Uso
de fungicidas agrícolas compromete tratamentos contra infecções graves em
humanos
O fungo
Aspergillus fumigatus, causador de uma doença chamada aspergilose invasiva,
está evoluindo resistência aos poucos medicamentos capazes de detê-lo. Há
apenas quatro classes de medicamentos antifúngicos no mercado, um número
insuficiente diante da dimensão do problema — e a evolução de uma blindagem
contra esse pequeno leque de terapias pode ter consequências graves para a
saúde pública mundial nos próximos anos.
A
preocupação com o tema motivou o Documento de Botucatu, uma moção pública de
alerta aprovada em dezembro de 2025 durante um encontro entre 51 especialistas,
21 deles estrangeiros, na Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, em
Botucatu (SP). Um dos líderes dessa iniciativa é o engenheiro agrônomo Paulo
Ceresini, especialista em fitopatologia da Faculdade de Engenharia de Ilha
Solteira (SP).
O texto
reúne recomendações para enfrentar a resistência antifúngica no Brasil e no
mundo a partir de um conceito conhecido como One Health (“Uma Só Saúde”), que
considera o bem-estar humano como inseparável da preservação ambiental e da
qualidade de vida das demais espécies que compartilham a biosfera conosco.
O
artigo científico que embasa o Documento de Botucatu, assinado por Ceresini
como primeiro autor e recém-publicado no periódico especializado One Health,
explica que o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de fungicidas
agrícolas, especialmente da classe dos triazóis. Esses compostos foram
amplamente utilizados nas lavouras nas últimas três décadas e também constituem
a base do tratamento médico contra infecções fúngicas graves.
A
exposição constante deste fungo aos triazóis funciona como uma pressão seletiva
darwiniana, que elimina os indivíduos suscetíveis ao fungicida. Apenas as
linhagens que já nascem naturalmente resistentes a esses compostos, por causa
de mutações fortuitas no genoma, são capazes de sobreviver e se reproduzir.
Esse gargalo tem justamente o efeito de selecionar e ampliar a população dessas
linhagens blindadas a medicamentos antes eficazes.
Fora do
ambiente agrícola, o Aspergillus fumigatus aparece em escala macroscópica como
uma mancha verde-acinzentada de textura aveludada, que se adapta bem a
ambientes secos de maneira incomum para os fungos — o que explica sua
capacidade de se instalar em lugares inóspitos como dutos de ar-condicionado.
Seus esporos, pequenos e ressequidos, são facilmente aerossolizados, o que o
torna um contaminante comum em ambientes fechados de escritórios, por exemplo.
Na natureza, porém, ele pode ser encontrado em habitats mais usuais, como
matéria orgânica em decomposição.
Em
geral, o A. fumigatus é inofensivo. Todos nós inalamos alguns esporos
diariamente e os eliminamos sem maiores problemas. Mas em pacientes
imunossuprimidos ou com outras comorbidades — como recém-transplantados,
pessoas com leucemia e pacientes de covid-19 — a aspergilose pode ser grave e,
frequentemente, fatal. Calcula-se que a espécie cause 600 mil mortes todos os
anos no mundo; número que tende a piorar se pessoas saudáveis começarem a
sucumbir às variantes resistentes.
Segundo
dados apresentados durante o encontro, a aspergilose ganhou força no Brasil nos
últimos anos — foram cerca de 200 vítimas fatais em 2022 versus 800 em 2024 —,
o que acompanha uma tendência observada internacionalmente. O uso de triazóis
na agricultura brasileira também subiu de 20 mil toneladas anuais para 160 mil
toneladas desde a introdução dessa classe de fungicidas no começo dos anos
2000. “A correlação não prova causalidade, obviamente, mas ela é um sinal de
alerta importante”, resume Ceresini.
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Documento propõe políticas públicas para lidar com o problema
O texto
aprovado no encontro traz um consenso científico inédito em torno do tema. Ele
recomenda que os dados sobre resistência antifúngica sejam coletados de forma
auditável e divulgados com acesso aberto à sociedade, e que se crie um sistema
nacional de monitoramento para acompanhar a presença de fungos resistentes no
ar e no solo. “Não existe um sistema assim nem no Brasil nem fora, o documento
é um marco”, diz Ceresini.
Além
disso, o documento propõe que as agências reguladores exijam avaliações de
risco mais rigorosas antes de aprovar produtos agrícolas capazes de estimular
resistência a medicamentos humanos; que se amplie a capacidade dos hospitais de
detectar infecções fúngicas e sua resistência e que se realize campanhas
educativas voltadas a agricultores, profissionais de saúde, estudantes e ao
público em geral.
Os
Ministérios da Saúde, do Meio Ambiente e da Agricultura e Pecuária estão
preparando a nova edição de seu Plano Nacional de Enfrentamento da Resistência
Antimicrobiana (PANBR), que deverá orientar políticas públicas sobre o tema ao
longo do próximo quinquênio. Os especialistas que se encontraram em Botucatu
defendem que a resistência antifúngica, historicamente negligenciada, passe a
ser abordada com clareza nesta próxima edição do documento.
O
Documento de Botucatu é publicado no âmbito do Failsafe, uma parceria
internacional para enfrentar a resistência a antifúngicos financiada pela
principal agência de fomento à pesquisa do governo britânico, a UK Research and
Innovation (UKRI). Um dos objetivos da iniciativa é capacitar pesquisadores em
países de baixa e média renda para lidar com o tema.
O
Conselho de Pesquisa Médica do UKRI escolheu Ceresini para encabeçar a perna
brasileira do projeto justamente por sua experiência como engenheiro agrônomo e
fitopatologista, que o qualifica para liderar os esforços de coleta e análise
de material em campo e fazer um mapa da ocorrência de linhagens resistentes no
estado de São Paulo. O projeto foi aprovado em 3 meses e forneceu verba de £
250 mil, com que foi possível contratar três pós-doutorandos, dois doutorandos,
dois mestrandos e uma aluna de iniciação científica para trabalhar sob a batuta
do docente de Ilha Solteira. A equipe contou com a participação ativa de
docentes da Unesp nos câmpus de Dracena (Ana Firmino e Paulo Lopes), de Ilha
Solteira (Karine Costa e Rita Peruquetti), de Jaboticabal (Everlon Rigobelo e
Fábio Mingotte), de Botucatu (Edson Furtado), e da UFSCar – câmpus Lagoa do
Sinoi (Waldir Cintra e Danilo Stipp), além de parcerias agrícolas relevantes
para a amostragem no estado de São Paulo.
Essa
equipe passou um ano fazendo coletas em diversas partes do estado de São Paulo
— porém, o Jornal da Unesp não teve acesso aos resultados, que ainda não foram
publicados em um paper. “Estamos em uma fase de geração final de dados, de
sequenciamento do DNA das linhagens desse fungo, que dura até fevereiro”,
explica Ceresini. O trabalho ocorreu em correspondência com pesquisadores das
Universidades de Manchester e da Geórgia, que fizeram coletas parecidas no
Reino Unido e nos EUA.
“Dediquei
os últimos vinte anos ao estudo da resistência a antifúngicos na agricultura,
nunca me voltei a patógenos humanos”, conta Ceresini. “Porém, era essa
intersecção que os parceiros buscavam: alguém com conhecimento agronômico para
fazer a amostragem no campo e determinar o que está acontecendo.”
O
protagonismo inesperado de um agrônomo em uma pesquisa de saúde pública é, por
si só, uma demonstração da força da abordagem One Health. Para lidar com
desafios do futuro — que incluem também a resistência de bactérias a
antibióticos e a provável piora de doenças transmitidas por mosquitos — as
pesquisas na área da saúde pública precisarão enxergar o ser humano cada vez
mais como um ator em uma complexa rede de interações com outros seres vivos e
com o clima terrestre. Não temos escolha: estamos na Terra juntos, e é
impossível conviver bem com nossa vizinhança biológica sem compreendê-la.
Fonte:
Por Bruno Vaiano – Jornal da Unesp

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