segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Universidade: Provocação para uma agenda desutópica

Em sociedades marcadas pela colonialidade iluminista eurocêntrica, a milenar instituição chamada Universidade tem cumprido uma missão histórica como produtora de utopias alimentadoras da cosmovisão hegemônica. Ao analisar modelos de instituição universitária estabelecidos no hemisfério Norte nos séculos 19 e 20, o hermeneuta francês Paul Ricoeur (2005, p.324) afirma que a Universidade provêm da utopia liberal humanista que “denega, por vezes até ingenuamente, as verdadeiras fontes do poder que são a propriedade, o dinheiro, a violência, todas as forças que não são as da inteligência”. Para Ricoeur (2005, p.324), o cerne dessa forma utópica “estava presente no Iluminismo francês (talvez de um modo mais político e mais imediato), assim como no Iluminismo alemão (mais como teoria da cultura)”. A utopia universitária, no primeiro caso, encontra-se na alegoria das Luzes (Lumières), no segundo caso, na ideia de formação geral (Bildung).

Não obstante celebrações e autoemulações, o modelo de universidade atribuído a Humboldt, baseado na Bildung, representava uma utopia de autonomia e liberdade acadêmica nunca realizada na prática. Apesar de ameaças, crises e retrocessos, esse modelo institucional e político-pedagógico resiste em todo o mundo, de modo residual e anacrônico, como elemento gerador de tensões internas na educação superior, mesmo na universidade brasileira contemporânea (Chauí, 2001). No Brasil, o ensino superior se estruturou inspirado no iluminismo francês das Lumières, modelado pela organização curricular em cátedras e disciplinas e pela fragmentação institucional em faculdades, priorizando a qualificação profissional restrita em lugar de uma formação geral na cultura (Almeida-Filho, 2025).

Nas últimas décadas do século passado, a aplicação ampla do conhecimento científico na produção industrial, sob a forma de técnicas e saberes tecnológicos, com o avanço do capitalismo neoliberal em escala globalizada (Kotz, 2015). Como efeito dessa suposta quarta revolução industrial, modelos de produção baseados em controle e automação foram viabilizados por tecnologias eletroeletrônicas e dispositivos digitais, gerando mudanças profundas nas formações econômico-sociais do que Boutang (2011) propôs designar como capitalismo cognitivo. Nesse contexto, batizado como Era Digital (Floridi, 2014), profundas transformações sociais, políticas e culturais constituem a “sociedade da informação”,terreno fértil para dataficação da vida cotidiana na era do capitalismo de vigilância (Zuboff, 2019). Nesse âmbito, cabe destacar os recentes hypes do metaverso e da Inteligência Artificial (IA), cujo impacto na cibercultura, nos sistemas formativos e na educação superior foi objeto de recente artigo publicado em Outras Palavras (Mascarenhas & Burdman, 2025).

Num registro introdutório e ainda esquemático, proponho refletir sobre o papel da universidade nos diversos planos e dimensões da formação de sujeitos epistêmicos e de reprodução das utopias da modernidade e suas derivações, no contexto atual de globalização do capitalismo cognitivo. Na parte I desse artigo, inicialmente apresentei um pequeno glossário de termos derivados do conceito de utopia, como distopia, retrotopia, desutopia, heterotopia, focalizando sua utilidade para compreensão dos contextos e impactos do digital no mundo contemporâneo. Com base nessa fundamentação, buscando avaliar formas viáveis de superação do caráter utópico da educação superior, analisei na parte II o forma protopia como princípio gerador de projetos realistas e viáveis visando à concretização de mudanças contingentes e estratégicas de uma dada realidade social em geral e no interior de instituições sociais, como a universidade.

Nesta parte III, compartilho uma reflexão sobre pertinência e possibilidades de uma tecno-protopia como estratégia capaz de articular forças políticas e movimentos sociais em torno de um projeto de universidade pública de fato autônoma, comprometida com competência sociotécnica, soberania tecnológica, emancipação de sujeitos epistêmicos e sensibilidade eco-etno-social.

<><> O que fazer? Uma tecno-protopia?

O que fazer dessa universidade, que sofre tantas ameaças e agressões? O que fazer pela universidade, acuada na armadilha da distopia? Continuar na atopia da torre de marfim, alienada e omissa? Tomar a ideia de liberdade acadêmica como utópica e superada, frente ao neoliberalismo, como há tempos o fez Edward Shils (1993), tentando responder à questão: do we still need academic freedom?

Podemos começar mudando as perguntas: Como aproveitar o momento de crise para mudar a universidade? O quê fazer nessa universidade para transformá-la radical e profundamente? Na atual conjuntura, preocupante e problemática, mas rica em desafios (e, bem sabemos, em oportunidades – sim, sejamos esperançosos), a autonomia universitária serve para quê? Para justificar uma aliança do imobilismo institucional e do ranço acadêmico com o conservadorismo social?

Por todas as razões aqui apontadas, parece urgente recriar o conceito de autonomia universitária, não mais como utopia (pangermânica, depois britânica, logo ianque e finalmente euroglobalizada), nem como atopia (francófila, depois mediterrânea, logo lusitana e finalmente brasileira), mas como protopia. Mantendo-se atópica, conformada na inércia acadêmica, a universidade pública revelará reduzida capacidade de dar respostas às necessidades e demandas sociais da população, particularmente aqueles segmentos da sociedade que dela precisam para sua emancipação como sujeitos políticos, num contexto social e humano tão adverso. Se utópica, conformista em sua natureza meritocrática e elitista, alienada da sociedade real e distanciada dos vetores de mudança profunda da conjuntura contemporânea, com grandes dificuldades de conter os efeitos perversos de crises sociais, a universidade pública será incapaz de reagir à onda conservadora e totalitária que cada vez mais nos assombra e desafia.

Quando se omite ou se acautela na luta para transformar a sociedade que a abriga, sustenta e legitima, a universidade se escuda atrás de sua ilusória liberdade acadêmica e usa a suposta autonomia institucional como álibi para continuar como sempre foi, um órgão de Estado a serviço da reprodução social e política do status-quo. Resta-lhe a protopia, ou melhor, avançar para além da protopia.

A abertura da velha universidade atópica à inovação tecnológica politicamente situada se revela cada vez mais necessária e urgente, sobretudo numa instituição formadora que, ainda inadvertida, segue se debatendo contra a adoção de modelos  – a exemplo da chamada Educação à Distância (EAD), recentemente regulamentada numa esdrúxula classificação (presencial-semipresencial-“ausencial”) que ignora o valor da presença virtual – que sequer fazem mais qualquer sentido no estágio atual das tecnologias educacionais massivas, em-linha, imersivas, modulares, micropontuadas, interativas, autogeridas. Pelo menos para aproveitar a sigla EAD, junto com aqueles/as interessados na protopia, tenho sugerido avançar na construção do conceito de Educação Aberta Digital (Almeida-Filho, 2024), sem muita repercussão todavia.

Apesar de toda a incerteza política do momento atual em todo o mundo, é preciso levantar a questão crítica de como, em sociedades com forte herança do colonialismo e com a emergência de novas formas de colonialidade digital, a educação superior pode ser um elemento de emancipação e solidariedade, em vez de elitização e alienação. Penso que precisamos atualizar essa questão frente às heterotopias da era digital, relendo o conceito de protopia à luz das profundas e generalizadas transformações tecnológicas contemporâneas (Shermer, 2018), sobretudo com o advento da IA (Mascarenhas & Burdman, 2025), para avaliar sua viabilidade do ponto de vista lógico, semântico e praxiológico, como uma ‘tecno-protopia’. Proponho chamar de tecno-protopia toda e qualquer proposta de sonhar, imaginar e refletir fazendo, realizando, produzindo heterotopias, nas conjunturas mutantes e incertas do mundo dataficado, sempre atentos aos riscos e desafios do capitalismo cognitivo plataformizado.

<><> Diderot teria entendido…

Silvio Meira, um dos mais polêmicos ciber-intelectuais brasileiros, escreveu recentemente um artigo intitulado Diderot, IA e os novos reis: insurgência epistêmica no século 21 (2026) que considero um eloquente manifesto sobre os desafios da tecno-protopia na universidade contemporânea.  Seu argumento compreende uma metáfora histórica criativa e inusitada: toma a ação subversiva do iluminista Denis Diderot no século XVIII como modelo para enfrentamento dos desafios epistêmicos impostos pelas tecnologias de IA, no século XXI.

Diderot, coeditor da Encyclopédie junto com D’Alembert, não enfrentou a realeza francesa por meio de confrontos armados (Lilti, 2024), mas astuciosamente reorganizou a estrutura do saber dominante com o auxílio de seus colaboradores da Encyclopédie. O ambicioso projeto havia sido autorizado e apoiado pela corte real como um compêndio enciclopédico neutro. Não obstante, ao contradizer, confrontar e entranhar múltiplas perspectivas no próprio saber, de modo camuflado, funcionava como uma insurreição cognitiva, desestabilizando o sistema de autoridade e a ordem de discursos do Antigo Regime (Meira, 2026).

Transpondo essa estratégia revolucionária insidiosa para os nossos dias, Meira (2026) defende que a IA potencialmente representa uma nova forma de insurgência epistêmica, pois desafia os pilares tradicionais da autoridade do conhecimento. Historicamente, a produção, guarda e validação dos saberes socialmente legitimados estavam concentradas em instituições como universidades, que geriam sistemas autônomos de acreditação institucional. A IA subverte esse sistema de validação, oferecendo enfoques personalizados e acesso facilitado ao conhecimento a qualquer pessoa com uma conexão à internet. Isso representa um deslocamento profundo da forma como se aprende, se ensina e se valida o conhecimento.

Contudo, há um risco nesse novo contexto, adverte-nos Meira (2026): o imenso cabedal de conhecimentos e o marco de credibilidade epistêmica que historicamente pertenciam às instituições acadêmicas podem ser transferidos às plataformas dessas empresas tecnológicas. Ao licenciar soluções de IA sem questionamento crítico, as universidades podem estar cedendo sua função formativa e normativa em favor de corporações privadas, mitigando sua missão de promover pensamento crítico e autoridade intelectual autônoma.

Essa tecno-distopia gera o que Meira (2026) chama de “sequestro epistêmico”, em que estudantes, pesquisadores/as e docentes acabam por depender da fluidez algorítmica como substituto da compreensão profunda. Nesse cenário, a IA representa um novo “outro”, mais fluente, mais sedutor e aparentemente neutro, que dilui a agência cognitiva dos indivíduos e das instituições. Isso se agrava quando universidades terceirizam tarefas centrais de pedagogia e avaliação (Mascarenhas & Burdman, 2025), produzindo um ciclo auto reforçador de dependência em que a adoção de uma tecnologia cria um problema, a big-tech proprietária da tecnologia vende a solução e o lucro induzido só faz crescer (Meira, 2026, s.n).

Como estratégia política, à la Diderot, Meira (2026) propõe que a resposta da instituição universitária a esse sequestro não deve ser simplesmente rejeitar as tecnologias digitais, o que seria fútil, nem as adotar passivamente e submeter-se ao colonialismo digital. Em vez disso, por meio de ações criativas e complementares, o que pode implicar desenvolver modelos próprios de IA ou exigir transparência radical daqueles que controlam os modelos proprietários, as universidades devem exercer sua insurgência em quatro eixos: agência epistêmica; avaliação acadêmica; função pública e crítica; democratização radical. A conclusão de Silvio Meira (2026, s.n) é para mim antológica: “Diderot aprendeu que a verdadeira insurgência não era grito: era reorganização silenciosa da própria estrutura do conhecimento. Ele não derrotou os reis. Mas criou as condições para que outros, décadas depois, pudessem fazê-lo. […] Os reis de hoje não têm tronos. Têm data centers. E a luta por liberdade epistêmica, pelo direito à agência de pensar, questionar, errar, é talvez a mais urgente que enfrentamos e enfrentaremos. Diderot teria entendido perfeitamente.”

Alinhada a outros aportes críticos da cibercultura na universidade, essa linha de análise destaca os possíveis efeitos da inteligência artificial e tecnologias relacionadas sobre valores ético-políticos fundamentais à educação superior, como o ideal de autonomia acadêmica (Mascarenhas & Burdman, 2025). No entanto, como bem sabemos, o papel das tecnologias digitais na educação superior emancipadora é muito mais amplo, abrangendo conectividade, metapresencialidade, imersividade, interatividade e sensibilidade eco-etno-social – elementos essenciais para uma universidade pública que “requer educação de qualidade em larga escala, tutores humanos, comunidades de pesquisa e inovação” (Meira, 2026, s/n).

<><> Comentários finais

Pensei em delinear neste ensaio uma agenda desutópica, capaz de rejeitar o objetivismo utilitarista da maioria das propostas de transformação digital da universidade, trazendo uma proposta provocadora como elemento mobilizador. Essa provocação nos leva à protopia como alternativa, como esquema-vetor para começar a refletir sobre temas de grande complexidade como os que enfrentamos neste momento tão crítico, segue necessária e urgente.

Considero que a revisão histórica do iluminismo radical, a crítica aos riscos da colonialidade digital, as análises aprofundadas e, principalmente, o horizonte de ação prática descortinado por Meira oferecem fundamentos sólidos para uma tecno-protopia na universidade, crucial para aqueles que constroem sua história e para os sujeitos epistêmicos aos quais ela se destina.

O momento é de confrontar a distopia com utopias realistas, construindo saídas, experimentando práticas institucionais efetivamente transformadoras, evitando assumir uma atitude cautelosa, meramente contemplativa. Enquanto estivermos engajados nessa cuidadosa tessitura trans-formadora, com a necessária paciência histórica e o devido rigor acadêmico, cultivemos uma utopia esperançosa: uma tecno-protopia.

Certamente que resgatar a ideia de universidade numa protopia fundada no digital constitui imenso desafio, especialmente diante do negacionismo e obscurantismo do fascismo social e da mercantilização da educação superior. Proponho aqui fazê-lo mediante a construção coletiva de uma tecno-protopia capaz de superar a utopia-retrotopia-distopia-atopia na universidade, valorizando sobretudo os saberes e práticas heterotópicos da cultura digital emergente.

Inevitáveis (e esperadas) resistências e reações podem inviabilizar esforços para uma trans-formação profunda da universidade pública. Sabemos dos obstáculos que estratégias de avanço criativo enfrentarão, por serem alternativas não apenas ao projeto de destruição, mas também contrárias à inércia e paralisia política frente à permanente situação de crise, local e global.

Porém não há mais tempo, nem espaço para utopias escapistas, não temos álibis a recorrer nem torres de marfim a nos proteger, escondidos. O exercício da liberdade implica reais responsabilidades, por isso não podemos ignorar percalços, problemas e dilemas. É hora de resistir, tempo de repensar para reconstruir, para, quando a maré virar, agir… Diderot teria entendido perfeitamente.

Além de conceitualmente consistente, uma mobilização tecno-protópica será capaz de aglutinar, em um rico debate, saberes e práticas de um amplo leque de forças democráticas e populares que se apresentam, amadurecidas pelas experiências do passado recente, tornando-a politicamente viável e concretamente realizável. Com olhar atento e espírito crítico, poderemos enfrentar o desafio de construir biopolíticas do bem-comum que realmente reflitam valores e necessidades da diversidade humana, para que a protopia – e não a distopia, nem a desutopia – oriente nossa trajetória. Uma outra autonomia universitária será assim possível, necessária e urgente, imprescindível contribuição para nosso país alcançar plena e viável independência tecnológica e soberania política.

 

Fonte: Por Naomar Almeida-Filho, em Outras Palavras

 

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