Estamos
a 85 segundos do colapso mundial
Por um
instante, o mundo parece suspenso. Não porque tudo tenha parado, e sim porque
tudo continua funcionando apesar de já não haver chão firme. As engrenagens
giram, os mercados abrem, as guerras seguem localizadas, o cotidiano se
reproduz. Nada explode de uma vez. O fim não chega. Ele se instala lentamente,
como ruído de fundo. É a partir desse silêncio tenso que o Bulletin of the
Atomic Scientists deve ser lido.
O
boletim surgiu em 1945, fundado por físicos diretamente envolvidos no Projeto
Manhattan, poucos meses após Hiroshima e Nagasaki. Cientistas como Albert
Einstein, Leo Szilard e J. Robert Oppenheimer compreenderam que a ciência havia
ultrapassado qualquer capacidade política existente de controle. O Bulletin
nasce, assim, como um dispositivo público de advertência. Seu objetivo era
simples: traduzir riscos técnicos extremos em linguagem política inteligível,
deslocando o debate do interior dos laboratórios para o espaço público.
Em
1947, esse esforço ganhou uma forma simbólica duradoura com a criação do
Doomsday Clock. A meia-noite do relógio não representa um evento específico,
nem uma profecia literal. Ela simboliza o ponto de autodestruição
civilizacional produzido pela ação humana, inicialmente associado à guerra
nuclear e depois ampliado para outros riscos existenciais. Quando o relógio
marca meia-noite, isso indica a falência plena dos mecanismos sociais,
políticos e tecnológicos de contenção. Trata-se do colapso como resultado
histórico, não como acidente.
Ao
longo do século XX, o relógio oscilou acompanhando momentos dramáticos da ordem
mundial. Em 1953, após os testes das bombas de hidrogênio pelos Estados Unidos
e pela União Soviética, os ponteiros se aproximaram perigosamente da
meia-noite, sinalizando a entrada da humanidade em uma era de destruição
termonuclear potencialmente irreversível.
Em
1962, durante a crise dos mísseis em Cuba, o mundo viveu sua aproximação mais
aguda de um confronto nuclear direto, consolidando a percepção de que a
sobrevivência coletiva dependia de equilíbrios instáveis e decisões tomadas sob
pressão extrema.
Nos
anos seguintes, acordos de controle de armas e o período de détente entre as
superpotências afastaram temporariamente os ponteiros. Em 1991, com o fim da
Guerra Fria e a assinatura do tratado START, o relógio atingiu sua maior
distância da meia-noite. Aquela breve abertura alimentou a ilusão de que o
risco existencial havia sido superado pela integração liberal e pela governança
multilateral. O século XXI encarregou-se de desfazer essa expectativa.
Desde
os anos 2000, o relógio voltou a se mover em direção ao limite, impulsionado
por uma convergência inédita de ameaças. O risco nuclear reaparece, somado ao
colapso climático, à erosão das instituições internacionais, à biotecnologia
sem governança e à aceleração tecnológica desacoplada de mediações políticas. O
tempo deixou de ser regulado por ciclos de crise e estabilização. Entrou em
regime de compressão contínua.
É nesse
contexto que, em 2026, o Bulletin of the Atomic Scientists anunciou que o
relógio marcava 85 segundos para a meia-noite. O dado não acrescenta apenas um
novo marco à série histórica do Doomsday Clock. Ele condensa uma experiência
histórica mais profunda: a sensação de que o tempo deixou de funcionar como
promessa e passou a operar como cerco. Já não se trata de uma contagem
regressiva orientada por um futuro previsível. Trata-se de um presente espesso
e saturado, no qual o futuro perdeu a capacidade de organizar expectativas
coletivas.
Desde
sua criação, o relógio operou como metáfora da ameaça nuclear. Hoje, funciona
como síntese de uma convergência de crises. Armas nucleares, colapso climático,
biotecnologias fora de controle, inteligência artificial militarizada e
ecossistemas informacionais corroídos pela desinformação deixaram de aparecer
como riscos isolados.
Esses
vetores se reforçam mutuamente e produzem um quadro no qual a exceção tende a
se estabilizar. O relógio avança porque o mundo perdeu freios estruturais,
institucionais e simbólicos.
Há,
ainda assim, um limite estrutural no próprio Doomsday Clock. O boletim observa
os riscos a partir de indicadores técnicos, institucionais e geopolíticos
visíveis. Armas, tratados, emissões, algoritmos, laboratórios, conflitos
interestatais. Tudo isso importa. Ainda assim, essa leitura permanece na
superfície dos fenômenos. Ela capta os sintomas, registra a proximidade do
desastre e calibra o alarme. O que escapa é o solo comum sobre o qual essas
ameaças se acumulam e se reforçam.
Os
membros do Bulletin anunciam crises múltiplas, embora não nomeiem aquilo que as
articula em profundidade. Subterraneamente, um mesmo processo sustenta o
colapso climático, a militarização tecnológica, a corrosão política e a
instabilidade social: a crise estrutural da acumulação do capital. O relógio
mede o tempo da catástrofe, porém não alcança a lógica que a produz. Registra o
fim iminente sem interrogar o modo de vida que transforma destruição em
requisito de funcionamento.
Nesse
ponto, o próprio instrumento revela sua insuficiência. Um relógio supõe
contagem, controle residual do tempo e possibilidade de ajuste antes do limite
final. O presente histórico já não opera nesse registro. O colapso avança por
saturação, pelo esgotamento das mediações sociais e pela incapacidade sistêmica
de produzir futuro. A questão já não é quanto tempo falta para a meia-noite. É
o fato de que o tempo deixou de organizar a experiência coletiva.
Os 85
segundos expressam algo já visível no plano social. O colapso deixou de ser
hipótese futura para se manifestar como forma cotidiana de administração da
vida. Estados operam em regime permanente de emergência. Mercados funcionam
pela antecipação do desastre e pela extração de lucro a partir do medo.
Populações inteiras aprendem a viver em cenários de instabilidade crônica, nos
quais direitos surgem como concessões provisórias e a violência se naturaliza
como método de governo.
Há aqui
um deslocamento decisivo. O colapso não é apenas ambiental, militar ou
tecnológico. Ele é temporal. O presente se alonga indefinidamente, sem promessa
de superação. A política passa a administrar danos em vez de produzir projetos.
A ideia de progresso se dissolve, substituída por narrativas de sobrevivência.
O relógio marca 85 segundos porque o mundo já opera como se a meia-noite
tivesse ocorrido em câmera lenta.
Nesse
sentido, o Doomsday Clock não anuncia o fim. Registra a normalização do fim. A
catástrofe deixa de ser evento e se converte em condição histórica. Isso ajuda
a compreender por que alertas científicos cada vez mais precisos convivem com
paralisia política crescente. O problema não está na falta de informação. Ele
reside na erosão das mediações capazes de transformar conhecimento em ação
coletiva. A racionalidade que governa o capitalismo contemporâneo já incorporou
a destruição como custo operacional.
Paulo
Arantes insistiu que vivemos um tempo de expectativas rebaixadas, no qual a
história parece ter perdido motor. O relógio a 85 segundos materializa essa
intuição. Ele constata um esgotamento estrutural. A incapacidade de frear
tendências destrutivas tornou-se parte constitutiva da ordem social. A
governança global fracassa por coerência sistêmica, já que o próprio sistema
depende da reprodução permanente do risco.
Falar
em colapso social, nesse quadro, significa reconhecer um processo prolongado de
desorganização, no qual a vida social segue funcionando sob parâmetros cada vez
mais violentos, desiguais e instáveis. O relógio se aproxima da meia-noite
enquanto o mundo continua trabalhando, produzindo, consumindo e guerreando,
como se essa normalidade fosse neutra, quando ela constitui o sintoma central
da crise.
Talvez
seja necessário, então, outro aparelho. Não mais um relógio, e sim um
sismógrafo do colapso social. Um instrumento capaz de captar fraturas lentas,
abalos contínuos e falhas que se acumulam sem explosão imediata. Um dispositivo
que registre a decomposição do trabalho, da política, da vida cotidiana e da
própria ideia de expectativa. O relógio ainda alerta. O sismógrafo mostraria
que a terra já se move sob nossos pés há bastante tempo.
Fonte:
Por Gabriel Teles, em A Terra é Redonda

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