesmo, foram diversas bravatas que foram feitas com diversas coisas e que, cara, não se cumpriu e quem é o responsável por isso”, disse, sobre as promessas de mais 72 horas de Eduardo e seus asseclas.

“Então vamos lá, eu nunca fiz parte de nenhuma negociação, conversa do exterior a respeito do plano que eles tinham, beleza? Nunca fui chamado e nunca estive presente. Como que eu vou entrar em algo, falar para as pessoas sobre algo que eu não tenho conhecimento a respeito? Cara, tem muita gente que me segue, que me escuta, que me ouve e aí é o seguinte, eu vou falar sobre algo que eu não tenho domínio, que eu não faço parte. E outra coisa, se a pessoa acha que um projeto só vai dar certo se eu estiver nele, então o projeto não é dele, né? O projeto é nosso. Tá. Porque se não se dá certo, é o crédito teu, se dá errado é crédito meu”, afirmou.

Nikolas foi duramente atacado após Donald Trump levantar sanções contra Alexandre de Moraes e iniciar as negociações com o governo Lula, acabando com a guerra tarifária contra o Brasil. Eduardo culpou os aliados no Congresso, o que foi sentido pelo deputado aliado, pelo fracasso na tentativa de ataques ao Brasil, com o intuito de livrar Bolsonaro da prisão.

O vídeo gerou reações entre aliados de Eduardo Bolsonaro. Paulo Figueiredo prometeu resposta a Nikolas.

“Só vou responder a esse trecho que está circulando da entrevista do Nikolas no podcast do Carioca, onde sou citado, no Paulo Figueiredo Show da semana que vem”, afirmou.

Influenciador ligado a Carlos Bolsonaro (PL-RJ), Kim Paim incitou estremistas a colocarem Nikolas no alvo.

Outro influenciador, que se identifica como “João 8:32”, em relação ao versículo bíblico propagado por Bolsonaro, partiu para cima de Nikolas.

“O nikolas sabotou o trabalho de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo na Magnitsky e não moveu um dedo enquanto a lei estava em vigor. Zero caminhada, zero articulação, NADA — só autopromoção nas redes sociais”

 

Fonte: Le Monde/Fórum

 

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