Conheça
a história sombria do sinistro coronel Ustra, torturador e ídolo do clã
Bolsonaro
Ao
declarar o seu voto no processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff,
o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) fez uma homenagem à memória do coronel
Carlos Alberto Brilhante Ustra chamando-o de “o pavor de Dilma Rousseff”, por
ter comandado as sessões de tortura contra a ex-presidenta, que foi presa
durante a ditadura militar.
A fala
não foi de improviso, Bolsonaro leu o nome do militar em um pedaço de papel
amarrotado. Foi um ato sádico, planejado, covarde e cruel, assim como eram as
sessões de torturas em centenas de pessoas que aconteceram em São Paulo, no
Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna
(Doi-Codi), sob o comando do coronel Ustra na ditadura militar, período em que
foram contabilizadas 434 mortes e
desaparecimentos no país, segundo a Comissão Nacional da Verdade.
Em
2013, quando foi depor na Comissão Nacional da Verdade, décadas após o fim da
ditadura, Ustra mostrou novamente a faceta dissimulada e mentirosa ao afirmar
que não houve mortes dentro das instalações que comandava.
“[O
Doi-Codi] foi um organismo de repressão política construído pela ditadura que
misturava agentes da polícia civil, da polícia militar e do Exército com uma
certa informalidade e agilidade necessária para que eles pudessem agir com a
intensidade e brutalidade que agiram. O principal instrumento utilizado foi a
tortura das pessoas que eram presas suspeitas,
envolvidas com a luta armada ou que tinham algum contato com elas. E são
muitos os relatos que envolvem o nome do comandante Ustra na condução dessas torturas”,
explica José Carlos Moreira da Silva, professor de Direito da PUC-RS.
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Crueldade
Sob o
comando de Ustra, o terror da tortura não poupou nem crianças.
“Neste
caso da família Teles, que é um caso terrível porque os pais do Edson Teles e
da Janaina Teles, na época o Edson tinha 4 anos de idade e a Janaina 9, eles
foram torturados brutalmente e os filhos foram levados até as dependências do
Doi-Codi e viram as pessoas torturadas e seus pais machucados. Num primeiro
momento não os reconheceram. Eles ficaram ali durante um tempo sem a presença
de nenhum parente e nenhuma pessoa conhecida sendo utilizados como moeda de
troca para que os pais, a Amelinha Teles e o César Teles, pudessem falar o que
eles [torturadores] queriam ouvir”, disse o professor e membro da ABJD
(Associação Brasileira de Juristas pela Democracia).
O caso
da tortura da família Teles, em 2008, deu origem à primeira condenação que
confirmou como torturador o chefe do Doi-Codi e herói do Bolsonaro. O Brasil é
signatário de acordos internacionais que condenam a prática da tortura desde o
final da Segunda Guerra Mundial, com a assinatura da Convenção de Genebra. Por
isso, as atrocidades comandadas por Ustra e exaltadas por Bolsonaro também eram
ilegais, independentemente de quem eram ou o do que fizeram os torturados.
Membro
da Comissão da Anistia por mais de dez anos, julgando casos de perseguidos
políticos e pessoas que foram presas na ditadura militar, o jurista Prudente
Mello tomou conhecimento de centenas de processos que apontavam o coronel Ustra
como um dos principais agentes da tortura na ditadura militar.
"Era
muito comum ouvir das pessoas que passavam por lá [comissão da anistia], que
foram torturados, reportando sobre o coronel Brilhante Ustra e as práticas de
tortura que ele foi responsável. Os relatos ao longo dos processos de pessoas
torturadas dão conta disso. Realmente não tem como esconder ou tentar
invisibilizar este personagem que foi um personagem triste na história do
Brasil. Nós temos que aprender com os erros que foram praticados e cometidos
até mesmo para que eles não voltem a se repetir”, disse.
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Quem foi o coronel Ustra, herói de Bolsonaro?
Segundo
Bolsonaro, Brilhante Ustra é um “herói nacional”.
Mas
quem foi Ustra? Simplesmente uma das pessoas responsáveis pela prática de
torturas, perseguições, sequestros e assassinatos durante a ditadura militar
(1964-1985).
Carlos
Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), também conhecido como Dr. Tibiriçá, foi um
coronel do Exército Brasileiro, ex-chefe do DOI-CODI (Destacamento de Operações
de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna) em São Paulo, um dos
órgãos encarregados da repressão a grupos de oposição a ditadura militar,
especialmente “terroristas e esquerdopatas” (no qual me enquadraria na época).
Em
2008, Ustra tornou-se o primeiro militar condenado pela Justiça Brasileira pela
prática de tortura durante a ditadura militar.
Dos
mais de 20 mil brasileiros torturados durante o período ditatorial, pelo menos
500 pessoas foram mortas dentro do DOI-CODI em São Paulo no período em que foi
comandado por Ustra.
Sob o
comando de Ustra, a tortura não poupava nem as crianças. Ustra torturava mães e
as exibia para seus filhos.
Na
época era considerado o “senhor da vida e da morte” e “escolhia quem ia viver e
ia morrer”, de acordo com o ex-sargento do Exército Marival Fernantes, que
trabalhou por quatro meses sob o comando de Ustra na época.
Entre
os instrumentos de tortura, preferenciais utilizados por Ustra, está a “cadeira
do dragão”, o “pau de arara” e a “geladeira”.
A
Cadeira do Dragão, conhecida também por “pimentinha”, era uma espécie de
cadeira elétrica, onde os presos sentavam pelados numa cadeira revestida de
zinco ligada a terminais elétricos. Quando o aparelho era ligado na
eletricidade, o zinco transmitia choques a todo o corpo. Muitas vezes, os
torturadores enfiavam na cabeça da vítima um balde de metal, onde também eram
aplicados choques.
Outro
método de tortura muito utilizado era o Pau de Arara, que consistia numa barra
de ferro que era atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho,
sendo o conjunto colocado entre duas mesas, ficando o corpo do torturado
pendurado a cerca de 20 ou 30 centímetros do solo. Esse método nunca era
utilizado isoladamente, seus complementos normais eram eletrochoques, a
palmatória e o afogamento.
Assim,
utilizando-se de uma barra, atravessa-se por entre as dobras dos joelhos, por
entre seus braços, amarre os seus punhos e leve-os para frente dos joelhos.
Pronto, agora você está preso em um legítimo Pau de Arara.
Já na
Geladeira, os torturados ficavam pelados numa cela baixa e pequena, que os
impedia de ficar de pé. Depois, os torturadores alternavam um sistema de
refrigeração superfrio e um sistema de aquecimento que produzia calor
insuportável, enquanto alto-falantes emitiam sons irritantes. Os presos ficavam
na “geladeira” por vários dias, sem água ou comida.
Além
dos métodos elencados acima, são citadas técnicas como queimar com cigarros
alguma região do corpo; arrancar com alicate pelos, dentes ou unhas; deixar o
torturado com sede; amarrar fio de náilon entre os testículos e os dedos dos
pés e obrigar a vítima a caminhar; palmatória; afogamento e o espancamento.
Era
comum também a violência sexual, o estupro era mais uma das armas utilizadas
para torturar as mulheres consideradas “inimigas do estado“.
Amelinha,
uma das torturadas na época, relatou que: “Eu estava sentada em uma cadeira do
dragão, nua, amarrada, levando choque no corpo inteiro, ânus, vagina. Enquanto
isso, o Gaeta, que era um torturador, estava se masturbando e jogando esperma
em cima de mim” […] “A hora que eu caio no chão, ele me põe em uma cama de lona
que tinha ali do lado e começa a esfregar meus seios, apertar minha bunda. Isso
é uma violência. E assim foram várias vezes, com vários outros torturadores.
Mas existem os casos de ter penetração vaginal que as mulheres contam. E são
muitos casos, não um ou dois”, completa.
Através
desses e outros métodos de tortura, muitas das vítimas (se não foram mortas)
ficaram mutiladas, cegas, surdas, estéreis, com danos cerebrais ou paralisias,
entre outras, além de sequelas psíquicas, como paranoia e depressão, que
levaram alguns torturados a cometer suicídio.
Sem
embargo, além de defender seu herói Ustra, Bolsonaro sempre defendeu a tortura.
Um
exemplo recente disso se deu com a publicação do decreto nº 9.831/2019, onde
Bolsonaro exonerou todos os peritos do Mecanismo Nacional de Prevenção e
Combate à Tortura (MNPCT), órgão responsável por investigar violações de
direitos humanos em locais como penitenciárias, hospitais psiquiátricos,
abrigos de idosos, entre outros. E além de exonerar os peritos, cortou recursos
(administrativos e financeiros) de mecanismo de combate à tortura.
A ideia
é legitimar (ou ocultar) a tortura cometida pelo Estado (e seus agentes).
Mas o
que podemos esperar de um autocrata autoritário?
…
estocar alimentos? fugir para os montes? se preparar para a grande tribulação?
subir num pé de goiaba?
É o
começo do fim de … “como as democracias morrem”. Alias, esse é o título de um
ótimo livro para você ler (esquerdopata ou não), enquanto caminhamos rumo a uma
nova ditadura.
Fonte:
Brasil de Fato/Jusbrasil

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