Nuno
Vasconcellos: Congresso, a Casa sem Teto
A casa
a que se refere o título deste artigo é o Congresso Nacional. E o teto, o
dispositivo constitucional que limita os salários dos servidores públicos do
Brasil aos vencimentos de um ministro do Supremo Tribunal Federal — que
atualmente é de R$ 46.366,19. Na semana passada, o Legislativo aprovou dois
projetos que podem elevar os salários de servidores da Câmara e do Senado para
valores muito além desse limite. Caso os projetos entrem mesmo em vigor, podem
transformar o Congresso num lugar muito parecido com a casa mencionada na
canção de Vinícius de Moraes: “era uma casa muito engraçada, não tinha teto,
não tinha nada”. Uma casa cheia de defeitos, “feita com muito esmero, na rua
dos bobos, número zero”. Em tempo: os bobos, no caso, são os cidadãos brasileiros.
A que
se deve essa comparação? Vamos lá: em votação simbólica realizada na
terça-feira da semana passada, os deputados federais aprovaram os dois projetos
e estabeleceram critérios para lá de generosos e criativos para a remuneração
dos funcionários da Câmara e do Senado. No mesmo dia, em outra votação
simbólica e relâmpago, o Senado seguiu pelo mesmo caminho. (Em tempo: votação
simbólica é um recurso regimental utilizado para agilizar a tramitação de
pautas consensuais, mas que, em casos especiais como este, também serve para
camuflar os nomes de parlamentares que não querem deixar a impressão digital em
propostas despudoradas como as aprovadas na terça-feira.)
Pegou
mal. Tal mal que, dois dias depois, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal
Federal, pegou uma carona em outro projeto sob sua responsabilidade e expediu
uma liminar que suspende o pagamento de todas as verbas de “caráter
indenizatório” pagas aos servidores dos Poderes Legislativo, Executivo e
Judiciário. Em sua decisão — que se baseou em uma ação movida por procuradores
do município de Praia Grande, no litoral de São Paulo —, Dino deu 60 dias para
que os chefes dos três poderes, no nível federal, estadual e municipal,
verifiquem quais dos benefícios paralelos concedidos por eles, que atendem pelo
apelido singelo de “penduricalhos”, foram criados por lei — e não por decisão
administrativa do próprio órgão beneficiado.
Caso
exista uma lei que justifique o pagamento dos valores que excedem o teto
constitucional, tudo bem. Nesse caso, eles poderão continuar sendo pagos. Se
não houver e, nesses 60 dias, a lei for criada, tudo bem também. No fundo, a
liminar do ministro não proíbe, mas apenas procura disciplinar o pagamento dos
salários generosos.
O que
se conclui diante da liminar é que uma lei ordinária, ainda que seja de âmbito
municipal, pode contrariar o texto da Constituição Federal—que proíbe o
pagamento de qualquer valor que exceda o salário do ministro do Supremo. Em seu
artigo 37, inciso XI, a Carta Magna estabelece que “(...) os proventos, pensões
ou outra espécie remuneratória, percebidos cumulativamente ou não, incluídas as
vantagens pessoais ou de qualquer outra natureza, não poderão exceder o
subsídio mensal, em espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal (...)”.
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Se Dino
quiser mesmo coibir essa prática, terá um trabalho árduo pela frente. Desde a
promulgação da Carta, em outubro de 1988, várias categorias profissionais, a
começar pela magistratura, inventaram meios de contornar a restrição
constitucional. A situação atingiu uma proporção tão gigantesca que, hoje em
dia, é difícil encontrar um juiz estadual ou um promotor de Justiça que não
tenha vencimentos superiores ao teto constitucional. O mesmo acontece com as
categorias mais privilegiadas do Executivo. O Legislativo, embora tenha ficado
de fora dessa farra, resolveu criar as novas leis, que ampliam os benefícios de
seus servidores.
FAZ-ME-RIR
O
principal mérito da liminar de Flávio Dino foi jogar luz sobre a situação e
criar um fato que, pelo menos, dê à população uma ideia do tamanho que o
problema adquiriu. A decisão, em si, não resolve o problema. Mas o ministro já
terá feito um benefício enorme caso sua decisão tenha dado início a um debate
nacional em torno desse tema. A verdade, porém, é que a prática do “faz-me-rir”
— outro apelido para os tais “penduricalhos” — está tão enraizada pelo país
afora que ninguém parece ter poder suficiente para coibi-la.
Ninguém
mais se espanta com os benefícios que algumas categorias profissionais criaram
para si mesmas. Qualquer um que leve a sério a intenção de remover esse mal
enfrentará resistências monumentais, que exigirão uma tenacidade que até hoje
não foi demonstrada por nenhuma autoridade. E mais: como os benefícios que
acabam de ser criados para os funcionários do Legislativo já se baseiam em
leis, será difícil impedir que eles entrem em vigor. Em tempo: a lei que
beneficia os servidores do Senado tem o número 6070/2025. Para a Câmara, a lei
é a 179/2026.
Depois de aprovados pela Câmara e pelo Senado, as leis seguiram para sanção do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Caso Lula aja como costuma agir diante
dos expedientes destinados a engordar os salários dos funcionários públicos, o
presidente não deve criar obstáculos para a matéria.
Acontece,
porém, que este é um ano eleitoral e o círculo mais próximo de Lula não esconde
de ninguém que o presidente não tomará uma única medida que possa prejudicar
sua imagem junto ao eleitorado.
A
esperança é que isso seja mesmo verdade e que ele pense duas vezes antes de
sancionar o texto que amplia os privilégios para servidores públicos. Por mais
que se tente provar o contrário, esses privilégios já são vistos pela população
como privilegiados — e, nas circunstâncias atuais, qualquer apoio a privilégios
pode se traduzir em perda de votos.
Lula
pode vetar as leis. Mas ninguém deve se espantar se os parlamentares, na calada
de uma noite qualquer, decidirem derrubar o veto.
Seja
como for, os projetos exageraram na dose dos privilégios que concederam aos
servidores das duas Casas. As mudanças propostas pelos textos são tenebrosas.
No caso dos funcionários da Câmara, a chamada Gratificação por Remuneração
(sim! Os servidores da Casa ganham um extra sobre o valor do salário que
recebem!) será incorporada ao ordenado básico. Com essa manobra, o vencimento
inicial dos Analistas Legislativos da Casa passará dos atuais R$ 5.739,22 para
recheados R$ 14.008,22. Isso não significa que as gratificações “por fora” e a
título de “verbas indenizatórias” tenham sido extintas.
O texto
mantém a chamada Gratificação Por Atividade Legislativa (GAL) e cria mais um
“faz-me rir” no contracheque. O nome do novo “agrado” é Gratificação de
Desempenho e Alinhamento Estratégico (GDAE) e poderá alcançar (veja só que
maravilha!) 100% do “maior vencimento básico do respectivo cargo efetivo
ocupado pelo servidor”.
A mesma
regalia será estendida aos funcionários do Senado — que, em compensação,
ficarão sem a chamada Gratificação por Desempenho (GD). Mas não pense que eles
ficarão prejudicados em relação aos colegas da Câmara. O projeto prevê para o
pessoal do Senado aumentos graduais e automáticos de salário (ou seja, não
vinculados à produtividade nem a qualquer outro critério de avaliação) pelos
próximos quatro anos. Pelos reajustes previstos, o Consultor Legislativo que
hoje recebe R$ 10.736,64 por mês, passará a ter (além dos reajustes com base na
inflação) um vencimento básico de R$ 24.181,07 em 2029. O aumento é de 125,22%.
Além do
salário base, os funcionários da Câmara e do Senado continuarão tendo “direito”
a gratificações que, somadas, ultrapassarão com folga o teto calculado com base
nos contracheques dos ministros do Supremo. Uma das inovações mais
escandalosas, mais descaradas, mais insultuosas ao pagador de impostos, é a
chamada “licença compensatória por dias trabalhados”. Na Câmara, os
funcionários menos privilegiados farão jus a um dia de folga para cada dez dias
trabalhados. E os mais beneficiados receberão (pasme!) um dia de folga para
cada três dias trabalhados — regalia que poderá ser convertida em dinheiro e
acrescentar um caraminguá a mais no holerite do servidor.
RACHADINHA
Quais
serão as consequências dessa medida? Bem. Num país em que os políticos pensam
apenas em distribuir benefícios sem levar em conta, em momento algum, o quanto
eles pesam nas costas do contribuinte, é preciso considerar todas as hipóteses
de mau uso do dinheiro público. Uma dessas hipóteses é a de que o aumento
exagerado nos salários do pessoal do Legislativo tornará o expediente conhecido
como “rachadinha” muito mais atraente do que é hoje.
A
“rachadinha”, todo mundo sabe, é o expediente canalha pelo qual o parlamentar
se apropria de um percentual do salário dos servidores nomeados para trabalhar
em sua assessoria. Visto com repulsa pelo cidadão, esse mecanismo, pelo que se
comenta à boca pequena nos corredores do parlamento, é mais comum do que se
imagina. O último a ser pego com a boca nessa botija foi o deputado André
Janones — mas, pelo que se diz, há muito mais gente interceptando parte do
salário que deveria ir para a conta do servidor.
Seja
como for, o caso de Janones é suficiente para ilustrar a situação. O deputado
foi flagrado numa reunião em que exigia que seus assessores lhe entregassem
parte de seus salários para cobrir despesas de sua campanha fracassada para
prefeito de Ituiutaba, em Minas Gerais.
Janones
chegou a responder pela rachadinha diante da Comissão de Ética e Decoro
Parlamentar da Câmara. Depois, por pressão do deputado e atual ministro da
Secretaria Geral da presidência da República, Guilherme Boulos, sequer teve o
caso avaliado pelo plenário da Câmara. Em março passado, Janones fechou com a
Procuradoria Geral da República um acordo que, em troca de uma multa irrisória
— paga à Câmara dos Deputados e não aos servidores lesados — ele se livraria do
processo.
O
estímulo à rachadinha é apenas um dos riscos abertos pelo aumento
desavergonhado que os parlamentares querem conceder aos servidores da Casa. Há
outros problemas que podem surgir daí, mas os políticos preferem agir como se
não houvesse nada de errado. Para justificar mais a regalia concedida ao
pessoal “do andar de cima” do funcionalismo, o presidente da Câmara Hugo Motta
disse que as leis aprovadas apenas estendem ao pessoal do Poder Legislativo
benefícios salariais que já foram concedidos ao pessoal do Poder Judiciário e
do Tribunal de Contas da União. “É justo que o pessoal da Câmara e do Senado
possa ter seu reajuste”, disse o deputado.
Com a
estridência habitual, o senador Randolfe Rodrigues (PT/AP), disse que o aumento
concedido agora apenas compensa a falta de reajustes que houve nos governos de
Michel Temer e de Jair Bolsonaro. E mais: qualquer ultrapassagem do limite
constitucional “será vetado”. Rodrigues só esqueceu de mencionar que a falta de
uma condenação firme a esse “faz-me-rir” é uma porta aberta para que o veto
seja derrubado em plenário e o contribuinte continue arcando com a generosidade
de Suas Excelências.
Quem
ouve os parlamentares das duas casas falarem sobre o assunto acha que o
problema é mínimo. De acordo com o relator do projeto que cria mais essa farra
com o dinheiro do povo, deputado Alberto Fraga (PL/DF), as alterações propostas
nas leis aprovadas terão um custo irrisório, de mais ou menos 0,03%, sobre a
receita líquida da Câmara. “A execução das despesas será suportada por dotações
já consignadas no orçamento da Câmara dos Deputados”, disse Fraga. No Senado, a
conversa é exatamente a mesma.
SALÁRIOS
ASTRONÔMICOS
A
questão não é essa! Ou melhor: a questão não é apenas essa. A questão principal
é o descaso que os parlamentares demonstram diante de decisões que eles mesmos
tomam. Veja esse exemplo: no dia 21 de maio do ano passado, no auge da
resistência de Hugo Motta à ideia de se criar uma CPI para investigar o roubo
aos velhinhos do INSS, e com a intenção evidente de erguer uma cortina de
fumaça para esconder sua falta de aptidão para o cargo de presidente da Câmara,
Hugo Motta criou um Grupo de Trabalho para apresentar um projeto de Reforma
Administrativa e, com ele, dar um novo ordenamento ao funcionalismo público,
com a eliminação de privilégios e de salários astronômicos. Agindo como se do
resultado daquele trabalho dependesse a salvação do Brasil, Motta deu à
Comissão, coordenada pelo deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), 45 dias de prazo para
concluir seu trabalho.
Seria
demais esperar que esse prazo fosse cumprido — mas, neste momento, isso é o que
menos importa. O que realmente interessa é que o trabalho ficou pronto.
Resultou num cartapácio com 520 páginas, com uma série de sugestões para
reorganizar as carreiras públicas, eliminar salários exagerados, reduzir o
tamanho da máquina e, enfim, reduzir o peso do Estado sobre os ombros da
sociedade.
Ao
todo, o projeto propõe mais de 40 alterações no texto constitucional e fixa
critérios mais rígidos do que os atuais para a remuneração, cargos
comissionados, avaliação de desempenho e, claro, teto salarial. Com toda a
pompa e circunstância exigida por um projeto que, no final das contas, marcaria
uma espécie de compromisso solene dos deputados com a moralidade e a probidade,
o projeto — que pode ser lido na íntegra no Portal da Câmara dos Deputados — o
texto vai parar na lata de lixo com o projeto que Suas Excelências tiveram o
desplante de aprovar.
Isso
mesmo! Os projetos aprovados na semana passada tiram toda e qualquer autoridade
do Congresso falar em Reforma Administrativa. Pedro Paulo, é claro, não gostou
do aumento votado na terça-feira passada — e chegou a registar, por escrito, um
voto contrário ao resultado da “votação simbólica”. Sua reação, por mais
sincera que seja, é inútil. Se o próprio Hugo Motta, que encomendou o projeto
de Reforma Administrativa como se aquilo fosse a tábua de salvação para sua
própria reputação, aplaude uma medida que contraria todo o trabalho da
comissão, é sinal de que o projeto não avançará um milímetro. E o Serviço
Público brasileiro continuará a ser visto pelo Contribuinte como a Casa da Mãe
Joana. Ou seja: um sorvedouro do dinheiro do pagador de impostos.
Fonte:
O Dia

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