Bad
Bunny: o desafio a Trump ganha as multidões
Em
meio à guerra do ICE contra os imigrantes, um rapper porto-riquenho
será o astro do momento de maior audiência na TV norte-americana. Como ele
difunde a resistência ao supremacismo do presidente. Por que a indústria
cultural já não pode ignorá-lo...
Alguma
coisa está fora de ordem na indústria cultural dos EUA. Na noite deste domingo,
um rapper, cantor, ator e produtor musical porto-riquenho, que
canta em castelhano e se opõe à perseguição lançada pela Casa Branca contra os
imigrantes, será o protagonista do Super Bowl – a final da
principal liga do campeonato de futebol americano. Bad Bunny – nome
artístico de Benito Antonio Martínez Ocasio – subirá ao palco
no show do intervalo (Halftime Show), assistido possivelmente por 130
milhões de pessoas. Comparecerá não apenas como astro global (foi o artista
mais ouvido no planeta pelo Spotify em 2025), mas como um símbolo de oposição à
guerra cultural e anti imigratória nos Estados Unidos. Enquanto fãs preparam
festas, a NFL (a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos)
arma-se para protestos, redes de televisão ensaiam cortes de som e grupos
ativistas monitoram possíveis rondas do ICE. Não será uma simples apresentação
musical, mas um ato político que encapsula anos de transformações: um artista
boicotou os EUA, injetou US$ 400 milhões em Porto Rico, dominou as paradas em
espanhol e se tornou o rosto de uma resistência que a indústria não pode mais
ignorar. O que está em jogo vai muito além do entretenimento.
A
escalada que transformou este show no palco de uma guerra cultural pode ser
traçada desde seu anúncio oficial, em setembro de 2025, quando a NFL o
confirmou como atração do Halftime Show – um palco
tradicionalmente associado ao patriotismo estadunidense. A euforia inicial logo
encontrou seu contraponto. Ainda em outubro, vozes influentes na mídia
conservadora iniciaram um coro de desdém, questionando a escolha de um artista
que “não canta em inglês” e acusando a liga de capitular à “agenda woke”.
Este
cenário de tensão tem raízes mais profundas. O ponto de inflexão política
ocorreu em 27 de outubro de 2024. Durante um comício de Donald Trump, o
comediante Tony Hinchcliffe referiu-se a Porto Rico como uma “ilha flutuante de
lixo”. Apesar de a campanha de Trump ter se desvinculado da piada, o dano
político e simbólico estava feito. Bad Bunny, conhecido por evitar endossos
políticos explícitos, quebrou seu silêncio publicamente, compartilhando nas
redes sociais um vídeo de campanha da candidata Kamala Harris que criticava a
gestão de Trump após o furacão Maria. O status político peculiar de Porto Rico
– cujos cidadãos têm nacionalidade estadunidense, mas não votam para presidente
– adiciona uma camada complexa ao debate sobre representação e soberania que
Bad Bunny personifica.
Quando
o comentário aconteceu, Bad Bunny já trabalhava em Debí Tirar Más Fotos,
um álbum concebido como carta de amor profundamente pessoal à ilha. O episódio
não criou sua consciência política, mas estabeleceu contexto e combustível para
seu lançamento, em 5 de janeiro de 2025. O projeto afirma a identidade
porto-riquenha frente ao colonialismo. Para isso, parte das raízes: utiliza
ritmos tradicionais, prioriza colaboradores locais e, em uma camada conceitual
única, trabalha com o historiador Jorell Meléndez-Badillo em visualizers (vídeos
simples, de baixo custo e com animações em looping, criados para acompanhar
músicas no YouTube) que narram a história política da ilha.
O
próximo capítulo do embate foi uma provocação artística calculada. No Dia da
Independência dos EUA, em julho de 2025, Bad Bunny lançou o clipe de
“NUEVAYoL”. No vídeo, uma voz idêntica à de Trump diz: “Cometi um erro. Quero
me desculpar com os imigrantes na América. Quero dizer, os Estados Unidos. Sei
que a América é o continente inteiro. Quero dizer que este país não é nada sem
os imigrantes. Este país não é nada sem mexicanos, dominicanos,
porto-riquenhos, colombianos, venezuelanos, cubanos”. O clipe também fez
referência ao ativista Tito Kayak, que em 2000 escalou a Estátua da Liberdade
para colocar a bandeira de Porto Rico, reforçando a imagem de Bad Bunny como
defensor dos direitos latinos.
Esta
postura se refletiu de forma concreta em suas decisões de carreira. Embora seja
uma atração global aclamada, Bad Bunny deliberadamente não incluiu os Estados
Unidos em sua turnê “Debí Tirar Más Fotos World Tour”. Inicialmente declarando
que levar seus shows para lá era”desnecessário”, ele confessou em uma
entrevista de setembro de 2025 que a real motivação era uma preocupação com a
segurança de seu público. “Havia uma preocupação com o ICE estar do lado de
fora, pois meus fãs são majoritariamente latinos”, afirmou. Em contrapartida,
realizou sua residência “No Me Quiero Ir de Aquí”, com 30 datas em Porto Rico —
que, embora ligado aos EUA (com status de Estado Livre Associado), garantia a
segurança de seus fãs. Em consequẽncia, transformou o evento em um poderoso ato
de afirmação cultural e gerou um impacto econômico de mais de US$ 400 milhões
na economia da ilha.
Sua
plataforma é global e seu alcance, mensurável: a liderança de Bad Bunny no
Spotify mantém-se desde 2022 e alcançou mais de 19,8 bilhões de streams no
ano passado. Após o lançamento do último álbum, três músicas se tornarem trends mundiais
imediatos no TikTok. Uma delas, a faixa “DTMF”, foi especificamente adotada
pelo povo palestino como trilha de resistência diante do extermínio em Gaza,
ampliando sua ressonância para muito além do público latino. Esse domínio
algorítmico consolida uma autoridade cultural que torna seu ativismo muito mais
do que um gesto simbólico — é uma força com audiência certificada.
Esse
poder esmagador foi reforçado por um gesto aparentemente pequeno. Exibida
durante toda sua performance na cerimônia do Grammy de 2025, a legenda “singing
in non-English” serviu de catalisador para um debate sobre exclusão e
assimilação, fornecendo o vocabulário perfeito para a campanha contra sua
escolha para o Super Bowl. Este episódio, no entanto, tem um profundo eco
histórico. Em 1968, o artista porto-riquenho José Feliciano causou furor e teve
sua carreira nos EUA prejudicada ao cantar o hino nacional em um estilo latino,
durante a World Series, sendo acusado de “anti-americano”. A ironia histórica é
ainda mais profunda: em 1945, o próprio governo dos EUA, sob Franklin D.
Roosevelt, havia encomendado uma versão oficial em espanhol do hino, “El Pendón
Estrellado”, como parte de sua Política de Boa Vizinhança. A controvérsia em
torno de Bad Bunny revela, portanto, uma contradição cíclica na relação dos EUA
com a cultura hispânica.
O
descontentamento cultural rapidamente se militarizou. Na narrativa da extrema
direita, Bad Bunny deixou de ser um artista para se tornar um alvo
político, citando seu independentismo porto-riquenho e o boicote de sua
turnê. O ápice desta escalada veio em dezembro de 2025, quando, em um podcast
de ultradireita, a sugestão foi lançada: usar o ICE para uma operação simbólica
no entorno do estádio do Super Bowl. A proposta ilegal, mas amplamente
compartilhada, acrescentou ao evento um risco tangível, transformando a
apreensão em medo.
As
críticas públicas de Trump selaram de vez o tom da oposição. Em outubro de
2025, o presidente afirmou, em entrevista: “Nunca ouvi falar dele… Acho isso
absolutamente ridículo”. Mais tarde, duas semanas antes do evento, ao falar
ao New York Post, foi mais direto sobre as atrações do Super Bowl
(Green Day e Bad Bunny): “Sou contra eles… Acho uma escolha terrível. Tudo o
que fazem é semear ódio”.
Em um
desfecho de ironia perfeito, o mesmo palco que o insultou o coroou. A uma
semana de sua apresentação no Super Bowl, Bad Bunnyvenceu o prêmio de Álbum do
Ano com “Debí Tirar Más Fotos” em 2026. Tornou-se o primeiro artista latino, e
o primeiro álbum inteiramente em espanhol, a conquistar a principal honraria da
Academia das Gravadoras na história da premiação. O disco também lhe garantiu
os troféus de Melhor Álbum de Música Urbana e Melhor
Performance de Música Global. Foi no palco de aceitação do prêmio de Música
Urbana que ele fez seu discurso mais incisivo: “Antes de eu agradecer a Deus,
eu vou dizer: ICE, fora. Nós não somos selvagens, não somos animais, não somos
alienígenas, somos humanos e somos americanos.” Ao aceitar o Álbum do Ano,
dedicou o prêmio “a quem deixou sua casa, seu país para ir atrás de seus
sonhos” e “a todos os latinos no mundo que mereciam estar aqui concorrendo”.
O
discurso foi a prova final de que a adaptação não era mais uma estratégia de
mercado, mas uma atitude cultural. A preparação da própria NFL para o evento
reflete a pressão desse novo mainstream. A resposta da liga foi
ampliar sua cobertura em espanhol, escalando narradores e legendadores
especializados para atender não só à crescente base hispânica, mas ao próprio
protagonista do Halftime Show — um aceno tácito ao poder
cultural que Bad Bunny personifica.
É esse
protagonismo, consolidado no Grammy e assimilado pela NFL, que perturba a
ultradireita. Bad Bunny transformou o boicote deliberado em uma estratégia de
protesto e luta incomuns no cenário atual da indústria musical estadunidense.
Ao desviar sua turnê dos EUA, ele fez mais do que proteger seu público do ICE —
inaugurou um modelo de “soberania cultural via streaming”. Seu sucesso global
sugere que o “mainstream” não é mais um centro a ser conquistado, mas um
ecossistema a ser reconfigurado a partir das margens. O Super Bowl, então,
torna-se o reconhecimento tácito e tenso dessa nova realidade: a NFL não o
convidou para diversificar seu público, mas porque seu público já está
no mainstream. A pergunta crucial, portanto, não é sobre o
espetáculo, mas se a indústria do entretenimento — e o próprio país — estão
preparados para assimilar as condições linguísticas, políticas e históricas que
essa nova atitude impõe.
¨
Trump diz 'não ter visto' vídeo racista postado em sua
conta que mostra Obamas como macacos
O
presidente dos EUA, Donald Trump, disse que
"não viu" a parte de um vídeo nas redes sociais que mostrava um
trecho racista retratando Barack e Michelle Obama como macacos.
O
trecho - com a música "The Lion Sleeps Tonight" ao fundo - estava no
final de um vídeo de 62 segundos que ele compartilhou, contendo alegações sobre
fraude eleitoral na eleição presidencial de 2020. O vídeo foi posteriormente
removido.
Falando
a repórteres na sexta-feira (6/2), Trump disse "Eu não cometi um
erro" quando questionado se iria se desculpar.
Ele
acrescentou que só tinha visto o início do vídeo antes de ser postado por um
membro de sua equipe e não sabia que continha aquela representação dos Obamas.
O
senador republicano Tim Scott - que é negro - descreveu o ocorrido como "a
coisa mais racista que já vi vinda desta Casa Branca".
Inicialmente,
a Casa Branca defendeu o vídeo como um "vídeo de meme da internet" e
pediu aos críticos que "parassem com a falsa indignação".
Mas,
após uma forte reação negativa, inclusive de vários senadores republicanos, a
publicação foi removida da conta Truth Social de Trump e um funcionário da Casa
Branca afirmou que um membro da equipe havia feito a publicação
"erroneamente".
O vídeo
- que lembra caricaturas racistas comparando pessoas negras a macacos - parece
ter sido retirado de uma publicação do X compartilhada pelo criador de memes
conservador Xerias em outubro.
Esse
vídeo também retrata vários outros democratas de destaque como animais,
incluindo a representante de Nova York Alexandria Ocasio-Cortez, o prefeito da
cidade de Nova York, Zohran Mamdani, e a ex-secretária de Estado Hillary
Clinton.
O
antecessor de Trump na Casa Branca, Joe Biden, também é retratado como um
macaco comendo uma banana.
Os
Obamas ainda não comentaram o vídeo.
O vídeo
foi um dos muitos publicados na conta Truth Social de Trump durante a noite.
"Eu analiso milhares de coisas", disse o presidente a bordo do Air
Force One na sexta-feira, acrescentando que, após assistir apenas a parte do
vídeo, "o entregou às pessoas que, geralmente, assistem ao vídeo
completo".
Ele
disse que gostou da mensagem do vídeo sobre fraude eleitoral, mas que, se sua
equipe tivesse assistido ao vídeo inteiro, "provavelmente teriam tido a
sensatez de retirá-lo do ar".
"Nós
o retiramos do ar assim que descobrimos sobre ele", acrescentou.
Algumas
críticas vieram de dentro do próprio partido de Trump.
O
senador Scott, republicano da Carolina do Sul e aliado de Trump, publicou que
estava "rezando para que fosse falso, porque é a coisa mais racista que já
vi vinda desta Casa Branca".
"O
presidente deveria removê-lo", acrescentou.
Outro
republicano, o representante de Nova York, Mike Lawler, chamou a publicação de
"errada e incrivelmente ofensiva - seja intencional ou um erro" e
disse que "deveria ser apagada imediatamente com um pedido de
desculpas".
As
críticas continuaram mesmo depois que a publicação foi removida.
John
Curtis, senador republicano de Utah, publicou nas redes sociais que o vídeo era
"flagrantemente racista e indesculpável".
"Nunca
deveria ter sido publicado ou ter permanecido no ar por tanto tempo",
escreveu.
De
acordo com a CBS, parceira da BBC nos EUA, o representante da Flórida, Byron
Donalds - um antigo apoiador de Trump que está concorrendo ao cargo de
governador - ligou para a Casa Branca depois que o vídeo foi publicado e foi
informado de que era obra de um funcionário que "decepcionou o
presidente".
A BBC
entrou em contato com a Casa Branca para esclarecer quantas pessoas têm acesso
à conta do presidente e qual é o processo de aprovação das postagens.
Em um
comunicado enviado à BBC, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline
Leavitt, disse que o vídeo é de "um vídeo viral da internet que retrata o
presidente Trump como o Rei da Selva e os democratas como personagens do Rei
Leão".
"Por
favor, parem com a falsa indignação e noticiem hoje algo que realmente importe
para o público americano", acrescentou ela.
Antes
de ser removido, Derrick Johnson, presidente da Associação Nacional para o
Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), chamou o vídeo de "nojento e
absolutamente desprezível" e acusou Trump de tentar distrair o público do
caso Epstein e de uma "economia em rápido declínio".
Ben
Rhodes, ex-vice-conselheiro de segurança nacional para comunicações
estratégicas na Casa Branca de Obama, disse: "Que isso assombre Trump e
seus seguidores racistas: que os futuros americanos abracem os Obamas como
figuras amadas enquanto o estudem como uma mancha em nosso país." Em uma
breve publicação própria, o governador de Illinois, JB Pritzker, afirmou que
"Donald Trump é racista".
"Comportamento
repugnante do presidente", escreveu o gabinete do governador da
Califórnia, Gavin Newsom, no Facebook. "Todos os republicanos devem
denunciar isso. Agora."
O líder
da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries — que acusou Trump de racismo no ano passado,
após o presidente compartilhar uma imagem gerada por IA que o retratava com
bigode e sombreiro — respondeu ao vídeo recente chamando Trump de "um
verme vil, desequilibrado e maligno".
"Todos
os republicanos devem denunciar imediatamente o preconceito repugnante de
Donald Trump", acrescentou.
O
trecho com os Obamas foi adicionado ao final de um vídeo de um minuto que
incluía alegações sobre uma conspiração eleitoral em Michigan nas eleições
presidenciais de 2020. Essas alegações foram desmentidas como parte das ações
judiciais civis bem-sucedidas da Dominion Voting Systems contra algumas
empresas de mídia.
Trump
também tem um longo histórico de críticas e ataques a Obama. Antes de seu
primeiro mandato como presidente, Trump fazia alegações falsas regularmente de
que Obama, nascido no Havaí, na verdade, havia nascido no Quênia e, portanto,
não era elegível para ser presidente.
Mais
tarde, ele reconheceu que Obama nasceu nos EUA.
Fonte:
Por Evelyn Arruda, em Outras Palavras/BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário