segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Bad Bunny: o desafio a Trump ganha as multidões

Em meio à guerra do ICE contra os imigrantes, um rapper porto-riquenho será o astro do momento de maior audiência na TV norte-americana. Como ele difunde a resistência ao supremacismo do presidente. Por que a indústria cultural já não pode ignorá-lo...

Alguma coisa está fora de ordem na indústria cultural dos EUA. Na noite deste domingo, um rapper, cantor, ator e produtor musical porto-riquenho, que canta em castelhano e se opõe à perseguição lançada pela Casa Branca contra os imigrantes, será o protagonista do Super Bowl – a final da principal liga do campeonato de futebol americano. Bad Bunny  nome artístico de Benito Antonio Martínez Ocasio  subirá ao palco no show do intervalo (Halftime Show), assistido possivelmente por 130 milhões de pessoas. Comparecerá não apenas como astro global (foi o artista mais ouvido no planeta pelo Spotify em 2025), mas como um símbolo de oposição à guerra cultural e anti imigratória nos Estados Unidos. Enquanto fãs preparam festas, a NFL (a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos) arma-se para protestos, redes de televisão ensaiam cortes de som e grupos ativistas monitoram possíveis rondas do ICE. Não será uma simples apresentação musical, mas um ato político que encapsula anos de transformações: um artista boicotou os EUA, injetou US$ 400 milhões em Porto Rico, dominou as paradas em espanhol e se tornou o rosto de uma resistência que a indústria não pode mais ignorar. O que está em jogo vai muito além do entretenimento.

A escalada que transformou este show no palco de uma guerra cultural pode ser traçada desde seu anúncio oficial, em setembro de 2025, quando a NFL o confirmou como atração do Halftime Show – um palco tradicionalmente associado ao patriotismo estadunidense. A euforia inicial logo encontrou seu contraponto. Ainda em outubro, vozes influentes na mídia conservadora iniciaram um coro de desdém, questionando a escolha de um artista que “não canta em inglês” e acusando a liga de capitular à “agenda woke”.

Este cenário de tensão tem raízes mais profundas. O ponto de inflexão política ocorreu em 27 de outubro de 2024. Durante um comício de Donald Trump, o comediante Tony Hinchcliffe referiu-se a Porto Rico como uma “ilha flutuante de lixo”. Apesar de a campanha de Trump ter se desvinculado da piada, o dano político e simbólico estava feito. Bad Bunny, conhecido por evitar endossos políticos explícitos, quebrou seu silêncio publicamente, compartilhando nas redes sociais um vídeo de campanha da candidata Kamala Harris que criticava a gestão de Trump após o furacão Maria. O status político peculiar de Porto Rico – cujos cidadãos têm nacionalidade estadunidense, mas não votam para presidente – adiciona uma camada complexa ao debate sobre representação e soberania que Bad Bunny personifica.

Quando o comentário aconteceu, Bad Bunny já trabalhava em Debí Tirar Más Fotos, um álbum concebido como carta de amor profundamente pessoal à ilha. O episódio não criou sua consciência política, mas estabeleceu contexto e combustível para seu lançamento, em 5 de janeiro de 2025. O projeto afirma a identidade porto-riquenha frente ao colonialismo. Para isso, parte das raízes: utiliza ritmos tradicionais, prioriza colaboradores locais e, em uma camada conceitual única, trabalha com o historiador Jorell Meléndez-Badillo em visualizers (vídeos simples, de baixo custo e com animações em looping, criados para acompanhar músicas no YouTube) que narram a história política da ilha.

O próximo capítulo do embate foi uma provocação artística calculada. No Dia da Independência dos EUA, em julho de 2025, Bad Bunny lançou o clipe de “NUEVAYoL”. No vídeo, uma voz idêntica à de Trump diz: “Cometi um erro. Quero me desculpar com os imigrantes na América. Quero dizer, os Estados Unidos. Sei que a América é o continente inteiro. Quero dizer que este país não é nada sem os imigrantes. Este país não é nada sem mexicanos, dominicanos, porto-riquenhos, colombianos, venezuelanos, cubanos”. O clipe também fez referência ao ativista Tito Kayak, que em 2000 escalou a Estátua da Liberdade para colocar a bandeira de Porto Rico, reforçando a imagem de Bad Bunny como defensor dos direitos latinos.

Esta postura se refletiu de forma concreta em suas decisões de carreira. Embora seja uma atração global aclamada, Bad Bunny deliberadamente não incluiu os Estados Unidos em sua turnê “Debí Tirar Más Fotos World Tour”. Inicialmente declarando que levar seus shows para lá era”desnecessário”, ele confessou em uma entrevista de setembro de 2025 que a real motivação era uma preocupação com a segurança de seu público. “Havia uma preocupação com o ICE estar do lado de fora, pois meus fãs são majoritariamente latinos”, afirmou. Em contrapartida, realizou sua residência “No Me Quiero Ir de Aquí”, com 30 datas em Porto Rico — que, embora ligado aos EUA (com status de Estado Livre Associado), garantia a segurança de seus fãs. Em consequẽncia, transformou o evento em um poderoso ato de afirmação cultural e gerou um impacto econômico de mais de US$ 400 milhões na economia da ilha.

Sua plataforma é global e seu alcance, mensurável: a liderança de Bad Bunny no Spotify mantém-se desde 2022 e alcançou mais de 19,8 bilhões de streams no ano passado. Após o lançamento do último álbum, três músicas se tornarem trends mundiais imediatos no TikTok. Uma delas, a faixa “DTMF”, foi especificamente adotada pelo povo palestino como trilha de resistência diante do extermínio em Gaza, ampliando sua ressonância para muito além do público latino. Esse domínio algorítmico consolida uma autoridade cultural que torna seu ativismo muito mais do que um gesto simbólico — é uma força com audiência certificada.

Esse poder esmagador foi reforçado por um gesto aparentemente pequeno. Exibida durante toda sua performance na cerimônia do Grammy de 2025, a legenda “singing in non-English” serviu de catalisador para um debate sobre exclusão e assimilação, fornecendo o vocabulário perfeito para a campanha contra sua escolha para o Super Bowl. Este episódio, no entanto, tem um profundo eco histórico. Em 1968, o artista porto-riquenho José Feliciano causou furor e teve sua carreira nos EUA prejudicada ao cantar o hino nacional em um estilo latino, durante a World Series, sendo acusado de “anti-americano”. A ironia histórica é ainda mais profunda: em 1945, o próprio governo dos EUA, sob Franklin D. Roosevelt, havia encomendado uma versão oficial em espanhol do hino, “El Pendón Estrellado”, como parte de sua Política de Boa Vizinhança. A controvérsia em torno de Bad Bunny revela, portanto, uma contradição cíclica na relação dos EUA com a cultura hispânica.

O descontentamento cultural rapidamente se militarizou. Na narrativa da extrema direita, Bad Bunny deixou de ser um artista para se tornar um alvo político, citando seu independentismo porto-riquenho e o boicote de sua turnê. O ápice desta escalada veio em dezembro de 2025, quando, em um podcast de ultradireita, a sugestão foi lançada: usar o ICE para uma operação simbólica no entorno do estádio do Super Bowl. A proposta ilegal, mas amplamente compartilhada, acrescentou ao evento um risco tangível, transformando a apreensão em medo.

As críticas públicas de Trump selaram de vez o tom da oposição. Em outubro de 2025, o presidente afirmou, em entrevista: “Nunca ouvi falar dele… Acho isso absolutamente ridículo”. Mais tarde, duas semanas antes do evento, ao falar ao New York Post, foi mais direto sobre as atrações do Super Bowl (Green Day e Bad Bunny): “Sou contra eles… Acho uma escolha terrível. Tudo o que fazem é semear ódio”.

Em um desfecho de ironia perfeito, o mesmo palco que o insultou o coroou. A uma semana de sua apresentação no Super Bowl, Bad Bunnyvenceu o prêmio de Álbum do Ano com “Debí Tirar Más Fotos” em 2026. Tornou-se o primeiro artista latino, e o primeiro álbum inteiramente em espanhol, a conquistar a principal honraria da Academia das Gravadoras na história da premiação. O disco também lhe garantiu os troféus de Melhor Álbum de Música Urbana e Melhor Performance de Música Global. Foi no palco de aceitação do prêmio de Música Urbana que ele fez seu discurso mais incisivo: “Antes de eu agradecer a Deus, eu vou dizer: ICE, fora. Nós não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas, somos humanos e somos americanos.” Ao aceitar o Álbum do Ano, dedicou o prêmio “a quem deixou sua casa, seu país para ir atrás de seus sonhos” e “a todos os latinos no mundo que mereciam estar aqui concorrendo”.

O discurso foi a prova final de que a adaptação não era mais uma estratégia de mercado, mas uma atitude cultural. A preparação da própria NFL para o evento reflete a pressão desse novo mainstream. A resposta da liga foi ampliar sua cobertura em espanhol, escalando narradores e legendadores especializados para atender não só à crescente base hispânica, mas ao próprio protagonista do Halftime Show — um aceno tácito ao poder cultural que Bad Bunny personifica.

É esse protagonismo, consolidado no Grammy e assimilado pela NFL, que perturba a ultradireita. Bad Bunny transformou o boicote deliberado em uma estratégia de protesto e luta incomuns no cenário atual da indústria musical estadunidense. Ao desviar sua turnê dos EUA, ele fez mais do que proteger seu público do ICE — inaugurou um modelo de “soberania cultural via streaming”. Seu sucesso global sugere que o “mainstream” não é mais um centro a ser conquistado, mas um ecossistema a ser reconfigurado a partir das margens. O Super Bowl, então, torna-se o reconhecimento tácito e tenso dessa nova realidade: a NFL não o convidou para diversificar seu público, mas porque seu público já está no  mainstream. A pergunta crucial, portanto, não é sobre o espetáculo, mas se a indústria do entretenimento — e o próprio país — estão preparados para assimilar as condições linguísticas, políticas e históricas que essa nova atitude impõe.

¨      Trump diz 'não ter visto' vídeo racista postado em sua conta que mostra Obamas como macacos

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que "não viu" a parte de um vídeo nas redes sociais que mostrava um trecho racista retratando Barack e Michelle Obama como macacos.

O trecho - com a música "The Lion Sleeps Tonight" ao fundo - estava no final de um vídeo de 62 segundos que ele compartilhou, contendo alegações sobre fraude eleitoral na eleição presidencial de 2020. O vídeo foi posteriormente removido.

Falando a repórteres na sexta-feira (6/2), Trump disse "Eu não cometi um erro" quando questionado se iria se desculpar.

Ele acrescentou que só tinha visto o início do vídeo antes de ser postado por um membro de sua equipe e não sabia que continha aquela representação dos Obamas.

O senador republicano Tim Scott - que é negro - descreveu o ocorrido como "a coisa mais racista que já vi vinda desta Casa Branca".

Inicialmente, a Casa Branca defendeu o vídeo como um "vídeo de meme da internet" e pediu aos críticos que "parassem com a falsa indignação".

Mas, após uma forte reação negativa, inclusive de vários senadores republicanos, a publicação foi removida da conta Truth Social de Trump e um funcionário da Casa Branca afirmou que um membro da equipe havia feito a publicação "erroneamente".

O vídeo - que lembra caricaturas racistas comparando pessoas negras a macacos - parece ter sido retirado de uma publicação do X compartilhada pelo criador de memes conservador Xerias em outubro.

Esse vídeo também retrata vários outros democratas de destaque como animais, incluindo a representante de Nova York Alexandria Ocasio-Cortez, o prefeito da cidade de Nova York, Zohran Mamdani, e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton.

O antecessor de Trump na Casa Branca, Joe Biden, também é retratado como um macaco comendo uma banana.

Os Obamas ainda não comentaram o vídeo.

O vídeo foi um dos muitos publicados na conta Truth Social de Trump durante a noite. "Eu analiso milhares de coisas", disse o presidente a bordo do Air Force One na sexta-feira, acrescentando que, após assistir apenas a parte do vídeo, "o entregou às pessoas que, geralmente, assistem ao vídeo completo".

Ele disse que gostou da mensagem do vídeo sobre fraude eleitoral, mas que, se sua equipe tivesse assistido ao vídeo inteiro, "provavelmente teriam tido a sensatez de retirá-lo do ar".

"Nós o retiramos do ar assim que descobrimos sobre ele", acrescentou.

Algumas críticas vieram de dentro do próprio partido de Trump.

O senador Scott, republicano da Carolina do Sul e aliado de Trump, publicou que estava "rezando para que fosse falso, porque é a coisa mais racista que já vi vinda desta Casa Branca".

"O presidente deveria removê-lo", acrescentou.

Outro republicano, o representante de Nova York, Mike Lawler, chamou a publicação de "errada e incrivelmente ofensiva - seja intencional ou um erro" e disse que "deveria ser apagada imediatamente com um pedido de desculpas".

As críticas continuaram mesmo depois que a publicação foi removida.

John Curtis, senador republicano de Utah, publicou nas redes sociais que o vídeo era "flagrantemente racista e indesculpável".

"Nunca deveria ter sido publicado ou ter permanecido no ar por tanto tempo", escreveu.

De acordo com a CBS, parceira da BBC nos EUA, o representante da Flórida, Byron Donalds - um antigo apoiador de Trump que está concorrendo ao cargo de governador - ligou para a Casa Branca depois que o vídeo foi publicado e foi informado de que era obra de um funcionário que "decepcionou o presidente".

A BBC entrou em contato com a Casa Branca para esclarecer quantas pessoas têm acesso à conta do presidente e qual é o processo de aprovação das postagens.

Em um comunicado enviado à BBC, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que o vídeo é de "um vídeo viral da internet que retrata o presidente Trump como o Rei da Selva e os democratas como personagens do Rei Leão".

"Por favor, parem com a falsa indignação e noticiem hoje algo que realmente importe para o público americano", acrescentou ela.

Antes de ser removido, Derrick Johnson, presidente da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), chamou o vídeo de "nojento e absolutamente desprezível" e acusou Trump de tentar distrair o público do caso Epstein e de uma "economia em rápido declínio".

Ben Rhodes, ex-vice-conselheiro de segurança nacional para comunicações estratégicas na Casa Branca de Obama, disse: "Que isso assombre Trump e seus seguidores racistas: que os futuros americanos abracem os Obamas como figuras amadas enquanto o estudem como uma mancha em nosso país." Em uma breve publicação própria, o governador de Illinois, JB Pritzker, afirmou que "Donald Trump é racista".

"Comportamento repugnante do presidente", escreveu o gabinete do governador da Califórnia, Gavin Newsom, no Facebook. "Todos os republicanos devem denunciar isso. Agora."

O líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries — que acusou Trump de racismo no ano passado, após o presidente compartilhar uma imagem gerada por IA que o retratava com bigode e sombreiro — respondeu ao vídeo recente chamando Trump de "um verme vil, desequilibrado e maligno".

"Todos os republicanos devem denunciar imediatamente o preconceito repugnante de Donald Trump", acrescentou.

O trecho com os Obamas foi adicionado ao final de um vídeo de um minuto que incluía alegações sobre uma conspiração eleitoral em Michigan nas eleições presidenciais de 2020. Essas alegações foram desmentidas como parte das ações judiciais civis bem-sucedidas da Dominion Voting Systems contra algumas empresas de mídia.

Trump também tem um longo histórico de críticas e ataques a Obama. Antes de seu primeiro mandato como presidente, Trump fazia alegações falsas regularmente de que Obama, nascido no Havaí, na verdade, havia nascido no Quênia e, portanto, não era elegível para ser presidente.

Mais tarde, ele reconheceu que Obama nasceu nos EUA.

 

Fonte: Por Evelyn Arruda, em Outras Palavras/BBC News Brasil

 

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