Universidade:
Provocação para uma agenda desutópica
Em
sociedades marcadas pela colonialidade iluminista eurocêntrica, a milenar
instituição chamada Universidade tem cumprido uma missão histórica como
produtora de utopias alimentadoras da cosmovisão hegemônica. Ao analisar
modelos de instituição universitária estabelecidos no hemisfério Norte nos
séculos 19 e 20, o hermeneuta francês Paul Ricoeur (2005, p.324) afirma que a
Universidade provêm da utopia liberal humanista que “denega, por vezes até
ingenuamente, as verdadeiras fontes do poder que são a propriedade, o dinheiro,
a violência, todas as forças que não são as da inteligência”. Para Ricoeur
(2005, p.324), o cerne dessa forma utópica “estava presente no Iluminismo
francês (talvez de um modo mais político e mais imediato), assim como no
Iluminismo alemão (mais como teoria da cultura)”. A utopia universitária, no
primeiro caso, encontra-se na alegoria das Luzes (Lumières), no segundo caso,
na ideia de formação geral (Bildung).
Não
obstante celebrações e autoemulações, o modelo de universidade atribuído a
Humboldt, baseado na Bildung, representava uma utopia de autonomia e liberdade
acadêmica nunca realizada na prática. Apesar de ameaças, crises e retrocessos,
esse modelo institucional e político-pedagógico resiste em todo o mundo, de
modo residual e anacrônico, como elemento gerador de tensões internas na
educação superior, mesmo na universidade brasileira contemporânea (Chauí,
2001). No Brasil, o ensino superior se estruturou inspirado no iluminismo
francês das Lumières, modelado pela organização curricular em cátedras e
disciplinas e pela fragmentação institucional em faculdades, priorizando a
qualificação profissional restrita em lugar de uma formação geral na cultura
(Almeida-Filho, 2025).
Nas
últimas décadas do século passado, a aplicação ampla do conhecimento científico
na produção industrial, sob a forma de técnicas e saberes tecnológicos, com o
avanço do capitalismo neoliberal em escala globalizada (Kotz, 2015). Como
efeito dessa suposta quarta revolução industrial, modelos de produção baseados
em controle e automação foram viabilizados por tecnologias eletroeletrônicas e
dispositivos digitais, gerando mudanças profundas nas formações
econômico-sociais do que Boutang (2011) propôs designar como capitalismo
cognitivo. Nesse contexto, batizado como Era Digital (Floridi, 2014), profundas
transformações sociais, políticas e culturais constituem a “sociedade da
informação”,terreno fértil para dataficação da vida cotidiana na era do
capitalismo de vigilância (Zuboff, 2019). Nesse âmbito, cabe destacar os
recentes hypes do metaverso e da Inteligência Artificial (IA), cujo impacto na
cibercultura, nos sistemas formativos e na educação superior foi objeto de
recente artigo publicado em Outras Palavras (Mascarenhas & Burdman, 2025).
Num
registro introdutório e ainda esquemático, proponho refletir sobre o papel da
universidade nos diversos planos e dimensões da formação de sujeitos
epistêmicos e de reprodução das utopias da modernidade e suas derivações, no
contexto atual de globalização do capitalismo cognitivo. Na parte I desse
artigo, inicialmente apresentei um pequeno glossário de termos derivados do
conceito de utopia, como distopia, retrotopia, desutopia, heterotopia,
focalizando sua utilidade para compreensão dos contextos e impactos do digital
no mundo contemporâneo. Com base nessa fundamentação, buscando avaliar formas
viáveis de superação do caráter utópico da educação superior, analisei na parte
II o forma protopia como princípio gerador de projetos realistas e viáveis
visando à concretização de mudanças contingentes e estratégicas de uma dada
realidade social em geral e no interior de instituições sociais, como a
universidade.
Nesta
parte III, compartilho uma reflexão sobre pertinência e possibilidades de uma
tecno-protopia como estratégia capaz de articular forças políticas e movimentos
sociais em torno de um projeto de universidade pública de fato autônoma,
comprometida com competência sociotécnica, soberania tecnológica, emancipação
de sujeitos epistêmicos e sensibilidade eco-etno-social.
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O que fazer? Uma tecno-protopia?
O que
fazer dessa universidade, que sofre tantas ameaças e agressões? O que fazer
pela universidade, acuada na armadilha da distopia? Continuar na atopia da
torre de marfim, alienada e omissa? Tomar a ideia de liberdade acadêmica como
utópica e superada, frente ao neoliberalismo, como há tempos o fez Edward Shils
(1993), tentando responder à questão: do we still need academic freedom?
Podemos
começar mudando as perguntas: Como aproveitar o momento de crise para mudar a
universidade? O quê fazer nessa universidade para transformá-la radical e
profundamente? Na atual conjuntura, preocupante e problemática, mas rica em
desafios (e, bem sabemos, em oportunidades – sim, sejamos esperançosos), a
autonomia universitária serve para quê? Para justificar uma aliança do
imobilismo institucional e do ranço acadêmico com o conservadorismo social?
Por
todas as razões aqui apontadas, parece urgente recriar o conceito de autonomia
universitária, não mais como utopia (pangermânica, depois britânica, logo
ianque e finalmente euroglobalizada), nem como atopia (francófila, depois
mediterrânea, logo lusitana e finalmente brasileira), mas como protopia.
Mantendo-se atópica, conformada na inércia acadêmica, a universidade pública
revelará reduzida capacidade de dar respostas às necessidades e demandas
sociais da população, particularmente aqueles segmentos da sociedade que dela
precisam para sua emancipação como sujeitos políticos, num contexto social e
humano tão adverso. Se utópica, conformista em sua natureza meritocrática e
elitista, alienada da sociedade real e distanciada dos vetores de mudança
profunda da conjuntura contemporânea, com grandes dificuldades de conter os
efeitos perversos de crises sociais, a universidade pública será incapaz de
reagir à onda conservadora e totalitária que cada vez mais nos assombra e
desafia.
Quando
se omite ou se acautela na luta para transformar a sociedade que a abriga,
sustenta e legitima, a universidade se escuda atrás de sua ilusória liberdade
acadêmica e usa a suposta autonomia institucional como álibi para continuar
como sempre foi, um órgão de Estado a serviço da reprodução social e política
do status-quo. Resta-lhe a protopia, ou melhor, avançar para além da protopia.
A
abertura da velha universidade atópica à inovação tecnológica politicamente
situada se revela cada vez mais necessária e urgente, sobretudo numa
instituição formadora que, ainda inadvertida, segue se debatendo contra a
adoção de modelos – a exemplo da chamada
Educação à Distância (EAD), recentemente regulamentada numa esdrúxula
classificação (presencial-semipresencial-“ausencial”) que ignora o valor da
presença virtual – que sequer fazem mais qualquer sentido no estágio atual das
tecnologias educacionais massivas, em-linha, imersivas, modulares,
micropontuadas, interativas, autogeridas. Pelo menos para aproveitar a sigla
EAD, junto com aqueles/as interessados na protopia, tenho sugerido avançar na
construção do conceito de Educação Aberta Digital (Almeida-Filho, 2024), sem
muita repercussão todavia.
Apesar
de toda a incerteza política do momento atual em todo o mundo, é preciso
levantar a questão crítica de como, em sociedades com forte herança do
colonialismo e com a emergência de novas formas de colonialidade digital, a
educação superior pode ser um elemento de emancipação e solidariedade, em vez
de elitização e alienação. Penso que precisamos atualizar essa questão frente
às heterotopias da era digital, relendo o conceito de protopia à luz das
profundas e generalizadas transformações tecnológicas contemporâneas (Shermer,
2018), sobretudo com o advento da IA (Mascarenhas & Burdman, 2025), para
avaliar sua viabilidade do ponto de vista lógico, semântico e praxiológico,
como uma ‘tecno-protopia’. Proponho chamar de tecno-protopia toda e qualquer proposta
de sonhar, imaginar e refletir fazendo, realizando, produzindo heterotopias,
nas conjunturas mutantes e incertas do mundo dataficado, sempre atentos aos
riscos e desafios do capitalismo cognitivo plataformizado.
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Diderot teria entendido…
Silvio
Meira, um dos mais polêmicos ciber-intelectuais brasileiros, escreveu
recentemente um artigo intitulado Diderot, IA e os novos reis: insurgência
epistêmica no século 21 (2026) que considero um eloquente manifesto sobre os
desafios da tecno-protopia na universidade contemporânea. Seu argumento compreende uma metáfora
histórica criativa e inusitada: toma a ação subversiva do iluminista Denis
Diderot no século XVIII como modelo para enfrentamento dos desafios epistêmicos
impostos pelas tecnologias de IA, no século XXI.
Diderot,
coeditor da Encyclopédie junto com D’Alembert, não enfrentou a realeza francesa
por meio de confrontos armados (Lilti, 2024), mas astuciosamente reorganizou a
estrutura do saber dominante com o auxílio de seus colaboradores da
Encyclopédie. O ambicioso projeto havia sido autorizado e apoiado pela corte
real como um compêndio enciclopédico neutro. Não obstante, ao contradizer,
confrontar e entranhar múltiplas perspectivas no próprio saber, de modo
camuflado, funcionava como uma insurreição cognitiva, desestabilizando o
sistema de autoridade e a ordem de discursos do Antigo Regime (Meira, 2026).
Transpondo
essa estratégia revolucionária insidiosa para os nossos dias, Meira (2026)
defende que a IA potencialmente representa uma nova forma de insurgência
epistêmica, pois desafia os pilares tradicionais da autoridade do conhecimento.
Historicamente, a produção, guarda e validação dos saberes socialmente
legitimados estavam concentradas em instituições como universidades, que geriam
sistemas autônomos de acreditação institucional. A IA subverte esse sistema de
validação, oferecendo enfoques personalizados e acesso facilitado ao
conhecimento a qualquer pessoa com uma conexão à internet. Isso representa um
deslocamento profundo da forma como se aprende, se ensina e se valida o
conhecimento.
Contudo,
há um risco nesse novo contexto, adverte-nos Meira (2026): o imenso cabedal de
conhecimentos e o marco de credibilidade epistêmica que historicamente
pertenciam às instituições acadêmicas podem ser transferidos às plataformas
dessas empresas tecnológicas. Ao licenciar soluções de IA sem questionamento
crítico, as universidades podem estar cedendo sua função formativa e normativa
em favor de corporações privadas, mitigando sua missão de promover pensamento
crítico e autoridade intelectual autônoma.
Essa
tecno-distopia gera o que Meira (2026) chama de “sequestro epistêmico”, em que
estudantes, pesquisadores/as e docentes acabam por depender da fluidez
algorítmica como substituto da compreensão profunda. Nesse cenário, a IA
representa um novo “outro”, mais fluente, mais sedutor e aparentemente neutro,
que dilui a agência cognitiva dos indivíduos e das instituições. Isso se agrava
quando universidades terceirizam tarefas centrais de pedagogia e avaliação
(Mascarenhas & Burdman, 2025), produzindo um ciclo auto reforçador de
dependência em que a adoção de uma tecnologia cria um problema, a big-tech
proprietária da tecnologia vende a solução e o lucro induzido só faz crescer
(Meira, 2026, s.n).
Como
estratégia política, à la Diderot, Meira (2026) propõe que a resposta da
instituição universitária a esse sequestro não deve ser simplesmente rejeitar
as tecnologias digitais, o que seria fútil, nem as adotar passivamente e
submeter-se ao colonialismo digital. Em vez disso, por meio de ações criativas
e complementares, o que pode implicar desenvolver modelos próprios de IA ou
exigir transparência radical daqueles que controlam os modelos proprietários,
as universidades devem exercer sua insurgência em quatro eixos: agência
epistêmica; avaliação acadêmica; função pública e crítica; democratização
radical. A conclusão de Silvio Meira (2026, s.n) é para mim antológica:
“Diderot aprendeu que a verdadeira insurgência não era grito: era reorganização
silenciosa da própria estrutura do conhecimento. Ele não derrotou os reis. Mas
criou as condições para que outros, décadas depois, pudessem fazê-lo. […] Os
reis de hoje não têm tronos. Têm data centers. E a luta por liberdade
epistêmica, pelo direito à agência de pensar, questionar, errar, é talvez a
mais urgente que enfrentamos e enfrentaremos. Diderot teria entendido
perfeitamente.”
Alinhada
a outros aportes críticos da cibercultura na universidade, essa linha de
análise destaca os possíveis efeitos da inteligência artificial e tecnologias
relacionadas sobre valores ético-políticos fundamentais à educação superior,
como o ideal de autonomia acadêmica (Mascarenhas & Burdman, 2025). No
entanto, como bem sabemos, o papel das tecnologias digitais na educação
superior emancipadora é muito mais amplo, abrangendo conectividade,
metapresencialidade, imersividade, interatividade e sensibilidade
eco-etno-social – elementos essenciais para uma universidade pública que
“requer educação de qualidade em larga escala, tutores humanos, comunidades de
pesquisa e inovação” (Meira, 2026, s/n).
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Comentários finais
Pensei
em delinear neste ensaio uma agenda desutópica, capaz de rejeitar o objetivismo
utilitarista da maioria das propostas de transformação digital da universidade,
trazendo uma proposta provocadora como elemento mobilizador. Essa provocação
nos leva à protopia como alternativa, como esquema-vetor para começar a
refletir sobre temas de grande complexidade como os que enfrentamos neste
momento tão crítico, segue necessária e urgente.
Considero
que a revisão histórica do iluminismo radical, a crítica aos riscos da
colonialidade digital, as análises aprofundadas e, principalmente, o horizonte
de ação prática descortinado por Meira oferecem fundamentos sólidos para uma
tecno-protopia na universidade, crucial para aqueles que constroem sua história
e para os sujeitos epistêmicos aos quais ela se destina.
O
momento é de confrontar a distopia com utopias realistas, construindo saídas,
experimentando práticas institucionais efetivamente transformadoras, evitando
assumir uma atitude cautelosa, meramente contemplativa. Enquanto estivermos
engajados nessa cuidadosa tessitura trans-formadora, com a necessária paciência
histórica e o devido rigor acadêmico, cultivemos uma utopia esperançosa: uma
tecno-protopia.
Certamente
que resgatar a ideia de universidade numa protopia fundada no digital constitui
imenso desafio, especialmente diante do negacionismo e obscurantismo do
fascismo social e da mercantilização da educação superior. Proponho aqui
fazê-lo mediante a construção coletiva de uma tecno-protopia capaz de superar a
utopia-retrotopia-distopia-atopia na universidade, valorizando sobretudo os
saberes e práticas heterotópicos da cultura digital emergente.
Inevitáveis
(e esperadas) resistências e reações podem inviabilizar esforços para uma
trans-formação profunda da universidade pública. Sabemos dos obstáculos que
estratégias de avanço criativo enfrentarão, por serem alternativas não apenas
ao projeto de destruição, mas também contrárias à inércia e paralisia política
frente à permanente situação de crise, local e global.
Porém
não há mais tempo, nem espaço para utopias escapistas, não temos álibis a
recorrer nem torres de marfim a nos proteger, escondidos. O exercício da
liberdade implica reais responsabilidades, por isso não podemos ignorar
percalços, problemas e dilemas. É hora de resistir, tempo de repensar para
reconstruir, para, quando a maré virar, agir… Diderot teria entendido
perfeitamente.
Além de
conceitualmente consistente, uma mobilização tecno-protópica será capaz de
aglutinar, em um rico debate, saberes e práticas de um amplo leque de forças
democráticas e populares que se apresentam, amadurecidas pelas experiências do
passado recente, tornando-a politicamente viável e concretamente realizável.
Com olhar atento e espírito crítico, poderemos enfrentar o desafio de construir
biopolíticas do bem-comum que realmente reflitam valores e necessidades da
diversidade humana, para que a protopia – e não a distopia, nem a desutopia –
oriente nossa trajetória. Uma outra autonomia universitária será assim
possível, necessária e urgente, imprescindível contribuição para nosso país
alcançar plena e viável independência tecnológica e soberania política.
Fonte:
Por Naomar Almeida-Filho, em Outras Palavras

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