“Parditude”
ou negação?
A
performance pública de uma influencer brasileira que defende a ideia de uma
“parditude” transcende uma mera escolha identitária individual, inserindo-se em
um complexo e histórico projeto sociopolítico de branqueamento e desagregação
da consciência negra coletiva. Para mim, isso é bastante problemático e um
desserviço às lutas antirracistas.
Não
advogo aqui contra a figura pessoal da influencer – tanto que prefiro não citar
seu nome –, pois imagino que ela própria seja uma “vítima” do sistema ao
recusar o autorreconhecimento como negra, optando pela categoria ambígua e
racista (sim!) de “parda”. Essa narrativa atua como um mecanismo contemporâneo
do que Frantz Fanon, em Pele negra, máscaras brancas, diagnosticou como a
internalização da epidermização da inferioridade.
“Se há
um complexo de inferioridade, ele resulta de um duplo processo: – econômico, em
primeiro lugar – e, em seguida, por interiorização, ou melhor, por
epidermização dessa inferioridade.” (FANON, 2020).
Frantz
Fanon argumenta que o sujeito negro colonizado, imerso em um universo branco
que impõe sua hegemonia cultural e estética, pode desenvolver um complexo de
baixa autoestima existencial. Para sobreviver e aspirar a uma humanidade que
lhe é negada pelo olhar do branco, ele pode ser levado a vestir uma máscara
branca, adotando os valores, a linguagem e, até mesmo, rejeitando a própria
negritude, vista como sinônimo de inferioridade e falta de civilização.
A
declaração “não me vejo como negra” ecoa tragicamente esse movimento. É a
tentativa de distanciar-se do estigma social historicamente atribuído à pele
escura, buscando refúgio em uma zona cinzenta: o “pardo”, que, no imaginário
brasileiro (mas não somente, pois encontramos eco do fenômeno em toda parte), é
frequentemente associado a uma suposta “melhoria racial” e a uma maior
proximidade com o branco.
Para
compreender a profundidade desse gesto, é fundamental empregar uma lente
interseccional, que revela como as categorias de raça, gênero e classe se
sobrepõem e funcionam de maneira unificada para moldar experiências e
identidades. A performance analisada não ocorre em um vácuo, mas dentro de um
sistema de poder que, conforme observado por Collins e Bilge (2021), objetifica
sexualmente mulheres de origem racial mista como “a essência da brasilidade”,
ao mesmo tempo que apaga sua negritude como categoria política.
No
contexto brasileiro, essa operação é ainda mais perversa e eficaz porque se
vale de uma ferramenta do próprio Estado: a classificação “parda” do IBGE. Essa
categoria é um pilar do mito da democracia racial, que, como analisam Collins e
Bilge (2021), apagou oficialmente a linguagem para descrever as desigualdades
raciais, alegando que ser brasileiro substituía todas as outras identidades.
“Ao apagar a categoria política de raça”, escrevem as autoras, “o discurso
nacional da democracia racial eliminou a linguagem que poderia descrever as
desigualdades raciais que afetavam a vida das pessoas negras brasileiras”
(COLLINS; BILGE, 2021, p. 52).
Eu
mesma já me identifiquei como “parda”. Precisei passar por um processo de
letramento racial, a partir do estudo e da abertura para ouvir mais vozes
negras, para compreender e valorizar minha cor, minha ancestralidade e minha
história, reconhecendo que não sou branca. Sou brasileira, fruto de várias
raízes e genes – indígenas, italianos e africanos. Não nego nenhuma de minhas
origens, mas enalteço aquela que sofre ainda hoje o peso e as consequências
materiais e subjetivas do racismo estrutural, tão benéfico a este sistema
predatório e destrutivo chamado capitalismo.
Nesse
sentido, a categoria “parda”, ou “mestiça”, longe de ser neutra, tem funcionado
historicamente como um dispositivo de poder para diluir a população
afrodescendente, dificultando a formação de uma consciência política unificada.
Ao abraçar essa categoria de modo não crítico, a influencer não está apenas
expressando uma preferência pessoal, mas reproduzindo e validando um
instrumento de dominação racial que fragiliza a luta antirracista.
Como
Frantz Fanon bem elucidou, o racismo não é apenas um preconceito interpessoal,
mas uma estrutura que produz subjetividades alienadas. Essa estrutura opera de
forma interseccional: “a objetificação da mulher não-branca”, analisada por
Heleieth Saffioti (2015), combina-se aqui com o projeto de embranquecimento.
Heleieth
Saffioti (2015, p. 32) argumenta que, na lógica racial patriarcal, “não há como
se estabelecer tal igualdade entre mulheres negras e homens brancos, pois estes
são “superiores” pela cor de sua pele (…) e também em razão de seu sexo”. A
recusa em assumir a negritude pode, assim, ser lida também como uma tentativa
de fugir desse lugar de dupla inferiorização, buscando uma aproximação com o
padrão branco que é, simultaneamente, racial e de gênero.
O
impacto político dessa performance é direto e grave. Ao negar publicamente a
negritude, desestabilizam-se os fundamentos de políticas reparatórias
essenciais, como por exemplo, as cotas raciais. Seu discurso fornece munição
semântica para os setores reacionários, cada vez mais em evidência, que
argumentam que “não existe racismo no Brasil” ou que “todos são mestiços”,
utilizando a miscigenação como mito para encobrir a brutalidade do racismo
estrutural.
A
influencer, voluntariamente ou não, coloca-se na posição do nativo que,
vestindo a máscara branca, legitima a opressão do colonizador sobre seus
irmãos. Sua fala individual, que encontra eco em muitos negacionistas de sua
negritude, e a busca por uma teorização do tema tornam-se, assim, um ato
político de desmobilização, pois minam a força coletiva que surge do
autorreconhecimento e da afirmação “somos negros e exigimos reparação”.
A
interseccionalidade, como ferramenta analítica, nos permite ver como essa
desmobilização tem um “impacto econômico concreto”, pois, ao focar categorias
como raça e gênero, “muda a forma como pensamos emprego, renda e riqueza”,
mostrando que “as diferenças de riqueza refletem sistemas de poder
interligados” (COLLINS; BILGE, 2021, p. 44).
Portanto,
o caso não se resume a uma “escolha” inócua. É um sintoma eloquente da profunda
internalização do ideal branco hegemônico, um ato de alienação no sentido mais
fanoniano do termo. Enquanto a luta antirracista, historicamente impulsionada
por mulheres negras como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, que desafiaram o
apagamento estatal muito antes da popularização do termo “interseccionalidade”
(COLLINS; BILGE, 2021), busca descolonizar mentes e corpos, reafirmando a
beleza, a história e a potência da afrodescendência, posicionamentos como o
analisado reforçam as correntes subjetivas e materiais do racismo.
Eles
colaboram para a manutenção de uma desigualdade socioeconômica abissal que tem,
inquestionavelmente, cor, gênero e ancestralidade. A verdadeira libertação, nos
ensina Frantz Fanon, começa com a rejeição violenta dessa máscara imposta e a
corajosa afirmação da própria pele negra, em toda a sua complexidade, seus tons
e sua dignidade histórica: uma afirmação que é, necessariamente, política e
interseccional.
Fonte:
Por Nirsan Dambrós, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário